terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Por que, raios, Lula quer conciliar novamente?

Desnecessário dizer que Lula é um animal político raro, raríssimo aliás...Tanto pela sua origem de classe, quanto pela sua biografia propriamente dita...

Seus feitos não são pequenos...

Assim como a carga de ódio que suportou desde que se tornou uma das principais referências progressistas da América Latina e do resto do mundo de todos os tempos...

E o que faz esse homem perseverar na sua inabalável crença de que pode alterar a estrutura desigual desse país, utilizando como instrumento a conciliação de classes?

Há várias explicações, e nenhuma delas é excludente, que passam pela já mencionada origem, sua militância sindical, seu lugar no imaginário popular, a construção de um partido como o PT, as condições históricas sempre adversas, enfim, sua resiliência seria, enfim, um ato instintivo de sobrevivência, que o dota de inteligência acima da média para manipular as variáveis políticas ao seu redor (e vice-versa)...

Todos os grandes mitos populares internacionais parecem carregar essas características...

Claro que esses mitos não são iguais e nem têm trajetórias iguais...

Há os que esbarram em tetos simbólicos e contingências históricas específicas...Temos os casos mais dramáticos, como Vargas e Lincoln, Kennedy, Hitler e etc...

Por outro lado há outros que entraram para História sem interrupção drástica de suas trajetórias, como Churchill, De Gaulle e Stálin...

Outros ficaram menores e não completaram aquilo que imaginavam ser a sua missão, e o exemplo mais claro e próximo que temos é o do ex-governador garotinho...hoje preso e amarrado pela sua própria língua...

Todos os que alcançaram o cargo máximo em suas nações invariavelmente acreditaram e conduziram a política como se estivessem alheios a ela, ou seja, não se reconheceram como parte do conflito, mas sim como uma entidade acima das classes e da própria nação que lideravam...

Dentre eles, como já dissemos, alguns tombaram, vítimas não de um percepção de que eram imortais (e a realidade provou que não eram), mas ao contrário, pereceram tendo como premissa que seu martírio fosse um elemento constitutivo do personagem público...

Essa compreensão tem sua maior manifestação na Carta Testamento de Vargas ("saio da vida para entrar na História")...

Lula não dá sinais de ser um suicida...não queima pontes e nem se dirige a pontos de não retorno...

Só isso explicaria sua resiliência...

A base do seu personagem (ethos público) não é a crença da sua infalibilidade, ou no martírio fatal...Lula crê na infalibilidade da política e do consenso como formas de superação de conflitos...

O problema é que a política e o consenso não são feitos de forma unilateral, e talvez aqui se revele o traço autoritário do personagem: impor um consenso mesmo quando as partes querem o conflito, ou melhor, necessitem dele...


Lula acredita piamente na narrativa de que somos pacíficos e inclinados a celebração de nossas (auto) proclamadas virtudes...É a classe média baixa em pessoa...e em dimensões globais...

É com essa bagagem que Lula já enxergou que o bolsopata que tenta rivalizar com ele não tem as chances de seu correlato estadunidense, simplesmente porque nosso povo não é capaz de levar seu conservadorismo à luz do dia...

Aqui somos violentos, sexistas, racistas no recôndito de lares e ambientes de trabalho...

Esse é o teto onde está estagnado o bolsopata...

Lula sabe disso e imagina que pode manter nosso conservadorismo hipócrita confinado nesses ambientes fechados, ainda que as repercussões dele sejam tragicamente públicas, como os números trazidos hoje pela latrina editorial (o globo), dando conta de que morreram em dez anos nesse país, de forma violenta e dolosa, um contingente de pessoas que equivale a uma vez e meia a população de Lisboa...

É claro que Lula sinceramente imagina que seja muito mais importante "fazer algo" pelos mais pobres, a manter esse colóquio intelectualizado sobre si e o ambiente histórico que o cerca...aliás, esse é outro traço de animais políticos de sua espécie...

Mas afinal, quantas pessoas mais serão sacrificadas para evitar o sacrifício decorrente de um conflito necessário para fazer esse país se olhar, de verdade, no espelho...?

13 comentários:

Anônimo disse...

Muito curioso que nem por um minuto passe na sua cabeça a hipótese de que o Lula não tem a menor intenção de modificar as estruturas econômicas e sociais do país - apesar de ter visto como governou durante 8 anos.

Que o Lula acredite num capitalismo 'do bem', implementado numa social-democracia 'alla' Escandinava parece ser inaceitável para você, embora tudo pareça indicar isso.

Questão de fé.

douglas da mata disse...

Meu filho, eu vou reler TODO meu texto...OU eu escrevo muito mal e não me faço entender (o que é plausível, sim!) ou você é uma cavalgadura e/ou disléxico...

É justamente essa assertiva que trago no texto: a conciliação lulista está a serviço de uma visão classe média baixa de conforto e bem estar social executada pela Europa (wellfare), mas que nunca terá lugar aqui na periferia, haja vista que o fato se sermos periféricos já implica na impossibilidade de reformar o capitalismo nos moldes europeus...

Acho que suas questões de fé (me classificar antes) o impediram de ler o que está escrito...

Puta que te pariu, vai ser burro assim na Noruega!

Anônimo disse...

Eu li o seu texto, mas você não 'liu' o governo Lula.

Caso contrário não estaria tão decepcionado.

douglas da mata disse...

Caro cretino, eu não estou decepcionado com o governo Lula, ao contrário, enxerguei nele os limites para fazer que foi feito...

É bom você saber, ó beócio, que os movimentos políticos dos governos, apesar de Lula ser quem é, são limitados pela realidade e pelos movimentos dos adversários...

Claro que se pudesse, Lula implantaria um wellfare state tipo Noruega, mas a questão é que não depende só dele ou das forças de sua base de apoio, mas principalmente, dos adversários...

Desnecessários dizer, até para um imbecil como tu, que a correlação de forças necessárias para mudanças, sejam estruturais ou até as conjunturais, sempre estiveram desfavoráveis, porque o consenso conservador é hegemônico...

Em resumo: eu não me decepcionei, porque sei que pouco ou quase nada poderia ser feito além...

Se para fazer uma reforminha mequetrefe do sistema capitalista periférico nessa merda de país, o PT, Lula e Dilma levaram a breca, imagina se houvesse um aprofundamento da mudança?


Então, fiote, encerramos por aqui, porque tenho a intuição de seu propósito é só encher o saco...

Anônimo disse...


O PT é um partido social-democrata, ou seja, uma organização cuja base de apoio no movimento operário está em contradição com seus fins programáticos: administrar o estado capitalista.

Em seu primeiro ano na presidência, o governo Lula produziu um superávit fiscal superior até ao exigido pelo FMI. Isso foi alcançado através de cortes aos gastos sociais e aumento nas demissões, acompanhados de repressão estatal. Por exemplo, o governo destinou 48 bilhões de reais (aproximadamente 17 bilhões de dólares) ao pagamento dos juros da dívida ao FMI num período de três meses, enquanto que menos de um terço dessa quantia foi investido em infraestrutura.

Anônimo disse...

Hoje prova que essa política de conciliação de classes, frente popular ou frente populista, criação de Stalin na Guerra Civil Espanhola, provou, está provado e provará no futuro que é um fracasso.

douglas da mata disse...

Caro insistente e beócio:

Não confunda governo com partido...Esse é um erro infantil...

O PT não pode ser definido como social-democrata, se consideradas as linhas programáticas que convivem desde 1980.

Foi essa heterogeneidade que deu dinâmica e movimento ao partido, que nunca ficou engessado como os tradicionais partidos de esquerda até então...

O governo Lula acordou com o capital desde a campanha, com a Carta aos Brasileiros e a indicação de pallocci (do agrado dos bancos)...

Seus dados são errados:

O investimento público e gasto social per capita cresceu desde 2003 até 2014.

O superávit se deu pela contínua queda nos juros, inversões cambiais proporcionadas pelo boom das comoditties e entrada de IED (investimento externo direto)...

Repressão estatal e demissões, onde seu asno? Foi no governo Lula que as carreiras dos servidores, inclusive esses boçais do mpf e da pf tiveram seus quadros reestruturados...

Tomar como parâmetro o primeiro ano de governo, com a execução orçamentária prevista pelo antecessor (ffhhcc), que entregou o país quebrado, não é só burrice é má fé mesmo...

douglas da mata disse...

O outro comentário sobre Stalin, alhos e bugalhos espanhóis não faz o menor sentido...fumou maconha estragada, com certeza...

Anônimo disse...

O objetivo político da “República de Curitiba” é obviamente limpar o terreno eleitoral para 2018, eliminando o enorme prestígio de massas Lula, deixando livre a candidatura de Moro ao Planalto com o mote de “justiceiro dos corruptos”.

Anônimo disse...


"Outros ficaram menores e não completaram aquilo que imaginavam ser a sua missão, e o exemplo mais claro e próximo que temos é o do ex-xacal...hoje preso e amarrado pela sua própria língua."

douglas da mata disse...

Bem, pelo que se sabe do xacal, cumpriu sua missão e está muito bem no paraíso com suas 40 virgens...

Allahu Akbar...

Anônimo disse...

Lula quer conciliar porque é o político mais inteligente do Brasil. Ninguem faz sombra à sua leitura do momento político, nem dentro do PT.

douglas da mata disse...

Olha, que ele é o mais intuitivo e inteligente eu tenho poucas dúvidas...Só que a História e a realidade revelam que esses atributos, por si só não bastam...

É bom considerar que o texto diz exatamente o que você comentou: ele faz a leitura como ninguém, mas a partir de referências que são dele, e que como já disse, nem sempre podem estar adequadas a realidade que se impõe...

Sinceramente não acho que a tentativa de recuperar o "pacto" rompido, e que já mostrava sinais desgaste, conseguirá dar conta das demandas que se apresentam...

Como todo líder, que crê demais na imagem que tem de si, Lula pode perder a mão...

Por esse motivo, apesar de enxergar sua eleição como algo melhor do que está aí, não voto nele...