quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O silêncio dos indecentes...

Em nenhum momento da História desse país houve aquilo que os estudiosos costumam chamar de "tempestade perfeita", que nesse caso seria um levante popular generalizado contra o estamento que dá forma a esse arranjo permanente entre elites e setores médios que sempre manteve intacto um sistema de castas e privilégios, associado em escala global aos donos do capital internacional...

De certa forma, utilizando as categorias marxianas de análise, podemos dizer que nenhum país que experimentou esse evento revolucionário o fez dentro das premissas para superação da ordem capitalista, nos moldes clássicos da organização proletária em torno de uma vanguarda que orientava a massa de expropriados a assunção dos meios de produção...

Estudos recentes revelam que a Revolução de 1917 que deu origem a URSS se deu muito menos por intermédio dos bolcheviques e muito mais pela intensa provocação das forças conservadoras, que de forma violenta massacraram mulheres e crianças em protestos pacíficos contra a fome que grassava de cada canto daquele extenso país exaurido pela guerra...

Com a explosão popular, ruiu o governo provisório reformista, e aí assim, com raro senso de oportunidade e organização, os bolcheviques fizeram história...

Então, fico olhando cientistas políticos e sociais reclamando do "silêncio" da maioria da população, como se nosso país e sua sociedade tivessem em seu histórico várias ocasiões de levantes contra as elites...

Ora, minha gente, esse silêncio explica porque somos o que somos, em como uma relação de causa e efeito recíproca: nossa passividade gera mais desigualdade e mais desigualdade gera mais passividade...

A população brasileira foi "treinada" por anos e anos a entender os conflitos como ruins em si, ensinada como cães a buscar beijar a mão de quem lhe explora, e nunca mordê-la...

O máximo de transgressão que lhes é permitido é votar, desde que o resultado não contrarie as elites e seus sócios...

E quando há um resultado que contrarie tais interesses, golpes...e quando o golpe parece não dar certo, e a população insiste em trazer de volta dos personagens caçados e cassados por sua fidelidade aos anseios da maioria, temos mais golpes dentro de golpes...

O trabalho político de semeadura de adesão a uma solução drástica é lento, muito mais amplo e profundo que a pantomima encenada em horários eleitorais sazonalmente...

A verdade, nua e crua, que se toda a população, ou grande parte dela, resolvesse chutar o balde, nenhum partido de esquerda estaria suficientemente preparado para dirigir-se às massas e dirigir essas massas...

Esquecemos como fazer isso, caímos na armadilha da formalidade...


Por outro lado, há o silêncio dos indecentes...aqueles que foram às ruas porque diziam acreditar na luta pela corrupção...

Mentira...nunca acreditaram nessa hipótese...

Se assim fosse, estariam de novo a gritar contra o golpista-chefe da quadrilha...

O único objetivo daqueles que estiveram a vociferar ódio nas ruas foi cumprido: derrotar o PT, sem que para isso fosse necessário ganhar uma eleição...mudar as regras do jogo em andamento...

O silêncio deles não é perplexidade ou vergonha...

É medido e calculado...

O argumento para o sumiço das ruas e o apoio àqueles que mantiveram o canalha no poder esclarece tudo: antes a estabilidade do golpe que o retorno da normalidade ruidosa da Democracia...


5 comentários:

Anônimo disse...

Peraí...então você está dizendo que aqueles que protestaram até 2016 eram contra o PT, e que o resto (os que não protestam e supostamente são contra Temer) são uma massa explorada, abúlica e dócil?

13 anos de governo petista à toa, pelo visto.


douglas da mata disse...

Claro que se trata de generalizar para facilitar o entendimento. Mas via de regra, o conforto economico trazido pelo PT não lhe trouxe apoio político que esperava. Uma coisa é certa, quem foi às ruas não estava ali contra a corrupção. Se assim fosse as ruas deveriam estar cheias de novo.

Anônimo disse...

Pelo mesma linha de raciocínio, poderíamos pensar: quem votou a favor do PT nas ultimas 4 eleições presidenciais (e depois não saiu às ruas para defender o governo), apenas o fez pela conveniência econômica.

Anônimo disse...

Procure saber da verdade! A saude vai ser privatizada e por trás está Sidinho Neves!Ele vai ser responsável pela comprar edistribuição dos medicamentos desse desgoverno!

douglas da mata disse...

Olha, seria muita arrogância ou burrice tentar explicar todas as motivações que determinam o voto, mas uma parte do eleitorado toma decisões tendo como principal mote o conforto econômico. Por outro lado, o texto aborda, e você parece não ter entendido ou eu não expliquei bem, é que nesse país os apoios ou rejeições dessa camada mais desfavorecida não se expressa nas ruas. Junho de 2013 não contava com manifestantes oriundos das camadas mais pobres. Em suma, para o bem, mas muito mais para o mal, tanto 2013, quanto às manifestações de agora contra temer e/ou as reformas, as camadas mais pobres estavam ausentes. E de certa forma, a repercussão dessas pressões no mundo político, ou seja, nos estamentos, só acontece se acompanhada das chantagens da mídia comercial, que por motivos óbvios, não estão na esfera de influência das esquerdas. Para a mídia, 2013 foi uma "primavera", mas aquelas contra a pauta conservadora são apenas ruídos indesejáveis.