domingo, 9 de abril de 2017

A Era do Capitalismo Curupira ou: vai dar merda...

Analogias históricas são tão necessárias em certos aspectos, quanto inúteis em outros...

Repetir O Velho nunca é demais: primeiro como tragédia, depois como farsa, a História segue seu curso...

Todas as vezes que o mundo vislumbra o abismo, após as inflexões dramáticas dos fluxos de capitais, que os cínicos e outros tantos idiotas chamam de "crises" (mas que são apenas a própria natureza do capital em movimento rumo a mais concentração), há deslocamentos dos eixos de poder nesse tabuleiro mundial...

E tais deslocamentos, ora mais, ora menos, são sempre violentos...

De fato, a Inglaterra assumiu o controle do mundo com um banho de sangue em doses, digamos, homeopáticas, substituindo, ou melhor assumindo o posto de "chefes do mundo" em lugar das oscilantes potências europeias de então: Espanha, Portugal, e em menor medida, a França...

Já  a transição da Inglaterra para os EUA obedeceram uma dinâmica sangrenta que teve seu ápice entre 1914/1945...

E no meio das duas guerras um tombo econômico gigantesco de 1929...

Pois bem, naquela época o cenário de disputa era o teatro europeu e as possessões africanas, se estendendo até o Pacífico e a Ásia (na sua porção sul)...

Hoje, o foco central da disputa é o Oriente Médio...O objeto principal, claro: o controle de jazidas de petróleo de baixíssimo custo de extração...

Nessa toada, uma intrincada rede de interesses tribais e sectários, intervenções externas, que na maioria das vezes não guarda nenhuma relação com qualquer lógica ou "moral", a não ser alimentar o apetite dos complexos estatais bélico-industriais e suas "comunidades de informações", e todo o poder subterrâneo que nasce dessas relações geopolíticas assimétricas....


Naquela porção do globo terrestre, o mundo parece permanentemente de pernas para o ar...

Tal condição de anomia não é acidental, e óbvio, tem ganhadores e perdedores...

O jornal inglês The Independent traz uma manchete que poderá ser lida com desdém...


Esse aviso é resultado do ataque a bases sírias por mísseis Tomahawk, realizado por EUA e Grã-Bretanha...

"Ora, essas ameaças fazem parte do jogo de cena", dirão os céticos...

Tomara...

O problema é que pela primeira vez, em muito tempo, os EUA são comandados pela "idiotia em seu estado da arte", capaz de fazer george bush jr parecer um gênio!

Como a chamada "maior democracia do planeta" chegou a isso...?

Ora, qualquer calouro de ciências políticas sabe o resposta: 

O principal inimigo da Democracia é o pleno desenvolvimento do capitalismo versão 21.0...

Em outras palavras: para que haja um ambiente de ampla desregulamentação e completa liberdade de fluxo de capitais, para que a acumulação e concentração de riqueza surja totalmente despregada de qualquer laço com a chamada economia real e orgânica, é preciso reduzir ou aprisionar a luta política (e de classes) a parâmetros cada vez menos "democráticos"...

Não é a toa que regimes proto-fascistas eleitos sejam a cara da representação nesse ambiente neocapitalista...

Se fôssemos associar a uma figura da nossa cultura popular, diríamos que estamos na Era do Capitalismo Curupira...aquele ser mitológico que andava para frente de deixava rastros para trás, porque seus pés eram virados ao contrário...

Normalmente, nesse ambiente de capitalismo 21.0 temos sempre a impressão que A Política está encurralada: de um lado a percepção (nem sempre irreal) de uma escalada de corrupção, que a torna coisa "suja", e de outro a fatalidade de que "só assim funciona"...

Tudo com repetição sistemática dos meios de comunicação de massa, que fragmentam a informação a ponto de termos sempre um olhar esquizofrênico sobre a realidade...

Embaixo dessa camada, teorias econômicas cartesianas, que reduzem o aspecto social dessa ciência a uma planilha ou estatísticas, e que na medida que se apresentam com um ambiente "limpo", colocam-se hierarquicamente  e artificialmente acima dos conflitos...

Justamente os conflitos que ajudam a produzir


Aí temos um intrigante paradoxo:

Com uma agenda econômica de viés globalizante radical, os efeitos prejudiciais sociais tendem a empurrar as sociedades a experiências de nacionalismo-radicais...

Sejam as de caráter institucionais-formais, como nos EUA, sejam as resultantes de rupturas das ordens estabelecidas, com golpes violentos (como os que aconteceram na última metade do século XX na América Latina e África) ou, ajustes mais sofisticados, como recentemente passou a ser experimentado: 

Golpes jurídicos-parlamentares-midiáticos (Honduras-Paraguai-Brasil), e enfim, os modelos "primavera", como no Egito, Tunísia e adjacências, que a despeito da justeza maior ou menor das reivindicações, representam, em sua maioria, movimentos que replicam provocações das agências das comunidades de informações a serviço dos países hegemônicos...


Em determinado momento, essas fricções nacionalistas radicais vindas do centro geopolítico capitalista (nações ricas), espalhando-se pelas franjas periféricas do capital, acabam por provocar conflitos em escala regional até alcançarem sua versão global...


Um ótimo documentário na Al Jazeera explica com pormenores o conflito sírio...você pode assistir e ler aqui...


A sensação que tenho é...após assistir o vídeo, e ler o texto, e espero muito estar errado...vai dar merda...

Um comentário:

Anônimo disse...

Que texto! Aliás, você agrega muito valor aos meus dias.