quarta-feira, 19 de abril de 2017

Democracia e capitalismo não ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo...

Há um debate atual entre blogueiros e comentaristas, onde o lugar comum é a constatação de que o sistema político implodiu, tendo com epicentro a ação do judiciário...

Apesar de concordar com os efeitos do problema, discordo do diagnóstico...

O que assistimos e sentimos na pele agora é só mais uma associação de classe (elite e judiciário, o que antes era elite e militares) para impedir que os sistemas representativos, incluindo aí até suas versões ilegais (irrigação de campanhas e mandatos por dinheiro empresarial), começassem a alterar, ainda que timidamente, a correlação de forças e o principal: a distribuição de renda e dos recursos do Estado, antes só disponíveis aos de sempre.

Minha visão não é romanceada...O PT imaginou que saberia manobrar esse esquema, seja quando "convidou" o mp e o judiciário a participarem do seu esforço oposicionista nas décadas de 80 e 90, seja quando teve que governar com uma base hostil e sedenta...

Imaginou que manipularia esses esquemas e foi engolido por eles...

Mas a culpa não é só do PT...Nós todos sempre preferimos uma arrumaçãozinha a enfrentar uma secessão para impor um modelo vitorioso sobre os divergentes...

Nos EUA, em 1865, diante da encruzilhada entre tornarem-se o que são, ou continuarem a ser o que eram até virarem um Brasil do Norte, eles escolheram sangrar 600 mil pessoas...

Lá eles sabem de cor e salteado os nomes de quem enforcavam os negros, apesar dos capuzes...Aqui, as madamas tratavam e ainda tratam suas escravas domésticas como "gente da família", enquanto a polícia mata seus filhos e maridos aos montes, sob o olhar cúmplice da lei e da sociedade, afinal, "ninguém é morto à toa, devia estar devendo"...

A bem da verdade, eu disse isso antes e vou repetir, correndo o risco de me tornar chato:

Desde 1980, essa nova configuração de poder mundial vem sendo desenhada...

A primeira versão da War on Drugs encaixou (e não por coincidência) como uma luva na nova política econômica que começava a tomar o mundo a partir do Consenso de Washington e da Escola de Chicago...

A segurança pública, e claro, o judiciário se tornaram centrais como pilares da nova segregação racial e econômica de lá...
Depois se tornaram centrais em todas as instâncias, e enfim, esse modelo se espalhou pelo mundo...classificação, vigilância e punição, lembra algo? Pois é...

Pularam de 350 mil presos em 1980 para 3 milhões em 2016...25% dos presos do planeta em um país que detém apenas 5% da população mundial...

Fomos na onda (como sempre!) com um trágico detalhe de adaptação: prendemos muito também (oscilamos entre a 8ª a 4ª população carcerária mundial), mas em escala menor, porque a outra parte que "sobra" nós matamos...

Lá eles têm um capitalismo de escala que absorve bem (e como!) a mão de obra quase escrava gerada das prisões e pelas condicionais...Foi assim no pós-29 e depois de cada crise de lá...

Aqui não dá, então "passamos o rodo"...

Ainda assim, os movimentos políticos anti-hegemônicos (de lá e de cá) não desistiram...

Em 2000 veio a paulada final na ideia de casamento entre Democracia e capitalismo: a fraude pró-bush, bancada pelo conglomerado de mídia, associada ao complexo bélico-militar-financeiro, e tendo como ratificador final o legislativo e o judiciário, a despeito de milhões de votos (e olha que as regras de lá já são claramente anti-voto popular)...

Foi o Senado unânime e a maioria da Suprema Corte, a qual parte dos integrantes foram cuidadosamente escolhidos por bush sênior, que definiram que o resultado da maior fraude da história daquele país era válida...

Depois 11/09, crash de 2008 e o resto não precisamos repetir para constatarmos que os sistemas eleitorais perderam a sua pálida camada de representatividade...

E esses fatos nem são tão inéditos, tendo como referência os EUA, nossa principal referência e matriz política:

Na década de 50, um bando de loucos anticomunistas tomaram o poder de assalto nos EUA, intimidando a tudo e a todos a bordo do macartismo, deixando às instituições apenas as aparências de civilidade...

Hoover levou décadas a frente do FBI, como um poder acima de todos os poderes...
Se olharmos de forma sistêmica, essa loucura fertilizou o ambiente para o assassinato de um presidente (JFK)...nem vou citar a morte de MLK...

Em resumo:

Os sistemas políticos controlaram ou funcionaram apenas quando galvanizavam a estrutura de poder vertical das elites sobre as demais classes...

Todas as vezes, seja nos trópicos, seja na Alemanha de 30, seja nos EUA, em que o sistema político possibilitou uma configuração que ameaçasse, ainda que timidamente (como no Brasil) esse establishment, houve um golpe ou uma ruptura conservadora e violentíssima.

O verdugo da vez é o judiciário...e uma coisa é verdade: pela sua natureza, é o mais perigoso deles...

2 comentários:

Anônimo disse...

As suas colocações são primorosas. Difícil um cientista político aqui da planície fazer uma análise assim, consistente.

Anônimo disse...

A burguesia não fez sua revolução para depois entregar o pode politico e a dominação social, de bandeja, para os plebeus. A acumulação do capital, bruscamente acelerada, após o consensso de Washington, é aquela famosa bola de neve, que o famoso barbudinho alemão tanto propagava.