quarta-feira, 1 de março de 2017

A greve do ES: A esquerda não sabe porra nenhuma sobre as polícias!

As notícias de que o símio da direita está por trás das manifestações dos servidores policiais militares do ES merece ser analisada com todo cuidado...

Quando os policiais do Estado do Rio de Janeiro foram às ruas, no então (des) governo cabral, acusação semelhante foi feita, naquele caso envolvendo o ex-governador garotinho e suas ligações, depois comprovadas, como o cabo daciollo, bombeiro e líder do movimento...

Há várias questões preocupantes, principalmente para o campo da esquerda, além dos óbvios desdobramentos, considerando a possibilidade de que haja no futuro governadores petistas enfrentando o mesmo problema...

A esquerda, como eu já disse, quando alçada ao comando do governo federal manteve a mesma agenda militarizante e "war on drugs" como ponto de apoio das políticas nacionais de segurança pública, e no seu quintal, Lula e Dilma imaginaram que os mimos e resgates institucionais feitos a polícia federal poderiam inaugurar uma relação republicana, onde a polícia usaria sua autonomia para apurar os casos com total isonomia...

Me desculpem, mas nesse caso Lula e Dilma agiram como perfeitos idiotas...

Agora a esquerda parece enredada na mesma armadilha, incapaz de se aproximar e entender esse monstro secular chamado polícia...

Primeiro acusam o aparelhamento dos movimentos sindicais por atores políticos partidários...

Ora, todos sabemos que nenhum movimento de natureza econômica (sindical) está apartado da luta política como um todo, e se assim fosse o próprio PT não existira se a luta no ABC na década de 80 do século passado ficasse confinada as causas econômicas dos trabalhadores...

A sinergia PT e CUT não é uma miragem, é fato...


Isso não quer dizer que eu vá defender que uma greve de caminhoneiros em 73 no Chile seja tão aceitável como uma greve geral contra um governo golpista, como é o caso no Brasil, mas não posso subtrair dos dois fenômenos sua natureza de disputa política, de amadurecimento de setores voltados para questões além das fronteiras de suas demandas econômicas...

Até porque, um dos traços que rege a luta política é a legitimação de nossos propósitos para vencer propósitos adversários, mas desconsiderar que existam propósitos distintos é tolice...


Em suma, o cretino fascista e seus debiloides podem estar por trás das lideranças policiais no ES?

Claro que sim, mas isso retira legitimidade das demandas apresentadas por esses servidores?

Creio que não!

Defender as punições e as perseguições a esses policiais por causa desse vínculos políticos é interditar qualquer aproximação do campo da esquerda para trazer esses servidores para o lado progressista, reforçando neles a ojeriza a agenda da esquerda, que para falar a verdade, nem sei bem qual é, porque acho que nunca existiu para além de arremedos e remendos do que os EUA ditam para o mundo...

E assim mantemos nossa esquizofrenia no setor:

De um lado, quando estamos no poder, reforçamos as lógicas autoritárias nas polícias, reproduzindo as ordens e premissas ditadas a partir dos interesses geopolíticos e econômicos dos EUA-Europa, como por exemplo, quando o governo Dilma formulou e aprovou a draconiana Lei Contra o Terror, a de número 13.260, permitindo ao aparato repressor a inclusão de movimentos sociais nas categorias de crimes ali descritos...

Por outro lado, reclamamos quando as polícias agem exatamente como as adestramos...

Nos governos Lula e Dilma os arranjos legais e institucionais do judiciário e das polícias mantiveram-se intactos, dando prosseguimento a lógica permanente de um Estado classista, seletivo e assassino contra os mais pobres e pretos...

Foi na era Lula e Dilma que a farsa das UPP no RJ teve sua explosão de popularidade...

Agora tenho lido em publicações de esquerda na internet, de muita gente boa aliás, a abertura das caças às bruxas no ES, com o apoio desses setores às punições contra as lideranças policiais, que inclusive estão sob ordem de prisão decretada...

Se a esquerda imagina que apoiando essas decisões, e solidarizando com o governo do ES possa avançar na conquista do chamado senso comum é um grave erro, por vários motivos...dentre eles, o que julgo ser o principal: 

O senso comum quer as polícias nas ruas por motivos distintos dos quais deveríamos querer...

Bem, pelo menos isso é o que penso..

O outro, é mais pragmático:

Um dia teremos que lidar com esse pessoal de novo, e aí?

Por mais que seja incômoda essa verdade, é preciso dizer:

Autoridade é sempre reconhecida, nunca imposta...

Hierarquia é só um meio, não um fim em si...

A História está cheia de exemplos onde milicianos e tropas em larga desvantagem se colocam ao sacrifício a acabam por vencer inimigos em ampla vantagem...

Autoridade é respeito, não é força...

4 comentários:

Marcelo Siqueira disse...

Douglas
Eu discordo de você, mas isso pode mudar, estou aqui para aprender e não conheço praticamente nada do sistema. Primeiro gostaria de saber a sua opinião sobre desmitaliriraçao e unificação das polícias, outra coisa e sobre uma greve que deixa a população abandonadada. Sou de esquerda, a favor de greve, mas imagine se os bancários, que têm um dos poucos sindicatos fortes do país parassem totalmente, acabasse o dinheiro circulando? talvez a greve durasse três dias.

douglas da mata disse...

Marcelo, você discorda do que exatamente, de tudo?

Bem, vamos às questões levantadas por você:

Sim, sou a favor da total desmilitarização das polícias, um tipo de aberração que praticamente só existe no Brasil, polícias militares como corpos auxiliares às FFAA...

Assim como sou completamente a favor d unificação das polícias e da carreira única policial, o que não quer dizer que não haja tarefas distintas no trabalho policial, ou seja: a unificação e desmilitarização não implica em abrir mão de uma hierarquia, e de trabalho uniformizado ostensivo de polícia, como é na maioria dos países do mundo...

Pela sua natureza, o trabalho policial não pode estar sujeito a contratação (no caso específico de delegados) de quadros de comando, sem levar em conta toda experiência e acúmulo exigidos e que estão presentes nos policiais de carreira, como também acontece em quase todos os países...

O cara entra na polícia, passa por todas as etapas do trabalho policial e depois é (ou não) promovido a chefe de alguma unidade e equipes...

Hoje, um idiota de 25 anos que nunca viu um delegacia, mimado a todinho e treinado como ratinho para concurso, é contratado para liderar 20/30 policiais que têm que jogar toda sua experiência no lixo para dizer sim, senhor, sob o falso argumento de que o chefe (delegado) possui saber jurídico...

Ora, porra, polícia tem que investigar, reunir fatos e relatar...só isso, quem diz o direito é o juiz, e quem decide ou não denunciar é o Parquet...

Mas nesse país maluco, juiz e promotor querem ser policiais, e os policiais querem agir/opinar como juízes e promotores...

Marcelo Siqueira disse...

Douglas
Muito obrigado pelas respostas exclarecedoras e me desculpe pela falta de clareza na abordagem. O que discordo é ofato de achar que a esquerda poderia ter resolvido problema que considero tão complexo, se a esquerda sequer conseguiu resolver problemas que tem muito mais afinidade, como as relações sindicais (legislação, imposto sindical...).

douglas da mata disse...

Marcelo, que pretende governar e disputar o poder (sim, são coisas diferentes) não poderá estar restrito apenas aos seus temas de conforto...

Até porque, a luta ideológica e política não deixa de acontecer em todos os campos...

Faltou um olhar panorâmico à esquerda para entender a complexidade do tema (violência e criminalidade) e como essas questões, associadas ao mundo jurídico iriam tomar conta da agenda nacional...

Mas tomara que tivéssemos aprendido, mas eu temo que não!