domingo, 8 de janeiro de 2017

Darcy Ribeiro: "Não é crise é projeto!"

A frase dita pelo nosso querido e saudoso personagem histórico foi dita dentro de um contexto semelhantes, quando perguntado sobre os problemas de segurança pública nesse país...

Mas ela encaixa perfeitamente na conjuntura atual, naquilo que vem sendo chamado pelos cretinos da mídia, mais uma vez de forma errada, de "crise do sistema prisional"...

Nosso Estado foi estruturado dentro de uma perspectiva onde a segurança pública sempre funcionou como ponta de lança na defesa dos interesses da classe que controla o Estado, ou seja, as elites...

Para quem não se lembra, é bom relembrar que a Intendência Geral de Polícia foi criada em 1808, com a chegada da Corte Portuguesa por aqui, escorraçada pelas tropas napoleônicas...

Os brancos europeus se espantaram com o número de negros nas ruas, e para acalmar essa versão antiga do que seria hoje nossa classe mé(r)dia, foi criada a Intendência Geral (o embrião da Polícia Civil)...

Em 1809, em um prenúncio de um arranjo constitucional que funciona até hoje, foi criada a Intendência Geral de Polícia Fardada, o que hoje seria  Polícia Militar...

As missões as mesmas: prender pobre, na sua maioria, pretos...

Por mais que pareça estranho, herdamos e ainda usamos o mesmo procedimento para o trabalho da chamada polícia judiciária, o Inquérito Policial, uma peça pré-processual da época das Ordenações Manoelinas, nosso primeiro Código Penal, por assim dizer, inspirado e normatizado dentro do ambiente do mais feroz braço da Inquisição, a portuguesa...


O resto é conhecido, e desde então, nosso esforço sempre foi no sentido de utilizar e legitimar discursos que conferissem suporte para práticas de extermínio e prisão em massa das pessoas que o sistema econômico não pretendia incluir...

Algo parecido com os EUA, que desde a sua Secessão, e a 13ª Emenda, que aboliram a escravidão, e trilham caminho parecido...

Como somos filiais dos EUA em quase tudo, recebemos e adaptamos (para muito pior) cada estratégia de segurança pública e sistema judicial-penal adotada por lá...

É verdade que lá eles mataram menos...apesar da Ku Klux Klan...

Alguns números para ilustrar a tese:

Dentre as maiores 20 economias do planeta, EUA e Brasil ocupam o 1º e 8º lugar em população carcerária...

O que não lhes conferiu o título de países mais seguros, ao contrário, são os EUA e o Brasil os países mais violentos dentre o G20...

Os EUA têm 5% da população mundial, mas detêm 25% dos presos do planeta...

Os EUA têm 80% de reincidência...nós temos números parecidos... 

Alguns estados da federação estadunidense executam a pena capital, o que não resulta em números melhores no quesito letalidade violenta, comparados às demais unidades federativas de lá...

Nem é preciso dizer a cor majoritária dos presos de lá e dos de cá, muito menos suas condições sócio-econômicas...

Depois de tanto tempo martelando, acabamos por aceitar que só pobres (e pretos) cometem crimes, e mais, que seus crimes sempre são piores que os demais...

Com um pouco mais de ajuda da mídia, passamos a achar que bandido bom é bandido morto, e preso então nem se fala...

Eu não vou polemizar com os que repercutem as asneiras do deputado que prega o estupro, muito menos fazer pouco da dor dos familiares dos que perderam entes queridos nessa guerra perdida (esses sim podem, de forma legítimo, manter algum desejo de vingança)...

A questão é pragmática: do jeito que está não deu certo, e quanto mais violência e descaso com que se trata os suspeitos e apenados, mais violência brota do chão...

Todas as grandes facções criminosas do país nasceram de dentro para fora dos presídios...

Parece (e é) burrice descomunal prender alguém para que ele saia (bem) pior do que entrou...

Parece (e é) burrice descomunal proibir o consumo e comércio de algo que só diz respeito a quem consome, ainda mais quando se proíbe algumas e libera outras...

Parece (e é) burrice descomunal imaginar que o fim da proibição de venda e consumo de drogas vá aumentar a violência porque traficantes migrarão para outras modalidades delitivas...

No primeiro momento, pode até ser, mas os defensores dessa asneira sonegam que haverá milhares de policiais disponíveis para a prevenção/investigação/repressão, ao contrário do que temos hoje, quando nossos policiais estão quase todos ocupados enxugando gelo na "guerra às drogas"...

Um flagrante de 100 gramas de cocaína, sem que o preso esteja portando arma alguma, "consome" numerosas horas de trabalho de, no mínimo, 5 ou 7 policiais, combustível, veículos, papel, luz, água, etc, sem contar o tempo perdido depois, com as audiências judiciais durante a instrução criminal...

Enquanto policiais e criminosos se matam, e matam quem não tem nada a ver com essa "guerra", os helipópteros dos zezés perrellas sobrevoam nossas carniças, e delegados, promotores e juízes federais encerram o caso ficando só na conta do piloto...

Não se enganem, essa atual "crise", fabricada e fermentada nas "barbas" do Kojac do ministério golpista da (in)justiça é a base da argumentação pela privatização dos presídios brasileiros...

Igualzinho aos EUA...

3 comentários:

Anônimo disse...

13 anos de petismo sem conseguir mudar o mesmo projeto dos americanos. Curioso, ne?

douglas da mata disse...

A crítica é pertinente, o PT também não mexeu quase nada...Por dois motivos, na minha opinião: Total falta de conhecimento na área, e covardia em tratar de um assunto que, possivelmente, drena capital político construído na base da histeria da sociedade, como um todo.

Não é curioso, é alarmante.

jose geraldo moreira chaves Jgeraldo disse...

Concordo 👍...