quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Entramos no pós-Capitalismo: agora é só batizar a "nova era"...

Esse texto foi publicado originalmente como comentário ao post do Blog do Roberto Moraes, aqui...

Pensei em reproduzir na página central, depois que o utilizei como resposta a um comentário no post anterior...

Vai com as adaptações:


Caro comentarista, os seus textos, os quais presumo fazerem parte de um todo, trazem boas informações e contribuições ao debate, mas carregam em simplificações óbvias quando analisam o papel do PT e seus parlamentares.


Ruim mesmo é reduzir tudo a uma questão "moral", coragem, apesar de trazer crítica a essa interpretação da realidade que assolou o stf, por exemplo...




Vou republicar parte de um comentário que coloquei lá no Blog do Roberto Moraes, sobre crise, esgarçamento do tecido político e não-civilização...



Muito se tem falado sobre esgarçamento de tecidos, crises, etc. A aparência é realmente essa, e muito mais ampliada pelas hipersensibilidades proporcionadas pelas redes virtuais (aí o fator tecnologia das equações de David Harvey), que alteram a realidade, enquanto são permanentemente e reciprocamente alteradas pela realidade que criam.



Eu não creio na existência de uma crise específica, de um momento de fratura, pelo menos não na conformação dos dias atuais.



Creio sim que no passado, por força das limitações e também pelo impacto das inovações (elas em si mesmo mais limitadas que as possibilidades de hoje, como convém a certa rotina evolutiva), a História e a percepção de seu caminhar ofereciam uma visão mais compartimentada e sugeriam que os eventos coubessem em marcos temporais e geográficos bem delimitados.



Não à toa, a fluidez de recursos e da informação (não confundir com conhecimento) encontravam nas barreiras físicas obstáculos que permitiam uma assimilação diferente e uma transmissão diferente, o que não acontece hoje.



Mesmo que o problema da verticalidade e da apropriação da iniciativa discursiva pelas classes hierarquicamente mais bem colocadas não tenham sido superados, apesar das trombetas da tecnologia venderem o "admirável mundo novo" pelo viés da conectividade, os donos da informação são os mesmos e o objetivo da disseminação dos conteúdos contaminados pelos interesses de classe também.



Nesse contexto, a sanha "não civilizatória" dita por Roberto Moraes (em seu post recente) a meu ver, é tanto uma ilusão semiótica, quanto a noção de que em algum momento houve um marco civilizatório que se espraiasse pela Humanidade como uma regra, um ordenamento universal.



É claro que a modernidade, se considerarmos os avanços médicos, aumento médio da expectativa de vida, produção de bens e serviços, melhoria da eficiência do uso energético, etc, é um ganho inequívoco, mas na minha rasa opinião, ela não justifica por si só, nem explica a noção de civilização, aqui entendido como o conjunto de bens imateriais dedicados a contornar a tendência humana a barbárie.



Sendo assim, não seria incorreto (re)afirmar que a História da Humanidade, sua referência civilizatória seja o conflito, o esgarçamento permanente dos tecidos sociais e políticos, aliás, e principalmente, porque sempre poucos viveram às custas de muitos.



O problema é que essa assimetria alcançou níveis jamais pensados, com reflexos ainda não imaginados.
O que acontece agora, e muito patrocinado, como já disse, pela ampla possibilidade
de cognição on-line e 
ao vivo dos eventos e de suas contrafações, é um aceleramento
correspondente a dinâmica imposta
pela acumulação de riqueza, e pela transformação da riqueza em fim em si mesma. 


Acumulação e transformações (em fim em si) são estágios diferentes, embora haja a sedução de entendê-los como iguais.



Pode parecer um pleonasmo, ou um termo equivocado, mas a riqueza sempre foi um meio, sempre esteve associada a noção (lato sensu) de política, que por sua vez, conferia aos seus detentores (da riqueza) o poder correspondente, em uma relação teleológica (causa e efeito) recíprocas.



No entanto, mesmo essa relação carecia de certa mediação, de uma legitimação que conferisse aos despossuídos, e logo, desempoderados, a ilusão de que poderiam conquistar uma parcela do poder sem a correspondente riqueza, reivindicando contrabalanços chamados de direitos.



Hoje, essa necessidade parece ter desaparecido. 



Hoje ela (a riqueza acumulada) prescinde essa relação, pois alcançou o seu "estado da arte", ou no nosso prisma de despossuídos, a tempestade perfeita.



Por isso a lógica do golpe nos países periféricos experimenta sua gestação e execução no campo jurídico, que passou de instrumento de poder a poder em si mesmo.



Se antes a mediação para imposição da vontade da riqueza acumulada passava pela violência das armas, hoje a sofisticação dos meios permite a criação de uma realidade paralela que se auto-interpreta permanentemente, e por essa razão, o eixo de decisão se deslocou a quem teria a missão de fiscalizar e aplicar as leis, mas agora as interpreta e reinterpreta como requer a "nova ordem". 



A lógica dos ditadores da República do Paraná e seus asseclas é o não-governo, a não-política, o não-Estado, enfim, a não-lógica, como uma espécie distorcida de anarquia controlada, onde as regras são substituídas pela constante interpretação das regras.



Um delírio jamais imaginado por Kafka.



.
Momentaneamente se associam a esse ou aquele esquema, como o Legislativo ou até o complexo bélico-policial, se for o caso, mas nessa "nova (velha) ordem" não há mais correspondência entre a representatividade formal (a que é conferida nas urnas), capital político, movimentos sociais e ações não institucionalizadas, leis, etc.


Uma imagem cara aos jurisconsultos, a Pirâmide de Kelsen tenta explicar o modo como as leis são geradas e se impõem a todos: Fato/Valor/Norma, ou seja, a sociedade a partir de uma demanda real faz dela um juízo de valor (valora) e como resultado outorga a seus representantes a tarefa de criar uma lei que reflita aquele juízo de valor sobre aquele fato determinado.



Podemos dizer que o atual estágio civilizatório (ou des-civilizatório, como prega você) inverteu e subverteu essa lógica, onde agora temos valor, uma norma e depois o fato.



Ou seja, o valor é dado por uma agenda pré-estabelecida e não antes conhecida ou aceita pela maioria representada, e as leis são paridas dessa hierarquia, para depois criarem uma versão que a explique como fato.



Onde entram os meios de comunicação, é claro.



De certa forma, esse estágio sempre foi perseguido pelas elites detentoras do capital e do mercado.



Pela primeira vez, o não-sentido parece ter tomado conta de toda a narrativa da realidade, de uma vez só e em todos os cantos, seja com trump, a saída da GBR da Europa, a crise do Oriente Médio (Síria), ISIS, a posição da Rússia em relação a tudo isso, os golpes da América Latina, sejam golpes propriamente ditos, sejam para ou proto-golpes, como no caso dos Kirchner, ou Maduro na Venezuela, etc, etc...



Porque sempre tivemos pedaços desse não-sentido acontecendo, como foi a eleição fraudulenta de bush jr, o 11 de setembro, a Al Qaeda, etc.



E todas as vezes que todos os fatores se juntam, temos a eclosão de novas eras, que nem sempre significam ser melhores daquelas que foram ultrapassadas.



Já temos nosso pós-Capitalismo. Precisamos agora é arrumar um nome para ele.
"


Um comentário:

Anônimo disse...

Aloisio Mercadante que mal aconselhou à Dilma que apoiasse a Lava Jato cegamente – porque assim reinaria sozinha contra Lula e contra o PMDB.