segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Carta aberta a Brand Arenari.

Caro amigo, desculpe a intimidade...

De certo, para além de nossos embates e debates temos pouca familiaridade para tratá-lo de você, agora que és uma iminente (ainda não eminente) autoridade municipal delegada...

Mas eu escolho o tom informal para dar contraponto a gravidade do tema, sendo assim menos por desrespeito a sua condição de interlocutor da pasta da Educação na transição (o que o credencia a sentar à mesa de Secretário), mais por escolha de estilo...

Brand, primeiro eu tenho que retroceder para dar contornos ao meu espanto quando soube que atuou como assessor parlamentar do agora prefeito eleito (porém não empossado, e nesse mundo de hoje, isso faz toda diferença), e mesmo assim, logo depois, ocupou cargo na estrutura de poder federal, o IPEA, sob a chancela do Jessé de Souza...

Legitimidade e capacidade para tanto nunca lhe faltou, mas confesso a dupla surpresa...

Sei que a sua origem de classe sugere a adesão a projetos classe mé(r)dia, do tipo que são vocalizados pelo novo (velho) prefeito e pela mídia local e nacional...

De fato, não há crime ou demérito em ser classe mé(r)dia, o problema, no entanto, é pensar como tal...

Porém, nunca imaginaria que a regra suplantaria uma honrosa exceção...

A surpresa só aumentou quando mesmo tendo embarcado nesse projeto do PPS municipal, Vossa Futura Excelência aceitou cargo comissionado no governo do PT, e logo em local mais estratégico da administração federal...
(e o PPS é o que há de pior no espectro partidário brasileiro, e não creio que a sociólogos do seu naipe seja dada a desculpa das particularidades e desfigurações dos partidos como justificativa para integrar a secção golpista local).
(Também acho que não cairia bem a desculpa da "assepsia intelectual" dos acadêmicos, que coloca conflitos políticos acima das missões intelectuais...acho que essa só cola para o público incauto que absorve o conteúdo da mídia que inflou o projeto de seu prefeito e agora o mantém sequestrado...como mantém sob sítio no plano geral a política nacional)

Não sei como rimar PPS com PT...Vossa Futura Excelência soube...parabéns!

Bem, no meio de tantas surpresas, nem me surpreendeu muito sua nova colocação no mais novo ninho de poder local...

Creio que poderia dizer com orgulho: "Menos mal"...

Não é tão fácil assim...

Não, não vou me divertir com os contorcionismos semânticos que Vossa Futura Excelência terá que usar para a árdua tarefa de mostrar a choldra que governar é diferente de fazer campanha, e/ou que o moralismo da eleição não resiste a necessidade de manter maioria parlamentar...

Essa mesma choldra que saiu de condição de pobres famintos manipulados para libertadores da nova Democracia Campista...

Muito menos vou dar risadas dos primeiros escândalos que estourarem (sejam reais ou não, sabes que isso pouco importa) no novo (velho) governo...
Vossa Futura Excelência não tens a permissão de dizer que acreditava nesse modelo judicial-midiático que propulsionou a carreira do novo (velho) prefeito, ou que desconhecia sua verdadeira natureza...até porque parece ter acreditado que para derrubar uma dinastia valia a pena reeditar outra, cujas bases são a pior oligarquia que tivemos notícia...

Estimo-o demais para isso, e tenho a Educação como tema maior, um tema de Estado, não de governos...não renunciando, é claro, a evidência que mesmo sendo um tema de Estado, e por isso mesmo, vá refletir os embates pela hegemonia no seu controle (do Estado)...

Espero sinceramente ser surpreendido por Vossa Futura Excelência, onde tenho por certo que o espanto viria caso suas primeiras ações sejam na direção daquilo que sempre acreditou (ou deveria?) quando ocupava a cômoda posição de pedra na vidraça de outros governos:

- Eleição direta para diretores das escolas;
- Revisão imediata do Plano de Cargos e Salários;
- Alocação REAL do quantum constitucional previsto para o Orçamento da Educação, afastando as matreirices contábeis que reduzem os recursos necessários;
- Cancelamento imediato da compra dos conteúdos prontos, que sangram os cofres públicos e enriquecem as editoras, sem melhora significativa alguma nos resultados pedagógicos;
- Reestruturação das carreiras-meio (merendeiras, vigias, etc), com fim gradativo das famigeradas terceirizações, que no fim, só concentram renda e precarizam relações de trabalho e os vínculos sociais dentro das unidades...

Despeço-me, respeitosamente, não sem antes contar um pequeno causo que me veio a mente, lembrança de um filme dos EUA (Traffic), com Michael Douglas no papel principal...

O então novo czar anti-drogas dos EUA, encarnado por Michael Douglas, assume e visita o antecessor, como manda o rito civilizado...

O antecessor lhe entrega duas cartas, e disse que recebeu envelopes parecidos quando chegou ao cargo, que lhe foram entregues pelo seu então antecessor...
Avisa que deverá abrir a primeira quando atingir alguma crise grave, mas que pode ser vencida...A segunda é para momentos dos quais sua gestão está sem saída alguma...

A primeira carta tem orientações para culpar seu antecessor por tudo de ruim que estivesse acontecendo até ali...

A segunda manda sentar a escrivaninha e escrever duas cartas...

Moral da história: até a semiótica tem limites...

Vossa Futura Excelência, embora não acredite em sorte, desejo-lhe toda...

(PS: desconsidere o que disse sobre o cargo caso o D.O. não confirme as expectativas e lobbies da mídia local)

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