domingo, 23 de outubro de 2016

Carta aberta ao napoleão da lapa...

Senhor ex-deputado estadual, ex-secretário de agricultura, ex-prefeito e ex-governador e atual secretário de governo, seu extenso currículo, improvável frente a sua origem humilde e sua baixa formação educacional formal, já nos revela de antemão que não és pessoa comum...

Por outro lado, nos dão a exata dimensão do desperdício de sua existência, agora que o crepúsculo dos anos torna ainda mais anacrônica a alcunha que escolheu (ou indevidamente se apropriou?)...

Vossa Senhoria poderia ter sido e ido muito além do que foi, e os 15 milhões de votos para presidente são a manifestação dessa assertiva...

Porém, nos dias de hoje, quando olhamos seu retrospecto e sua dimensão há um tremendo descompasso...

Não porque atuar ao lado de sua esposa na coordenação de grupo político que se confunde com seu nome seja tarefa menor, como querem seus algozes, não menos venais que o senhor...

O descompasso não está no senhor ou nos seus atos, mas no seu lugar na História, que passou e o relegou ao quase-esquecimento, embora Churchill nos ensine que a vantagem da política sobre a guerra seja a possibilidade de ressuscitar...

Mesmo agora, quando alvo de uma empreitada que procura reduzir a Política a caprichos e egos judiciais, que por sua vez seguem, mesmo que, de forma inconsciente, as ordens dos EUA para desmontar o que esse país poderia ser (como em 64), Vossa Senhoria, me desculpe e expressão chula, caga no p*u...

Ao se comparar com Zé Dirceu, o senhor não só assina embaixo, como um suicida, o tratado de perseguição e injustiças praticadas em nome de uma chamada moralização da política...

O senhor nos faz duvidar do que acreditamos, e passamos a perguntar: Será que em Campos dos Goytacazes, a ação da justiça e da polícia não estão certas?

Pois é, antes eu julgava ter as respostas, agora o senhor me trouxe dúvidas... 

O senhor age como um enforcado que compra a própria corda para poupar tempo ao carrasco, ou se oferece como voluntário para afiar a guilhotina...

O senhor se imagina um mártir...

Não és...

Os mártires oferecem algo como sacrifício, para preservar aquilo em que acreditam, suas crenças, virtudes, missões, e o senhor não acredita em nada que exceda os limites da sua (desperdiçada) existência...

Mártires como Zé Dirceu e Zé Genoíno sacrificam tudo, até a própria liberdade, em nome de lealdade pessoal e outros valores e projetos coletivos...

Vossa Senhoria não é mais leal que o escorpião da fábula (*) com o sapo...

O senhor, se estivesse na posição de Zé, já teria delatado até a memória de sua santa mãezinha, ainda mais pela facilidade dela não poder se defender, nesse caso, seus alvos prediletos...

Nem é preciso lembrar que foi Zé Dirceu, que na época imaginava ser o senhor alguém merecedor de confiança, que costurou o acordo que o levou ao Governo do Estado, tendo Benedita da Silva como vice, passando por cima ("tratorando") da Convenção Estadual e das bases partidárias petistas...

Não nos recuperamos daquele golpe até hoje, e logo depois, com a dinâmica própria da política, o senhor mostrou quem era de verdade...

Mas ali também foi selado, como algo de uma justiça metafísica ("divina" para quem acredita), a sua sorte como então candidato a presidência, ficando isolado como um outsider de alcance limitado...

No entanto, o que mais dói aos ouvidos de quem, como eu, acompanha a política mais de perto, e longe dos lugares comuns da mídia, é o senhor atacar o Zé, fazendo coro com o mesmo espírito de manada que persegue a ambos...

Eu poderia citar, dentre seus auxiliares mais próximos, um monte de gente que faz o papel do Zé Dirceu, mas seria uma enorme injustiça rebaixar o Zé nessa comparação, porque o Zé (Dirceu) é daquele tipo de gente que talvez o senhor nunca tenha tido chance de ter ao seu lado, e talvez aí resida a diferença (e a inveja, o recalque) entre sua carreira política e de Lula...

Lembremos: apesar de anos e anos perseguido pela mídia, não há, nem haverá, uma prova que ligue o Presidente Lula a qualquer crime, enquanto o senhor goza de condicionante no cumprimento de pena transitada em julgado (artigo 288 do Código Penal)...

E o senhor sabe, tanto quanto eu, e muito mais que qualquer outro, como funciona a perseguição da mídia, e a partidarização da justiça, e por óbvio, sabe que Zé Dirceu não cometeu os crimes pelos quais está sequestrado na carceragem, e se ainda o tivesse feito, seria para dar muito mais aos pobres que o senhor diz ter dado...

Uma injustiça...

Zé, de fato, imagino que não gostaria desse termo, "dar aos pobres", pela sua enorme capacidade e conhecimento das dinâmicas e processos históricos, e talvez diria que apenas reconheceu os direitos de milhões a vida mais justa, afastando o paternalismo que o senhor tanto adora...e que dá substância a sua forma de lidar com os cidadãos que governou e governa...

Eu não creio que o Zé saberá um dia dessa sua (mais uma) injustiça para com ele, mas eu o senhor sabemos, e principalmente o senhor, o tamanho da hipocrisia que o senhor deixou escapar para legitimar seus atos...

Nesse momento, em que democratas e progressistas imaginam que o certo é defender seus direitos e garantias ( e de todos os políticos, inclusive aqueles contra quem temos todas as reservas possíveis), o senhor, com essa (im) postura, nos faz pensar duas vezes, mais ou menos quando vemos os israelenses praticando com palestinos atos mais cruéis do que aqueles que foram vítimas no Holocausto...

E aí, infelizmente, quando nos deparamos com pessoas como o senhor, a gente fica pensando que diante de duas injustiças, é melhor escolher estar ao lado daquela que erradicará a maior (injustiça), e nesse caso, a maior injustiça em nossa região é tê-lo como líder carismático...

Algo como: Tem gente que merece cada gota de injustiça que é obrigado a beber...

Descanse em paz governador...
(*)O escorpião e o sapo... 

Diz a lenda que um escorpião desejava atravessar um rio, e por motivos óbvios ficou parado na margem, quando ali apareceu um sapo...
De imediato, o escorpião lhe pediu uma carona, e o sapo negou, e deu como justificativa o medo óbvio de que o escorpião lhe aplicasse veneno no trajeto...
O peçonhento argumentou, dizendo que tal atitude era impossível, porque ele mataria a si mesmo...
O batráquio concordou com a lógica e embarcou o inseto em suas costas, o venenoso!... 
Lá pelo meio do rio, o escorpião aplicou-lhe a fatal ferroada, e enquanto ainda o veneno não tinha sido fatalmente espalhado, o anfíbio perguntou como era possível, já que os dois morreriam, ao que o escorpião respondeu:
- Desculpe, é a minha natureza.

8 comentários:

Anônimo disse...

Olá blogueiro,

Há algum tempo tenho acompanhado seus posts, sempre originais com linguagem por vezes "peculiar" (risos), gosto da tua postura na análise, seja da situação ou da oposição e vice-versa a oposição de hoje pode se tornar a situação na próxima e assim por diante.

Pelo que entendi considerou as condenações de Dirceu descabidas (se não for me corrija), tenho enormes dificuldades em conceber a inocência de alguém que foi condenado com votos de Marco Aurélio e Celso de Melo (STF), para mim ministros da mais alta credibilidade temperança, fora os outros é claro, a condenação da Lava Jato ainda poderá ser revista nas demais instâncias, mas é mais uma a se somar às outras, portanto, a crítica à alguém nessa situação não me parecem equivocadas.

Quanto ao ex-governador, não tenho procuração para defendê-lo, mas me parece elementar que juiz e promotor que já foram representados por uma das partes, com um deles inclusive punido por uma dessas representações, não tenham se declarado impedidos, ou tenham sido substituídos pelo TRE, se é mesmo que justiça quer manter sua credibilidade.

Peço já minhas sinceras escusas, se entendi equivocadamente, apenas quis trazer uma opinião diversa da que me pareceu ser a sua, mas com todo respeito e consideração à sua.

Marcos

douglas da mata disse...

Marcos, o debate sobre stf, marcos aurélio e celso de mello não cabe em espaços pequenos como esse.

Eu vou me socorrer de um exemplo sobre a "sobriedade" de celso de mello, quando às vésperas da eleição do segundo turno presidencial, na leitura de seu voto sobre a sentença de um dos condenados, senão me engano, na questão de embargos infringentes, o juiz protagonizou um canhestro espetáculo de exibicionismo e achismos, com adjetivo citados sob encomenda da ilha de edição do jornal nacional.

celso de mello, me perdoe a franqueza, é um canalha!

Quanto a marco aurélio, suas decisões não enganam a ninguém...faz o tipo do contra-corrente apenas para legitimar suas decisões quando protegem os interesses dos aliados.

E não sou leviano a ponto de dizer que esse fenômeno se resume a eles, nada disso, essa é a essência do judiciário, ou você já viu alguma pessoa com poder presa nesse país, à exceção dos petistas?

Alberto Youssef já está em casa, e com boa parte da grana, apenas porque falou o que era necessário...a parte que falou dos tucanos foi olimpicamente desprezada.

As sentenças da ação 470 foram prolatadas com base em NADA, e não sou eu quem disse, foi a carmen lúcia, que nos informou que condenava não pelas provas, e sim porque a lei a permitia (algo parecido com a "convicção" do fascista dalagnol).

A versão chula da teoria do domínio (do fato) é uma excrescência denunciada por seu próprio formulador, quando esteve no Brasil (Klaus Roxin).

De todo modo, se ler bem o meu texto, verá que ali eu menciono que SE, e apenas SE Dirceu cometeu algum crime, com certeza suas sentenças estão relacionadas muito mais com o papel político que desempenhou do que com alguma punição devida.

Há vastos pareceres, documentos, que dizem, por exemplo, que o dinheiro do fundo VISANET (a base estrutural do "mensalão") nunca poderiam ser considerados verbas públicas, inclusive porque todas as ações que envolviam o fundo lhe colocavam como privado (ou seja, sem as incidências próprias de lides com a fazenda pública).

Quer dizer: se assim considerados, os fundos desviados nunca poderiam ser objeto de ilícitos como corrupção passiva ou ativa, lavagem, etc, mas apenas como fraudes dedicadas ao estelionato ou furto qualificado, cujas penas seriam muitíssimo menores.

Nem vou atacar a desproporcionalidade e a (falta) de isenção quando trataram desses desvios e dos outros partidos pertencentes ao establishment da mídia, como mensalão tucano (alguém lembra que fim levou?) ou o caso do Metrô de SP (o que?).

Quanto ao ex-governador, agora eu vou só me divertir assistindo sua caça...ele consegue fazer com que torçamos pelo carrasco, e seja feita a vontade dele!

São opiniões pessoais apenas: o napoleão da lapa não vale a sujeira da unha do Zé Dirceu, sob nenhum aspecto, seja moral, histórico ou político!

Anônimo disse...

O decano ministro Celso de Mello, aquele que apoiou a falaciosa teoria do fato – que poderia ser intitulada de doutrina da enrolação, da manipulação, da mentira e do princípio do golpe – e participou das estripulias do apelidado mensalão, verdadeiro espetáculo da mídia, esta sim autêntico STF da canalhice, da mentira e das manipulações da opinião pública, conseguiu se superar num discurso "abençoador" do golpe e do golpista.

Anônimo disse...

Quem deita com garotinho amanhece mijado.

Isso que da defender um populista.

douglas da mata disse...

Caro cretino, para escória como você não há, eu compreendo, diferença entre defender direitos a garantias universais (que pelo próprio nome, são de todos, gostemos deles ou não) e defender apenas aquilo e quem nos interessa.

Mas falar de coragem e retidão para um filho da puta anônimo é o mesmo que abaixar para escoicear um quadrúpede asinino (me perdoem os pobres animais pela comparação infame) quando somos atingidos por ele.

Então, zurra, meu filho, zurra...

George Gomes Coutinho disse...

Excelênte exercício analítico em forma de carta fictícia para o ex-desgovernador Douglas...

Embora concorde com vc ao cita Churchill: não duvido da possibilidade de uma ressuscitação. Mas, aguardemos.

douglas da mata disse...

Grato George.

Léo Ferreira disse...

Permita uma correção: Foi Rosa Weber e não Carmen Lucia que disse que condenaria Dirceu, mesmo sem provas, pois a literatura juridica a permitia.