domingo, 10 de julho de 2016

A coisificação das pessoas e a personalização dos objetos.

Um truque manjado dos ideólogos do capitalismo, revelado há muito pelo "Velho", é a constante perturbação da percepção que as pessoas têm de si mesmas, dos outros e de tudo que as cerca.

O conceito da alienação formulado pelo "Velho" nos remete ao processo de desprendimento e despertencimento que as classes mais pobres experimentam quando integradas às diferentes camadas de realização do trabalho e ao mercado de bens e consumo, dando a cada uma uma "cultura própria", geralmente distorcida em relação ao papel que cada qual exerce nessa estrutura...

Não é um conceito tão simplista como eu acabei de descrever, mas em linhas gerais, o mundo experimentou a dramática sofisticação com o advento das mudanças e modernizações no jogo ideológico de manutenção de poder pelas classes dirigentes ao redor do planeta...

É verdade que em Marx o conceito tem um viés predominantemente econômico, mas o marketing apropriou-se dele como ferramenta indispensável na disseminação de ideias...

Por esse motivo, o controle dos meios de produção de informação e conhecimento são cruciais para as elites mundiais...tanto as estatais (onde se destaca a escola), como as para-estatais, nesse caso, com foco principal nas mídias comerciais...

Só o fato da produção e venda de informação ser denominada comercial já revela o caráter de classe que a reveste...O resto deriva disso....

Bem, todo mundo já ouviu falar em deus-mercado, deus-dinheiro ou outros termos caros a propaganda, que dão ao público uma impressão que as coisas têm vida e personalidade, e como tais, merecem nossa "atenção afetiva", que em última instância, nos impede de perceber porque alguns têm mais coisas que os outros...

Brinquedos ou carros que ganham vida (filmes de animação comoToy Story, Carros, etc) são apenas pistas de um martelar lento e perene...

Junte-se nessa receita a culpa, estigmatização, autorreferências distorcidas e preconceitos e voilá, chegamos ao ser humano adulto ocidental: 

Individualista ao mesmo tempo que se expõe ao máximo, conectado mas isolado, sexualmente sobrecarregado de informações, mas conservador, chauvinista e violento, politicamente hipócrita, imerso em um oceano de palavras e textos, mas incapaz de manter a atenção de discernir, dentre outras contradições...

Essas características imprimem nas pessoas um  automatismo semi-consciente, quase um piloto automático, despersonificando e "despessoalizando" o pensar e o conviver em sociedade, transformando gente em colônias, em coisas que andam e falam...

Somos enfim, descartáveis...

Mas como em todo e qualquer processo humano, não há uma lineariedade, e as manifestações são múltiplas, com múltiplas causas e efeitos...

No caso dos confllitos raciais, seja nos EUA, no Brasil, ou nos confins de algum conflito fratricida africano, temos um forte componente de coisificação das pessoas...No entanto, como sempre, a coisificação depende de escalas hierárquicas, que colocam os pretos pobres no último degrau de "utilidade" como coisas...

No caso dos negros, há um ingrediente a mais, ou como gostam os sociólogos, uma dupla clivagem...

Hoje, ao contrário do que acontecia ontem (até o século XIX), a coisificação dos negros não é formal (legal), como na escravidão, mas sim determinada por uma diluição consciente da questão racial em um sistema muito mais engenhoso...

Durante um bom tempo, a tese racista baseava-se em uma percepção visual, ou seja, quanto mais negro, pior o preconceito e menor os direitos...

Com o advento das mobilizações, que resultaram na instalação de dispositivos legais que impedem (ao menos formalmente) a discriminação, os ideólogos da elite enxergaram outras maneiras de manter os "negros em seu lugar", criando a (falsa) noção de que haveria um sistema de oportunidades, dividindo as sociedades em uma dicotomia perversa: 
Ganhadores (winners) e Perdedores (loosers), revestindo o darwinismo racial em conceitos como meritocracia...

Se antes criava-se a desigualdade entre os desiguais dando um chicote ou uma arma na mão de algum negro mais sádico, hoje amliou-se a síndorme do capitão do mato, mesclando-a com a síndrome do Pai Tomás, onde os negros que ascendem enxergam nos seus pares um "bando de preguiçosos", e mais ainda, "marginais"...

Mais ao longe no horizonte, criou-se a percepção de que os problemas da África são a endêmica tendência dos negros a se matarem entre si,] em brigas tribais e étnicas...

Cuidadosamente são escondidas pelas mídias comerciais as origens econômicas dos conflitos, onde aparecem as mãos das corporações transnacionais ávidas por recursos naturais, enquanto posam de socialmente responsáveis e caridosas com os "refugiados"... 

Ou seja: A culpa é dos negros...que agem como "animais", que portanto, não são humanos (são coisas)...

Na África, levas e levas de negros são empurrados para Europa como toneladas de carne preta a caminho do trabalho precário, em condições muito piores das que seus ancestrais experimentaram nos navios negreiros, tudo graças às maravilhas do mundo globalizado atual...

Essa indústria do tráfico, ligada como siamesa aos esforços de produção de bens e consumo chamados legais, terceirizou o trabalho sujo do tráfico de gente a máfias especializadas, lavando as mãos da elite em um misto de cinismo humanitário e a xenofobia declarada (dependendo do viés mais a esquerda ou a direita)...

Ao mesmo tempo, nos EUA e na periferia (Brasil, por exemplo), temos a criminalização de largas faixas populacionais como justificativa para um tratamento desumano e, tanto lá como aqui (aqui muito mais, diga-se) letal...

Se na África são as corporações mudiais que provocam conflitos tribais, étnicos e nacionais desde o século XV, alimentando o fluxo de gente para sustentar o modo de vida europeu e estaduindense, nos EUA e periferia são as elites (brancas) que comandam os aparatos legais, judicias e policiais que atacam, prendem e matam trabalhadores ilegais de marcados ilegais (drogas), sendo eles a ponta de cadeias produtivas comandadas por essas mesmas elites...

Imaginem se o "helipóptero" dos Perrela tivesse sido derrubado com violência policial, ou se a descoberta tivesse ensejado uma invasão armada dos policiais em uma de suas propriedades, com direito a chute na porta, tapa na cara e "sacolada"?

Alguém imagina uma cena de Tropa de Elite rodada na sala do senador, com o capitão Nascimento torturando a esposa ou filha dele para saber onde ele estaria escondido?
Nunca, até porque, não há razão alguma para fugir, não é mesmo?

Pois é...

Não custa lembrar, a demanda por drogas e armas foi artificialmente criada pela CIA, na década de 80, durante a Era Reagan, quando na época havia um estacionamento das estatisticas criminais nos EUA, principalmente com o descréscimo de prisões por comércio, uso e abuso de drogas ...

A CIA usou essas rotas (Colômbia, Panamá e Afeganistão) para financiar seus jogos geopolíticos (IrãGate, Contras, Noriega, Al Qaeda, etc)...

De quebra, os falcões de Reagan deram aos EUA e ao mundo uma nova guerra (War on Drugs) e inimigos externos (colombianos, e agora mexicanos) e internos (negros) que justificassem intevenções, mortes, cassação de direitos e alijamento político de vastas camadas de pobres...

Aí estão as principais causas do aumento da letalidade policial, que têm alvo certo e determinado... 

No fim, somos só coisas, umas mais caras, outras mais baratas, umas mais, outras menos descartáveis...

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