quinta-feira, 16 de junho de 2016

Seleção Brasileira e nosso ufanismo vira-latas...

Todo povo pratica o auto-elogio como forma de legitimar a si mesmo...Os EUA gostam de se imaginar a máquina de guerra mais poderosa do planeta, embora não tenham muitos sucessos militares no currículo, a não ser o DIA D, que só foi possível porque a ex-URSS enfraqueceu Hitler na frente oriental, depois da épica batalha de Stalingrado...

Qualquer curioso das questões bélico-militares sabe que sem a URSS a Europa (e talvez os EUA) falassem alemão hoje em dia...

Mas os estadunidenses construíram e melhor propagaram a versão dos vencedores, e é ela que vale...

Mais ou menos como nossa crença que somos os melhores futebolistas de todo mundo, em todos os tempos, e nossas derrotas são acidentes ou caprichos dos deuses do futebol...

Balela...

Em se tratando de clubes, nosso retrospecto também revela que somos mais crédulos que bons de bola...Só um 62 o Santos teve alguma dimensão internacional, e os jogos com seus rivais não foram "passeios", como gostam de dizer os puxa-sacos da mídia, pagos pelos clubes e jogadores para empurrarem o jabá pelas nossas gargantas abaixo...

Nenhum dos nossos times de "repercussão internacional", nem o São Paulo, nem o Grêmio, ou pior, nem o meu adorado Flamengo, resistiria a uma competição europeia de clubes...

Os "campeonatos mundiais", que começaram como caça-níqueis da Copa Toyota para popularizar o ludopédio no Japão, tiveram finais com times europeus sonolentos e entediados no fim das temporadas...

Nossa história em campeonatos no cone sul é pífia, tanto na Libertadores, quanto na Copa América, onde não confirmamos em vitórias nossa alegada superioridade...

Desculpas temos de monte: Catimba adversária, juízes ladrões, blá, blá, blá...

Em escala mundial só ganhamos algo em 1958, ou seja, vinte e oito anos depois do início da chamada Taça Jules Rimet... E não foi nadinha fácil, pois o jogo com a França teve contornos dramáticos...

No torneio anterior, em 54, fomos massacrados por Puskas e sua máquina húngara...

Em 1950, perdemos para o Uruguai e nossa arrogância, e "esquecemos" que nem tínhamos adversários europeus dignos de nota, porque o velho continente recém saía do seu maior conflito armado, com saldo de quase 60 milhões de mortos e prejuízos incontáveis...

Desnecessário dizer que França, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Holanda, etc, estavam aos cacos, portanto, como imaginar que nos mandassem times decentes?

Em 1962 nossos embates foram duríssimos, e só a genialidade de Garrincha nos salvou do vexame...

Veio 66 e novo vexame frente a exuberância portuguesa, que não se resumia ao duelo Eusébio e Pelé, como gostam de narrar os imbecis da nossa imprensa esportiva tupinambá...

Novamente em 1970 tivemos duelos memoráveis, e o jogo com a Inglaterra foi um divisor de águas...Pegamos a Itália acabada fisicamente, por causa da extensa semi-final, e ainda assim só deslanchamos do meio para o fim, justamente quando o calor mexicano derreteu a Azzurra...

Daí por diante, em 1974, 1978, até 1982, criamos mitos para nosso consumo, e nosso espanto frente a inovação holandesa ou o campeonato "moral" na terra argentina...

Talvez a única seleção que merecesse um título depois de tanto tempo, a de 82, sofreu com a "injustiça" de não ter levado o caneco...

Não havia ali injustiça, e sim nossa eterna incapacidade de dosar e equilibrar um time: Ou somos todo ataque, e volúpia, negligenciando a defesa, ou somos retranqueiros e burocráticos da Era Dunga, que por fina ironia, acaba de dar-nos mais um soluço de vergonha, agora como treinador...

Além do fato, sempre recorrente, de enxergamos sempre os outros como meros coadjuvantes...

Essa postura serve para imbecis do tipo galvão bueno, mas não ajuda no planejamento e execução de táticas e estratégias esportivas...

Os outros dois campeonatos, de 1994 e 2002, podem ser resumidos em dois nomes: Romário e Ronaldo, sem esquecer que o esporte bretão é coletivo, é verdade...

Porém, sem essas duas referências seríamos o Brasil do 7 a 1 contra a Alemanha...

Essa é a diferença crucial que a administração do nosso esporte faz questão de matar, e que sempre nos foi favorável, porque cada país do mundo foi capaz de gerar bons times, ou até timaços, mas poucos produziram jogadores do naipe de Maradona, Garrincha, Zico, Platini, etc...

Todo canto desse país, quando ainda havia várzeas democráticas, e não as famigeradas "escolinhas", pipocava um candidato a gênio da bola...

O Brasil, por inclinação a prática do esporte como símbolo nacional, gera mais jogadores fora-de-série, assim como os EUA o fazem em relação ao basquete, por exemplo...

Porém, ao contrário daquele país, e de tantos outros da elite internacional de qualquer esporte, preferimos sufocar a fonte de talentos, com modelos arcaicos e desnacionalizantes...

Por esse motivo, nossa vantagem competitiva, ao invés de incorpora-se como é, ou seja, uma vantagem, acaba por nos engessar, justamente porque nos devotamos historicamente a crença que isso basta...

Não basta...

Desde que o futebol se internacionalizou e foi oligopolizado como mercadoria (fenômeno que não tem volta), nossa expertise se esvaiu como fumaça...

E simplesmente porque, como em todas as outras esferas onde nos internacionalizamos, o fizemos sempre pela porta dos fundos, sempre como exportadores de matéria-prima barata (nesse caso, a mão-de-obra, os jogadores)...

Não se trata de reivindicar uma volta a ingenuidade perdida (que nunca existiu, sendo outro mito que gostamos de acreditar)...Futebol é lucro...

Lucrar não é pecado, pelo menos não no mundo capitalista, mas nossa visão de lucro é sempre predatória, que sempre nos conduz a uma estranha simbiose entre um ufanismo burro com síndrome de vira-latas...

Um pouco parecido do que acontece hoje com a política...

Quando chegamos ao ponto de decidir que tipo de país queremos ser para nós e para o mundo, empacamos na visão colonizada, no apego ao atalho, na sublimação dos conflitos, e na crença que somos um povo ordeiro, pacífico, cujo destino não chega a um patamar elevado porque...por que mesmo?

Nenhum comentário: