segunda-feira, 6 de junho de 2016

Prata da casa...

Roberto Torres, como eu conheço, é dessa geração de intelectuais campistas que conseguem fazer a ligação com os não-especialistas, traduzindo temas complexos em conceitos fáceis para que nós, os não acadêmicos possamos participar do debate...

Junto a ele outros amigos, como Brand Arenari, UENF (com quem tenho francas, mas honestas discordâncias), o George Coutinho, Fabrício, ambos da UFF, e Vitor Peixoto, também da UENF...

Brand e Torres estiveram recentemente com Jessé de Souza no comando do IPEA, até o desastre do golpe...

Eis que os estudos do Torres, repercutiram no El País, nesse momento difícil da conjuntura brasileira;

Vamos a entrevista:

Eleitorado não é tão conservador quanto se pensa, diz Roberto Dutra

Jornal GGN - Roberto Dutra, professor da Universidade Estadual do norte Fluminense Darcy Ribeiro, analisa a influência da religião na política, principalmente a questão da bancada evangélica no Congresso brasileiro, que tem 75 deputados federais e três senadores. Ele crê que o voto do eleitorado evangélico é motivado, primeiramente, pela questão da moral e dos costumes, mas diz que o eixo do bem estar social - saúde, educação e programas sociais - é determinante do comportamento eleitoral, não só dos neopentecostais como de todas as classes populares.
Dutra crê que o governo interino de Michel Temer deverá usar a questão dos costumes para fidelizar o eleitorado evangélico mais pobre, mas que este grupo tende a se distanciar do governo "na medida em que ele adotar uma política socialmente insensível de redução do gasto social".
Para o professor, a influência da moral e dos costumes é maior nas eleições legislativas, e eleitorado brasileiro não é tão conservador quanto se imagina. "Elegemos um presidente sociólogo, um presidente operário e uma presidenta guerrilheira", afirma. Leia a entrevista  concedia ao El País abaixo:
Do El País
 
Para sociólogo, cresce politização da religião, mas vida prática, e não moral, é fator decisivo no voto
 
André de Oliveira
 
Compõem hoje a maior bancada evangélica da história do Congresso brasileiro 75 deputados federais e três senadores, o que faz com que, cada vez mais, suas posições e acordos tenham relevância no cenário político. Para Roberto Dutra, doutor em sociologia pela Universidade Humboldt de Berlim e professor da Universidade Estadual do norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), o posicionamento dos congressistas, contudo, não deve ser confundido com as convicções doeleitorado evangélico como um todo. Em um momento em que esse grupo político se uniu em torno do impeachment e de teses conservadoras no campo dos costumes, Dutra avalia em entrevista ao EL PAÍS os reflexos da interferência da religião na política e com que olhos os fiéis enxergam isso. Leia abaixo os principais destaques da conversa.
Pergunta. Existem hoje temas específicos que motivam o voto do eleitorado evangélico?
Resposta. São vários temas, mas há dois eixos temáticos que têm se destacado. O primeiro é a questão da moral e dos costumes que, contudo, até agora foi determinante apenas em eleições legislativas. Isso não quer dizer que essa temática não possa se tornar central em algum momento nas executivas, mas, por enquanto, ela depende muito mais da instrumentalização política que líderes de perfil religioso têm feito dela. Falar de costumes tem atraído um eleitorado, mas o que realmente explica as motivações do comportamento eleitoral, não só dos evangélicos, mas de todas as classes populares – considerando aí que a maior parte dos evangélicos pertence às classes populares – é o eixo do bem estar social. A preocupação é muito mais prática: saúde, educação e programas sociais.
P. A bancada evangélica votou pelo impeachment de Dilma Rousseff e tem expressado apoio a Michel Temer. Essa adesão é transferível ao eleitorado evangélico?
R. É difícil fazer uma previsão, mas eu acredito que há uma tendência do Governo Temer tentar usar a pauta dos costumes para fidelizar esse eleitorado evangélico mais pobre, que, contudo, tende a se distanciar dele na medida em que ele adotar uma política socialmente insensível de redução do gasto social. Nós não podemos pegar um momento como esse, em que a grande polarização ideológica e cultural leva a um fortalecimento da pauta dos costumes, e projetar isso no comportamento eleitoral das eleições deste ano ou de 2018. O voto religioso é circunstancial e muito mais presente nas eleições legislativas do que nas executivas. Por isso, eu acredito que se o Governo Temer não for capaz de fazer uma política social minimamente satisfatória do ponto de vista dessa população, ele não vai conseguir o apoio dela.
P. E por que o discurso moralista de políticos religiosos perde força nas eleições majoritárias?
R. Por razões próprias da política. Você consegue angariar um número grande de votos para eleger um deputado como o Bolsonaro, fazê-lo o mais votado. Mas na eleição do executivo, a maior parte do eleitorado não vota por religião e é também alimentada com informações que servem para descredenciar o perfil religioso do candidato religioso. Foi o caso do Marcelo Crivella (PRB), que perdeu a eleição para Governador do Rio de Janeiro de forma avassaladora para o Luiz Fernando Pezão (PMDB). No final, a vinculação do Crivella à Igreja Universal do Reino de Deus atrapalhou. Tanto é que dizem por aí que o Crivella está pensando em se desvincular do PRB, aderindo a um partido não religioso. Ao contrário do que se pensa, o eleitorado brasileiro tem bom senso. Elegemos um presidente sociólogo, um presidente operário e uma presidenta guerrilheira. É um eleitorado que não é tão conservador como se imagina.
P. De qualquer jeito, a bancada evangélica tem crescido em número e importância nos últimos anos. O que explica o crescimento?
R. A extrema facilidade com que os líderes religiosos pentecostais lidam com as regras da política. É a capacidade dos evangélicos buscarem a vida política através do pragmatismo. O Edir Macedo, por exemplo, apoiou o Governo Dilma até recentemente. Se acontecesse uma improvável volta de Dilma daqui alguns meses, não tenho dúvidas de que ele estaria pronto para apoiá-la novamente. Também é importante dizer que é um equívoco falar em coesão da bancada religiosa. A Igreja Universal, por exemplo, tem uma estratégia de atuação parlamentar bem diferente da Assembleia de Deus. Só há união em momentos específicos, como agora.
P. E não há interferência direta de algumas igrejas no processo eleitoral?
R. Hoje há, de fato, igrejas aparelhadas. São verdadeiras redes que grandes líderes políticos, como Eduardo Cunha, oferecem como recurso político para outros líderes. O que vemos é que o púlpito tem fidelizado muito para o legislativo. Mas a curiosidade é que, do ponto de vista programático, o repertório do sucesso das eleições legislativas dos evangélicos é um repertório corporativo. É mais algo do tipo “vote no deputado porque ele vai defender nossa igreja” e menos “vote no deputado porque ele é contra o aborto”. Costume e moral não são os fatos predominantes para explicar o voto. É muito mais o sentimento de corpo mesmo, que é instrumentalizado pelos pastores. Então, o que eu arrisco dizer é que existe, sim, um crescimento grande da instrumentalização política das igrejas, mas isso não é uma garantia de votos e pode, em determinado momento, virar até motivo de debandada de fiéis.
P. Por quê?
R. Ser evangélico não é pré-requisito de voto para o eleitorado evangélico. As pessoas observam aquilo que a mídia fala delas, a imagem que é projetada sobre elas. Ficam preocupadas com a interferência de líderes evangélicos na política. Se há um movimento crescente de transformação das igrejas em curral eleitoral, por outro lado, aumenta o sentimento de muitos fiéis de que eles estão sendo feitos de palhaços pelo pastor. E ao mesmo tempo em que aumenta a politização conservadora da religião, aumenta também o sentimento de que a fé das pessoas está sendo manipulada por interesses próprios. E aí a concorrência religiosa é fatal. O Brasil está em plena modernidade religiosa. Caso esse sentimento dos fiéis aumente, pode surgir uma variável de dinamização do próprio mercado religioso.
P. Você identifica em algum grupo específico esse olhar mais crítico?
R. Talvez nos jovens. Hoje há uma geração de jovens que já pode ser chamada de “evangélicos não praticantes”. Uma coisa é você ser convertido para uma religião evangélica, outra é você nascer nessa cultura. Aí é natural que você olhe de modo mais distanciado. De qualquer jeito, é importante não confundir os líderes políticos que têm um perfil religioso – ou seja, líderes políticos que tem na religião um recurso de poder e mobilização eleitoral – com as formas de comportamento, consciência e visão de mundo dos evangélicos como um todo. Além disso, apesar de óbvio, é necessário dizer que os evangélicos também são heterogêneos. De modo que há na classe média brasileira intelectualizada e, inclusive, de esquerda, um preconceito muito grande contra os evangélicos. Há a premissa de que eles são burros, que eles não sabem olhar com distanciamento a pauta política do Feliciano, do Malafaia, do Pastor Everaldo, do Bolsonaro.
P. E como esse distanciamento da esquerda aparece de forma prática?
R. Ela não consegue ver a possibilidade de disputar a fidelidade eleitoral e ideológica desse público. Dou o exemplo mais forte. Um tema central na vida cotidiana dos evangélicos é a família, mas a esquerda taxa isso de puro conservadorismo. A única alternativa política que tem tematizado o tema da família é – em uma democracia como a nossa, e eu diria que em várias outras também – a da direita. Ou seja, é justamente quem fala para os evangélicos: a família corre risco porque os homossexuais, a ideologia de gênero e os “esquerdopatas” estão ameaçando ela. Sem outra explicação, muitas vezes o indivíduo aceita essa mesma. Assim, a identificação dos evangélicos com a pauta política de seus líderes vem em alguns casos por pura falta de alternativa e compreensão dos setores ditos mais esclarecidos da sociedade que não conseguem compreender que o tema da família não é necessariamente conservador.
P. E por que esse tema tem tanto apelo?
R. Por razões de classe social. Os evangélicos se dividem, basicamente, em dois tipos de classe, que eu e o grupo de pesquisadores em torno do sociólogo Jessé Souza, costumamos dividir como ralé estrutural e batalhadores. O primeiro é um público completamente excluído das principais instituições da sociedade. Em geral, eles frequentam igrejas evangélicas que funcionam como uma espécie de pronto socorro espiritual. O segundo grupo tem uma vida familiar e social mais estável, com vínculos sociais mais fortes. Há uma proteção e solidariedade com que a ralé não conta. Para os dois públicos, contudo, a ameaça familiar é uma ameaça real e constante, seja por fatores econômicos, de alcoolismo ou de desestabilização social, como a falta de uma moradia decente. São problemas que as classes populares e excluídas enfrentam no mundo inteiro. Ora, só vai considerar o tema da família conservador quem não vê no abandono um problema cotidiano. Em resumo, os evangélicos agem muito mais por interesses práticos e que podem tomar rumos muito variados, de acordo com os partidos políticos que interpretam esses interesses práticos, do que propriamente por convicções conservadoras. Convicções que eles podem até ter, mas que não são tão claras e fortes como se imagina.
P. Mas onde entram as classes mais altas evangélicas nessa separação que você colocou?
R. Elas constituem um público mais tradicional, não pertencente historicamente às classes hegemônicas católicas brasileiras, que em geral faz parte das chamadas igrejas protestantes históricas ou de missão, como as igrejas Batista e Presbiteriana que, embora tenham copiado muitos dos ritos e das ideias das pentecostais, como Universal e Assembleia de Deus, mantêm um estilo, digamos, mais sóbrio. O público é formado por uma classe média ascendente com um determinado padrão de formação escolar e nível de renda mais estável. Mas esse é um público minoritário entre os evangélicos.
P. Pode resumir a diferença entre o protestantismo “clássico” e o pentecostalismo?
R. Ele é uma revolução protestante dentro da revolução protestante e surge na Igreja Metodista Wesleyana. John Wesley é um dos grandes fundadores do pentecostalismo, mas outros líderes menores popularizam ainda mais essa religião entre os negros dos EUA no final do século 19, início do 20. Ela se caracteriza por uma crença, muito grande, na força de Deus para mudar as coisas cotidianas. É o que podemos chamar de uma religiosidade mágica. No Brasil, isso chega em 1910, mas é só a partir da década de 1960, com a urbanização da pobreza, que o protestantismo brasileiro vai tomando a cara do pentecostalismo. Qual é a diferença básica? É que o protestantismo clássico não enfatiza tanto a presença cotidiana do espírito santo para resolver os problemas cotidianos das pessoas. O protestante batista não espera que Deus vá ajuda-lo a passar em um concurso público, já um pentecostal crê nisso. O pentecostalismo é mais popular que o protestantismo clássico. Por isso, com o tempo, vai virando a religião dos excluídos. Disso que nós denominamos ralé estrutural. É uma religião que oferece valor social para os excluídos: Deus tem um projeto para sua vida, você vale alguma coisa.
P. Você disse que existe um preconceito de setores progressistas com os evangélicos. Há uma crítica de que o PT se afastou dos mais pobres nos últimos anos, perdendo espaço para as igrejas. Você concorda com essa avaliação?
R. Acredito que é uma explicação muito reducionista. Eu concordo que o PT se distanciou dos pobres, mas o que significa isso? O PT certamente não se distanciou dos pobres no sentido de fazer políticas sociais para os pobres. No entanto, o PT se distanciou culturalmente dos pobres. O PT é informado por uma visão de esquerda de que os pobres devem seguir um modelo de ser e agir que vem dos moldes dos sindicatos. Os pobres devem ser coletivistas. Os pobres devem se enquadrar em um viés de solidarismo anti-individualista. Toda vez que o PT encontra a valorização do indivíduo, a valorização da autonomia do indivíduo frente às intempéries da vida, que, em resumo, é a pregação cotidiana das igrejas pentecostais, o PT aponta o dedo acusatório: “É a pregação do individualismo, é a pregação do neoliberalismo dentro das igrejas”. O PT não entende essa filosofia liberal popular e nem o valor moral do individualismo que está por trás dela.
P. O que você quer dizer com “valor moral do individualismo”?
R. É a ideia de que para ser alguém valoroso na sociedade é preciso ser um indivíduo respeitado em sua privacidade, em seu projeto de vida. De modo que há, de forma muito presente nas igrejas, essa cultura da valorização da iniciativa individual. E isso não significa a negação da solidariedade. Acredito que há uma cegueira do PT em compreender a alma e a cultura dessa nova classe trabalhadora que não é formada no sindicato e que hoje é a maior parte dos brasileiros pobres e remediados do país. Esse é o distanciamento que existe, mas ele não é exclusivo do PT. A esquerda de forma geral não entendeu que o sonho dessa nova classe trabalhadora é, muitas vezes, ter uma empresa própria, ser um empreendedor. Há muitas semelhanças com a população dos EUA, por exemplo. É um liberalismo popular que não é, necessariamente, conservador. Hoje, esses ideais liberais de autonomia e afirmação do indivíduo estão em disputa e os conservadores têm conseguido capturá-los com mais eficiência.

7 comentários:

Roberto Torres disse...

Obrigado pela divulgação e pela generosidade meu caro

Carlos disse...

Muito bom texto. Essa é uma visão moderna e atual.

Anônimo disse...


Muito interessante essa visão clara de "um olhar da esquerda sobre o evangélico".

O maior problema da esquerda é que ela não conhece a Bíblia. E o maior entrave da direita, é que muitas vezes ela distorce a Bíblia, fazendo leitura para seus próprios "interesses".

Querendo ou não, aceitando ou não, concordando ou não, o mundo jaz no mal. E ninguém quer ser "o mal" como ninguém se acha "do mal". O errado é o "outro".

A questão da religião evangélica é muito mais uma questão de "se saber quem é" do que ser ou não ser pentecostal, ser ou não ser tradicional. Ser evangélico antigamente era quase ser um debilóide! Um tapado! Havia nas escolas uma zoeira aos "crentes" que hoje isso passa muito longe, pois é difícil não ter numa sala de aula, uma dúzia de "crentes"... muitos deles não tão crentes assim... rsrs

A Literatura Evangélica é riquíssima. Bem ou mal as leituras são buscadas o que faz com que os evangélicos sejam mais antenados. Existem blogues evangélicos de direita e esquerda. Mas agora com essa esquerda sendo mal vista, a direita ( muitas vezes bem "errada", diga-se de passagem) buscando encontrar o absoluto perdido dá de cara com as verdades implícitas no coletivo. Todos nós em família, queremos o que é certo, o que é direito, o que não faz sofrer, o que não traz traumas, o que não deixa marcas. É ou não é? Todos queremos ser felizes!

O "relativismo" está sendo confrontado na Lava Jato. O relativismo deixa as pessoas inseguras. Um aluno me disse que faz de conta que é relativista para que seus professores ( esquerdistas) não o deixem na geladeira. E que os colegas também fazem o mesmo. Que esquerdista é baderneiro, quer ver circo pegar fogo, etc, etc...

E muitos evangélicos reclamam de que só podem ter posições de esquerda nas leituras que fazem. Que se tiver uma postura do absoluto é tido como fundamentalista, retrógada de direita!

São discriminados.

Mas como crescem!
Hoje vejo que isso cresce muito. Como professor vejo claramente que os alunos evangélicos que levam sua religião a sério, são os melhores alunos, brilhantes, pessoas de bons relacionamentos.

Procurem observar os que tiram os primeiros lugares nos concursos. Se fizermos uma pesquisa exaustiva, chegaremos a conclusão de que seja Batista, seja Presbiteriano, Seja Pentecostal, Carismático, etc, muitos deles estão chegando lá! Eles tem todas as leituras, leituras essas que nos faltam a nós, preconceituosos a ponto de muitas vezes baixarmos o barraco ao perder a paciência com as retóricas deles. Né não?

Uma

douglas da mata disse...

De trás para frente:

Não há nenhuma comprovação de que evangélicos, ou os que reivindicam uma filiação a alguma religião pentecostal, sejam os melhores alunos ou mais bem sucedidos em certames públicos.

Seria bom pesquisar, como você disse, mas é bom um alerta:
Quantificar resultados em ensino é sempre um perigo, porque afinal, o que define um bom aluno?
Como definir um bom aluno em ambientes de ensino horríveis, como é a nossa rede escolar (privada e pública)?

Não há dúvida que a prática de uma religião pode dar uma disciplina que reflita em outras esferas do convívio, eu concordo. Mas isso não é tudo.

Se o cara não bebe, não fuma, não cheira, rejeita práticas sociais violentas, e está sempre junto a um grupo que lhe diz que deus quer que ele seja bem sucedido (a base da dogmática evangélica), o resultado pode sim, ser um sucesso econômico e conforto. Mas é esse o objetivo final da escola? Formar trabalhadores educados e domesticados?

Não conheço blogs evangélicos de "esquerda", e até gostaria que a (o) comentarista nos indicasse algum.

Acho prematuro determinar que evangélicos são "mais antenados".

Creio que eles têm um foco determinado (a religião), e por mais que pareça confortável para um professor (a) lidar com esses indivíduos "focados", é bom lembrar que a escola não é espaço para confirmar tais "focos" ou tais certezas, escola é espaço laico, de debate, de dúvida, ou pelo menos, deveria ser.

Mas como a escola como instituição vem desmoronando (por vários fatores, mas principalmente, pelo desmonte neoliberal), os profissionais de ensino preferem lidar com os alunos "focados", permitindo até que as "certezas" evangélicas sejam consideradas como "literatura riquíssima", porque, no fim das contas, tais alunos acabam por cumprir a tarefa "pedagógica" que lhes é transmitida: absorver conteúdo goela adentro sem questionar nada.

É mais ou menos a preocupação do pesquisador:

Perquirir esse caldo ideológico, afastando compreensões definitivas, pois não há um senso evangélico único e coeso, monolítico, como em todos os outros estratos sociais.

Para questões de políticas públicas de proteção estatal, evangélicos, assim como outras parcelas da sociedade, tendem a preferir modelos progressistas, enquanto escolhem parlamentares que irão ter influência nas questões morais (aborto, drogas, definições legais de família, etc).

Quanto a alunos e comportamento, tenho outros relatos:

Professores se queixam de que os alunos "evangélicos" tentam impor sua agenda, agindo com extrema intolerância frente a conteúdos e debates laicos, inclusive com presença de pais protestando contra aquilo que acham "indevido", leia-se:

- Temas sobre sexualidade, evolucionismo (biologia), aborto, etc.

Geralmente alunos com militância religiosa mais acirrada (não excluindo os católicos, que são mais raros, é verdade) refutam filmes e dinâmicas de grupo com abordagens que enfrentem seus dogmas.

E isso é grave, muito grave.

Por isso me preocupa muito seu comentário.

Se há alguma virtude nas chamadas leituras bíblicas é só o desenvolvimento de um hábito de leitura.

Não há NADA, repito, NADA de conteúdo religioso que seja relevante para um ambiente escolar laico.

Enfim, ser "bom aluno", ou "ter sucesso", não deveriam ser as únicas preocupações da escola.

Veja só, estudantes de medicina em geral são considerados bons alunos, e têm uma boa chance de sucesso econômico, mas concentram uma carga de conservadorismo lamentável, que chega ao ponto de termos uma turma de formandos da FMC homenageando o fascista bolsonaro, e por ironia, ele se aproxima da agenda evangélica como poucos.

De todo modo, a questão levantada por você merece debates mais aprofundados.

Grato pela participação.

Anônimo disse...


Obrigado, Douglas, e gostaria, se me permite, fazer umas considerações. Não querendo com isso, provar nada e muito menos zerar esse diálogo. Mas tenho pensado muito sobre o que a gente, "esquerda culta", pensa ser "Estado Laico". Ora, sabemos que a Cultura Afro é uma religião espiritual. E os evangélicos nos questionam sobre isso e sabem do que estão falando.
Você diz:
"é bom lembrar que a escola não é espaço para confirmar tais "focos" ou tais certezas, escola é espaço laico, de debate, de dúvida, ou pelo menos, deveria ser."

Também concordo com você que Escola é debate de dúvidas. Mas por quê não permitimos - eu não permito, ok? Já está no nosso sangue...rsrs - que se "pense" criacionismo? Ora, se escola é espaço, debate de dúvida, e deveria ser, por que nós somos tão "arrazoadores" deste tema que poderia muito bem entrar no currículo para que nós provássemos que é furada?
Uma pergunta me faço: È furada mesmo! Ou não posso me permitir essa dúvida sadia?

Estamos, e penso que estou, muito atrasados nisso. Eles estão avançando. Só não estão mais porque não permitimos saber de seus avanços. E se não adentramos neste mundo pensamos que não existe, Tenho conversado, sem preconceito, por causa de minhas angústias mesmo, com alunos inteligentes que sabem o que estão falando. E me dão cada link de leituras de tirar o meu fôlego e me sinto com tapa na cara. Estou aqui e só tenho coragem anonimamente, sabia? Mas estou sendo sincero. Nós da esquerda somos soberbos demais para nos permitir o tal debate que você sugeriria numa Escola, mas que não aceitaria, como muitas vezes, eu não aceito, cara! Falemos a verdade! Só aceitamos o debate de uma nota só. Da esquerda. E não falo aqui de Religião, de Criador. Não. Mas do tal de Design Inteligente por causa da Origem da Informação. É uma Leitura Inteligente sim. Não dei a mão a palmatória por causa do meu orgulho. E talvez, quem sabe, medo também de ficar "de lado" em relação aos meus colegas também de esquerda. Mas por causa desses estudantes mais ousados, que não engolem qualquer coisa e tem fundamento, o meu debate com alguns tem sido fora do contexto sala de aula. Li que é preciso mais fé para crer num evolucionismo do que num ato criador intencional. Li alguma literatura DE PESO. E sei, que não entra nas Escolas porque a esquerda ( como eu) não deixa. Sabia?

Anônimo disse...

Anônimo.

Douglas, qual seria, para você, o papel da Escola? Você acha que ela vem desmoronando? Ora, mais de 10 anos de Esquerda. Como assim "Vem desmoronando"?

E qual foi o tempo que a Escola esteve de Pé? há 30, 40, 50 anos atrás? Só vem desmoronando o que um dia esteve em pé.

douglas da mata disse...

Ao "professor angustiado":

Gostaria que indicasse as tais literaturas de "tirar o fôlego", ou os links interessantes. Não posso opinar sem conhecer a informação que você traz.

A respeito do criacionismo:

Eu imagino que o debate sobre criação do Universo, e de todas as coisas, ou o chamado "design inteligente" não sobrevivam a dois minutos de discussão, mas concordo que nenhum debate deve ficar de fora, mas com a preocupação constante de afastar qualquer tipo de instrumentalização, ou seja, nem imagino que o debate sirva a conversão a alguma denominação religiosa, ou, por outro lado, convencer as pessoas a aderirem ao ateísmo.

No entanto, é preciso não esquecer que a Escola não é um espaço para privilegiar temas privados (fé, religião), e sim para aprofundar debates e preocupações (dúvidas) acadêmicas.

Nesse sentido, o criacionismo SÓ poderá ser debatido com essa lógica (acadêmica)e nunca por um viés religioso, porque fé não se discute, pois ou se crê (se tem fé) ou se duvida (ou não tem fé)...

Pode sim haver alguma soberba do pensamento progressista, mas não podemos renunciar ao fato de que todos os avanços da Humanidade, seja no campo social, seja no campo econômico ou científico, só aconteceram por desafio a ordem imposta e ao status quo conservador.

Religião é conservação, é dogma (verdade absoluta), é crença (o contrário da dúvida), por isso tanta dificuldade em lidar com esses aspectos, porque, na minha opinião, eles nem deveriam ser tratados além da esfera individual e familiar (privada) de cada um.

Os conflitos temporais advêm da necessidade das religões em se afirmar como normatizadoras de TODOS os aspectos da convivência, inclusive com interferência legislativa, como o texto mencionou.

Uai, nós ateus temos o direito de um Estado que não tenha regras baseadas em nenhuma fé, como a questão do aborto com união homoafetiva. E esse direito nos foi usurpado, justamente com um argumento que você defende, do direito da religião estar em instâncias da sociedade (Escola, Parlamento) que nunca deveriam estar.

A ideia central de qualquer religião, por mais que digam o contrário, é não tolerar outra verdade senão a que é professada por ela (intolerância). O extremismo é só uma deformação de um conceito (intolerância) que é inerente às religiões, meu caro.

Por isso temos que ter cuidado. Boas intenções enchem o inferno.

Ao outro:

Ciclos educacionais não duram dez anos. São estruturas que se movem em 20, 30, 40 anos.

Concordo em um ponto: De verdade, não desmoronamento, pois a escola sempre serviu a poucos (a elite) e quando foi universalizada, apenas espalhou precariedade, e nunca foi pensada como um instrumento público de inclusão.

A esquerda que esteve no poder avançou bastante, e só cretinos negam: Mais vagas nas escolas técnicas, mais universidades e aumento do investimento na escola básica, através dos repasses constitucionais.

Infelizmente, esse ciclo que se inaugurou faz dez ou doze anos, foi interrompido sem amadurecer e trazer frutos, e caminha para o retrocesso.

Outra completa cretinice é colocar TODA a responsabilidade no governo federal, quando sabemos que os estágios básico e fundamentais (os mais importantes) são geridos por estados e municípios, cabendo a Brasília responsabilidade apenas subsidiária na execução das políticas públicas de educação, como manda a CRFB/88.

Porém, não há como negar que a esquerda, como nenhuma outra orientação ideológica faria, muito menos a direita, conseguiu solucionar TODOS os problemas, até porque, como sabemos os governos de esquerda foram cuidadosamente encurralados por sua "base aliada", que agora tomou coragem e foi ao golpe.

Essa questão é complicada e ao mesmo tempo simples, pois basta perguntar:

A quem serve o Estado e quem se serve dele?