segunda-feira, 27 de junho de 2016

Polícia (civil): Só colhemos o que foi plantado...

Tenho pouco mais de 13 anos na Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. Não tenho o que comemorar...

Desde o princípio percebi que nossa missão era uma só: Proteger quem tem grana, funcionando como uma espécie de guarda pretoriana...

Claro que houve momentos excepcionais, onde ousamos investigar quem ocupava os escalões mais altos da pirâmide social...

Infelizmente, quase sempre esbarramos na "proteção" oferecida pelo Judiciário, tanto é verdade que um censo em nossas cadeias revelaria que os que ganham mais de dez salários mínimos e têm terceiro grau "nunca" cometeram crime algum, salvo se for petista...

É verdade que os cadernos policiais, chamados de inquéritos, são falhos e pouco eficientes, mas isso não é só coincidência ou uma omissão individual, mas um sistema forjado e preparado para funcionar desse jeito...

Em suma: Rico não vai para cadeia porque o Judiciário rejeita o trabalho imperfeito da Polícia, mas sim porque o trabalho é imperfeito para rico não ir para lá...

Quando querem, e/ou há interesse, Polícia e Judiciário trabalham em perfeita harmonia...

Querem um exemplo: Caso Patrícia Accioly, juíza assassinada por policiais militares descontentes com sua atuação...Pouco mais de um ano, todos envolvidos presos e julgados pelo Júri...

Recorde até para a polícia de Chicago P.D. ou a L.A.P.D. (Los Angeles)...

São anos desde 1988, quando o MP passou a agir como fiscal ativo da ação policial...Uai, se a polícia permanece como sempre foi, não seria o caso de fiscalizar os fiscalizadores?

Por outro lado, refuto a ideia de uma polícia como atua hoje como a polícia tucana federal, milícia a soldo de uma parcela endinheirada, selecionando alvos e agindo partidariamente contra um projeto específico de poder, enquanto faz ouvidos de mercador para outros grupos e seus delitos...


O desafio de estruturar uma polícia mais próximo da ação universal e impessoal é mundial...Assim como rimar Democracia e Capitalismo é impossível, também é impossível nomear uma polícia de "cidadã"...Polícia seletiva não é um problema só nosso, diga-se...

Polícia-cidadã não existe, e não passa de tolice para agradar a hipocrisia da elite, da mídia e autoridades, que servem às duas primeiras...

Em Londres, faz alguns anos, descobriu-se que a famosíssima Scotland Yard e a Metropol agiam como braços do esquema de negócios e de poder de Rupert Murdoch, magnata das comunicações, e do Partido Conservador...Uma severíssima apuração (Inquérito Levenson) mandou diretores do grupo de mídia para cadeia, expulsou policiais, e mandou parar a publicação de tablóides sensacionalistas...

A polícia nos EUA já nos brindou com atos de selvageria racistas, o mais famoso deles o de Rodney King, em L.A., que resultou em uma escalada de fúria e violência pelas ruas...

Caso semelhante deu-se em Paris, quando garotos pobres, de origem africana, foram perseguidos pela Gendarmerie em um bairro da periferia da cidade, ação que culminou com a morte de um deles, eletrocutado quando tentava se esconder...
Semanas de ataques na Cidade Luz...

Ou seja, não importa a latitude, nós existimos para proteger o Estado, e o Estado é propriedade dos proprietários (gente rica)...

No entanto, há momentos que a sociedade acumula um capital político que permite a mudança de alguns paradigmas...

Quando diminuem as desigualdades sociais, após certo tempo, atores ignorados e silentes na cena social passam a vocalizar suas insatisfações, provocando nos órgãos públicos algum sopro de modernização ou de isonomização de tratamento...

No Brasil, esse processo acaba de ser interrompido...

Ao contrário do que imaginam alguns colegas meus, o poder da polícia não vem do medo que é infringido aos mais fracos em nome dos interesses dos mais ricos...

Não haverá solidariedade ao sofrimento dos policiais enquanto crimes onde morrem brancos e bem nascidos forem resolvidos em poucas horas, enquanto homicídios de pobres e pretos mofem em volumes empoeirados em alguma sala esquecida...

Nossa força seria o apoio dessa gente (pobre), e não dos ricos, que parasitam o Orçamento Público, sorvem incentivos e agrados fiscais, e depois se escondem em condomínios e carros blindados...

O cidadão pobre tem muito menos a perder, até porque já não conta com quase nenhuma segurança em seus bairros, que os ricos e bem nascidos...

Sendo assim, quando começarmos a reivindicar o que  nos é de direito, só receberemos dos ricos, e da mídia que lhes serve, as chicotadas da reprovação enfurecida...

Enquanto agirmos como lacaios ou reservoir dogs dos ricos, seremos tratados como tais...

Espremidos entre o desprezo dos pobres e a indiferença dos ricos..

5 comentários:

Anônimo disse...

Quem exerce carreira de Estado precisa de prerrogativas que se prestem à garantia de independência. Não seria essa uma boa estratégia para a Polícia Civil?

Anônimo disse...

Sai da polícia e vai para a política. A vera!

douglas da mata disse...

Ao primeiro comentarista:

Não, não é "independência" decorrente de prerrogativas. Em todo lugar do mundo, o caminho é o inverso:

Policiais, juízes e promotores estão cada vez mais agregados ao poder originário, prestando contas a população e aos conselhos comunitários.

Nos EUA, o Procurador-Geral (chefe do Ministério Público) é ao mesmo tempo Secretário de Justiça (o nosso equivalente a ministro), chefe do FBI, e nomeado pelo Presidente da República.

Juízes em alguns condados estadunidenses são indicados dentre os de notório saber e vida ilibada.

Os de segunda instância, em alguns estados, como o Wisconsin, são eleitos.

Promotores-chefes das promotorias são igualmente eleitos, assim como os chefes de polícia, em alguns casos.

Em outros casos, os chefes de polícia são indicados pelo prefeito.

Ou seja, a autonomia não decorre de uma prerrogativa funcional, mas da noção de que deverá servir ao público, ainda que politicamente vinculado a esse ou aquele mandatário.

Claro que isso nem sempre funciona, e haverá sempre as partidarizações, mas ao menos é menos hipócrita, e possibilita o controle dos cargos pela população e a alternância necessária.

A população olha e diz: "Ah, esse procurador, esse chefe de polícia age em nome desse ou daquele, e se ele faz um trabalho ruim, penalizamos sua facção política".

Aqui, sob o manto da falsa neutralidade, há a partidarização e a população não consegue enxergar (ou não quer) essas manipulações.

A balela da tal "independência", transformamou Judiciário e Parquet em castelos de marfim, onde a arrogância dos juízes e promotores os impele a censurar até quem divulga seus salários astronômicos, enquanto eles vomitam teses moralistas para o restante.

O abuso de poder por um poder eleito é nefasto, mas muito mais fatal a Democracia é o abuso dos poderes não-eleitos.

O que precisa ocorrer é uma mudança estrutural profunda, desde a legislação e previsão constitucional das atribuições policiais, como um estudo sério sobre o fim dessa aberração que separa polícias em militar e civil, desde a carreira única policial, para acabar com outra aberração, a carreira isolada de delegados, que coloca pessoas sem a menor experiência e/ou vivência no comando de policiais com 20, 25 anos de serviços que por sua vez são totalmente ignorados pela ausência de perspectiva de chegar ao topo de sua carreira.

Por outro lado, precisamos de um debate profundo e sem preconceitos sobre a idiotice de manter uma lei anti-drogas que não traz resultado algum, senão mortes e gastos orçamentários gigantescos, para benefício de empresários do setor e políticos que acumulam capital político com o discurso de um combate que sabem ser impossível...

É preciso aumentar o controle democrático e popular sobre a polícia, mas também sobre judiciário e ministério público, por que afinal, quem fiscaliza os fiscalizadores?

É tema extenso, mas que tem que ser enfrentado em algum momento, senão ficaremos apagando incêndios.

A postura policial também deve mudar, e passar a entender o seu papel, afastando a sabujice de lamber ovo de gente rica.

Anônimo disse...

Excelente texto! Ótimas ideias! Parabéns, Douglas!

douglas da mata disse...

Grato pela generosidade.