quinta-feira, 30 de junho de 2016

Servidor público do ERJ: É melhor pedir que roubar...

Vocês passageiros desse pequeno blog, eu peço-lhes atenção...

Nós podíamos estar matando, roubando e nos prostituindo, mas viemos aqui pedir a contribuição dos senhores e das senhoras para que possamos pagar nossas contas no fim do mês...

Não estamos vendendo nada, até porque não tínhamos dinheiro para comprar nem um saco de balas sequer...

Aceitamos serviços, como jardinagem, faxina, lavagem de carros ou limpeza de caixa de gordura...

Pedimos desesperadamente, porque o dinheiro que nos é devido foi dado de lambuja para empresários-amigos...

Mostramos aos senhores e senhoras nosso atestado de pobreza, nossos contra-cheques...

Por favor, qualquer ajuda é bem vinda...


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Polícia (civil): Só colhemos o que foi plantado...

Tenho pouco mais de 13 anos na Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. Não tenho o que comemorar...

Desde o princípio percebi que nossa missão era uma só: Proteger quem tem grana, funcionando como uma espécie de guarda pretoriana...

Claro que houve momentos excepcionais, onde ousamos investigar quem ocupava os escalões mais altos da pirâmide social...

Infelizmente, quase sempre esbarramos na "proteção" oferecida pelo Judiciário, tanto é verdade que um censo em nossas cadeias revelaria que os que ganham mais de dez salários mínimos e têm terceiro grau "nunca" cometeram crime algum, salvo se for petista...

É verdade que os cadernos policiais, chamados de inquéritos, são falhos e pouco eficientes, mas isso não é só coincidência ou uma omissão individual, mas um sistema forjado e preparado para funcionar desse jeito...

Em suma: Rico não vai para cadeia porque o Judiciário rejeita o trabalho imperfeito da Polícia, mas sim porque o trabalho é imperfeito para rico não ir para lá...

Quando querem, e/ou há interesse, Polícia e Judiciário trabalham em perfeita harmonia...

Querem um exemplo: Caso Patrícia Accioly, juíza assassinada por policiais militares descontentes com sua atuação...Pouco mais de um ano, todos envolvidos presos e julgados pelo Júri...

Recorde até para a polícia de Chicago P.D. ou a L.A.P.D. (Los Angeles)...

São anos desde 1988, quando o MP passou a agir como fiscal ativo da ação policial...Uai, se a polícia permanece como sempre foi, não seria o caso de fiscalizar os fiscalizadores?

Por outro lado, refuto a ideia de uma polícia como atua hoje como a polícia tucana federal, milícia a soldo de uma parcela endinheirada, selecionando alvos e agindo partidariamente contra um projeto específico de poder, enquanto faz ouvidos de mercador para outros grupos e seus delitos...


O desafio de estruturar uma polícia mais próximo da ação universal e impessoal é mundial...Assim como rimar Democracia e Capitalismo é impossível, também é impossível nomear uma polícia de "cidadã"...Polícia seletiva não é um problema só nosso, diga-se...

Polícia-cidadã não existe, e não passa de tolice para agradar a hipocrisia da elite, da mídia e autoridades, que servem às duas primeiras...

Em Londres, faz alguns anos, descobriu-se que a famosíssima Scotland Yard e a Metropol agiam como braços do esquema de negócios e de poder de Rupert Murdoch, magnata das comunicações, e do Partido Conservador...Uma severíssima apuração (Inquérito Levenson) mandou diretores do grupo de mídia para cadeia, expulsou policiais, e mandou parar a publicação de tablóides sensacionalistas...

A polícia nos EUA já nos brindou com atos de selvageria racistas, o mais famoso deles o de Rodney King, em L.A., que resultou em uma escalada de fúria e violência pelas ruas...

Caso semelhante deu-se em Paris, quando garotos pobres, de origem africana, foram perseguidos pela Gendarmerie em um bairro da periferia da cidade, ação que culminou com a morte de um deles, eletrocutado quando tentava se esconder...
Semanas de ataques na Cidade Luz...

Ou seja, não importa a latitude, nós existimos para proteger o Estado, e o Estado é propriedade dos proprietários (gente rica)...

No entanto, há momentos que a sociedade acumula um capital político que permite a mudança de alguns paradigmas...

Quando diminuem as desigualdades sociais, após certo tempo, atores ignorados e silentes na cena social passam a vocalizar suas insatisfações, provocando nos órgãos públicos algum sopro de modernização ou de isonomização de tratamento...

No Brasil, esse processo acaba de ser interrompido...

Ao contrário do que imaginam alguns colegas meus, o poder da polícia não vem do medo que é infringido aos mais fracos em nome dos interesses dos mais ricos...

Não haverá solidariedade ao sofrimento dos policiais enquanto crimes onde morrem brancos e bem nascidos forem resolvidos em poucas horas, enquanto homicídios de pobres e pretos mofem em volumes empoeirados em alguma sala esquecida...

Nossa força seria o apoio dessa gente (pobre), e não dos ricos, que parasitam o Orçamento Público, sorvem incentivos e agrados fiscais, e depois se escondem em condomínios e carros blindados...

O cidadão pobre tem muito menos a perder, até porque já não conta com quase nenhuma segurança em seus bairros, que os ricos e bem nascidos...

Sendo assim, quando começarmos a reivindicar o que  nos é de direito, só receberemos dos ricos, e da mídia que lhes serve, as chicotadas da reprovação enfurecida...

Enquanto agirmos como lacaios ou reservoir dogs dos ricos, seremos tratados como tais...

Espremidos entre o desprezo dos pobres e a indiferença dos ricos..

sábado, 25 de junho de 2016

Rio de Janeiro e o calote nos servidores...

Meus caros colegas servidores, eu sei que o desespero provoca o embaçamento dos sentidos, e dificuldades de enxergar o óbvio...Aliás, essa foi a criminosa tática do atual governo do Estado para nos colocar na defensiva, ou seja: Na perspectiva de ficar sem receber, qualquer migalha é bem-vinda, e ninguém pensaria em questionar ou lutar pela manutenção ou avançar na conquista de direitos...

Crise é uma palavra sob medida no terrorismo-de-gestão praticado por liberais e outros cretinos...

A verdade é que o dinheiro da União e os acordos de renegociação dos "papagaios e penduras" do RJ (e de outros estados) só mudaram o bode de lugar...

E como o bode perigava cheirar mal quando a sala estaria cheia de visitas (Olimpíada), houve o corre-corre para colocá-lo no quintal...

Não se animem, depois da festa, o pau vai entrar com força no rabo dos servidores, sem vinho, sem conversa, nem cuspe...

Afinal, as causas do rombo não foram alteradas, e o nosso estado segue financiando o lucro de empresários com renúncia de receitas fiscais, assim como mantém os pagamentos dos juros à banca...

Então, meus caros, preparem-se...

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Receita de feijoada...

Em uma festa comemorativa de sua empresa, chame uma vagabunda mãe que posou nua com a vagabunda filha (me desculpem as feministas, mas não tem outro adjetivo para quem se propõe a um troço desses, e que fique claro, nada contra as vagabundas)...

Depois, mantenha dentre seus convivas, empresários, políticos, etc, condenados por estupro e outros crimes relacionados à exploração sexual de menores...

Pronto...Sirva com doses de moralismo seletivo...

O fascista arreglou...

Diante da aceitação da denúncia contra si, o cretino-deputado, ídolo dos coxinhas-extremistas-danoninho, paraninfo virtual de parte de uma turma estudantes-formandos de uma faculdade de medicina(?) local, recuou e disse-que-não-disse...

Comportamento típico...

Esperamos manifestação dos coxinhas de jaleco, uma foto, um texto, um grunido qualquer, desagravando o brucutu parlamentar...


quarta-feira, 22 de junho de 2016

Médicos & monstros ou médicos-monstros?

Será que os cretinos formandos de medicina dessa merda de cidade, que apareceram posando com cartazes homenageando o deputado fascista bolsonaro, não vão fazer uma vigília em frente ao STF em desagravo a aceitação da denúncia em desfavor do parlamentar?

Uai, ia ser divertido assistir futuros médicos e pior, médicas, se solidarizando com um apologista do estupro...

Leia a postagem que fizemos sobre os filhotes do brucutu...

A comuna do Rio...

Se fôssemos um povo que tivesse vergonha na cara, a solução poderia estar ao alcance das mãos...

O povo da Islândia assumiu a sua solução...Você ouviu falar da Islândia? Do que eles fizeram? Claro que não, nunca o esquema de midiotização comercial te deixaria saber disso...

Durante  o ápice da crise de 2008, a Islândia, um país que tinha se transformado em um espécie de estado-roleta, foi a bancarrota...

Como solução, os governantes adotaram o receituário ortodoxo, ou seja, cortes nos investimentos sociais e distribuição dos prejuízos da banca para todos, enquanto o lucro era só de poucos...

Resultado? O povo islandês pressionou, e os governantes se demitiram...Veja o vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=7e7hZ2HxQMk

No caso do Rio, bem que poderíamos, nós servidores públicos, junto com a população, sitiarmos o palácio do Governo, a ALERJ, e as instalações do Judiciário, forçando o governo a dar o calote na dívida dos poderosos, ou revogando os subsídios fiscais dados com o nosso dinheiro...

Caso se negasse, poderíamos formar um governo de emergência, formado por servidores e conselhos de contribuintes, reeditando a experiência da Islândia, livremente inspirada na Comuna de Paris...

E a onça não bebeu água...

O vexame da morte da onça-mascote do Exército Brasileiro, após a cerimônia-papagaiada de passagem da tocha olímpica na Amazônia, é só um nota irônica no rol de vergonhas alheias que nos assolam:

O prefeito Eduardo Paes pede "desculpas" a atleta estrangeira pelo assalto, mas como assim?

Vocês já viram ou ouviram alguma autoridade parisiense, novaiorquina, ou de Orlando pedindo desculpas aos turistas ou visitantes estrangeiros mortos nos ataques selvagens que acontecem nas "cidades mais seguras do mundo"...

E tanto faz se a violência vem do morro ou de um maluco em nome de Alah...

Uai, se ele está se desculpando é porque assume a culpa? E se tem culpa, ou melhor, se tinha responsabilidade, por que nada fez para evitar?

Uma imbecilidade digna no melhor estilo vira-latas...

Depois foi o anúncio de que o "sequestro" dos salários e recursos praticado pelo (des)governador xico dornelles deu resultado...

O golpista temer abriu o cofre e cedeu a chantagem...

Não se animem servidores policiais, porque o din-din tem endereço (bolso) certo, ou seja: pagar fornecedores e comprar mais porcarias inúteis para o "aparato de segurança", seguindo a mesma lógica de sempre: Proteger quem tem grana, e no caso dos Jogos, fazer a polícia servir de babá para estrangeiro...

E o rombo nas contas? Vai de vento em popa, uma vez que todo mundo sabe (ou deveria), que a causa do buraco nas contas públicas são as criminosas subvenções e isenções fiscais concedidas a empresários-amigos...

Ahhhh, em só mais uma coisinha: A Polícia que faltou no hospital para fazer o "P.O."(escolta de preso hospitalizado, no jargão policial) sobra para desocupar "democraticamente" as escolas onde alunos protestam por melhor educação pública...

Me salve caetano-baiano-de-miole-mole: "Alguma coisa está fora da ordem, fora do nova ordem mundial..."

Meninas de Guarus, ou uma questão de classe?

Alguém duvida que o parecer do Ministério Público, em sede de pedido de Habeas Corpus, seria totalmente diferente, caso o condenado no caso das Meninas fosse um pé rapado ao invés de ser herdeiro de uma das maiores fortunas da região e do Estado?

Alguém duvida que o tratamento dado por parte da mídia seria distinto do que vem ocorrendo?

Pois é...

Vamos aguardar a tática da defesa "fazer efeito": Usar o rapaz, com auxílio da "mídia-amiga", como ponta-de-lança para conseguir estender o "raciocínio jurídico" aplicado no caso do herdeiro-empreiteiro aos demais condenados...

Mas afinal, por que o "menino da Baixada" é mimado pela mídia enquanto achincalham o "menino de Vila Nova"?

Será que o problema do "menino de Vila Nova"é que além de "meninas", também gosta de "garotinhos"?

Ahhhhhh, qual nada, cada "caso" é um "caso"...

No templo do deus-dinheiro, a pobreza é pecado original...

Em recente comentário em texto no blog do Roberto Moraes, ele me respondeu indicando essa entrevista que reproduzo abaixo...

É uma síntese de temas que abordamos aqui com frequência: 

Capitalismo e seus fetiches, e a sucumbência dos Estados ao mercado, e mais, a noção equivocada que a "crise" é ago excepcional, logo, o Capitalismo tende a virtude e a equilíbrio, o que é criminosamente falso...

Vamos a matéria, que apesar de ser de 2012, é atualíssima:

"Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro". Entrevista com Giorgio Agamben


"O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro", afirmaGiorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salvà e publicada por Ragusa News, 16-08-2012.
Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de HeideggerGiorgio Agamben foi definido pelo Times e por Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.
Segundo ele, "a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas". Assim, "a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben.
A tradução é de Selvino  J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC.
Eis a entrevista.
O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe  financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itáli. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?
“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. ”Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.
Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a idéia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.  O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas - assumiu  o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania ), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.
A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?
A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado.  Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido,  ele, como hoje aparece  como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico,  mas talvez consista nisso, no fato de que  o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história  e o passado tem um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.
O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi.  Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar)  têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim,  da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com  as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.
Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado  ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.

A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?
Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua  (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo,  foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder.  Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política.  O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma  da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua.

O mal-estar, para usar um eufemismo, com que  o ser humano comum se põe frente  ao mundo da política tem a ver especificamente com a  condição italiana ou é de algum modo inevitável?  
Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais  econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência.  As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.

O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?

Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia  em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos.  Poucos  sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmaras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível  aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmaras não é mais um lugar público: é uma prisão.

A  grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal,  o futuro será melhor do que o presente?
Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: ”a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.

Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a lectio que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação  de como sair do xequemate no qual a arte contemporânea está envolvida.
Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade  que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercadorização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea,  as duas coisas coincidem.
Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchampquando inventa o ready-made?  Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte.  Naturalmente - a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança  aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um  objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.
Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercadorização.  Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio,  infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com  não-obras e performances a museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Meninas de Guarus, um peso e várias medidas...

Vamos ler abaixo e atentamente o artigo 312 do Código de Processo Penal, que autoriza o decreto de prisão cautelar preventiva...

Com certeza não são os mesmos requisitos para a manutenção da prisão de condenado por sentença, como é o caso dos réus do caso conhecido como Meninas de Guarus...

Mas é certo que o rol das premissas do decreto cautelar, ainda que em sede de instrução processual, incide sobre a decisão judicial (e o entendimento do Parquet) acerca da necessidade de prisão de condenados que aguardam recursos, possibilidade ratificada por entendimento recente do STF...

E lembrem, raramente tais atos de defesa conseguem reformar o mérito do que foi decidido - a culpa - mas tão somente a quantidade da pena, a não ser quando há flagrantes vícios constitucionais no processo, que levam a sua anulação...

Particularmente, esse blog concorda com a maioria dos argumentos da defesa, em linhas gerais, a saber: Se respondeu processo em liberdade, aguarde a sentença final em liberdade, salvo se oferecer risco ao andamento processual, o que é raro nessa fase, pois não são ouvidas testemunhas e não são feitas diligências...

Porém, comumente, juízes e promotores são movidos ao calor da opinião pública, o que também criticamos...

No entanto, a crítica não afasta a certeza de que a opinião não é pública, é publicada...

Dá nojo ver a seletividade solidária de alguns meios de comunicação, que dependendo do réu, alimentam a fogueira da inquisição, e quando são "amigos", tratam a defesa com especial cuidado...

Assombrosa também a postura do MP, na sua opinião em relação ao Habeas Corpus de um dos sentenciados...

Afinal, se em tantas outras oportunidades se utilizaram do subjetivo critério da "garantia da ordem pública" previsto na lei (artigo 312 do CPP) para manterem presos os "inimigos do sistema", por que entender diferente em um caso onde a repercussão atinge em cheio a estabilidade da tal ordem social?

Leiamos e nos permitamos a conclusão:

Se desde  o processo, a garantia da ordem pública era uma possibilidade de manter os acusados presos (e sabe-se lá por que não foram?), por que o MP mantém seu entendimento que ignora essa questão, quando já está ratificado em sentença a autoria dos crimes?

Em outras palavras, se poderia manter preso preventivamente, por que opinar pela liberdade quando já condenado...?

Ahhhhhh, cada "caso" é um "caso"...


Eis o texto legal:

Art. 312.  A prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública(destaque nosso), da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria.   




Oi? Não, é tchau...

Uai, o mundo privado não seria o paraíso na terra?

Mas caralho, deram oceanos de dinheiro público para financiar a compra das teles, e agora o troço deu xabu, mesmo em um ambiente sem a menor regulação e com as maiores tarifas do mundo, e agora?

Como assim 65 bilhões de dívidas? Cadê o controle do mercado? Cadê a fiscalização da ANATEL dos balanços da empresa?

Chama a viúva, porque uma foda a mais não alarga o cú...

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Campos dos Goytacazes: A luta entre otimistas e pessimistas...

Diz uma piadinha cretina e antiga que a diferença entre otimistas e pessimistas é que, enquanto os primeiros acham que estamos todos na merda, os segundos creem que a merda não vai ser suficiente para todos...

Essa é a impressão de que o cenário político de Campos dos Goytacazes nos dá, isto é, não vai sofrer alteração que signifique o surgimento de estruturas representativas que aumentem as possibilidades de surgimento daquilo que gostamos de imaginar como "boa governança" não é só impressão, é fato...

Mas isso por si só não é tudo, e as chamadas "mudanças" podem ser o anúncio que faltará merda...

Alguns velhos atores, outros novos, e outros nem tão novos, disputam espaço no circo de horrores, com capítulo especial para nossa garbosa mídia comercial local...

É de chorar de rir o esforço em tentar pegar carona para "colar" no grupo da lapa as desventuras e perversões sexuais de um dos condenados no caso Meninas de Guarus, enquanto eles mesmos serviam feijoadas para empresários que também degustavam os mesmos cardápios ilegais...

De Vila Nova aos "badalos", a grana sempre deu uma "mãozinha"...

O porco rindo do toucinho...

Voltando a cena eleitoral, tem gente se apresentando como "novidade"...

Humpf...

Herdeiro e legatário da mais "nobre estirpe" da Casa Grande, o vereador que se abriga no partido golpista é o símbolo do compromisso com o atraso e da aliança com o moralismo hipócrita...

De outro lado, desponta o filho da Imperatrix...aquela que "torrou" uns trocados públicos para sair como destaque em escola de samba...
Tudo gente do "coração"...E dizem: Quem não sai aos seus, são os monstros...

Todos disputando espaço na "preferência" dos donos do poder local e suas plataformas de comunicação, sempre "isentas" e "profissionais"...ulá-lá...

Sabemos todos: Se tem nariz de porco, cara de porco, focinho de porco, senão for porco é...feijoada...

Diante de tal prato indigesto, recomendamos a todos a dieta do voto nulo...

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Seleção Brasileira e nosso ufanismo vira-latas...

Todo povo pratica o auto-elogio como forma de legitimar a si mesmo...Os EUA gostam de se imaginar a máquina de guerra mais poderosa do planeta, embora não tenham muitos sucessos militares no currículo, a não ser o DIA D, que só foi possível porque a ex-URSS enfraqueceu Hitler na frente oriental, depois da épica batalha de Stalingrado...

Qualquer curioso das questões bélico-militares sabe que sem a URSS a Europa (e talvez os EUA) falassem alemão hoje em dia...

Mas os estadunidenses construíram e melhor propagaram a versão dos vencedores, e é ela que vale...

Mais ou menos como nossa crença que somos os melhores futebolistas de todo mundo, em todos os tempos, e nossas derrotas são acidentes ou caprichos dos deuses do futebol...

Balela...

Em se tratando de clubes, nosso retrospecto também revela que somos mais crédulos que bons de bola...Só um 62 o Santos teve alguma dimensão internacional, e os jogos com seus rivais não foram "passeios", como gostam de dizer os puxa-sacos da mídia, pagos pelos clubes e jogadores para empurrarem o jabá pelas nossas gargantas abaixo...

Nenhum dos nossos times de "repercussão internacional", nem o São Paulo, nem o Grêmio, ou pior, nem o meu adorado Flamengo, resistiria a uma competição europeia de clubes...

Os "campeonatos mundiais", que começaram como caça-níqueis da Copa Toyota para popularizar o ludopédio no Japão, tiveram finais com times europeus sonolentos e entediados no fim das temporadas...

Nossa história em campeonatos no cone sul é pífia, tanto na Libertadores, quanto na Copa América, onde não confirmamos em vitórias nossa alegada superioridade...

Desculpas temos de monte: Catimba adversária, juízes ladrões, blá, blá, blá...

Em escala mundial só ganhamos algo em 1958, ou seja, vinte e oito anos depois do início da chamada Taça Jules Rimet... E não foi nadinha fácil, pois o jogo com a França teve contornos dramáticos...

No torneio anterior, em 54, fomos massacrados por Puskas e sua máquina húngara...

Em 1950, perdemos para o Uruguai e nossa arrogância, e "esquecemos" que nem tínhamos adversários europeus dignos de nota, porque o velho continente recém saía do seu maior conflito armado, com saldo de quase 60 milhões de mortos e prejuízos incontáveis...

Desnecessário dizer que França, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Holanda, etc, estavam aos cacos, portanto, como imaginar que nos mandassem times decentes?

Em 1962 nossos embates foram duríssimos, e só a genialidade de Garrincha nos salvou do vexame...

Veio 66 e novo vexame frente a exuberância portuguesa, que não se resumia ao duelo Eusébio e Pelé, como gostam de narrar os imbecis da nossa imprensa esportiva tupinambá...

Novamente em 1970 tivemos duelos memoráveis, e o jogo com a Inglaterra foi um divisor de águas...Pegamos a Itália acabada fisicamente, por causa da extensa semi-final, e ainda assim só deslanchamos do meio para o fim, justamente quando o calor mexicano derreteu a Azzurra...

Daí por diante, em 1974, 1978, até 1982, criamos mitos para nosso consumo, e nosso espanto frente a inovação holandesa ou o campeonato "moral" na terra argentina...

Talvez a única seleção que merecesse um título depois de tanto tempo, a de 82, sofreu com a "injustiça" de não ter levado o caneco...

Não havia ali injustiça, e sim nossa eterna incapacidade de dosar e equilibrar um time: Ou somos todo ataque, e volúpia, negligenciando a defesa, ou somos retranqueiros e burocráticos da Era Dunga, que por fina ironia, acaba de dar-nos mais um soluço de vergonha, agora como treinador...

Além do fato, sempre recorrente, de enxergamos sempre os outros como meros coadjuvantes...

Essa postura serve para imbecis do tipo galvão bueno, mas não ajuda no planejamento e execução de táticas e estratégias esportivas...

Os outros dois campeonatos, de 1994 e 2002, podem ser resumidos em dois nomes: Romário e Ronaldo, sem esquecer que o esporte bretão é coletivo, é verdade...

Porém, sem essas duas referências seríamos o Brasil do 7 a 1 contra a Alemanha...

Essa é a diferença crucial que a administração do nosso esporte faz questão de matar, e que sempre nos foi favorável, porque cada país do mundo foi capaz de gerar bons times, ou até timaços, mas poucos produziram jogadores do naipe de Maradona, Garrincha, Zico, Platini, etc...

Todo canto desse país, quando ainda havia várzeas democráticas, e não as famigeradas "escolinhas", pipocava um candidato a gênio da bola...

O Brasil, por inclinação a prática do esporte como símbolo nacional, gera mais jogadores fora-de-série, assim como os EUA o fazem em relação ao basquete, por exemplo...

Porém, ao contrário daquele país, e de tantos outros da elite internacional de qualquer esporte, preferimos sufocar a fonte de talentos, com modelos arcaicos e desnacionalizantes...

Por esse motivo, nossa vantagem competitiva, ao invés de incorpora-se como é, ou seja, uma vantagem, acaba por nos engessar, justamente porque nos devotamos historicamente a crença que isso basta...

Não basta...

Desde que o futebol se internacionalizou e foi oligopolizado como mercadoria (fenômeno que não tem volta), nossa expertise se esvaiu como fumaça...

E simplesmente porque, como em todas as outras esferas onde nos internacionalizamos, o fizemos sempre pela porta dos fundos, sempre como exportadores de matéria-prima barata (nesse caso, a mão-de-obra, os jogadores)...

Não se trata de reivindicar uma volta a ingenuidade perdida (que nunca existiu, sendo outro mito que gostamos de acreditar)...Futebol é lucro...

Lucrar não é pecado, pelo menos não no mundo capitalista, mas nossa visão de lucro é sempre predatória, que sempre nos conduz a uma estranha simbiose entre um ufanismo burro com síndrome de vira-latas...

Um pouco parecido do que acontece hoje com a política...

Quando chegamos ao ponto de decidir que tipo de país queremos ser para nós e para o mundo, empacamos na visão colonizada, no apego ao atalho, na sublimação dos conflitos, e na crença que somos um povo ordeiro, pacífico, cujo destino não chega a um patamar elevado porque...por que mesmo?

terça-feira, 14 de junho de 2016

A lei do retorno...

Raramente misturo minhas questões pessoais ou profissionais nesse espaço...Mas esse desabafo é esperado por muito tempo...

Tempos atrás, quando atuava junto ao Delegado Luis Maurício Armond, à época titular da 134ª DP, investigamos com afinco o crime de latrocínio que vitimou um irmão de um importante empresário da construção em Campos dos Goytacazes...

Tudo como manda o figurino, a polícia serviu a elite mais uma vez, e claro, todos policiais, inclusive eu, reivindicamos atuar em casos de repercussão como aquele...

Fomos a Ilhéus prender um dos latrocidas, enfrentando os riscos e dificuldades que uma missão daquela trazia, e a hostilidade de um ambiente onde os latrocidas já contavam com o beneplácito de forças de segurança locais...

Ficamos 5 dias infiltrados, a espera do melhor momento, que chegou...

Prisão feita, imagens à farta, e a sensação do dever cumprido...

Em nenhum momento, nenhum dos policiais esperou nada mais que um simples obrigado, ou uma menção junto a Chefia de Polícia por um elogio anotado em nossas folhas funcionais...

Não se tratava de falta de acesso, porque foi através de um contato da família com a Chefia de Polícia que nos permitiu a autorizou a viagem a outro estado oficialmente...

Pois é...

Anos e anos depois, nada...

Foram feitas festas churrascos, comemorações, e lá nenhum policial envolvido esteve como convidado...


Eis que o tempo passa, e hoje me deparo com a notícia de que um dos condenados do caso Menina de Guarus se encontra hoje condenado (e foragido)...

Pois é...

Pensei que teria algum prazer com isso...Qual nada...Sinto pena dessa gente mesquinha e pequena...Dá para ver que tipo de criação esse rapaz teve, provavelmente desprezando as outras pessoas, tratando-as com objeto...


sexta-feira, 10 de junho de 2016

Já vai tarde...

Não tem o menor sentido, salvo pela memória afetiva (arghhhh!!!) de algumas vivandeiras de quartel, a manutenção de um batalhão de infantaria estacionado em uma cabeça de ponte no meio do Estado Rio de Janeiro.

Essa lógica estratégica correspondia a noção de inimigo interno que vigorou na ESG e nos escalões superiores das Forças Armadas durante o regime dos gorilas

Uma enorme área sem a menor utilidade, que bem poderia ser transformada em um parque da cidade.

Quem já teve a oportunidade de visitar alguma cidade da Europa, ou até mesmo daqui da América do Sul, vai concordar que parques são espaços civilizatórios que nos afastam da barbárie dos shoppings...

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Meninas de Guarus...

Se não forem mantidos na 134ª DP, esperando por um HC, e forem transferidos tão logo acabem os procedimentos policiais, como acontece com qualquer criminoso "pé-de-chinelo", é certo que a "cadeia vai balançar", no jargão das penitenciárias, com tanto sentenciado "graúdo" por abuso de menores...

É raro ver a frente da 134ª DP com tanta "gente branca e bem nascida"...

Assim como é raro ler, ver e ouvir tanto cuidado por parte da mídia, que pisa em ovos...

Sensacionalismo? Nem de longe...

Aguardemos as confirmações ou reformas das sentenças, mas é bom dizer que questões de mérito raramente são tratadas em grau de recurso, ficando restritas apenas a alteração do quantum penal...

Como todos sabemos, alegar inocência é direito do réu, e na cadeia, sabemos também, ninguém é culpado de nada...

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Prata da casa...

Roberto Torres, como eu conheço, é dessa geração de intelectuais campistas que conseguem fazer a ligação com os não-especialistas, traduzindo temas complexos em conceitos fáceis para que nós, os não acadêmicos possamos participar do debate...

Junto a ele outros amigos, como Brand Arenari, UENF (com quem tenho francas, mas honestas discordâncias), o George Coutinho, Fabrício, ambos da UFF, e Vitor Peixoto, também da UENF...

Brand e Torres estiveram recentemente com Jessé de Souza no comando do IPEA, até o desastre do golpe...

Eis que os estudos do Torres, repercutiram no El País, nesse momento difícil da conjuntura brasileira;

Vamos a entrevista:

Eleitorado não é tão conservador quanto se pensa, diz Roberto Dutra

Jornal GGN - Roberto Dutra, professor da Universidade Estadual do norte Fluminense Darcy Ribeiro, analisa a influência da religião na política, principalmente a questão da bancada evangélica no Congresso brasileiro, que tem 75 deputados federais e três senadores. Ele crê que o voto do eleitorado evangélico é motivado, primeiramente, pela questão da moral e dos costumes, mas diz que o eixo do bem estar social - saúde, educação e programas sociais - é determinante do comportamento eleitoral, não só dos neopentecostais como de todas as classes populares.
Dutra crê que o governo interino de Michel Temer deverá usar a questão dos costumes para fidelizar o eleitorado evangélico mais pobre, mas que este grupo tende a se distanciar do governo "na medida em que ele adotar uma política socialmente insensível de redução do gasto social".
Para o professor, a influência da moral e dos costumes é maior nas eleições legislativas, e eleitorado brasileiro não é tão conservador quanto se imagina. "Elegemos um presidente sociólogo, um presidente operário e uma presidenta guerrilheira", afirma. Leia a entrevista  concedia ao El País abaixo:
Do El País
 
Para sociólogo, cresce politização da religião, mas vida prática, e não moral, é fator decisivo no voto
 
André de Oliveira
 
Compõem hoje a maior bancada evangélica da história do Congresso brasileiro 75 deputados federais e três senadores, o que faz com que, cada vez mais, suas posições e acordos tenham relevância no cenário político. Para Roberto Dutra, doutor em sociologia pela Universidade Humboldt de Berlim e professor da Universidade Estadual do norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), o posicionamento dos congressistas, contudo, não deve ser confundido com as convicções doeleitorado evangélico como um todo. Em um momento em que esse grupo político se uniu em torno do impeachment e de teses conservadoras no campo dos costumes, Dutra avalia em entrevista ao EL PAÍS os reflexos da interferência da religião na política e com que olhos os fiéis enxergam isso. Leia abaixo os principais destaques da conversa.
Pergunta. Existem hoje temas específicos que motivam o voto do eleitorado evangélico?
Resposta. São vários temas, mas há dois eixos temáticos que têm se destacado. O primeiro é a questão da moral e dos costumes que, contudo, até agora foi determinante apenas em eleições legislativas. Isso não quer dizer que essa temática não possa se tornar central em algum momento nas executivas, mas, por enquanto, ela depende muito mais da instrumentalização política que líderes de perfil religioso têm feito dela. Falar de costumes tem atraído um eleitorado, mas o que realmente explica as motivações do comportamento eleitoral, não só dos evangélicos, mas de todas as classes populares – considerando aí que a maior parte dos evangélicos pertence às classes populares – é o eixo do bem estar social. A preocupação é muito mais prática: saúde, educação e programas sociais.
P. A bancada evangélica votou pelo impeachment de Dilma Rousseff e tem expressado apoio a Michel Temer. Essa adesão é transferível ao eleitorado evangélico?
R. É difícil fazer uma previsão, mas eu acredito que há uma tendência do Governo Temer tentar usar a pauta dos costumes para fidelizar esse eleitorado evangélico mais pobre, que, contudo, tende a se distanciar dele na medida em que ele adotar uma política socialmente insensível de redução do gasto social. Nós não podemos pegar um momento como esse, em que a grande polarização ideológica e cultural leva a um fortalecimento da pauta dos costumes, e projetar isso no comportamento eleitoral das eleições deste ano ou de 2018. O voto religioso é circunstancial e muito mais presente nas eleições legislativas do que nas executivas. Por isso, eu acredito que se o Governo Temer não for capaz de fazer uma política social minimamente satisfatória do ponto de vista dessa população, ele não vai conseguir o apoio dela.
P. E por que o discurso moralista de políticos religiosos perde força nas eleições majoritárias?
R. Por razões próprias da política. Você consegue angariar um número grande de votos para eleger um deputado como o Bolsonaro, fazê-lo o mais votado. Mas na eleição do executivo, a maior parte do eleitorado não vota por religião e é também alimentada com informações que servem para descredenciar o perfil religioso do candidato religioso. Foi o caso do Marcelo Crivella (PRB), que perdeu a eleição para Governador do Rio de Janeiro de forma avassaladora para o Luiz Fernando Pezão (PMDB). No final, a vinculação do Crivella à Igreja Universal do Reino de Deus atrapalhou. Tanto é que dizem por aí que o Crivella está pensando em se desvincular do PRB, aderindo a um partido não religioso. Ao contrário do que se pensa, o eleitorado brasileiro tem bom senso. Elegemos um presidente sociólogo, um presidente operário e uma presidenta guerrilheira. É um eleitorado que não é tão conservador como se imagina.
P. De qualquer jeito, a bancada evangélica tem crescido em número e importância nos últimos anos. O que explica o crescimento?
R. A extrema facilidade com que os líderes religiosos pentecostais lidam com as regras da política. É a capacidade dos evangélicos buscarem a vida política através do pragmatismo. O Edir Macedo, por exemplo, apoiou o Governo Dilma até recentemente. Se acontecesse uma improvável volta de Dilma daqui alguns meses, não tenho dúvidas de que ele estaria pronto para apoiá-la novamente. Também é importante dizer que é um equívoco falar em coesão da bancada religiosa. A Igreja Universal, por exemplo, tem uma estratégia de atuação parlamentar bem diferente da Assembleia de Deus. Só há união em momentos específicos, como agora.
P. E não há interferência direta de algumas igrejas no processo eleitoral?
R. Hoje há, de fato, igrejas aparelhadas. São verdadeiras redes que grandes líderes políticos, como Eduardo Cunha, oferecem como recurso político para outros líderes. O que vemos é que o púlpito tem fidelizado muito para o legislativo. Mas a curiosidade é que, do ponto de vista programático, o repertório do sucesso das eleições legislativas dos evangélicos é um repertório corporativo. É mais algo do tipo “vote no deputado porque ele vai defender nossa igreja” e menos “vote no deputado porque ele é contra o aborto”. Costume e moral não são os fatos predominantes para explicar o voto. É muito mais o sentimento de corpo mesmo, que é instrumentalizado pelos pastores. Então, o que eu arrisco dizer é que existe, sim, um crescimento grande da instrumentalização política das igrejas, mas isso não é uma garantia de votos e pode, em determinado momento, virar até motivo de debandada de fiéis.
P. Por quê?
R. Ser evangélico não é pré-requisito de voto para o eleitorado evangélico. As pessoas observam aquilo que a mídia fala delas, a imagem que é projetada sobre elas. Ficam preocupadas com a interferência de líderes evangélicos na política. Se há um movimento crescente de transformação das igrejas em curral eleitoral, por outro lado, aumenta o sentimento de muitos fiéis de que eles estão sendo feitos de palhaços pelo pastor. E ao mesmo tempo em que aumenta a politização conservadora da religião, aumenta também o sentimento de que a fé das pessoas está sendo manipulada por interesses próprios. E aí a concorrência religiosa é fatal. O Brasil está em plena modernidade religiosa. Caso esse sentimento dos fiéis aumente, pode surgir uma variável de dinamização do próprio mercado religioso.
P. Você identifica em algum grupo específico esse olhar mais crítico?
R. Talvez nos jovens. Hoje há uma geração de jovens que já pode ser chamada de “evangélicos não praticantes”. Uma coisa é você ser convertido para uma religião evangélica, outra é você nascer nessa cultura. Aí é natural que você olhe de modo mais distanciado. De qualquer jeito, é importante não confundir os líderes políticos que têm um perfil religioso – ou seja, líderes políticos que tem na religião um recurso de poder e mobilização eleitoral – com as formas de comportamento, consciência e visão de mundo dos evangélicos como um todo. Além disso, apesar de óbvio, é necessário dizer que os evangélicos também são heterogêneos. De modo que há na classe média brasileira intelectualizada e, inclusive, de esquerda, um preconceito muito grande contra os evangélicos. Há a premissa de que eles são burros, que eles não sabem olhar com distanciamento a pauta política do Feliciano, do Malafaia, do Pastor Everaldo, do Bolsonaro.
P. E como esse distanciamento da esquerda aparece de forma prática?
R. Ela não consegue ver a possibilidade de disputar a fidelidade eleitoral e ideológica desse público. Dou o exemplo mais forte. Um tema central na vida cotidiana dos evangélicos é a família, mas a esquerda taxa isso de puro conservadorismo. A única alternativa política que tem tematizado o tema da família é – em uma democracia como a nossa, e eu diria que em várias outras também – a da direita. Ou seja, é justamente quem fala para os evangélicos: a família corre risco porque os homossexuais, a ideologia de gênero e os “esquerdopatas” estão ameaçando ela. Sem outra explicação, muitas vezes o indivíduo aceita essa mesma. Assim, a identificação dos evangélicos com a pauta política de seus líderes vem em alguns casos por pura falta de alternativa e compreensão dos setores ditos mais esclarecidos da sociedade que não conseguem compreender que o tema da família não é necessariamente conservador.
P. E por que esse tema tem tanto apelo?
R. Por razões de classe social. Os evangélicos se dividem, basicamente, em dois tipos de classe, que eu e o grupo de pesquisadores em torno do sociólogo Jessé Souza, costumamos dividir como ralé estrutural e batalhadores. O primeiro é um público completamente excluído das principais instituições da sociedade. Em geral, eles frequentam igrejas evangélicas que funcionam como uma espécie de pronto socorro espiritual. O segundo grupo tem uma vida familiar e social mais estável, com vínculos sociais mais fortes. Há uma proteção e solidariedade com que a ralé não conta. Para os dois públicos, contudo, a ameaça familiar é uma ameaça real e constante, seja por fatores econômicos, de alcoolismo ou de desestabilização social, como a falta de uma moradia decente. São problemas que as classes populares e excluídas enfrentam no mundo inteiro. Ora, só vai considerar o tema da família conservador quem não vê no abandono um problema cotidiano. Em resumo, os evangélicos agem muito mais por interesses práticos e que podem tomar rumos muito variados, de acordo com os partidos políticos que interpretam esses interesses práticos, do que propriamente por convicções conservadoras. Convicções que eles podem até ter, mas que não são tão claras e fortes como se imagina.
P. Mas onde entram as classes mais altas evangélicas nessa separação que você colocou?
R. Elas constituem um público mais tradicional, não pertencente historicamente às classes hegemônicas católicas brasileiras, que em geral faz parte das chamadas igrejas protestantes históricas ou de missão, como as igrejas Batista e Presbiteriana que, embora tenham copiado muitos dos ritos e das ideias das pentecostais, como Universal e Assembleia de Deus, mantêm um estilo, digamos, mais sóbrio. O público é formado por uma classe média ascendente com um determinado padrão de formação escolar e nível de renda mais estável. Mas esse é um público minoritário entre os evangélicos.
P. Pode resumir a diferença entre o protestantismo “clássico” e o pentecostalismo?
R. Ele é uma revolução protestante dentro da revolução protestante e surge na Igreja Metodista Wesleyana. John Wesley é um dos grandes fundadores do pentecostalismo, mas outros líderes menores popularizam ainda mais essa religião entre os negros dos EUA no final do século 19, início do 20. Ela se caracteriza por uma crença, muito grande, na força de Deus para mudar as coisas cotidianas. É o que podemos chamar de uma religiosidade mágica. No Brasil, isso chega em 1910, mas é só a partir da década de 1960, com a urbanização da pobreza, que o protestantismo brasileiro vai tomando a cara do pentecostalismo. Qual é a diferença básica? É que o protestantismo clássico não enfatiza tanto a presença cotidiana do espírito santo para resolver os problemas cotidianos das pessoas. O protestante batista não espera que Deus vá ajuda-lo a passar em um concurso público, já um pentecostal crê nisso. O pentecostalismo é mais popular que o protestantismo clássico. Por isso, com o tempo, vai virando a religião dos excluídos. Disso que nós denominamos ralé estrutural. É uma religião que oferece valor social para os excluídos: Deus tem um projeto para sua vida, você vale alguma coisa.
P. Você disse que existe um preconceito de setores progressistas com os evangélicos. Há uma crítica de que o PT se afastou dos mais pobres nos últimos anos, perdendo espaço para as igrejas. Você concorda com essa avaliação?
R. Acredito que é uma explicação muito reducionista. Eu concordo que o PT se distanciou dos pobres, mas o que significa isso? O PT certamente não se distanciou dos pobres no sentido de fazer políticas sociais para os pobres. No entanto, o PT se distanciou culturalmente dos pobres. O PT é informado por uma visão de esquerda de que os pobres devem seguir um modelo de ser e agir que vem dos moldes dos sindicatos. Os pobres devem ser coletivistas. Os pobres devem se enquadrar em um viés de solidarismo anti-individualista. Toda vez que o PT encontra a valorização do indivíduo, a valorização da autonomia do indivíduo frente às intempéries da vida, que, em resumo, é a pregação cotidiana das igrejas pentecostais, o PT aponta o dedo acusatório: “É a pregação do individualismo, é a pregação do neoliberalismo dentro das igrejas”. O PT não entende essa filosofia liberal popular e nem o valor moral do individualismo que está por trás dela.
P. O que você quer dizer com “valor moral do individualismo”?
R. É a ideia de que para ser alguém valoroso na sociedade é preciso ser um indivíduo respeitado em sua privacidade, em seu projeto de vida. De modo que há, de forma muito presente nas igrejas, essa cultura da valorização da iniciativa individual. E isso não significa a negação da solidariedade. Acredito que há uma cegueira do PT em compreender a alma e a cultura dessa nova classe trabalhadora que não é formada no sindicato e que hoje é a maior parte dos brasileiros pobres e remediados do país. Esse é o distanciamento que existe, mas ele não é exclusivo do PT. A esquerda de forma geral não entendeu que o sonho dessa nova classe trabalhadora é, muitas vezes, ter uma empresa própria, ser um empreendedor. Há muitas semelhanças com a população dos EUA, por exemplo. É um liberalismo popular que não é, necessariamente, conservador. Hoje, esses ideais liberais de autonomia e afirmação do indivíduo estão em disputa e os conservadores têm conseguido capturá-los com mais eficiência.