domingo, 1 de maio de 2016

Dia do colaborador!

É normal todo mundo escrever em datas comemorativas, exaltando virtudes dos comemorados, martírios e condições específicas que os levam a ter uma data a ser lembrada nos calendários...

O Dia do Trabalhador (e não do Trabalho) não é diferente...Aqui consideramos como trabalhador quem tem sua mão de obra expropriada pelo capital...

Patrão não é trabalhador, e portanto não merece estar inserido em uma possível categoria ampla de "trabalho", afinal, seu trabalho é explorar os demais...

Sabemos da origem do feriado, como uma lembrança ao trágico massacre de trabalhadores em protesto na cidade de Chicago,  nos idos de 1886...

Todo anos repetimos as mesmas coisas: A lembrança do massacre, enquanto celebramos todos nos outros 364 dias o esquecimento, repetindo outros massacres de trabalhadores, por mais variados motivos...

Mas qual é o significado da palavra trabalhador nesses dias atuais, no Brasil e no mundo, quando está a espreita uma série de ataques as condições mínimas de dignidade de quem vende sua mão-de-obra a outrem?

É difícil estabelecer um consenso, e aí está grande parte da sacada do capital nesses tempos bicudos: "designificar" a noção de trabalho, para roubar dos trabalhadores sua noção de classe...

Esse é uma sacada recém criada, se considerarmos a História em sua magnitude, afinal, décadas são minutos em termos relativos a experiência humana na Terra...e milésimos de segundos se colocadas frente ao colossal espaço e tempo que a antecedem...

Os ideólogos do capital sustentam uma estrutura teórica destinada a mascarar as disputas e conflitos da sociedade, com o cristalino objetivo de manter as coisas como estão (ricos mais ricos, e pobres mais pobres)...

Descobriram que se não é possível abolir a percepção de que há uma oposição permanente entre quem tem e quem não tem, e melhor, as razões dessa diferença, é fundamental mudar o sentido das coisas...

Explico: 
No caso dos negros dos EUA, por exemplo...
Como não é mais possível dizer-lhes (até os mais "domesticados") que não existe racismo, porque os dados saltam aos olhos (salários diferentes nas mesmas funções, peso relativo na população carcerária, número de mortes violentas, etc), criou-se um intrincado sistema de classificação moral-criminal, onde a prática excludente e violenta do racismo é legitimada por sistemas judiciários-penais...

De quebra, esse sistema moral-incriminador desconsidera políticas afirmativas e de redução de desigualdades (como o food stamps, algo parecido com o Bolsa Família daqui), estigmatizando seus usuários, ou seja, culpando os pobres por sua pobreza...

Algo soa familiar?

Pois é...

Sorrateiramente, aquilo que sempre foi contrabandeado "de leve", com ressalvas, passou a ser instituído como realidade imutável, transferindo ao trabalhador a responsabilidade por sua empregabilidade, diluindo sua condição de classe em termos como "colaborador", "parceiro", "família", etc...

Ao mesmo tempo, as condições pautadas por normas e direitos, foram substituídas por precarização do vínculo trabalhista, embalada em nomes pomposos: flexibilização, modernidade, iniciativa, e a pior de todas: meritocracia...

Claro que os sacrifícios financeiros sempre recaem sobre os "parceiros", os "colaboradores"...

Porque nenhum patrão gosta de dizer o óbvio: "vou te pagar menos porque tem um monte de gente querendo vender o mesmo que você: mão-de-bora"; ou: "vou te demitir porque não posso reduzir minha expectativa de lucro"...

Se assim for, trabalhadores podem decidir então que ninguém venderá nada (força de trabalho), até que o preço seja ao menos próximo de justo (greve)...


E na outra ponta, nenhum governante gosta de admitir: "olha, vou te sobrecarregar de impostos porque quem banca minha campanha não admite "pagar o pato"...

Trabalhadores podem até debater a injustiça tributária, mas colaboradores têm certeza que todos os "colaboradores" (patrões e empregados) sofrem a mesma "extorsão fiscal"...
Trabalhadores fazem greve, "colaboradores", NUNCA!

É esse (ainda) o terror de quem detém o capital, por mais que se diga aos quatro ventos que o trabalho como conhecemos deixou de existir, e bl´, blá, blá...

Financeirização do mundo, dinheiro como fim em si mesmo, mercados virtuais ultra fluídos e voláteis, derivativos, etc, mas a fonte ainda insubstituível de geração e concentração de riqueza e capital ainda subsiste na boa e velha mais valia que decorre da exploração do trabalho e da mão-de-obra...

Sem trabalho (greve), sem riqueza...

Por ese motivo que mesmo com "toda modernidade", o discurso dos cretinos da mídia, dos patrões canalhas ainda se pareça, na hora do embate político, com o que ouvimos em Chicago, em 1886, ou no Brasil em 1964...

A mesmíssima lógica, porém com tintas próprias, acontece nas pequenas casas grandes e senzalas do século XXI, onde patrões e serviçais circulam em um pantanoso campo de relações que não são nem pessoais, nem trabalhistas, mas que sempre favorece aos primeiros...

Reconhecer a empregada doméstica como tal significa reconhecer direitos..."Nooooosa que absurdo, ela é quase da família", diria o arquétipo de madame siliconizada...

Se reconhecer como empregada doméstica implica em exigir direitos que estão sempre soterrados em "afetividade" que mascara humilhações cotidianas, como um anestésico...

Quase da família é a categoria que se equipara a colaborador em linhas de produção e escritórios...

Como já dissemos em outros textos, são tempos onde as coisas, cada vez mais, são chamadas por nomes diferentes, para dar novos sentidos a velha e boa dominação e exploração...

Então tá: Colaboradores e quase-da-família e tantas outras categorias dos sem-categoria do mundo, uni-vos! 

arghhh...

2 comentários:

Anônimo disse...

Douglas, o que acha do Ciro e o que pensa de um agrupamento do PT em torno de uma possível candidatura dele? Creio que tem sido uma voz valorosa nesses tempos, quando poderia estar capitalizando com algum isentismo marineiro e oportunista. Gosto também do discurso, da retórica. Evoca em mim, Lulista, algo que, penso, a política não pode prescindir. Mas diga aí, pois gosto dos teus pitacos. Abraço.

douglas da mata disse...

Ciro é um cara correto. Não conheço a fundo sua trajetória política, e nesse sentido, a referência local traz dados que são imprescindíveis para traçar um perfil mais completo.

Quem fez política com ele, e as pessoas que estiveram sob o peso de suas decisões quando prefeito ou governador podem falar um pouco mais sobre ele.

Mas, com ia dizendo, do pouco que conheço, é um cara que não leva desaforo, e isso na cultura política brasileira pode ser uma qualidade (para mim é) ou sua condenação a papéis secundários.

Mais importante que Ciro (ou outro nome, como Requião, Roberto Amaral, e tantos outros que têm se levantado contra as violências que vêm sido praticadas) é o sentimento que as forças de esquerda e consideradas progressistas têm que superar seus rachas para caminharem juntas.

A tentativa de um pacto reformista do capitalismo com o auxílio das forças de direita acabou de ruir.

Não há mais consenso possível com essa gente. E nesse sentido, volto ao Ciro: Ele e seu estilo são importantes para demarcar esse campo de ruptura.

Não sei se na hora de construir ele tem a aptidão necessária ou só "é da equipe de demolição".

Só o tempo e o processo (HISTÓRICO) poderão nos responder.

Um abraço.