quarta-feira, 20 de abril de 2016

A classe mé(r)dia e os cachorros...

Eu sei que todos nós do PT, à exceção de alguns, dormimos sonhando na fábula que dar mobilidade social e lançar milhões de brasileiros na zona de algum conforto econômico pudesse criar uma "consciência de classe", que se manifestasse solidariedade ao projeto re-distributivista comandado pelo PT...(intelectuais ainda não definiram de a tal Classe "C" é média ou nova classe trabalhadora, vejam bem!)

Vício de origem (marxiana), nossa concepção economicista da História nos pregou uma bela armadilha...

Esquecemos (será que esquecemos?) das instâncias simbólicas que permeiam os fenômenos e relações interpessoais e interclasses, que carregam em si uma heterogeneidade complexa, e por isso mesmo, avessas as manipulações simplistas...

Não se trata de afastar a análise que Marx nos deixou de legado, muito bem atualizada em autores como Harvey e outros...

Mas o fato é que levamos uma tremenda bolada nas costas...

Vejam só o caso dos evangélicos ou neo-pentecostais...Imaginamos que o acesso a serviços estatais, o galgar de degraus na escada social, o ambiente de diálogo com essas forças que tendem ao obscurantismo pudessem trazer esses imbecis ao entendimento que Estado e religião nunca devem estar misturados...

Eu mesmo caí nesse conto do vigário...E olha só no que deu, os crentes dando um golpe, aliados ao "diabo cunha", tudo invocando o nome de deus!!! Misericórdia...

Pois bem, temos mais 20 milhões, talvez mais, talvez menos, de novos "classe mé(r)dia" soltos espumando mantras de meritocracia de araque, esquecendo que sem a intervenção do Estado, dos orçamentos públicos, nunca chegariam ao "sucesso", que se auto-proclamam como resultado de obstinação pessoal e do "milagre de deus",,,

O Congresso mais reacionário e retrógrado dos últimos tempos é um retrato fiel dessa onda de hipocrisia média, que também convencionamos chamar de senso comum...

Hoje pela manhã, fiz minha caminhada regulamentar em uma praça de um bairro  tipicamente classemerdiano da capital desse Estado, e pude comprovar como pequenos trejeitos dessa gente nos fornece pistas de como pensam, agem e como reagem...

O local é frequentado por donos de cães, inclusive há espaço ali para a convivência canina e de seus donos, que trocam amabilidades mediadas pela admiração mútua dos "amigos de pelo e rabo"...

Um universo estranho...onde um senhor aparentemente bem nascido e bem empregado, com seu cachorro de raça, desses bem alimentados e bem escovados, conversava animadamente com um morador de rua, que trazia pela coleira improvisada com uma corda velha o seu "totó-vira-latas"...

Ambos famintos, o homem e o cão que viram latas e lixeiras para comer, eis que o senhor de classe mé(r)dia saca algum do bolso e oferece ao morador de rua para que ele compre alimentos ao cão, e quem sabe para si mesmo?

Pois é...

Difícil imaginar que se o morador de rua estivesse com seus filhos, todos maltrapilhos e famintos, suscitasse alguma caridade cristã nos transeuntes tijucanos...

Com certeza os tijucanos teriam vociferado, amaldiçoando os programas do governo que "incentivam" a proliferação de pobres que infestam as praças: "vá trabalhar, vagabundo!!"

Mas o cãozinho precisa de seu dono e cuidados, portanto, o próprio tijucano lhe providencia o "amparo assistencialista"...

Em resumo: Quanto mais conheço a classe mé(r)dia, mais odeio os cachorros...

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