domingo, 28 de fevereiro de 2016

O bispo e a rainha rosa: Reflexões no xadrez do "fisiologismo"...

Não é novidade para ninguém que as eleições municipais de Campos dos Goytacazes vão ter um componente novo...quer dizer, nem tão novo assim...

O fato é que a dinastia dos patetas da lapa terá que buscar um nome que não seja "puro sangue", ou na linguagem adolescente harrypottiana, um "trouxa"...

Essa transição trará variáveis mais dramáticas a escolha do candidato do grupo, e do outro lado, poderá acender as esperanças das viúvas do garotismo...

Temos por "viúvas" o grupo político de ressentidos que se autodenomina "oposição", mas não consegue apresentar nada além no campo de propostas que seja mais que uma requentada assepsia moralista e hipócrita, sem tocar nos problemas estruturais da gestão da cidade...

Na verdade, o ponto central que torna governistas e opositores a mesma merda é que ambos os lados compartilham uma visão de cidade parecida, ou seja, que se fodam os mais pobres...ainda que os governistas façam mais sucesso entre os mais necessitados...

A diferença reside no carisma e na maior eficiência na comunicação com as expectativas do eleitorado...condição facilitada pela operação da ação executiva ("máquina")...

Há anos atrás, desembarcou na cidade uma nova liderança regional da igreja dos seguidores do carpinteiro bastardo (ICAR, ou Igreja Católica Apostólica Romana)...

Essa liderança que é chamada de bispo foi incensada por grupos locais, pela mídia, etc, como portador de um "novo discurso", que poderia ser a plataforma de lançamento de uma agenda política que atacasse de frente a dinastia pentecostal da lapa, chamada por ele de fisiológica...

A construção teórica que se define como anti-fisológica é uma armadilha encurralou boa parte do pensamento da esquerda moderna no último século e em boa parte desse, e confesso, ocupou boa parte do meu tempo, quando acreditava que havia uma relação direta e determinante entre o chamado "favor" e a correspondência eleitoral...

Minha culpa, minha máxima culpa, como gostam os adeptos do culto ao carpinteiro bastardo...

Já na época da chegada do bispo esse blogueiro já tinha enxergado o erro conceitual e bateu firme no representante local da franquia católica...

Supor que a parte mais pobre, nesse caso, os eleitores da rainha rosa, os peões, se movimentam no tabuleiro por necessidades fisiológicas é falso, preconceituoso e porque não dizer, cínico...

A práxis política e a ciência nos ensinam que uma parcela da ação de convencimento e da luta pela hegemonia se dá no campo da legitimação...

Assim, para capturar a agenda é preciso manter a dianteira e o domínio do discurso, pautando o outro pela reação...nesse processo é preciso legitimar a si e seu grupo (os que consideramos iguais), deslegitimando o outro (desigual, estrangeiro, etc).

Seja em Foucault ou Bordieu encontraremos a necessidade de situar o outro para controlar as referências nas quais se dará o jogo...

Nesse sentido, setores médios e da elite brasileira (ou de qualquer lugar desse mundo) tendem a classificar as camadas mais pobres para mantê-las em uma situação de "controle" ideológico...

Claro que no seio dessas classes populares o processo também se repete, dada a heterogeneidade de cada estrato social...e as hierarquias que se formam em cada estrato...

Mas é de "cima para baixo" que os efeitos são mais trágicos...

Quando o bispo chega em nossa cidade e classifica as escolhas populares (nesse caso o sufrágio no casal líder dos patetas da lapa) como fisiológicas ele coloca na pauta o discussão de que essas escolhas não são voluntárias, ou melhor dizendo, não são totalmente voluntárias e livres, mas impulsionadas por necessidades básicas de sobrevivência (fisiológicas) que são trocadas por apoio eleitoral...

Essa noção é de uma cretinice sem par, pelo simples fato de que não há escolha política que não se paute por escolhas movidas a interesses...Seja um subsídio de 50 reais seja uma isenção fiscal de 50 milhões...

E não venham com a absurda e calhorda lorota de que favores fiscais movimentam economias e geram renda e prosperidade...Foi o subsídio pago as famílias (Bolsa Família) que mudaram o Nordeste, e não os favores fiscais e perdões de dívidas oficiais que por séculos irrigaram as fortunas dos "coronéis"....

Mesmo assim, nossa "valente oposição" embarcou no sermão do padre (bispo) e foi atrás com a nossa bandinha da udn local, onde "tocam" observatórios, e outros segmentos da "sociedade civil (arghh!!!)...

Essa lógica (do bispo inimigo do "fisiologismo") tem vários contrabandos, senão vejamos:

- Considera que as políticas destinadas ao público pobre é "favor", mas as políticas  voltadas ao mais ricos são direitos...

- Considera que antes de dar "o peixe" tem que ensinar a pescar, mas não diz que quando o pobre tiver a vara e o conhecimento, "todo o peixe" terá sido antes retirado do rio pelos mais ricos... ou seja, a falácia de "ensinar a pescar" é uma versão mais "humana", digamos, do vamos crescer o bolo para depois dividir, tão cara aos neoliberais...

- E por fim, determina que o pobre votará pelo estômago ou por algum sentimento "menos racional", enquanto os mais ricos "pensam para votar"...


Vamos destruir essa noção, passo a passo:

Quanto maior o grau de escolaridade nesse país (talvez em outros também) implica em uma opção cada vez mais conservadora, então, se o bispo imagina que escolaridade trará a luz da consciência solidária, é bom esquecer...nem por milagre...

Por outro lado, é certo que aspectos econômicos tenham certa influência na decisão eleitoral, mas não é causa determinante, pois se assim  fosse, o conforto econômico proporcionado aos mais pobres pelo PT garantiria um consenso mais duradouro, e não é o que se vê...

Ao contrário, quanto mais se aproxima dos estratos superiores da pirâmide social, mais se parecem (ou imitam) com o ethos da "velha classe média", e  repetem os mesmos "chavões moralistas" que fazem o orgasmo dos porcalistas do esgoto midiático nacional e local...

Há farta produção teórica tentando entender os humores de classes na gestão petista, que vão de Singer (André), passando por Pochman (Márcio) e Jessé de Souza...e ainda não trouxeram nada decisivo...

(Será que o bispo teve uma visão que supere toda ciência? Oh, por certo, ele "crê", então basta!)

O que o bispo e os "opositores" do regime da lapa não enxergam, até porque não podem, pois compartilham a mesma matriz ideológica anti-popular com os governantes locais (embora esses vistam a eficiente roupagem do acesso direto às massas), é que a pergunta crucial para ser levada ao eleitor é (ou deveria ser):

A quem serve a cidade e quem se serve dela...?

Essa é a questão (anterior) primordial que derivará em tantas outras como a simples questão das calçadas, passando pela mobilidade urbana, isonomia de tratamento dos bairros, reforma tributária que, se de todo não impeça, ao menos atrapalhe a especulação imobiliária, e que também prestigie a noção basilar do direito tributário constitucional, que diz: quem pode mais, paga proporcionalmente mais, dentre outras premissas

A seu lado, o PT local (e também o nacional) deveria mergulhar seriamente no debate sobre as contradições que enfrentamos para lançar uma plataforma anti-capitalista, sem abandonar os avanços já proporcionados pela "guaribada" que tentamos dar no sistema capitalista-patrimonialista nacional, porém enxergando os limites dessas "reformas" e a impossibilidade de construir uma cultura solidária e coletiva em cima de pressupostos do mercado e do consumo...e mais:

Enxergando os próprios limites de nossa intervenção nesse cenário, como nos tem ensinado a (dura (realidade)...

É possível dizer ao morador do Parque Santa Rosa que lá não tem esgoto tratado e ruas decentes porque a opção primeira é dotar esse aparato urbano aos bairros mais ricos...

É possível dizer que ele é empurrado para tão longe porque por trás da "localização" das moradias há um jogo que interesses destinado a fazer gente rica a ganhar dinheiro com o exílio de uns para o conforto de outros...E depois, boa parte da grana que poderia reverter em condições melhores no seu bairro é gasta para transportá-lo até onde os ricos o emprega (e lucra com isso)...

É possível dizer que a cidade poderia estar bem melhor se o dinheiro dos impostos fosse gasto atendendo a uma hierarquia social, isto, primeiro a quem mais precisa...

Enfim, é preciso derrubar a rainha rosa e o bispo...

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