domingo, 13 de dezembro de 2015

Pequenos contos feitos de lama...

Reeditando um dos mini-contos de 2010


Pergunta capiciosa.


Depois de uma furiosa noite de amor conversavam ao pé da cama. Daquelas conversas sem pé nem cabeça, sem qualquer sentido, senão calibrar os sentidos para uma nova etapa ou recuperar as forças para reentrar na atmofesra.
Era a primeira vez que se entregavam um ao outro, mas os ensaios haviam sido poderosos prenúncios de que ali, naquele território, se instalaria um império da paixão avassaladora.
Ele:
- Você tem um sinais lindos pelo corpo. Essas manchinhas parecem estrelas.
Ela:
- Que bom que você gosta.
Ele:
- Você não é muito detalhista. Falou-lhe, enquanto esquadrinhava o corpo dela.
Ela:
- hu-hum.
Ele:
-hu-hum, o quê, é ou não é detalhista?
Ela:
- Sou sim, por que?
Ele:
- Você percebeu quantos dedos tenho no pé direito.
Ela:
- Hã, como assim?
Ele:
-É, você nem percebeu quantos dedos tenho no pé direito. Quantos são?
Há frases ou palavras que tem o poder de despertar subitamente as pessoas de certos estágios de letargia e desatenção, ou jogá-las em choque catatônico. Ela experimentou as duas possibilidades, pois seu cérebro mergulhou em uma tormenta. Uma pergunta tola, que parou o tempo ao seu redor, enquanto as variáveis circundavam. Sabia que uma resposta errada poderia significar o fim de uma relação promissora. Uma besteira. Uma idiotice, mas ela sabia que o futuro bifurcava à sua frente, sem qualquer placa de indicação.
Se falasse o óbvio, que ele tinha os cinco dedos, e ele, por qualquer razão não os tivesse, seria o fim. Se falasse que havia uma amputação, e não houvesse, seria o fim. Se falasse que havia uma amputação e houvesse mais de uma, também seria o fim. Enfim, teria que dizer qual era o dedo amputado.
Respirou fundo, olhou para ele, que permanecia ali, entre sorrindo e ansioso, como se tivesse noção de que fizera uma brincadeira que os levara a um beco sem saída.
Ela:
-Você tem o dedo mínimo amputado.
Ele levantou, e ela pode ver seu pé intacto. Vestiram-se em silêncio. Saíram em silêncio. Despediram-se em silêncio.
No outro dia, logo cedo, ela atendeu a porta. Era o porteiro de prédio que lhe trazia um pequeno embrulho com papel de presente, que enrolava uma pequena caixa, como um porta-jóias. Sorriu aliviada, e imaginou que ali estava o sinal de reconciliação em forma de um presente, um anel ou um par de brincos, o que fosse.
Abriu a caixa.
Era um dedo mínimo de um pé direito, enrolado em um pano todo ensangüentado. Um dedo recém-decepado.

Ela suspira fundo, e diz ao porteiro, que nada entendeu:

-Ainda bem que ele não quis respostas sobre as "jóias da família".

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