quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A história se repetindo como farsa...

Quem tiver a oportunidade, e quem não teve não deveria perder tempo em buscá-la...

Há, em minha rasa opinião, dentre outros tantos, uma trinca de títulos que considero cruciais para entender esse momento no qual está mergulhado o sistema representativo brasileiro, e claro, mundial...

Dentro de nossas perspectivas nacionais, os livros Getúlio, em três volumes, de Lira Neto, e 1964, o golpe que derrubou um presidente, etc..., de Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes são indispensáveis para fazer uma leitura da movimentação dos setores conservadores quando estão no campo da oposição nacional, ainda que este fato, per si, nunca signifique que o poder econômico que representam esteja nem de longe ameaçado... 

Para uma olhada panorâmica e sistêmica, não se pode deixar de ler o Enigma do Capital, do geógrafo David Harvey...

Não vou ter pretensão de esgotar o tema, ou repisar conceitos já tão desfiados à esquerda e à direita, mais é certo e irresistível um sentimento de deja vú quando vemos o movimento intenso dos personagens no balé das insituições, na fraqueza dos princípios democráticos diante da demanda do monstro do mercado e seus donos, da (falta) de caráter permanente da mídia empresarial e seus porcalistas, sempre ávidos pelo posto de influenciadores do sistema político, sem terem um voto sequer, ou sem prestar contas a qualquer direito ou coerência, salvo a de seus patrões...

Nem vou cometer a injustiça e burrice de dizer que apenas a Democracia brasileira reúne tais dilemas, nunca!

Diante de crises diversas, os sistemas representativos ocidentais responderam com a mesma insanidade, ou melhor, com a sanidade do interesse dos mercados, quase sempre insana aos olhos de quem só vê a superfície...

Foi assim com a inauguração da War on Terrorism, patrocinada pelo conglomerado bélico-industrial estadunidense, junto com a vociferante direita cristã e empresas de serviços de segurança privada, que tornaram a guerra um negócio de escala jamais vista até então...aprefeiçoando o que já estava em curso com a War on Drugs...

Mas vamos a vaca fria...

O que será de Dilma e seu governo?

Quem apostar em uma resposta definitiva só pode receber o escárnio como cumprimento...

Mas há perguntas mais importantes que respostas, como sempre...

1964 se repete, é mesmo um jogo onde o capital internacional busca recolocar no poder central aqueles que rezam nas suas cartilhas?

Quem é que lucra com sua saída, ou com seu permanente enfraquecimento, é só a oposição?

Mas a quem serve a oposição? Ou as oposições, considerando não haver ali um núcleo homogêneo e articulado? 

Bem, em linhas gerais, não servem ao país, pelo menos não ao modelo de país inclusivista e redistributivista, muito menos a uma assepsia moral da política brasileira e seus estamentos normativos, não enquanto tiver como seu "anjo vingador" um nome como eduardo cunha...

É preciso ir mais lá atrás para entender um pouco esse jogo...

Dilma e o seu governo, mesmo que timidamente, lançaram suas caravelas ao mar com os canhões apontados para um alvo certo:

Constituir uma aliança regional geopolítica com os países vizinhos, buscando uma conexão com os interesses do G20, mormente aquele bloco identificado como BRICS...

Enquanto o vento pouco das intenções soprava as velas da esquadra, pouco se ouviu, ou se viu de reação dos principais interessados, os EUA...até porque, eles mesmos estavam as voltas com sua própria crise, a agenda das guerras intermináveis, a Europa, etc...

Foi quando, por coincidência ou não, acreditando que o acúmulo de reservas e o bom momento proporcionado pelas commodities e o pré-sal, que lançava a Petrobras como a principal nau da flotilha, e talvez alicerçada na perspectiva de que o Império fraquejava, Dilma resolveu ousar mais e saiu da brisa das intenções para forte vento de popa das ações...

A criação de um banco mútuo de financiamento, saindo das garras dos chantagistas multilaterais, como FMI, BID, etc, com aporte simbólico de US$ 200 bi pelos países BRICS, acendeu o alerta vermelho na casa (branca) do Tio Sam...

Não que se estivesse aqui tramando o revolução internacionalista prevista por Marx, nada disso...

Os países como Rússia, Brasil, Índia e etc, ancorados no outro pólo de poder mundial que emergia, a China, buscavam uma reforma do sistema capitalista, apontando para aquilo que é uma sentença perpétua, e que todos os canalhas que se dizem "analistas econômicos" nunca dirão em alto e bom som:

O mundo não resiste a um sistema de trocas onde o país principal se endivida e se financia na moeda que ele mesmo emite, neste caso, o dólar...

Junto com a criação do banco, os países BRICS e o G20 iniciaram uma "loucura", uma verdadeira blasfêmia ao deus-mercado, discutindo a chamada "desdolarização", propondo uma cesta de moedas que passasse, gradualmente, a substituir a ditadura  global do dólar...

Foi a senha para que os EUA começassem a operar a sua máquina de difamação, espionagem, injúrias, escândalos, golpes e etc...

Lógico que, como é usual, não podemos colocar toda a culpa dos arranjos globais e interesses geopolíticos das potências imperialistas, como o EUA...Aqui temos uma elite sedenta e doida para ser rabo de elefante, ao invés de cabeça de mosquito...

Qualquer trocado que venha sem o menor risco, qualquer teta estatal serve, e para isso pouco importa alinhar o país a pauta dos irmãos do norte...

O episódio da espionagem revelado por Snoden, espião terceirizado da CIA, hoje refugiado deus-sabe-onde, onde a presidenta brasileira foi grampeada, é só um aperitivo rápido e cuidadosamente esquecido pela mídia, principalmente porque a reação da nossa mandatária foi proporcional e inédita...

De fato, a reação presidencial foi o fato relevante naquele evento, já que a espionagem é prática usual da "diplomacia" dos EUA...Essa reação mostrou como estavam os ânimos e o que estava em jogo...

A questão central foi que o Brasil foi escolhido para funcionar como eixo principal da política de desmonte e isolamento da China pelos EUA...

Melhor dizendo: Fomos escolhidos para servir de exemplo aos demais, tanto pelas nossas virtudes, como pelas nossas atávicas fraquezas, como veremos...

Ahhhh, os cretinos dirão: "Noooossa mas como somos importantes, não, e a Rússia, Índia, África do Sul, por que não eles e sim nós?"...

Aí teremos que pedir um pouco mais de paciência aos cretinos para dizer: Voltemos mais um pouco no tempo, até Lula para entender o que passou a significar o Brasil desde sua posse...


De todos os países "parecidos", o Brasil é um dos únicos a impor certa "neutralidade" (por mais que deteste este termo) no cenário geopolítico global...

Por quesões históricas que não cabem aqui, não reunimos grandes embates regionais, temos um porrilhão de gente de todo canto do mundo aqui, convivendo de forma, mais ou menos, pacífica, o que nos confere uma tendência "natural" a interlocução mundial diversificada...

Foi assim, só para citar um exemplo, na tentativa de tratado nuclear com Ahmadinejad (Irã), vergonhoamente sabotado pela Turquia e EUA, para depois ratificarem um acordo com os mesmos termos, e foi assim em todas nossas intervenções globais, que nos alçaram a um protagonismo impensável para um país sem armas nucleares, sem tradição militar, ou seja, sem um pau grande para bater na mesa, como...

A Rússia tem sua interlocução sempre interditada pelos seus problemas na Europa, seu panrrusianismo, sua presença no Oriente Médio e seu histórico problema com a China...

Por outro lado, as tentativas de influir na política interna russa sempre deram o resultado oposto, ou seja, fortaleceram ainda mais as lideranças hostis e nacionalistas de lá, e isso é um desastre se considerarmos o enorme parque bélico herdado da ex-URSS...

Não mexem com a Índia por motivos parecidos, além do fato de que é insano desestabilizar um país com aquela gigantesca população, fragilmente equilibrado em sistemas de castas e pobreza extrema, poderio militar nuclear e que serve como aríete no jogo regional contra o poderio nuclear paquistanês...

A Turquia é uma das pontas de contenção da política estadunidense na região, junto com Israel, já que o posto (também) ocupado pelo Egito ruiu na primavera...

Resta a África do Sul, que pela sua posição geográfica, fica limitada a questão africana, que tem certo peso relativo no xadrez geopolítico, mas não apita porra nenhuma, porque a África é considerado o cú da mãe joana para os grandes ocidentais...

Se olharmos o mapa mundial, sob um enfoque histórico, veremos que foi a América Latina a região mais dócil em relação a agressão praticada pelos interesses estadunidenses, sempre respondendo com golpes e alinhamento imediato ao Irmão do Norte...

Em outras regiões, as tentativas semelhantes de ingerência culminaram com o caos posterior e a total desintegração dos países onde se deram, seja no Iraque, Afeganistão, com modelos clássicos de invasão, seja na Síria, Líbia, Paquistão, Yemen, Somália, nos Balcãs, etc...

No entanto, não é só uma questão de sadismo alimentado pela docilidade local, mas acima de tudo grana...

Em 2010/2011, Dilma e seu ministro Mantega cometeram outro grave sacrilégio contra o deus-mercado, a baixaram os juros a níveis mais humanos, causando uma perda de mais de US$ 100 bi a banca...Uma ninharia, eu sei, mas o problema, novamente, é o precedente que isto abriria...

Seguiu-se o desmonte de Mantega...inclusive por alguns blogs e analistas progressistas (cito aqui o blog do Nassif), que embarcaram no pânico disseminado da volta da inflação...Pois é, ironicamente, os juros passaram a subir e a inflação junto...são uns "jênios"...

A insistência do plano de investimentos da Petrobras (US$ 120 bi), a sua relativa capacidade de captação de  financiamento exterior, apesar das iniciais baixarias da Lava-Jato, dentre outros fatores, fizeram os donos do poder mundial decidirem pela política da terra arrasada, jogando para sacrifício alguns contratos de empresas de lá, como a Halliburton, mas punindo primeiro as empresas que ousaram apostar nas caravelas petistas, e que se lançavam como forças multinacionais, como Odebrecht, Queiroz e Galvão, etc...

Uma cochilada do Tio Sam e a Petrobras comprou uma refinaria em Pasadena...Caralho, esses cucarachos macunaímicos comprando refinaria aqui? "What' a hell is going on? Fuck them all!

Lembrem-se de outro detalhe menos simbólico que comprar ativos no campo inimigo...durante o governo petista foi mudado o regime de exploração do petróleo...

Já que não controlamos as reservas, então vamos aleijar, fatiar e comprar quem controla, e de quebra, colocamos o preço das reservas lá embaixo...Na bacia das almas, é só dar o menor lance...

E por que não há resistência do governo a tais ventos contrários?

Ora, isso implicaria em uma total reorientação de nossa tradição, onde nosso parque bélico-industrial teria que ser ampliado e modernizado para que pudéssem ao menos fazer cócegas no Império, ou ao menos incutir a dúvida da conveniência de uma intervenção militar...Isso requer tecnologia, investimento e realinhamento total da mentalidade ESG que ainda impera nos círculos militares, herança do regime de 64...

Vejam que a contaminação não é exclusividade militar, mas o próprio FBI já foi pego financiando operações e autoridades e desfilando sua expertise junto a PF durante o (des)governo ffhhcc, onde o bureau gringo tinha escritório em solo nacional, em grave afronta à nossa soberania...

Mas isso não ficou na década de 90, e agora, no RJ, o nosso "ilustre" secretário de segurança (?) autorizou (?!?!?) que dois agentes do DEA se instalassem na capital para "colaboração" com as forças policiais locais...E pior, isso nem é atribuição dele, nem do governo do Estado, rasgando os ditames constitucionais e a hierarquia federativa...

Enfim, Dilma pode ser destituída?

Pode, claro...

Mas esta possibilidade, apesar de ser encarada como um risco (e é um risco dramático), traz em si um paradoxal alento:

Por que golpear (ou destituir, com querem os "juristas de cocheira") uma presidenta tão impopular e/ou que fatalmente não fará seu sucessor?

Não dá para aguardar a eleição e consagrar um presidente eleito pela maioria popular, insatisfeita com o "mar de lama petista"?

Porque é preciso anular por completo a força política do projeto que ela representa, devolvendo o povo a sua auto-referenciação anterior, a de vira-latas, que o atual ciclo de poder ousou substituir pelo orgulho, combustível primeiro das nações do centro global.

É justamente este capital simbólico residual que dá a presidenta a chance de superar essa fase e emergir como a grande força política que realmente ela é, junto com Lula, porque, no fim das contas, o temor que incutem nos inimigos vem de uma condição que lhes é própria, pois são: 

Sobreviventes...




2 comentários:

George Gomes Coutinho disse...

Douglas velho de guerra,

Estou numa correria hardcore aqui pra cumprir uns prazos.. Por isso não prossegui aquele diálogo sobre o Zizek e tampouco poderei, neste momento, a tecer maiores comentários sobre esta perigosa situação institucional do "impedimento".

Todavia, como contribuição, divulgo link de nota da ABCP (associação brasileira de ciência política) sobre a conjuntura: http://www.cienciapolitica.org.br/nota-abcp-expressa-preocupacao-e-perplexidade-com-a-aceitacao-do-pedido-de-impeachment-do-mandato-de-dilma-rousseff/#.VmGDI7grLIU

Abçs

douglas da mata disse...

Falou, camarada George...até a próxima.