sábado, 21 de novembro de 2015

Slavoj Zizek: A economia política dos refugiados...

É um texto longo e denso...Nada fácil de digerir, portanto, idiotas, afastem-se...O pensador coloca uma série de pontos de vista que confesso, atacaram boa parte de minhas conivcções sobre o tema Europa, refugiados, atentados, e capitalismo global...

Porém, encontrei algum conforto ao convergir com ele naquilo que digo faz algum tempo: O debate sobre todas as questões que assombram o mundo ocidental é inócuo, se não considerarmos que só um ajuste global anti-capitalista é capaz de apontar um caminho...

Zizek traz a surpreendente proposição que o eurocentrismo não é o pior vilão desta história, na medida que, por um lado há uma série de complexismos e distinções de classe dentre os refugiados, e de outro, o paradoxo que é a Esquerda defender a liberdade de ir e vir porque esse axioma é justamente o motor do funcionamento do capitalismo global: liberdade total de movimento de mercadorias, e liberdade de movimento (controlado) das massas trabalhadoras que querem deixar a exploração de seus locais de origem (por absoluta impossibilidade material) para se alistarem à exploração do que ele chama de sweatshops europeias...

Outro ponto crucial em suas proposições é afastar o chorôrô pseudo-moral que alimenta o assunto...Não há vítimas, a classe trabalhadora europeia é conservadora, racista e anti-imigrante, e os imigrantes, por sua vez, querem o melhor da Europa (Wellfare State), sem abrir mão da sistemática cultura de violação aois direitos humanos, principalmente (e sempre) os das mulheres...

Enfim, Zizek afirma, de forma polêmica, que boa parte da esquerda, ao apoiar a liberdade de ir e vir dos imigrantes, atacando o eurocentrismo, acaba por criar um tipo de eurocentrismo de sinal trocado, como se, no mundo do capital global, fosse possível espalhar as liberdades ambulatórias a todo mundo, justamente o argumento utilizado pelos neocolonialistas para justificarem suas presenças militares nos países africanos exportadores de refugiados...

É, como eu disse, um texto complicado, mas merece atenção...

Leia aqui, no blog da Boitempo Editora, se desejar...

No fim, a certeza que é preciso ler mais e mais sobre o assunto, e renunciar a cretinice midiática disseminada diariamente dos altiplanos às planícies...

21 comentários:

George Gomes Coutinho disse...

Pois é.. trata-se de um conjunto de argumentos nada simplórios, um tanto difíceis de digerir em uma primeira mirada... Admito que estou me "acostumando" com o Zizek fazendo análise de conjuntura. Escrever análises no calor do momento sempre envolve apostas e riscos elevados.. Porém, é inegável que se trata de um gesto de coragem intelectual.

Por coincidência li uma curta entrevista dele hoje n´O Globo sobre o mesmo tema e compartilho contigo: http://oglobo.globo.com/cultura/livros/para-slavoj-zizek-tolerancia-entre-culturas-necessariamente-limitada-18102924?utm_source=Google+&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar

Por fim, admito que estou me acostumando com "esse Zizek"... O que li antes foi a coletânea dele sobre ideologia + as cartas de Lenin onde o esloveno apresenta uma interpretação (tão original quanto polêmica) + as observações dele sobre a cultura pop (O guia dos pervertidos do cinema, uma interessante aula onde ele junta psicanálise com blockbusters). Esse "novo Zizek" analista de conjuntura está sendo absorvido lentamente por cá...

douglas da mata disse...

Pois é, caro amigo, depois do Charlie Hedbo, comprei um livro-ensaio dele sobre o tema...

Não é fácil, mas é bem melhor quebrar a cachola pobre com ele, que digerir os mingaus da mídia cretina.

Eu acho que lá no fundo, Zizek quer nos dizer (gritar) o seguinte: Não adianta reformismo conjuntural do capitalismo, muito menos atacando o que ele legou de melhor à Europa ou a outras partes do mundo...

A luta anti-eurocentrista pode esconder armadilhas (neo)colonialistas.

Ou se aproveita o momento de tensão para propormos a ruptura do sistema, ou entendamos que sua reforma só recria velhas formas de dominação e novas faces de intolerância e culpa.

Mais uma vez, maquiavelianamente, o capital joga o recalque no colo das esquerdas.

Eu acho que é esse o centro do raciocínio dele (embora essa definição seja só ousadia da minha parte, mero chute conceitual).

Um abraço.

douglas da mata disse...

PS: O argumento de Zizek para a questão da tolerância é parecido com o que Vladimir Safatle esposa.

Tolerância já implica em rejeição, porque você só reconhece o espaço do outro até um limite ou pela negação daquilo que acredita, o que, simbolicamente, traz intrínseca uma violência simbólica que não raro explode em sintomas vários.

Na verdade, o que se deseja é a total indiferença em relação ao outro, ou seja, pouco devemos nos importar o que fazem judeus, muçulmanos, gays, ateus, etc.

A tolerância é quase uma concessão, que como tal, pode e será revogada sempre que surgir um interesse grave.

Já a indiferença é mais ampla, mas traz o problema da culpa ocidental em relação aos costumes alheios, como se fôssemos escolhidos para espalhar "as boas práticas" que salvarão os bárbaros de sempre.

Esse pensamento também contamina as esquerdas.

Acho que é mais ou menos por aí...

douglas da mata disse...

Neste sentido, a indiferença é formal e pública, na medida que estabelece limites (constitucionais) indiferentes, que rejeitam o privatismo (multi)culturalista.

Em suma, não me importa com o os outros veem o mundo, desde que haja regras gerais para que todo mundo viva neste mundo.

Um abraço.

George Gomes Coutinho disse...

Salve Douglas,

Vou fazer uns comentários esparsos está bem? Muito no sentido de corroborar o que vc está dizendo, portanto, colocando água no moinho do que vc já está apresentando....

São indicações paralelas somente que irei fazer....

1) Sim cara... a tolerância como postura ética ou normativa tem seus problemas... Admito que eu mesmo quase caí nessa armadilha há alguns anos atrás quando resolvi estudar o Michael Walzer. Walzer, muito associado à uma filosofia do direito e ao liberalismo anglo-saxão escreveu um livrinho chamado "da tolerância" (lançado entre nós pela martins fontes). Para q fui ler o tal livro? Uma preocupação pessoal ética em como lidar com a diferença e, também, por interesse profissional.. Na época eu estava estudando Habermas a sério e pensando a formação de comunidades transnacionais (foi minha época de mestrado e a dissertação foi uma tentativa de comparação entre o forum econômico mundial e o forum social mundial). Well, em dado momento comecei a sentir um puta desconforto cognitivo... O argumento da "tolerância" partia do pressuposto etnocêntrico de uma superioridade civilizatória..... Também há a infatilização moral do “grande outro” (todos aqueles que não partilham dos cânones culturais do ocidente).

2) Só muito tempo depois comecei a tomar conhecimento das propostas do Safatle e do Christian Dunker, esse último também da USP.... Eles, tal como Zizek, compartilham um arcabouço teórico comum (teoria crítica alemã, Hegel, Lacan...)...A questão é que os brasileiros adicionaram uma “complexidade” teórica/formal sobre a questão da diferença.. Dunker/Safatle andam lidando com a produção de Eduardo Viveiros de Castro na antropologia. Este termo que vc utiliza, a da “certa indiferença”, para eles é adotar o “multinaturalismo” (em oposição ao multiculturalismo que esbarra necessariamente nos dilemas que um Walzer tenta resolver com a tese da tolerância). O “multinaturalismo” é inspirado no que Castro chama de “multiperspectivismo ameríndio”. Este “multiperspectivismo” trabalha com a seguinte lógica: não somos iguais, não temos pretensão de ser.. Temos “naturezas” (o que envolve a cultura obviamente) que não são redutíveis a uma lógica de natureza “una”. Assim, nos cabe “viver e deixar viver” pura e simplesmente.. Acho essa proposta super ousada e nos tira de certos problemas que o liberalismo nos deixa como herança, onde há uma perspectiva universalista que “força a barra” com as diferenças... Por vezes admite a pura e simples intolerância, o que leva ao problema de acreditar que somos missionários civilizatórios.. Por outro, a tese da “tolerância” (muito presente no soft Power das relações internacionais), transforma o diferente em “criança moral”;

3) Evidente que capitalismo e culpa andam de mãos dadas... Cara, esses dias li um texto super curto do Walter Benjamin chamado “Capitalismo como religião”. Procure, está disponível em pdf gratuitamente... Justamente ele faz, antecedendo Zizek, psicanálise e materialismo histórico... Recomendo igualmente que vc busque o Giorgio Agamben pra dar uma lida quando ele comenta justamente o texto de Benjamin.. acho q vc vai curtir pra cacete....

4) Sobre o Zizek neste texto que vc recomendou, cara... é um texto q preciso estudar com calma... até para não fazer elucubrações apressadas e/ou injustas.... “Passei olhos”, mas, ainda não consegui destrinchar o argumento como um todo, tal com vc fez..

É isso camarada.. vamos trocando impressões.. isto é absolutamente saudável!
Abçs pra ti

George

douglas da mata disse...

Valeu pelo "roteiro de viagem", vou procurar os textos...vamos seguindo...

douglas da mata disse...

PS: O problema da tese do multiperspectivismo ameríndio (de Dunker) é que sua conformação na realidade exige uma esfera pública extremamente coercitiva, beirando o autoritarismo.

Daí porque não é incomum que os que lutam contra o eurocentrismo usando o mesmo eurocentrismo de sinal trocado (leia-se setores da esquerda citados por Zizek)acabam por defender saídas autoritárias, sem perceber o contrabando que há nisso (como defendem o direito de que os islâmicos mantenham suas violações aos direitos intactas ou impunes como traço cultural a ser preservado).

Acho que Zizek não tem nada definido, ele está provocando, intuindo, mas o certo é que ele sabe que este debate é inevitável se queremos propor alguma ruptura estrutural.

Acho que Zizek está parindo seu "Novo Homem".

Mas, como você sabe, eu também só tenho intuições e chutes...

Um abraço.

Anônimo disse...

Douglas, minha participação aqui não tem qualquer pretensão de acrescentar nada ao debate, longe disso. Sou um fã do blog e estou apenas saboreando com enorme satisfação sua “conversa” com o George. Mas surgiu uma pergunta, e mesmo constrangido ouso perguntar: sobre “a total indiferença sobre o outro” que você disse que entendeu na obra de Zizek, e talvez um pouco menos no “multiperspectivismo” descrito pelo George, existe aí uma herança de Albert Camus? Abraço e parabéns pelo ótimo debate em seu blog!

douglas da mata disse...

Sem constrangimentos, a pergunta só é tola quando não é feita, como ensinam os chineses...

É possível, e eu não havia olhado por este prisma.

Em breve tocamos no assunto, assim que eu reúna mais elementos que corroborem (ou não) com a proposição apresentada por você.

Valeu pela participação

George Gomes Coutinho disse...

Opa Anônimo(a)...

Embora a pergunta tenha sido direcionada ao Douglas, a única obra do Camus que me ocorre onde a indiferença é a grande protagonista é "O estrangeiro".... Li há um tempo atrás e considero até perturbador em certos aspectos...

Mas.. desconfio que a apatia do personagem de Camus não seja o mesmo que o Douglas defende... Há algo "anti-humano" demonstrado pelo protagonista de Camus...

por enquanto me contento com essas dúvidas... Até pq, admito que eu ainda estou digerindo as proposições do Douglas. Inclusive me recuso a "pseudo-aprofundar" o debate sem estudar a sério o texto inicial do Zizek que o Douglas recomendou....

Abçs e considero esses diálogos muito saudáveis. Inclusive nos tiram da aridez experimentada pela desolação d´O Estrangeiro

douglas da mata disse...

De qualquer modo, inicialmente, é preciso cuidado para não confundir o estilo (recurso) literário de isolamento da perspectiva do personagem-narrador com indiferença.

Mas, como já percebeste, é um outro grande debate.

douglas da mata disse...

Parece meio anacrônico meu comentário último, mas ele foi publicado sem liberar o do George...mas caminhamos, intuitivamente, na mesma direção.

Esta anti-humanidade não é peculiar a Camus, mas eu imagino que reflete um movimento cultural específico, com um corte temporal mais ou menos definido.

Kafka também apresenta uma anti-humanidade levada ao extremo com Metamorfose, aliás, eu estou lendo (e digerindo) os estudos de Carlos Nelson Coutinho sobre ele e Proust dentro da leitura histórica marxiana, cultura e literatura.

George Gomes Coutinho disse...

hehehehehe.... bicho, isso daqui tá virando um fórum virtual de teoria social!

Espero que não esteja atrapalhando a rotina do blog Douglas...

Mas, veja, eu não considero necessariamente o Camus um "anti-humanista" até por ele ser vinculado ao movimento existencialista.... Mas, aí sendo bastante circunscrito ao "Estrangeiro", é uma leitura bastante pessimista sobre o humano... Cumpre um papel que os romances existencialistas, tal como Sartre fazia, de denunciar o lado sombrio da espécia humana... Ao mesmo tempo que denuncia, também tenta ofertar, de forma sutil, as chaves da prisão de uma modernidade árida.

Igualmente leio Kafka assim...

Mas, muito bacana vc encarar o falecido e saudoso Carlos Nelson... Ele, junto com Leandro Konder, foi um dos caras que fizeram a introdução de uma crítica literária marxista por uma perspectiva "não acadêmica". Me explico.... Antonio Candido e Roberto Schwarz, dois uspianos de excelente cepa, trafegavam entre teoria sociológica e literatura..... Porém, sõa quadros orgânicos da academia. Isso é inegável, o que não é nenhum problema.

Carlos Nelson e Leandro, este último também falecido, "pegaram" influências de Lukács e Gramsci para construir uma crítica literária... Porém, ambos eram quadros do Partidão e apostavam que as perspectivas fornecidas por Lukács (comunista húngaro) e Gramsci (famoso comunista da Sardenha) poderiam "oxigenar" as interpretações do Partidão...

Por fim, peço desculpas pela extensão desta "nota de rodapé" no debate sobre o Zizek....

Abçs

douglas da mata disse...

O livro é Lukácks, Proust e Kafka, da Civilização Brasileira...presenteado por meu irmão, a referência intelectual da família...

E não se apoquente, o blog tem sentido por estes momentos, já que carecem as instâncias orgânicas e informais para esta tarefa de pensar e debater...

Mas, meu caro, eu vou ousar um pouco do que você disse: Camus não era anti-humanista pois era existencialista. Olha, eu acho que existencialismo não redime ninguém desse anti-humanismo, e os coloca sob o paradoxo denunciado por Zizek, rsrs...

Camus, como todos os demais, esposam essa contradição, embarcados na ideia (proposisção de Coutinho) de que o afastamento, o distanciamento, possibilitam uma leitura mais real da realidade, ainda que contada através de arquétipos e outros truques.

douglas da mata disse...

E já deu para perceber que a trilha do dia é Matanza...

George Gomes Coutinho disse...

Pois é... a trilha aqui é AC/DC... Embora que, admito, me divirto com a misantropia da galera do Matanza....

Sobre o debate, cara.. vou defender aqui um contexto... Carlos Nelson era um lukacsiano importante entre nós... Diga-se de passagem, tanto ele quanto Leandro chegaram a trocar correspondências com o próprio Lukács...

Ambos se situavam num debate sério entre a esquerda intelectual: tradição francesa (que influenciava o Partido Comunista Francês) e implicava uma crítica radical da experiência do socialismo real.. Estes se valiam das interpretações de Sartre e do estruturalismo de Althusser...Outros iam entre o que foi chamado de "escola de Frankfurt".... Neste caso, os que mobilizavam esse arsenal teórico eram os "intelectuais acadêmicos"....

Do outro lado, intelectuais críticos do stalinismo.. Mas, não abandonavam o socialismo real... Vide Lukács que fazia críticas, por vezes até mesmo condescendes, ao socialismo real.. Mas, apregoavam que este era o único caminho capaz de radicalizar a democracia. Por isso vejo o Zizek de alguma maneira vinculado a este debate...

De modo ou de outro, não desconsiderando o argumento do Carlos Nelson, eu "relativizo" o poder de fogo interpretativo dele sobre a literatura e a filosofia francesa do pós-guerra. Não defendo a neutralidade, ela não existe.. Mas.. por vezes Carlos Nelson tem uma perspectiva muito enviesada: toma emprestada a crítica de Lukács ao existencialismo frances e aplica os argumentos de forma seletiva sem fazer um "pente-fino" em Sartre.... Posicionamentos assim podem incorrer em injustiças intelectuais severas, aporias e afins.

Sartre e Lukács "saíram na porrada" em diversas ocasiões... Seja Sartre com seu "existencialismo é um humanismo" ou Lukács com seu "Destruction of reason". Eu considero um dos embates intelectuais mais relevantes da esquerda do século XX.

Enfim.. neste debate, o argumento dos existencialistas que implica um "auto-esclarecimento" como possível antídoto para o empobrecimento cognitivo inerente do capitalismo avançado não me parece de todo mau... Neste ponto fico com eles.. Até pq, diferente de Lukács, tenho profunda desconfiança de grandes agentes coletivos (o partido comunista no contexto histórico) capazes de gerar uma alavanca libertária. Era neste grande agente síntese que Lukács apostava... Aí falamos de Hegel, outra influência inegável do Zizek, que busca agentes ou estruturas sínteses do zeitgeist.

Finalizando, o exercício de expor mazelas, tal como em Camus ou nas peças de Sartre, na minha leitura, tem um potencial de gerar maior esclarecimento....Arrisco dizer que é mais eficaz do que o trabalho desempenhado por boa parte dos partidos de esquerda até hoje. Pelo existencialismo ir além do materialismo histórico, a "luta de classes" não é desconsiderada.. Mas, pensada dentro da subjetividade dos agentes...

douglas da mata disse...

Por pobreza teórica, tenho a inclinação a olhar com certa desconfiança a "esse ir além" do materialismo histórico que faz o existencialismo, porque há nesse ir além uma interdição teórica que também não é resolvida, e acabam por levar o ser social (agente) ao um alheiamento cínico, tentação de viés autoritária individual co-irmã e de sinal trocado do engajamento coletivista anti-existencialista.

De certa forma, o "abandono do socialismo real", contra o qual se debatiam Lukácks e outros, pode ter sido a fissura histórica por onde se destruiu algo antes de que fosse possível esgotar todas suas possibilidades.

É claro que alguns podem dizer, pegos na armadilha do teleologismo, que se acabou é porque não havia outra possibilidade.

Mas sabemos que não é tão simples assim.

A principal crítica que os anti-stalinistas colocavam no centro do debate para atacar o socialismo real nunca foi honesta e intelectualmente correta, na medida que o autoritarismo não é exclusividade do socialismo real, e nem só pode ser considerado sob uma forma de expressão, ou seja, como se apresentava nos moldes da ditadura stalinista.

Não se trata de relativizar ditaduras, mas de reconhecer que a ditadura de mercado já se apresentava naquele época, senão com tanta força, e nem tão hegemonizada (acho que só Marx intuiu onde esta merda iria chegar) mas já o suficiente para que eles entendessem que Democracia (ou seja lá o que isso for) também não rima com capitalismos e seus sistemas formais de representação ou sistemas e estamentos normativos estatais.

Por isso tenho rejeições conceituais a renegar experiências que não foram esgotadas...

George Gomes Coutinho disse...

Sim Douglas...

Concordando contigo, uma crítica ao socialismo real sem uma crítica do "mercado real" não é uma crítica da sociedade. É mera ideologia no sentido original que o velho barbudo usava: falsa consciência (vide "A ideologia alemã").

Igualmente considero que a história do século XX foi a dos regimes totalitários... Ditaduras formais no sul do mundo e na Europa.. Regimes fascistas.. socialismo real... Portanto, capitalismo e socialismo usaram a solução totalitária. O q eu digo é q mesmo nos limites da democracia representativa liberal, há algum espaço, mesmo que nas franjas do sistema, para a elaboração da crítica. Decerto a democracia nestes moldes não enfrenta os problemas estruturais do sistema. Se tentar, há sempre a tentação da solução totalitária dos agrupamentos sociais que se sentem ameaçados. Enquadro a "nova direita" autoritária brasileira contemporânea neste grupo.

Só que acho que os existencialistas criticavam tanto o mercado quanto as experiências totalitárias.....

Também concordo contigo na questão de que as experiências históricas "estão por se esgotar". Inclusive a própria bandeira socialista. Porém, não sem a auto-crítica necessária, evidentemente.... Até pq, um "socialismo redivivo" precisa pensar o que foi feito em nome deste ideal.

Finalizando, uma autora que talvez vc já conheça e corrobora com seu argumento de forma integral: Ellen Meiksins Wood em "democracia contra o capitalismo". Aqui há um trecho: http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/formacion-virtual/20100715084411/cap18.pdf

douglas da mata disse...

Pois é, meu caro, mas aí eu coloco outro problema: Reconheço a necessidade permanente, que os existencialistas tiveram a coragem de apostar, de denunciar os limites e erros da tentativa socialista, mas eu não posso desconhecer a lógica e a dinâmica da luta pela hegemonia e pela legitimação que coloca em risco as tentativas criticadas usando como ponta de lança os petardos teóricos dos existencialistas, como se fossem "arrependidos".

Os caras não imaginavam (ou não?) que a brecha daria munição para a reação autoritária?

Os caras desmontaram conceitualmente (que depois foi usado para derrubar o Muro de Berlim e erguer o de Tijuana) o socialismo sem oferecer nada em troca, e sem considerar as condições históricas nas quais se davam os abusos, como se o abuso fosse em si toda a experiência.

Me desculpe, mas essa não é uma postura intelectualmente honesta, e parece mais uma coisa de "fé", de ter ou não ter "fé", aqui, no "gênero humano", seja lá o que essa porra quer dizer...

Vejo isso em um monte de ex-petista ou petista envergonhado pela exposição de um processo de contaminação da agenda do mercado que é muito anterior que o que vem acontecendo, desprezando a ciência e suas explicações para o que está acontecendo, resumindo tudo a uma moralidade tacanha.

E, sejamos justos, é mais ou menos onde acabam caindo os existencialistas, fazendo as reparações anti-generalização, é claro.

Anônimo disse...

Isso aqui está bom demais! Já li e reli duas vezes os comentários (E que comentários!) de vocês, e vou ler outra vez! Douglas, seus leitores só tem a agradecer!

douglas da mata disse...

Grato pelo comnetário generoso...