sábado, 28 de novembro de 2015

Buddy Rich Live at The Montreal Jazz Festival





Sem comentários...

Luiz Carlos Azenha, abaixo da superfície...

Luiz Carlos Azenha é um dos grandes nomes do jornalismo (?) brasileiro não porque produz grandes matérias, ou porque finge imparcialidade, mas apenas porque pensa, característica que o distingue de boa parte de seus coleguinhas, dos altiplanos federais a tábua rasa da planície encharcada de lama...

Suas análises são simples, sem ser simplórias, ele enxerga um pouco além da necessidade de seus patrões de convencer que o mal nasceu em 2002, ou que foi a partir de 2002 que as coisas ficaram piores...

Neste texto abaixo, uma boa mostra de como as coisas são, sem maquiagem, as perspectivas e uma dose de "futurologia", porque afinal, ele "ainda é jornalista"...

São considerações que você não vai ler nas revistas que compraram informações do "japonês bonzinho", e que ninguém nunca saberá quem são...

Ora bolas, o que são uns crimezinhos de corrupão ativa (oferecer vantagem a servidor para que se omita, pratique ou deixe de praticar ato de ofício), violação de sigilo funcional, etc, se praticado em "nome do sagrado direito de informação"?

Você não lerá ou ouvirá Azenha nas porcarias que infestam as bancas ou rádio locais...

Tudo porque te tratam como idiota...bom, tem gente que gosta...aí não tem jeito...

Mas para quem gosta de olhar a questão por vários ângulos, a partir de uma premissa tão óbvia quanto invisível, a "cruzada da republiqueta do Paraná" não tem nada a ver com moral, ou justiça, mas entregar o controle do Estado e da coisa pública a quem não aceita desaforo: a grana e seus donos...

Então, aí está...prenda um pouco a respiração e desça um pouquinho além de onde apodrece o jornalismo-raso...

Convoquem urgentemente o Woody Allen: A Lava Jato começa com Delcídio do Amaral e a Andrade Gutierrez; termina com Marcelo Odebrecht

publicado em 27 de novembro de 2015 às 23:02
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O senador Ferraço (PSDB, PTB, PPS, PMDB), o prefeito Paes (PSDB, PMDB), o senador Delcidio (PSDB, PT), o senador Romário e o espancador de mulheres Pedro Paulo; Marcelo Odebrechet deixa a van sob o olhar do “japonês bonzinho”. Processado por contrabando, ele tem a confiança da direção da Polícia Federal e é suspeito de vender informações a revistas e ao banqueiro Esteves
por Luiz Carlos Azenha
Imaginem, por um momento, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol, José Maria Marin, recolhido ao seu apartamento na Trump Tower, em Manhattan.
A prisão domiciliar deve ter um impacto devastador para quem estava acostumado à badalação da vida de cartola no “país do futebol”.
Porém, aos 83 anos de idade, Marin sabe que poderia ser pior, bem pior. A essa altura, ele não tem nada a perder. Quanto mais contar, quanto mais colaborar com os investigadores, menor a pena.
Vamos combinar que, tirando o dinheiro, não há nenhum cimento ideológico que una Marin a Ricardo Teixeira ou Marcelo Campos Pinto, recentemente defenestrado pela Globo.
Ou seja, Marin vai abrir o bico mirando numa aposentadoria não muito distante no Brasil, preservada parte da fortuna que amealhou.
Para os que serão delatados por Marin, resta a certeza de que não poderão influenciar o FBI ou a promotoria dos Estados Unidos.
No Brasil, é diferente.
Imaginem agora o senador Delcídio do Amaral na cadeia, longe das filhas, da família. Um homem que transitou do PSDB para o PT em 2001, às vésperas de Lula se eleger presidente da República, lhes parece ideologicamente sólido?
Delcídio ocupou uma das diretorias mais importantes da Petrobras, a de Gás e Petróleo, no final do governo FHC. Conheceu então Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, os diretores da estatal agora convertidos em delatores. Todos, portanto, antecedem Lula no Planalto.
Delcídio é pluripartidário. O que o levaria a celebrar em seu gabinete um acordo entre Eduardo Paes (PMDB) e Romário (PSB) de olho nas eleições municipais do Rio em 2016? Seria a manutenção do status quo benéfica a seus próprios interesses pessoais?
Ou ele agia ali como preposto do governo Dilma ou do PT? A ver.
À Polícia Federal, o petista já fez declarações suficientemente comprometedoras para enredar o banqueiro, mas não duvido que Esteves passe alguns dias na carceragem — para efeito didático junto aos eleitores — e seja libertado.
Um banqueiro comendo as quentinhas de Bangu sempre pega bem no Jornal Nacional, vende a ideia de uma Justiça “justa”.
Além de não se enquadrar no perfil dos três Ps, Esteves pagou a lua-de-mel do tucano Aécio Neves — informação significativamente omitida por toda a grande mídia.
Independentemente de Esteves, o ex-líder do governo Dilma no Senado tem muito a dizer. Agora, diante da gravação que tem grande impacto junto à opinião pública, tudo indica que Delcídio ficará tempo suficiente na cadeia para ser convencido a “cantar”.
O Supremo Tribunal Federal, que atropelou a Constituição para prendê-lo, terá coragem de libertá-lo?
Foi assim, com a dureza da cadeia, que o presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo, teve a sua resistência “quebrada”. Segundo informações do Estadão, ele está pronto para “entregar” dois senadores, além de revelar esquemas na construção de estádios da Copa.
A empreiteira que Otávio dirigia teve uma parceria inusitada, por exemplo, na reforma do Maracanã: além da Odebrecht, associou-se à minúscula Delta, de Fernando Cavendish, o grande amigo do ex-governador Sergio Cabral, que por sua vez é aliado do prefeito Eduardo Paes. Paes quer eleger Pedro Paulo em 2016 e se candidatar ao Planalto em 2018 pelo PMDB. Romário seria o candidato ao governo do Estado.
O PMDB do Rio, lembrem-se, é aquele que emplacou o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. É aquele que enriqueceu graças ao pré-sal e a obras bilionárias feitas para a Copa e as Olimpíadas.
A seção carioca do PMDB é a única que pode financiar uma campanha presidencial competitiva, assim como a do PSDB paulista.
A dedução óbvia é que Delcídio provavelmente trabalhava por um futuro glorioso… no PMDB.
Ou, a mando de alguém, subordinava o PT ao PMDB nas eleições de 2018.
A delação do presidente da Andrade Gutierrez, agora acertada, tem potencial explosivo: pode jogar luz, por exemplo, sobre a obra do Maracanã.
A Andrade, registre-se, é parceira da Odebrecht e da Carvalho Hosken na obra do Parque Olímpico.
Mais de 500 mil metros quadrados de terreno público, transferidos às empreiteiras, agora contam com toda a infraestrutura. Valor?  720 reais o metro quadrado, multiplicados por 22 — já que as empresas poderão construir neles edifícios de 22 andares.
Foi por isso que Eduardo Paes sacrificou a Vila Autódromo, embora os moradores tivessem recebido títulos de posse provisórios (por 99 anos) do governador Brizola: para fazer, às margens da lagoa de Jacarepaguá, o jardim dos ricos que vão comprar imóveis das três empreiteiras!
Mas, voltando à Lava Jato, temos como um dos últimos resistentes Marcelo Odebrecht. Quanto tempo ele vai resistir? Provavelmente, os advogados da empreiteira já se movimentam nos bastidores para obter um acerto parecido com a da “concorrente”.
Odebrecht, lembrem-se, é aquele do “adiantar 15″ para JS, mensagem capturada em um de seus celulares. JS, tudo indica, como brincou um internauta, é Jula da Silva.
Delcídio, Otávio e Marcelo estão em posição para por abaixo o sistema político brasileiro, se resolverem realmente contar tudo.
Porém, se houver uma inclinação de delegados e promotores a ouvir apenas parte da História, por que motivo eles se arriscariam a delatar mais que o necessário?
Portanto, o PT está à mercê desta cascata de delações.
Consequências do 25 de novembro?
Para todos os efeitos, um governo Dilma dono de seu próprio nariz acabou. Um fato novo pode levá-lo ao impeachment, mas considerando as delações por vir é pouco provável que haja alguém mais confiável que Dilma para se arrastar, feito Sarney, até o fim do mandato. Um governo fraco, dominado pelo pensamento econômico neoliberal, vai produzir austeridade via desemprego — eliminando, assim, qualquer chance de sobrevivência eleitoral.
A candidatura de Lula, em consequência, murcha. Para o ex-presidente, escapar da prisão nestas circunstâncias será em si uma vitória.
A direita dispõe, portanto, não só dos instrumentos para recapturar o Planalto em 2018, como da legislação antiterrorista que sobreviverá às Olimpíadas e servirá, como o Patriot Act, para conter qualquer explosão social fora da institucionalidade. Não é pouco, para quem pretende retomar, num quadro de crise econômica mundial, a política do arrocho da ditadura.
Ironicamente, a legislação que permitirá à direita fazer isso foi produzida pelo governo Dilma e “aperfeiçoada” pelos tucanos, com intermediação de… Delcídio do Amaral.
Ah, Woody Allen, não chegou a hora de produzir um filme inspirado no Brasil, tendo o “japonês bonzinho” no papel principal?
PS do Viomundo: Pergunta que não quer calar diz respeito ao filho do Cerveró, Bernardo. Ele gravou por conta própria? Ou foi agente de alguém?
Leia também:

Charlie Parker - The Original Bird ( Savoy 1944-49 - Vinyl Album)





Obsessão em forma de arte...No filme Whiplash, Fletcher, o maestro-tutor-durão ensina ao personagem-baterista que as piores palavras na língua estadunidense são: Bom trabalho...



De acordo com a lenda veiculada no roteiro do filme, Parker, em certa ocasião, teria tocado, e após imaginar ter feito um "bom trabalho", quase foi decaptado pelo arremesso de um prato da bateria em sua direção, sinal de que seus melhores esforços não tinham sido recepcionados...



Passou um mês inteiro se dedicando ao estudo e a prática...e tornou-se o que foi...



Depois da tempestade, nascia o Bird...

Whiplash Soundtrack #02. Overture OST BSO





Um dos melhores filmes que já vi...Eu sei, eu sei, provavelmente falaremos isso ao longo da vida, toda vez que assistimos algo que nos surpreende...



Não há incoerência na frase...



Não é um filme sobre música ou músicos, embora a sofisticada trilha sonora, os bastidores, o requinte e o cuidado sonoro sejam ferramentas indispensáveis para contar essa história...



Um filme low profile, certamente que gastou pouco para ser rodado, haja vista a sobriedade da direção de arte e da cenografia...Poucas tomadas externas...quase claustrofóbico...



Por mais surrado que seja do conto do aprendiz que combate contra e depois ao lado do mestre, arrogância, humildade, superação chegando as raias da obsessão, é a forma de apresentar esses conflitos recorrentes que faz toda a diferença...



No fim das contas, o filme esposa a  filosofia falando sobre nossa inesgotável busca pela perfeição, e como isso pode ser benção e maldição ao mesmo tempo...

PS: Não pude deixar de notar no filme uma brincadeira com músicos de outros estilo, e a religiosa e auto-proclamada visão que os músicos de jazz têm sobre eles mesmos, em um poster aparece a frase: "Toque mal e acabe em uma banda de rock"....

Aqui a trilha completa: 

https://www.youtube.com/watch?v=00epu6nycX8&list=PLVXXtkqpldpEM0VyfR1YPb5KbezzUcY_6&index=6

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Matanza - A Arte do Insulto (Full Album)





Mais um pouco, agora na versão estúdio...

Matanza - A arte do insulto





Destacamos do Matanza uma singela homenagem a certos tipos conhecidos:



A Arte do Insulto


Nada mal
Pra um boçal
Retardado Mental
Infeliz

Tanto quis
Ser o tal
Conhecido entre os mais imbecis

Muito bem
Você tem
O talento que faz de você
Tão proeminente panaca
Dos que não são comuns de se ver

Começou
Fazendo bobagem desde que chegou
Não parou
Nem quando o bar todo esvaziou

Bebe Demais
Fala Demais
Mais na real não diz merda nenhuma

Só fica ai
Cheio de si
Mais não resolve as cagadas que arruma

Enquanto você fica ai arrumando tumulto
Eu vou me aprimorando na arte do insulto

Link: http://www.vagalume.com.br/matanza/a-arte-do-insulto.html#ixzz3shWHDrvW

Matanza - MTV ao vivo no Hangar 110



Conheci este grupo esta semana...No carro de um amigo policial quando nos encaminhávamos para nosso local de trabalho, passávamos pela paradisíaca São Gonçalo...pois é...trilha apropiada para terras de anomia...

Hinos de mau-humor, odes à bipolaridade como definimos ao ouvir umas poucas letras...

E diga-se que foi uma grata surpresa ver a língua portuguesa casada com hardcore, sem parecer uma piada de mau gosto, ou um "gospel"...

Claro que há uma tentação destrutiva, alimentada por doses cavalares de testosterona de quem espreita a morte em cada esquina naquele inferno de anti-urbanidade dormitório, mas a música do Matanza pode ser encarada como uma bem-humorada crítica de costumes...

Assim como deve haver alguma coisa engraçada e pitoresco naquele inferno sub-niteroiense, que faz Guarus parecer a orla do Tejo...

Santos da Casa não fazem milagres...

Parece que o projeto de protagonismo judicial da planície sofreu um duro baque...Foi destituída a pequena República do Paraná local...

Caem as sentenças com apelo anti-bolivariano e com juízos estéticos e políticos sobre decisões soberanas da mandatária local, e goste-se ou não das obras, são a sua execução de sua atribuição exclusiva, e sendo legais só devem sofrer a censura democrática dos eleitores, e nunca de burocratas togados...

E agora os cretinos que apelam para o judicialismo ficam presos na armadilha: 

Como censurar os atos da Justiça que antes comemoravam, só porque lhes favorecia?

domingo, 22 de novembro de 2015

Paris e Mariana, um outro olhar de Wilson Ferreira...

Novamente o blog se aventura em terrenos áridos...os estudos de semiótica e as interpretações proporcionadas por Wilson Ferreira em seu blog cinegnose.blogspot.com, a partir daquela plataforma (semiótica), não são fáceis de digerir...

Há muita coisa para se discordar, mas é indispensável apresentar e discutir o seu arguto ponto de vista das coisas...

De maneira pretenc(s)iosa (com a corressão proposta pelo nosso revizor de tessto anônimo), coloco os argumentos de Ferreira e Zizek em planos complementares...E o aviso de sempre: idiotas, cuidado!

Vamos ao texto:

A lama de Mariana e os atentados de Paris entre os tempos histórico e midiático



Causou estranheza a muitos leitores o título da última postagem: “Os Atentados de Paris não aconteceram”. Então foi tudo montagem? E os mortos? O “Cinegnose” está delirando? Por isso, este humilde blogueiro decidiu fazer mais um postagem detalhando melhor o argumento: os atentados de Paris "não aconteceram", paradoxalmente, porque foi um acontecimento noticiável. Da lama de Mariana aos atentados de Paris está em confronto duas noções de tempo: o histórico (colocado em segundo plano pela mídia) e o midiático. Ambiguidade, infogenia, noticiabilidade, tempo pontual e o terrorismo como um “pseudoevento” foram fatores que tornaram os eventos de Paris muito mais noticiáveis para a grande mídia do que a catástrofe humana e ambiental de Mariana.

Devido à grande polêmica entre os leitores sobre a postagem anteriorsobre os atentados de Paris, o “Cinegnose” decidiu fazer um maior detalhamento para tentar esclarecer dúvidas e uns tantos males entendidos. Parece que muitos leitores se apegaram aos aspectos mais sensacionalistas da postagem - os atentados não aconteceram? Foi tudo montagem? Falsa Bandeira? E os mortos? Foi tudo simulação? Mais uma das malucas teorias sobre conspirações? Esse humilde blogueiro estaria virando um Michael Moore brasileiro?


De início o título: “Atentados de Paris não aconteceram” é uma óbvia referência ao filósofo francês Jean Baudrillard que, diante da Guerra do Golfo de 1991 e dos atentados à torres do WTC em 2001, disse que tais fatos “jamais aconteceram”. Claro, não no sentido do seu registro “real” ( houve mortos, violência e destruição), mas como exemplares de fatos midiáticos e midiatizáveis.

Nesse sentido, os atentados de Paris foram bem diferentes da tragédia humana e ambiental de Mariana/MG. Em Paris tivemos um fato regido pelo tempo midiático, enquanto em Minas Gerais um fato regido pelo tempo histórico.

Enquanto o tempo histórico tem uma natureza espontânea e externa ao contínuo midiático, ao contrário, no tempo midiático temos a geração de acontecimentos midiatizáveis. Em outras palavras, são acontecimentos produzidos propositalmente para se encaixar a um roteiro pré-existente nas redações da grande mídia – possuem timing, logística e oportunidade perfeita para a cobertura e transmissão.


Vamos comparar essas duas tragédias (Paris e Mariana) dentro dessa dualidade tempo midiático versus tempo histórico para esclarecer melhor a postagem anterior e aprofundar o tema.

O homem que morde o cão é noticiável?


Tive um professor na faculdade de Jornalismo que definia o conceito de notícia dessa maneira: se o cão morde um homem, não é notícia. Notícia é quando o homem morde o cão. Mas as coisas deixaram de ser assim tão simples a partir do momento em que a expansão dos meios de comunicação criou um contínuo midiático– uma espécie de horizonte de eventos: fora dele nada acontece (embora continue existindo lá fora a realidade e a História), porque não é midiatizável.

Notícia é tudo aquilo que possa ser midiatizável: para o acontecimento do homem que morde o cão virar notícia dependerá não só do local e timing – a mídia deverá ter um roteiro pré-existente sobre histórias com personagens hidrófobos para que o acontecimento se encaixe no script e mereça a categorização de “noticiável” .

O primeiro a perceber isso foi o historiador norte-americano Daniel Boorstin, o primeiro teórico da simulação. Boorstin falava de uma categoria bem peculiar de acontecimentos que estaria cada vez mais dominando a sociedade: ospseudoeventos.

Seriam eventos que se distinguiriam dos eventos reais pela sua natureza falsa ou que tende para o artifício, para a fabricação deliberada para as câmeras de TV, fotografia ou repórteres.


Os pseudoeventos seriam fatos deliberadamente planejados e roteirizados para serem noticiáveis. Os leitores e espectadores acreditam assistir a acontecimentos “reais” (fatos “criados por Deus”, na expressão de Boorstin), mas, na verdade, consomem encenações que simulam serem fatos espontâneos – sobre isso leia BOORSTIN, Daniel, The Image: A Guide of Pseudo-events in America, Vintage Books, 1992.

Baudrillard definiu esse conceito de simulação como “greve dos acontecimentos” ou “assassinato do real” ao ver os primeiros eventos internacionais como a Revolução Romena de 1989 e a Guerra do Golfo de 1992 sendo transmitidos ao vivo. Até chegar aos atentados de 2001 nos EUA onde terroristas esperaram por quase meia hora pela montagem dos links de TV ao vivo para poderem transmitir ao vivo o impacto do segundo jato contra o WTC.

Para Baudrillard eles “não aconteceram”: foram “não-acontecimentos”, fatos noticiáveis porque foram gerados para serem inseridos no interior do horizonte de eventos midiáticos.

 Partindo desses pressupostos, podemos entender porque a cobertura da catástrofe de Mariana pela grande mídia brasileira é desconfortável, cheia de dedos como se pisasse em ovos: como acontecimento real disruptivo, histórico e inesperado (embora fosse uma tragédia anunciada por especialistas) é incômodo para a mídia porque foge dos roteiros pré-existentes, como veremos analisando esse quadro comparativo abaixo:


Mariana
Paris
Natureza do acontecimento
Espontâneo, fora do horizonte de eventos midiático
Pseudoevento, destina-se à repercussão propagandística nas mídias

Tempo
Histórico, acumulativo

Midiático, pontual, choque
Quem ganha?
Discurso anti-privatização

Discurso da Guerra Anti-terror
Noticiabilidade
Interdição política-econômica, logística difícil

Retrancas prontas, Sucursais, agenda política internacional
Infogenia
Local ermo, esquecido, incivilizado
Imagerie da civilização Ocidental: alta cultura, requinte e sofisticação

Ambiguidade
Inexistente, imagens falam por si mesmas

“Meta-terrorismo”: ambiguidade como estratégia para criar múltiplas versões

a) Natureza do Acontecimento


A tragédia de Mariana foi disruptiva. Embora alertada por especialistas, foi inesperada para o horizonte midiático de eventos. Inscreve-se nos “fatos criados por Deus” por ser um acontecimento externo ao contínuo midiático.

Ao contrário, os atentados de Paris replicam a narrativa da super conspiração terroristas iniciadas pelo 11 de setembro de 2001 nos EUA. Desde então uma série de produções audiovisuais (jornalísticas e cinematográficas) vem repercutindo na midiosfera essa narrativa – Bin Laden, Al Qaeda, ISIS, etc. convertidos em personagens ficcionais no cinema e fluxo constante de informações e especulações jornalísticas.

Os atentados terroristas buscam a repercussão massiva, propagandística.


(b) Tempo


A tragédia de Mariana foi regida pelo tempo histórico: causas foram se acumulando de forma subterrânea até resultar na catástrofe humana e ambiental. Como todo acontecimento histórico, resulta de fatores econômicos, políticos, ambientais, culturais e psicológicos que vão de forma secreta e anônima evoluindo, acumulando, até chegar ao acontecimento disruptivo.

O tempo midiático é bem diferente: ele produz intervenções pontuais que não possuem uma natureza histórica ou acumulativa – são replicações, clonagens, repetições de um único roteiro. Por isso, para evitar o tédio por serem mais do mesmo, devem ter um timing perfeito: no caso de Paris, após a queda do Boeing russo no Egito e um pouco antes da Conferência Internacional sobre o clima a ser realizado na capital francesa.

c) Quem ganha?


Boorstin aponta que esse quesito é fundamental para compreender o pseudoevento. No caso de Mariana, a sua cobertura inferior à acumulação, consonância e onipresença de Paris tem uma explicação evidente: quem ganha com a divulgação da tragédia de Minas Gerais é o discurso anti-privatização.

Simplesmente, Mariana é incômoda para a grande mídia porque ela quer replicar a narrativa do elogio às privatizações e do Estado Mínimo – estatais seriam intrinsecamente ineficientes e corruptas. E a privatização da Companhia Vale do Rio Doce sempre foi para a mídia o modelo de uma privatização supostamente bem sucedida.

Enquanto isso, nos atentados de Paris ganha o discurso anti-terror da agenda política internacional do século XXI.


d) Noticiabilidade


O Acontecimento de Mariana tem uma logística difícil, ao contrário de Paris de onde rapidamente são acionadas as sucursais e correspondentes das TVs brasileiras na Europa.
Além disso, todo atentado terrorista (principalmente em centros como Nova York, Londres e Paris) é um kit imprensa dado de bandeja para a mídia: “retrancas” prontas (por exemplo, o caso do brasileiro que voltou para o Brasil horas antes dos atentados, flores nas calçadas em homenagem às vítimas, a caça aos suspeitos, relatos de terror e emoção das vítimas, multidões unidas cantando demonstrando que o Ocidente jamais cairá etc.).
Mariana não é noticiável porque bate de frente com o roteiro anti-estatal da grande mídia: por isso a cobertura até pode apresentar o drama humana das vítimas da Samarco, mas não oferece as longas matérias humanizadas de Paris onde vítimas têm rosto, nomes e emocionam-se em close para as câmeras.

e) Infogenia


Paris é infogênica (fotogenia+telegenia), isto é, mesmo com todo os horrores do atentado, a moldura dos acontecimentos trágicos sempre será a dos elegantes cafés, fachadas arquitetônicas em art noveau e a luminosidade noturna refletindo nas calçadas molhadas dando um toque noir aos enquadramentos. Isso corresponde a uma certa ideia de civilização daqueles que acreditam que a história da arte acabou no impressionismo de Monet e Degas – um certo imaginário classe média dominante na mentalidade de muitos dos telespectadores.


Enquanto isso, a tragédia de Mariana ocorre num lugar que é a antítese de Paris: incivilizado e esquecido – parece que a catástrofe daquele lugar perdido só confirmaria um destino natural a pobres diabos.

Paris escandaliza midiaticamente porque acompanhamos pessoas jovens, bonitas e cultas com todo um futuro pela frente, cuja morte seria um destino inimaginável.

e) Ambiguidade


O último e, talvez, o mais importante fator pois gera rentabilidade midiática: repercussão e circulação rápida da notícia por meio de mídia espontânea.Desde os estudos feitos por Gordon Allport e Leo Postman em 1947 (leia A Psicología del Rumor, Psique, 1988), o fator ambiguidade é considerado o mais importante na transformação de uma informação em boatos, especulações, gerando o que hoje se chama mídia espontânea.

As fontes dos jornalistas dão versões e informações muitas vez contraditórias e incompletas: qual arma utilizavam? Uma espingarda ou uma kalishinikov? Quantos terroristas eram? Alguém fugiu ou todos morreram? A polícia matou ou os terroristas se explodiram? As versões proliferam em uma crescente espiral especulativa: Tudo foi uma “Falsa Bandeira”? Ou um “Trabalho Interno”?

 A dúvida entre a realidade e a mentira dá ainda mais alcance à notícia, produzindo uma espiral especulativa. Portanto, estaríamos diante de um meta-terrorismo: um terrorismo autoconsciente onde o relato midiaticamente ambíguo do atentado se torna mais uma arma letal da verdade.

Enquanto isso, as imagens da tragédia de Mariana falam por si mesmas, unívocas, acachapantes. Até ganharam polêmicas nas redes sociais, porém como debate inócuo da comparação entre a tragédia brasileira e a francesa. Debates que, como sempre, terminam em ofensas, xingamentos e intolerância.

sábado, 21 de novembro de 2015

Nancy Sinatra - These Boots Are Made for Walkin'



Estas botas foram feitas para andar (sobre você)...

Quem viu Full Metal Jacket (Nascido para matar), de Stanley Kubrick, se lembra da cena nas ruas de uma cidade vietnamita (acho que era Ho Chi Min, antiga Hanoi), onde o personagem principal, o soldado Joker e um coadjuvante "confraternizam" com os nativos...

O sobrenome famoso (sim, é filha do The Voice) não lhe garantiu o mesmo sucesso do pai, mas com certeza sua voz carrega um tom inconfundível...um quê de força grave que afasta a sensualidade vulgar com a qual a imagem tenta se aproveitar...

Abaixo, a letra da música que virou símbolo do feminismo dos anos 60:

These boots are made for walking

you keep saying you've got something for me.

something you call love, but confess
you've been messin' where you shouldn't have been messin'
and now someone else is gettin' all your best

these boots are made for walking, and that's just what they'll do
one of these days these boots are gonna walk all over you.

you keep lying, when you oughta be truthin'
and you keep loosin' when you oughta not bet
you keep samin' when you oughta be changin'
now what's right is right, but you ain't been right yet

these boots are made for walking, and that's just what they'll do
one of these days these boots are gonna walk all over you.

you keep playin' where you shouldn't be playin
and you keep thinkin' that you will never get burnt
I just found me a brand new box of matches
and what he knows you ain't had time to learn

and my boots are made for walking, and that's just what they'll do
one of these days these boots are gonna walk all over you.

are you ready boots? start walkin'!

Link: http://www.vagalume.com.br/nancy-sinatra/these-boots-were-made-for-walking.html#ixzz3s8ecgxPu




Slavoj Zizek: A economia política dos refugiados...

É um texto longo e denso...Nada fácil de digerir, portanto, idiotas, afastem-se...O pensador coloca uma série de pontos de vista que confesso, atacaram boa parte de minhas conivcções sobre o tema Europa, refugiados, atentados, e capitalismo global...

Porém, encontrei algum conforto ao convergir com ele naquilo que digo faz algum tempo: O debate sobre todas as questões que assombram o mundo ocidental é inócuo, se não considerarmos que só um ajuste global anti-capitalista é capaz de apontar um caminho...

Zizek traz a surpreendente proposição que o eurocentrismo não é o pior vilão desta história, na medida que, por um lado há uma série de complexismos e distinções de classe dentre os refugiados, e de outro, o paradoxo que é a Esquerda defender a liberdade de ir e vir porque esse axioma é justamente o motor do funcionamento do capitalismo global: liberdade total de movimento de mercadorias, e liberdade de movimento (controlado) das massas trabalhadoras que querem deixar a exploração de seus locais de origem (por absoluta impossibilidade material) para se alistarem à exploração do que ele chama de sweatshops europeias...

Outro ponto crucial em suas proposições é afastar o chorôrô pseudo-moral que alimenta o assunto...Não há vítimas, a classe trabalhadora europeia é conservadora, racista e anti-imigrante, e os imigrantes, por sua vez, querem o melhor da Europa (Wellfare State), sem abrir mão da sistemática cultura de violação aois direitos humanos, principalmente (e sempre) os das mulheres...

Enfim, Zizek afirma, de forma polêmica, que boa parte da esquerda, ao apoiar a liberdade de ir e vir dos imigrantes, atacando o eurocentrismo, acaba por criar um tipo de eurocentrismo de sinal trocado, como se, no mundo do capital global, fosse possível espalhar as liberdades ambulatórias a todo mundo, justamente o argumento utilizado pelos neocolonialistas para justificarem suas presenças militares nos países africanos exportadores de refugiados...

É, como eu disse, um texto complicado, mas merece atenção...

Leia aqui, no blog da Boitempo Editora, se desejar...

No fim, a certeza que é preciso ler mais e mais sobre o assunto, e renunciar a cretinice midiática disseminada diariamente dos altiplanos às planícies...

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Elza Soares - A Carne (Negra).



Como classificar terrorismos, uma chave fundamental na sociedade moderna é definir (ou não definir, como e mais comum), os conceitos de raça e cor...

Comumente os cretinos e os imbecis que os cercam, vomitam conceitos que misturam genótipos com fenótipos, buscando primeiro negar a existência de raças ou de um discurso de raça, para depois, com muita insistência, admitir que há raças e preconceitos, mas resumindo as práticas racistas à alguma condição de debilidade moral ou psicopatologia, como no caso dos ataques terroristas dos brancos supremacistas estadunidenses...

Por aqui, aqueles que proclamam a "igualdade" atacam sistematicamente qualquer medida de reversão das injustiças históricas ou da construção de uma memória de luta por igualdade, vociferando contra as as políticas afirmativas até o feriado de hoje...

Os empresários, que se auto proclamam socialmente resopnsáveis, e refutam em público qualquer ato racista, sequer disfarçam seu desprezo pela data comemorativa, e correm para "negociar" a abertura de suas lojas...

Alguém imagina a negociação do feriado da suposta paixão do carpinteiro bastardo, a quem os fundamentalistas católicos chamam de "messias"?

Ou o dia da morte do inconfidente  mineiro, ele mesmo branco e apresentado como uma imagem do judeu crucificado por Pilatos?

Pois é...

A carne negra não é a mais barata, porque neste país ainda não tem valor algum...

São 70% entre os presos...

São quase 65% entre os assassinados por arma de fogo...

São a maioria entre os mais pobres e os analfabetos...

Ganham menos 1/3, em média, dos assalariados que desempenham as mesmas funções...

São a maioria entre desempregados...

E se for mulher e negra, os números só pioram, com exceção dos homicídios, porque a violência fatal ainda é monopólio machista...

A arma mais letal da Humanidade é a hipocrisia...


O diabo (e os terroristas) são sempre os outros...

Ensinam os cientistas sociais, dentre os quais se destaca Bordieu, que a disputa política se dá sempre antes, em uma zona simbólica-discursiva, onde legitimamos e deslegitimamos as nossas práticas e as alheias, de acordo com o interesse de quem manipula o discurso para convencer, agregar ou excluir interlocutores...

Avançando para Foucault, com seu clássico Vigiar e Punir, ou nos seus estudos sobre a classificação da loucura, poderemos dizer que temos sob resumo uma boa noção da atividade humana em enquadrar comportamentos para favorecer ou desfavorecer intenções e crenças...

O curioso é notar que nem sempre os estudiosos fazem uma leitura marxiana ou de classes sobre seus temas de estudo, e alguns deles até rejeitam o determinismo do "Velho" que contamina as ciências sociais...

Mas não há como escapar do fato de que a classificação alheia, a exclusão e inclusão das pessoas em categorias discursivas é sempre movida de acordo com estratos de classe, e de sub-estratos dentro destas mesmas classes, refletindo a clássica noção gramsciana da luta pela hegemonia...

Hoje a moda é impor o rótulo de terror, ou terrorista, a todo grupo contra-hegemônico que utilize a violência como ferramenta política...

Grosso modo, não há dúvidas quanto a definição clássica de terrorismo, e não se discute que os atentados e atos praticados por grupos religiosos podem ser submetidos a estas categorias...ou seja, são sim atos terroristas...!

O problema, como sempre, é a seletividade da classificação discursiva, e a difusão, nunca acidental, das versões diferentes sobre fatos que se equivalem, em outras palavras, terroristas são sempre os outros...

Vejamos:

Os terroristas judeus.

Para "convencer" e pressionar as nações ocidentais pela criação do Estado de Israel, judeus, que migraram massivamente para a região da Palestina no início do século XX até o fim de década de 40, recorreram sistematicamente a atentados terroristas contra a comunidade árabe e palestina...
Mas a prática não ficou esquecida a um canto da História infame do estado-judeu, e como se não bastasse o terrorismo de Estado praticado contra palestinos confinados nas pequenas porções de território, os atos terroristas judeus continuam em voga, como você pode ler aqui...


Os terroristas supremacistas brancos.

Apesar da mídia cretina e fascista escolher, cuidadosamente, como classificar en suas primeiras páginas os atos de violência de brancos contra comunidades negras ao longo da História dos EUA, a natureza e dinâmica dos eventos não deixa dúvidas quanto a categoria a qual pertencem, seja pelo alvos aleatórios, motivação e modus operandi...
Ainda assim, a mídia branca de olhos azuis de lá, e a mídia mulata e cachorra-fiel daqui, repetem que tudo não passa de surtos psicóticos isolados...
Leia um pouco mais sobre o tema aqui...

Estes dois exemplos não esgotam a extensa lista de sabotagens e atos de sangue praticados pelos países ricos, e que são "esquecidos" ou apresentados com uma roupagem discursiva mais amena ou heróica...

É um estratagema complexo, porém nem sempre utilizado com o mesmo refinamento, dadas as limitações intelectuais dos que dele se utilizam, que em linhas simplificadas, ora apresenta uma indignação seletiva contra a violência terrorista (criminalizando uns e apresentando justificativas heróicas para outros), ora afirmando a tese da universalidade do sofrimento, onde se busca dizer que não importa a nacionalidade, classe social, lugar no mundo ou língua, somos todos vítimas e irmãos na dor...escondendo, é óbvio, a escala e amplitude, bem como as causas e efeitos do fenômeno...

Tortura, terror, medo, violência estão sempre na pauta de grupos ou governos, sejam eles representados em Gulags comunistas ou prisões como Guantánamo...

Mas a arma mais mortal da Humanidade é, sem dúvida, a hipocrisia...


PS: e já que a moda é ficar transtornado com o cruel espetáculo das decapitações, uma série de imagens de como as foças do "bem" tratam os infieis:

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Cabeças do grupo de Lampião exibidas em praça pública.

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Soldados dos EUA em Abu Graib se "divertindo" com prisioneiros muçulmanos...

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Drumond...Ah Drumond...

Não sei se os poetas já ganharam algum Nobel...

Mas é certo que Drumond poderia levar fácil, fácil, e apenas com um poema...

Ninguém nunca conseguirá igualar o feito de revelar o caráter (neste caso, a falta de) dos meios que se imaginam fins em si mesmos, ou seja, as empresas de mídia e seus donos vis e cretinos...

Vamos nos dar as mãos para juntos orarmos aquilo que o Pai Drumond nos ensinou:



AO DEUS KOM UNIK ASSÃO
(Carlos Drumond de Andrade)

EIS-ME prostrado a vossos peses
que sendo tantos todo plural é pouco.
Deglutindo gratamente vossas fezes
vai-se tornando são quem era louco.
Nem precisa cabeça pois a boca
nasce diretamente do pescoço
e em vosso esplendor de auriquilate
faz sol o que era osso.

Genucircunflexado vos adouro
VOS arnouro, a vós sonouro
deus da buzina & da morfina
que me esvaziais enchendo-me de flato
e flauta e fanopéia e fone e feno.
Vossa pá lavra o chão de minha carne
e planta beterrabos balouçantes
de intenso cameiral belibalentes
em que disperso espremo e desexprimo
o que em mim aspirava a ser eumano.

Salve, deus compacto
cinturão da Terra
calça circular
unissex, rex
do lugarfalar
comum.

Salve, meio-fim
de finrinfinfim
plurimelodia
distriburrida no planeta.

Nossa goela sempre sempre sempre escãocarada
engole elefantes
engole catástrofes
tão naturalmente como se.
E PEDE MAIS.

A carne pisoteada de cavalos reclama
pisaduras mais.
A vontade sem vontade encrespa-se exige
contravontades mais.
E se consome no consumo.

Senhor dos lares
e lupanares
Senhor dos projetos
e do pré-alfabeto
Senhor do ópio
e do cor-no-copo
Senhor! Senhor!
De nosso poema fazei uma dor
que nos irmane, Manaus e Birmânia
pavão e Pavone
pavio e povo
pangaré e Pan
e Ré Dó Mi Fá Sol-
apante salmoura
n' alma, cação podrido.
Tão naturalmente como se
como ni
ou niente.

(...)

E quando não restar
o mínimo ponto
a ser detectado
a ser invadido
a ser consumido
e todos os seres
se atornizarem na supermensagem
do supervácuo
e todas as coisas
se apagarem no circuito global
e o Meio
deixar de ser Fim e chegar ao fim,
Senhor! Senhor!
quem vos salvará
de vossa própria, de vossa terrííil
estremendona
inkomunikhassão?