sábado, 31 de outubro de 2015

Macaé, a princesinha arrombada do Atlântico...

Cada cidade, cada grupo ou cada pessoa projeta a imagem que faz de si...Esse é um processo natural que nos (auto) legitima, e dá a referência com a qual os outros nos enxergam...

Esse processo nunca é linear ou isento de acidentes, porque sempre o que pensam ou entendem de nós é diferente do que propomos...

E tais interpretações são instrumentos poderosos na disputa ideológica que permeia a luta de classes e a prevalência de alguns interesses sobre outros, geralmente os interesses de poucos sobre os da maioria...

Todas as cidades gostam de recitar frases que sirvam como epígrafes de sua comunidade, algo como símbolos ou imagens...

Por aqui, na taba antropófaga, tivemos até o mau gosto de colocar um índio sentado em um toco na entrada da nossa, como um escárnio final a lembrar o extermínio dos goytacazes...

A vizinha Macaé gosta de se imaginar uma "princesa", uma irmã mais nova e promissora, com delicadeza e candura para receber as pessoas...

Seu emblema original era Princesinha do Atlântico, logo depois substiutído pela Capital Nacional do Petróleo, uma vez que embora a Bacia fosse de Campos, foi lá que se instalou a cadeia extrativista e suas empresas...

Que idiotas, que tipo de gente vincula o seu caráter a provisoriedade de uma riqueza finita...e hostil?

O resultado é claro: Macaé dormiu princesa e acordou uma prostituta, violenta, desbocada, oferecida a forasteiros e dando aquela constante impressão de transitoriedade, própria aos amores comprados...neste caso, comprado a ouro negro...

Mas como tudo na vida, as coisas acabam por se acomodar, e as cidades têm essa incrível capacidade de reciclar sua dinâmica, e aos trancos e barrancos, os sistemas representativos e poderes públicos vão se virando para encaixar os arranjos de convivência...

Tudo com muito conflito, uns sublimados como infecções, outros expostos a carne viva...

Como era de se esperar, o dinheiro que comprava o estupro coletivo dos corações e mentes em Macaé acabou...

Resta uma cidade inchada, desordenada, ocupações em locais cada vez mais longínquos, dificuldades de acesso, violência urbana, trânsito caótico, equipamentos e serviços sempre insuficientes...

E qual a solução proposta pelo "jênio"que ocupa a prefeitura de lá? Cortar tributos, e atacar direitos e conquistas de servidores!!!!!

Ora, o alcaide macaense é médico, e como tal deveria saber que não se prescreve dieta para uma paciente à beira da inanição...

O resultado, claro, não poderia ser outro, e como um corpo doente, a cidade vai deixando à míngua contribuintes, servidores e serviços, órgãos vitais para o funcionamento da Princesinha estuprada e anêmica pela hemorragia histórica de seus cofres para satisfazer as demandas dos mais ricos...

O blog do Roberto Moraes publicou hoje a saída "jenial" do prefeito de Macaé para enfrentar o fim do cachê  (michê) milonário que a Princesinha recebia, e você pode ler aqui...

Macaé, enfim, volta ao século XIX, onde a "tese liberal" do "dotô-prefeito" de corte de impostos e "despesas" funciona tanto como as antigas sangrias ministradas pelos hipocráticos de então, panaceias inúteis e dolorosas para toda e qualquer doença...

Pobre Macaé...De Princesinha do Atlântico a vítima da abundância que veio dele...

7 comentários:

Anônimo disse...

Não vejo outra maneira de atrair empresas para a cidade, e com isso a possibilidade de gerar empregos formais - e independente da máquina municipal - do que isentando impostos específicos para a instalação dessas na cidade.

Anônimo disse...

Campos é uma cidade que não tem grandes empresas, não tem grandes indústrias e nem grandes fábricas. E como isso nos faz falta! Somos, por esse motivo, exageradamente dependentes da grana da Prefeitura. A ideia do prefeito de Macaé talvez seja para atrair mais empresas vinculadas ao mercado do petróleo e não deixar que aquelas que já estão na cidade, sair. Não conheço os números para saber que a isenção desses impostos seja realmente um impacto nas contas, com consequência de cortar tantos serviços públicos, e que a sua consequência não possa realmente trazer bons empregos para a sua população.

douglas da mata disse...

O custo médio dos empregos gerados (per capita), face o impacto positivo gerado (recolhimento de tributos diretos e indiretos com os postos de serviço e com a atividade econômica) nunca compensam.

Prova disso é que Macaé, por exemplo, no auge da atividade extrativista, com as receitas bilionárias, não conseguiu planejar e dar conta das enormes demandas por serviços (água, esgotos, escolas, segurança, infra-estrutura, transporte, etc).

Dinheiro público não pode (NUNCA) servir para "gerar" empregos, ou "atrair" empresas.

Empresa (ou emprego "formal") não é sinônimo de prosperidade, e quase sempre, quando bancada por renúncia fiscal, só concentra riqueza.

É o caso do Fundecam.

Mesmo que aceite este ideia, não tem sentido falar em economia (cortando salários) para dar a empresário. Sob nenhum argumento.

Grato pela participação de ambos.

Anônimo disse...

Mas então qual seria a saída para não ficarmos tão dependentes dos recursos (públicos) dos governos municipais na geração de empregos e no desenvolvimento de nossa cidade? Como gerar empregos então? Não conheço o orçamento municipal (nem de Campos e nem de Macaé), mas acredito que eles não conseguem mais pagar o funcionalismo público, pelo menos essa é a ideia que vendem. Li recentemente uma entrevista de Marcio Pochmann, em que ele diz que o desenvolvimento dos municípios passa pela industrialização desses. E imagino que para atrair indústrias, talvez só mesmo com a isenção de impostos para suas instalações. Obrigado pelos esclarecimentos. Abraço.

douglas da mata disse...

Temos que ponderar vários itens:]

- Os gastos com pessoal efetivo têm sido reduzidos ano a ano, e hoje representam menos de 20% do impacto nos orçamentos, incluídas aí os repasses aos fundos de previdência;

- Como sempre, a questão do servidor é propagada com viés ideológico, ou seja, querem um bode expiatório;

- É preciso definir desenvolvimento, o conceito de riqueza e prosperidade, são coisas distintas.

O teor do meu texto não discute que o Estado, nesse caso os municípios e seus orçamentos, são os indutores deste processo de industrialização tardia (no caso do Brasil).

No mundo todo o Estado cumpre esse papel, apesar dos cretinos repetirem o mantra do Estado mínimo e da não-intervenção.

A questão histórica é que nos países da 1ª Revolução Industrial, que hoje estão no topo da cadeias alimentar capitalista, o setor privado fez sua parte.

Aqui, no Brasil e no resto, ficou o patrimonialismo parasitário, e só.

Isso é óbvio.

Marx e o geógrafo David Harvey, este recentemente, abordam a questão do Estado-finança e as modalidades consorciadas de intervenção que proporcionam a formação do capital privado e a acumulação de bens de capital.

Eu discuto esta questão:

Dinheiro público não pode alimentar a concentração de renda advinda do processo de industrialização.

Temos o exemplo do Fundecam, e não vou mencionar os casos onde a sacanagem é flagrante. Vamos falar do que "deu certo", as empresas contrataram empréstimos, pagaram e alimentaram suas respectivas cadeias produtivas, ok...

Pegue o custo de cada posto de trabalho, amortize por 10 ou 20 anos, e veja que não há correspondência em impostos ou benefícios que justifique tamanho aporte. Cada emprego custa, na indústria, cerca de 500 mil reais, através de subsídios e favores fiscais, somando terrenos, etc.

Se colocar os custos de infra-estrutura, como redes de coleta de resíduos, reconfiguração de vias públicas, etc, o custo explode.

Se você pegasse esse dinheiro e desse por mês a qualquer um, como uma bolsa, apesar de todo preconceito, esse dinheiro provocaria uma onda de estímulo a economia, seja nos serviços, seja com a criação de mercado consumidor que atrairia pólos industriais.

Foi assim que o Nordeste avançou muito mais com a "merreca" do Bolsa-Família, se compararmos os bilhões de dólares torrados em subsídios e favores aos coronéis de lá, por anos e anos e anos...

Tinha uma graninha, e as indústrias acabaram mudando para lá para atender o mercado consumidor que se formou.

Estamos falando de 70,80 reais per capita/mês.

Como foi o caso do Pró-Álcool e o IAA aqui na região: dinheiro torrado e não ficou nada, nem tecnologia, nem vocação alguma.


E não tem nada de socialismo ou esquerdismo nisso: Os EUA distribuem mais de 2000 dólares por mês para famílias em situação de risco social (aluguel, food stamps, restituição de impostos, etc). E assim conseguem manter alguma atividade econômica.

Eles geram demanda, e não industrialização. Porque industrialização sem demanda só concentra renda.

Anônimo disse...

Perfeito. Obrigado.

Anônimo disse...

putz...