quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Dead Kennedys - Fresh Fruit For Rotting Vegetables (Full Album)





Olhando o estado das coisas, eu fico a pensar que os punks poderiam até ser chamados de otimistas nos dias de hoje...

8 comentários:

George Gomes Coutinho disse...

Cara, esse é um clássico do punk norte-americano... Em tudo é uma das produções mais ácidas do período em que a única esquerda atuante do período Reagan, mesmo que relativamente desorganizada, era o movimento punk. Me lembro do meu choque quando conheci a versão em vinil do "Fresh Fruits..." na primeira metade da década de 1990. Um vinil branco!

Jello Biafra, na minha leitura, ainda é uma das maiores cabeças do movimento... Sem descontar a trinca baixo-guitarra-bateria mais sofisticada do que usualmente se ouve em discos do gênero.

Finalizando com duas sugestões:


1 - Recomendo conhecer a versão lounge/Elvis do Faith No More para "Let´s lynch the landlord": https://www.youtube.com/watch?v=Wj2dTSjuvUA

2 - O livro "American Hardcore" do jornalista norte-americano Steven Blush faz um dos melhores apanhados sobre o período da insurgência punk nos EUA durante a ascensão do neoliberalismo da década de 1980... Comprei pela "alibris" há um par de anos atrás e trata-se de uma leitura apaixonante.. costuma dar uma sacudida subversiva na nossa pasmaceira.



douglas da mata disse...

Êita, meu companheiro George...Fascinante essa nossa inquietude balzaquiana(rs)...

Eu confesso a você, estou de saco cheio!

Pasmaceira, é essa a palavra!

Ando intoxicado pelo entulho das chamadas "guerras cotidianas ao crime", impregnado pelo odor ideológico das legitimações (dos discursos) de classe para justificar as maiores barbaridades em nome do Estado.

Essa máquina de moer gente, perene, metódica, ciclotímica...

Acho que está na hora de criarmos um movimento que grite (ainda que poucos ouçam) que o Estado é para servir a todos, na proporção de suas necessidades, e não para servir muito a poucos...

Não imagino, nos dias de hoje, em uma postura mais "punk" que essa!

Aproxima-se o ponto de não retorno...

George Gomes Coutinho disse...

Calma lá Douglas velho de guerra!

Os momentos de "chutar o balde" são fundamentais, por vezes funcionais... mas.... o abandono dos projetos de sociedade não pode realmente acontecer.. Inclusive sua própria resposta indica justamente o oposto: "Acho que está na hora de criarmos um movimento que grite (ainda que poucos ouçam) que o Estado é para servir a todos, na proporção de suas necessidades, e não para servir muito a poucos...".

Acho as catarses legais, precisamos delas... Mas, não podem ser algo cotidiano. Rotinizar a catarse nada mais faz do que torná-la inócua em seu sentido de purgar e reiniciar a vida.

É um momento interessante na minha leitura. Sim, há a "pasmaceira".... Especialmente em Campos neste momento talvez valha a pena, em termos conjunturais, mudar o nome do blog para "Planície Pasmaceira", dado que o lamaçal se apresenta enquanto estrutural e, diante da ausência de proposições e ações concretas, assim permanecerá. Já a pasmaceira nem sempre durou... Tivemos nossos momentos de insurgência.

Em outras escalas, seja nacional ou no espaço forâneo (todo o resto), há reacomodações que me são ainda misteriosas.... A única certeza que mantenho é que o mundo não é mais o mesmo de algumas pouquíssimas décadas atrás. Com um mundo em "partículas em suspensão", é preciso afinar a inteligência para entender os movimentos que ainda estão em uma dinâmica desconcertante. Tarefa dificílima essa. Mas, ainda não decidi buscar água em Marte.. Talvez os do tucanistão devessem ir pra lá.

Porém, eu que ando cada vez mais adepto das leituras de "longa duração" considero que o que assim é no presente não é uma condenação a priori do futuro. Entendi que o futuro não é encarcerável.

Por fim, não obstante concordar contigo sobre um Estado Democrático no sentido mais radical do termo, penso que devemos olhar para a sociedade. Ando meio obcecado na relação entre percepção do real, expectativa(s) dos agentes, atuação concreta. As práticas de Estado, este que temos e não qualquer outro imaginável, encontra legitimação na sociedade que o mantém....Como mudar? Olha, não tenho qualquer clareza a respeito.... O século XX foi pródigo na aposta da "ocupação do Estado" e na crença, absolutamente metafísica, da capacidade do mercado alocar recursos de forma eficiente. Talvez esteja na hora de entendermos esta sociedade que legitima tanto o Estado quanto o mercado.... Ali é que está o "ás do baralho"....

Até lá, concordo contigo que estratégias de re-significação do Estado são necessárias... Mas, estas são ainda tímidas na edificação do novo ser humano.

Abração de quem entende, tal como vc, que a crueza punk tem este grande sentido de nos sacudir sempre que necessário. E sacudir uns aos outros nunca foi tão necessário.

douglas da mata disse...

Êita, véio...

Tenho que concordar com boa parte, sob pena de desconsiderar a mim mesmo (me "deslegitimar")...

Mas há um nó górdio em sua proposição.

O "ás do baralho" não pode ter como ênfase exclusiva a percepção de que "a sociedade que legitima o Estado quanto o mercado"...

Pelo menos não como uma proposta fatalista ou teleológica.

As forças que dominam o Estado hegemonicamente impõem esta noção que é oferecida como única possibilidade (ideológica) para a sociedade, e isso faz parte (como causa e efeito) da disputa, mais ou menos como descobrir o que furou o pneu enquanto o trocamos com o carro andando.

É essa interdição que a Sociologia não dá conta, e se equipara a uma fé qualquer...

Outro ponto de divergência é o seu chamado para "olhar a realidade"...Qual realidade, caro amigo, se tudo parece uma versão mal (re)contada?

douglas da mata disse...

PS:

Adaptando sua sugestão, juntando os conceitos, eu ficaria com Planície Pasmacenta...que tal?

Anônimo disse...

Que debate! Só leio isso aqui mesmo. O melhor blog da cidade de Campos!
Obrigado, Douglas!

George Gomes Coutinho disse...

Opa Douglas... Foi mal pela demora... Não foi qualquer tipo de "indiferença"... Acabei me enrolando com outras coisas por aqui... Mas.. enfim...

E os enrolos são providenciais por vezes. Inclusive me deram um tempinho para refletir (risos)... Vou ser esquemático sem pretensões de ser definitivo:

1 - Cara.... logo após que li meu texto de resposta achei muito "sociológico" (risos). Portanto, vc está corretíssimo.... Não sei se eu conseguiria ser muito diferente, até pelo tempo que lido com essa ciência... Lá se vai mais de uma década, contando da primeira graduação pra cá!

2 - Sim... a sociologia não pode dar conta "per se".. Em verdade ela apresentará algumas questões relevantes ao debate, porém, sem qualquer pretensão de esgotar qualquer ponto... Levantará lebres sociológicas que são importantes. Só não dará conta do resto da fauna e da flora. A sociologia, como toda ciência, é dotada de uma "razão contingente". Como pude observar em outro posto seu aqui no blog, só a religião ofereceria uma "razão substantiva", irrefutável, a-histórica, omniabarcadora, etc.. A ciência, por sua estrutura cognitiva, tem o dever de ser infinitamente mais humilde. Inclusive se vc encontrar cientistas, da natureza ou das humanidades, dotados de "síndrome de Deus", leve-os ligeiro para algum tipo de asilo mental.

3 - Sim, vc está correto na sua questão sobre um "modus vivendi" que é vendido como se fosse único. Este modus vivendi é perfeitamente funcional tanto para manter o status quo quanto é aprazível para grupos dominantes prosseguirem em sua pilhagem da riqueza que é, em última instância, produzida socialmente. Ainda bem que há forças contra-hegemônicas diversas, progressistas ou não, que disputam os projetos... Mas, penso que estas forças derivam ainda da sociedade e podem ser plasmadas ou não pelo sistema político... Seja em ação coletiva, em partidos tradicionais, etc... Porém, os progressistas, pelo menos neste momento, estão em franco processo de encolhimento por conta de um longo e bem feito processo de tomar "corações e mentes" nos últimos tempos... Esse reacionarismo, o Udenismo lacerdista fora de hora, o fascismo urbano dotado de um discurso racista e classista... Tudo isso está aí e o ovo da serpente chocou...

4 - Só que eu penso que ainda a coisa toda não foi pro ralo, a disputa ainda está aberta....A serpente pode ser sufocada enquanto filhote..... E se o Estado é um agente estratégico a ser ocupado, seja por ser invariavelmente o maior agente econômico e, dependendo de quem o ocupa, tb pode ser um importante motor civilizatório. A questão é que acho que neste momento talvez exista um esgotamento... O PT avançou mas, abdicou da imaginação política. Veja bem, é uma constatação e não tenho uma solução milagrosa pra esse imbróglio. A necessidade de lidar com a realpolitik acabou defenestrando as soluções criativas que já seriam suficientemente subversivas em uma sociedade conservadora como a nossa.

George Gomes Coutinho disse...


5 - Nesse ínterim, sem deixar de mirar na sociedade por dever de ofício, acho que a promoção de debates e disseminação de informações de qualidade é fundamental... Só isso, dada a miséria da mass media, já é bastante arrojado. Aí é o espaço de "tomar corações e mentes" e afirmar que temos um projeto melhor do que o dos mercadocêntricos. Qual seria? Admito que só tenho um conjunto de valores inegociáveis neste momento... Sem receitas por enquanto.

6 - Por fim, a "realidade".... termo pesado.... Toda definição sempre estará atrás em termos da real complexidade do "real". Mas, o real, fazendo uma redução muito grosseira, é este conjunto de elementos quantificáveis e não quantificáveis, o conhecido e o desconhecido, matéria e simbolismo... A despeito de nossa limitação cognitiva, este "real" está aí sempre batendo na porta. por vezes, sem nem bater... Chuta mesmo! Nossas narrativas tentam dar conta deste complexo sem ordem prévia... O problema está na qualidade das narrativas que são ofertadas e se elas conseguem, mesmo que de forma limitada, dar conta com maior ou menor força do que está apresentado e nos engole.

É isso velho.... Como disse no início, sem pretensão de fechar coisa alguma.. Só tentar fazer o exercício do ensaio para ver se tem luz no final do túnel... Me parece que há. A questão é continuar afiando a boa e velha ação reflexiva....