sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Dilma e seus dilemas...

Circunstâncias históricas não podem ser comparadas com a mesma régua, por outro lado, não devem ser relativizadas ao extremo...

Explico...

O PT e o Governo Dilma não podem  reclamar (muito) dos ruídos golpistas da oposição midiática...De certo modo, quando estávamos na oposição saímos às ruas  com o "FORA fhc"...

Mas as semelhanças param por aí...

O cinismo escroto da mídia, e seus asseclas, não pode esconder um fato histórico:

Os movimentos políticos da década de 80 e 90 se levantavam contra os governos estabelecidos , mas tinham caráter contra-hegemônico, ou seja, buscavam destituir uma ordem estabelecida...isto é, construir uma ordem onde o governo representasse os interesses da maioria, enfim, buscavam aproximar a representatividade formal da representatividade orgânica da sociedade...

Já os movimentos recentes, que mostram a cada evento perder força, com o minguar de gente que foi às ruas, buscam restabelecer esta ordem hegemônica, onde a reprsentação formal do governo seja restrita ao critério quantitativo eleitoral, afastando a manifestação dos interesses e demandas majoritários da gestão do Estado.

A manutenção dos aspectos meramente formais da representação visa garantir que os interesses de poucos prevaleçam sobre os de muitos...

Se é verdade, portanto, que dos dois movimentos pedindo a destiuição de presidentes são, formalmente, contra-constitucionais, por outro lado, é impossível não perceber, apesar dos esforços cavalares da mídia comercial, que os movimentos têm origens e pretensões políticas distintas...

Cada facção política legitima sua presença como melhor lhe convém, mas não podemos permitir que todos sejam considerados a mesma coisa, como se essa "igualdade"  concedesse um salvo conduto às forças reacionárias para a defesa de interesses que NUNCA são explicitamente colocados...

É estranho, e quase sempre imperceptível como os golpistas nunca se chamem pelo nome, nunca digam que são de direita ou conservadores...Buscam sempre apelidos ou bandeiras políticas convenientes...auto-denominam-se liberais, modernizações, eficiência, democratas, patriotas ou apartidários ou apolíticos...

Essa "discrição" não é acidental...

Quando junto com outras forças, o PT foi às ruas pedir a saída de fhc, a agenda estava claríssima: Queriam que o país e seu patrimônio não fosse vendido a preço de banana, sob a falsa justificativa de que os poucos bilhões de dólares serviriam ao incremento da qualidade dos serviços públicos destinados aos mais pobres...

Junto a isso, PT e aliados desejavam a redução das desigualdades, o aumento do emprego, a melhor distribuição de renda e dos serviços públicos...

Quando vão às ruas hoje, psdb e aliados desejam justamente destruir essas conquistas, retomando o processo de desmonte do que restou de Estado...

7% de desemprego é uma taxa alta nesses dias? Pois é, na octaéride tucana o desemprego nunca esteve abaixo dos 9%, e ainda assim a mídia e o estamento ideológico conservador alardeavam um sucesso absoluto na gestão econômico demotucana...

Inflação de 9%?

A "equipicona" do psdb entregou o país em 2002 com 13% de inflação e taxa de juros média acima dos 20% ao ano...

Eu aceitaria satisfatoriamente que os tucanos e seus lacaios da mídia (local e nacional) fossem às ruas dizendo a verdade: Queremos entregar a Petrobras de bandeja, queremos mais juros ao capítal, salários e direitos menores, diminuição dos investimentos e programas sociais, restrição dos recursos da saúde e da educação, etc...

Eu aceitaria de bom grado as manifestações golpistas, ainda que não concorde com elas, se dissessem que o almejado "fim da corrupção" é algo mais ou menos como o desejo pela "paz mundial" que as candidatas à miss, expresso nas entrevistas ensaiadas aos jurados...

Democracia não é só bater panelas ou vociferar palavras chulas e/ou de baixo calão, mas explicitar verdadeiramente o que se deseja, para que as escolhas sejam honestas, ou o mais próximo disso...

É uma diferença sutil, mas crucial...É a diferença entre ruptura e reacionarismo...

Conservadores, em um ambiente democrático, não devem temer expor suas bandeiras (as verdadeiras)...

Assim como os petistas e governistas não devem temer a cobrança de que foram às ruas para pedir a queda de um presidente eleito (fhc)...

Ao contrário, devem revelar que o fizeram, e fizeram sem o apoio massivo da mídia comercial, e muito menos sem o conluio com as forças reacionárias que se instalaram no Judiciário...

É bem verdade que o PT também se beneficiou do protagonismo macartista do MP naquelas décadas, e hoje paga caro por isso...Parte do capital político que amealhou na epóca foi tomado de volta, como um empréstimo de juros extorsivos...

No entanto, a (cor)relação de forças é totalmente distinta...Naquela época, recém agraciados com (super) poderes constitucionais que hoje os equiparam a Santa Inquisição, alguns poucos promotores e procuradores ousaram utilizar estas prerrogativas para desafiar o establishment...

Hoje, com a institucionalização do moralismo hipócrita e seletivo, o Parquet, com raras e honrosas exceções, funciona como correia de transmissão das hostes fascistas nacionais...

Por isso, procuradores como aquele de Brasília, Luiz Francisco, juízes como De Sanctis, ou policiais como Protógenes Queiroz ou Paulo Lacerda, foram ridicularizados e trucidados, enquanto que outros são elevados ao panteão dos "heróis nacionais"...

Ué, todos não lutavam contra a corrupção?

Pois é, mas uns lutavam contra a corrupção da revista "óia" e suas relações com a "cachoeira" de crimes organizados, ou contra banqueiros-fiadores da privataria demotucana, e outros dizem lutar contra aquela que parece ser a única forma de corrupção que merece atenção: A petista!

Mensalão, petrolão? Uai, a globo sonegou uns três ou quatro petrolões e até hoje quase ninguém ouviu falar disso, e apesar disso, ainda tem gente que envia dinheiro para a chantagem emocional chamada "criança esperança"...

Esperança para quem? Para os "eleitos" e "escolhidos" pela globo e pela "unicef"? 'Tá bom, me engana que eu gosto...

Então, ainda que tudo pareça igual, cada caso é um caso...

Dilma padece de um dilema, que não é só dela, e sim de todas as forças de esquerda que apostam na via institucional e creem na reforma gradual do Estado:

Acreditam que a outorga (formal) conferida pelas urnas, em seu aspecto quantitativo (maioria), confere uma legitimidade que se auto-impõe e será sempre respeitada pelos adversários...

Logo, quando Dilma se defende reivindicando ser a portadora dos votos da maioria, ela "esquece" o seu passado...

Esse "esquecimento" é necessário para afastar dela o sentimento revanchista imobilizador, que a impediria de ter se tornado o que é: Um exemplo de respeito à constitucionalidade e a ação política racionalizada...

Mas, paradoxalmente, esse "esquecimento" apaga de sua memória política um traço que deveria ser constante em sua práxis, a de que os adversários só respeitam regras que lhes convêm, e pior:

Seus inimigos da oposição não querem sua cabeça porque ele "ganhou" as eleições, querem a sua cabeça porque o PT e o seu governo moveram (ainda que levemente) o mandato formal obtido nas urnas para próximo das demandas da maioria da população, e atacou os interesses de quem lucrava com o "estado das coisas" em passado recente...

É preciso que os golpistas da direita digam à população o que realmente querem...

Também é preciso que Dilma e o PT digam realmente porque estão sob ameaça de golpes iminentes, desde 2002...

Sem esse esclarecimento, nossa Democracia permanecerá interditada...

4 comentários:

Roberto Moraes disse...

Repliquei no perfil do FB como seguinte comentário:

Muito boa a análise do Douglas da Mata. Ela não faz propaganda e nem procura esconder a realidade. Ao contrário usa como materialidade do diagnóstico do que se entende por real. Sem a falácia da cretina neutralidade, sempre alegada, por quem não tem segurança para sustentar seus argumentos. Vale ser lida e replicada.

douglas da mata disse...

Valeu meu caro...

Anônimo disse...

Já podemos fazer análises e comentários diferentes Estamos autorizados. A Presidente acaba de confessar que "errou" quando negou a crise. Só "soube" depois da eleição, durante a campanha o marqueteiro João Santana mandou "esquecer". Aí não dava mais tempo. Ou seja não precisa mais da oposição. Ela já reconhece. Ah, que legal, finalmente vai cortar Ministérios e cargos comissionados. Pouco vai adiantar. São os Ministérios que já desempenham tarefas superpostas. Dois fazendo a mesma coisa. É como um auxiliar de ajudante. Cargos comissionados serão cortados aqueles que ainda não foram preenchidos e que com a saída do Temer, não se precisa mais desses mimos para acalmar os votos bombas. Os petistas, principalmente Douglas e Roberto Moraes já deveriam fazer suas análises, e tem competência de sobra pra isso, tendo como cenário o exemplo de Atenas, do possivel destino de uma sigla que poderia ter a eficácia por um período maior no poder. O reconhecimento da Dilma já acena com a possibilidade de se essa saída se der que seja pela porta da frente da História.

Jose Pixuleco.

douglas da mata disse...

Caro Pixuleco,

Você tem autorização para falar o que quiser, e eu de publicar o que me convir. Esse é um blog de opinião e nunca, eu repito, NUNCA pretendeu se mostrar apartidário.

Talvez só você, e outros cretinos da pixulândia conheçam uma campanha política onde o candidato se auto-imola em públibo. Eu acompanho campanhas há um bom tempo, seja na Europa, ou nos EUA, e nunca vi ou li uma crise de sinceridade.

E não por uma ou duas vezes critiquei a onipresença do marketing em detrimento do debate político, mas não só no caso de Dilma, mas de todo os sistema representativo brasileiro, que importou esse modelo (marqueteiro e pesquisas) da indústria eleitoral estadunidense, e ainda piorou com a hiperbolização do entulho chamado "justiça eleitoral".

Se conseguir ler e interpretar, é só procurar os textos e comprovar.

É fácil para os habitantes de pixulândia confundirem campanhas e marketing com o ato de governar, e mais, confundir tudo isso com o partido.

Mas isso não quer dizer que esse blog vá adotar essa agenda tola só para agradar esses estranhos seres pixulentos.

Bom saber que em pixulândia, a quiromancia anda a todo vapor: Veja, você já nos revelou a saída do Temer...uau, estás perdendo tempo comentando em blog de 18ª categoria como esse aqui por quê, meu filho? Corre para grobo...vais ganhar um caraminguá facinho por lá...

Esse blog, como o do Roberto (embora ele mesmo deva se defender), sempre fizeram TODAS as análises, de vários cenários, com uma baita diferença para sua visão limitada por viseiras (acessório obrigatório em pixulândia):

Compreendemos e analisamos a crise estrutural do sistema capitalista, a crise advinda do divórcio desse sistema capitalista e as democracias representativas, a disputa pelo poder hegemônico mundial, e por aí vai...

Para ficar nesse reme-reme contra Dilma (Lula) e o PT você já tem a óia, a grobo e outros canalhas locais, que fazem o maior sucesso na pixulãndia.

Essas "perfumarias" que Dilma menciona, como cortar ministérios e cargos, ou admitir que errou (e quem não erra?), são apenas para acalmar a patuleia ávida por discursos populistas, bocós que imaginam que Dilma cozinhando na Ana Maria Brega é sinal de capitulação...

Idiotas que acham que corrupção é causa e não um sintoma, e que acreditam que é possível uma cruzada moral que queime apenas um tipo de bruxas.

Pobres coitados, decididamente, política não é para amadores.