domingo, 21 de junho de 2015

Campos dos Goytacazes (e região): Pequenas reflexões e um panorama breve.

Este não é o primeiro, e com certeza não será o último ensaio deste tipo...Muita e muita gente se dedicou (e se dedicará), com muito mais expertise e cabedal intelectual (como gosta a minha amiga e professora Heloísa de Cássia, estudiosa desta cidade) a tentar entender como esta cidade se tornou o que é, e porque não foi o que poderia ter sido...

Todos já pisamos e repisamos o terreno da transição da agrodependência monoculturista, que nos legou os piores índices de concentração de renda e desigualdade social do Brasil, e talvez do planeta, para o modelo extrativista petrorrentista, onde os estratos sociais e os agentes econômicos trataram de se rearrumar no tabuleiro da realidade...

É fato que cada estrato social detinha seu próprio capital e expectativa, e dessas assimetrias resultaram ourtas assimetrias...

Grosso modo, as elites locais passaram de financiadoras do Estado para a condição de dependentes deste financiamento...Logo, o eixo de poder também se deslocou desta forma...

Se antes os coronéis mandavam na política sem arranjos intermediários, com a debacle econômica passaram a se reportar a novos mandatários, oriundos das camadas médias-baixas...

No entanto, como sabemos, o capital não leva desaforo e nem recebe ordens, e rapidamente as forças econômicas se transformaram e se adaptaram, e outras "novas" desembarcaram, constituindo um novo ciclo econômico baseado na exploração de serviços e compras públicas, na especulação imobiliária e outros setores de baixíssima inovação e investimento, mas de alta rentabilidade no curtíssimo prazo...

O efeito sobre as forças políticas em movimento foi desastroso...e conhecido...

Se de um lado a tensão das lutas de classes do tempo dos coronéis era mantida sob controle do uso da força real (não raro física), e o medo era ingrediente permanente das relações sociais, de outro lado, a complexificação e sofisticação das disputas políticas recentes (pós-88) diluíram estas tensões em um ambiente onde os conflitos assumiram dimensões quase individuais...e fortemente simbólicas...

Aliás, este é um resultado direto do processo de "nova" representatividade trazida com a chegada ao poder da dinastia que o mantém até hoje, comumente chamada de personalista...

Erram os que denominam de personalista o projeto de poder atual tendo como referência o mandatário, o chefe do clã local...Ele é personagem importante, mas não é o único, sequer o preponderante...

A grande "sacada", o grande salto deste grupo foi personificar parte deste poder (ainda que ilusoriamente, sabemos todos) em cada eleitor, destroçando qualquer laço de coletividade...

A "intimidade" com o poder, característica fundamental para entender a longevidade deste grupo no poder local, desestimula qualquer tentativa de institucionalizar os laços e relações entre representantes e representados...

Este não traço novo no processo civilizatório brasileiro, e local, e vários autores já diagnosticaram, como Buarque de Hollanda (Sérgio).

Por isso o modelo econômico baseado em soluções "pessoais", em mediações privadas, ou melhor dizendo: "farinha pouca, só faz pirão pr'á mim" teve tanta aceitação entre os atores sociais, desde os que ocupam os degraus mais baixos até o topo da pirâmide...

Os garotistas conseguiram transformar a luta (política, lato sensu) pelo poder em uma disputa pessoal por prestígio, traço comum às dinastias espalhadas ao redor do país (e quiçá do planeta), mas nesta planície lamacenta as loucuras de grandeza perdida e soberba acrescentam peculiaridades tragicômicas que nos distinguem de outras cidades...

É impossível determinar o grau de prejuizo que a transição da "intimidade do chicote" herdada dos coronéis para a "intimidade do compadrio" trouxe às nossas perspectivas de construção de uma cidade mais justa...

Uma mudança real só acontecerá quando olharmos para o espelho e enxergamos que povo feio e mesquinho nos tornamos...

Os garotistas são só uma caricatura de nós mesmos...e aos poucos, vai deixando de ser engraçada...aliás, nunca foi, senão para poucos...

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