domingo, 10 de maio de 2015

No dias das mães matamos nossas mulheres...

Não, esse texto não é um libelo ultra-feminista, do tipo que coloca o papel de mãe como oposto ao de mulher...nada disso.

É uma constatação, ou melhor, uma opinião

Para além das evidências, de que um dia reservado às mães é muito mais um truque comercial, baseado na chantagem e culpa que sentimos por esquecermos a importância de nossos parentes em nossas vidas, nesse caso específico, a mãe, esse texto se dedica a compreender como somos capazes de seguirmos matando nossas mulheres para vestir nelas, na maioria das vezes, à força ou por coerção sentimental irreversível, o fardo da maternidade...

Como sempre gosto de dizer, são relações de poder que permeiam os laços sociais e familiares, e as mães, neste sentido, não são apenas vítimas, mas também ajudam a reproduzir nos seus rebentos a lógica machista...

Dias desses, estava com minha família em um lugar público, e conversamos sobre um gesto de uma mãe, que socorria seu menino, colocando-o para aliviar o líquido de sua pequena bexiga em público.

Por óbvio, o gesto, de tão usual e cândido, talvez não tenha merecido de nenhum dos outros transeuntes qualquer censura, salvo de nossa família, que mesmo assim o fez de forma privada...

São essas mulheres, junto com suas filhas e tantas outras, que serão vítimas do assédio e da violência moral de homens adultos bêbados (ou não) que urinam em qualquer lugar público...

E pior: garantem impunidade a falta de higiene e atentado ao pudor masculino, mas vedam com fervor caso uma mulher faça o mesmo, ainda que seja uma pequena menina amparada por sua mãe...

Há outros tantos exemplos, mas não cabe citá-los aqui, hoje é o "Dia das Mães"...

São mães as que ganham 30 a 40% menos que os pais quando fazem as mesmas tarefas no mercado de trabalho...

São mães as que continuam vítimas quase exclusivas da violência doméstica...

São as mães as vítimas da violência sexual, inclusive por seus parceiros...

E assim, quando celebramos a maternidade, como nosso fervor religioso-sentimentalista-consumista, soterramos o que de mais bonito tem uma mãe: o fato de serem mulheres antes...

Queremos mães, não queremos mulheres...

Tanto é verdade que separamos os dias que celebram essa condição, como se disséssemos que ser mãe é uma categoria "superior"...


Condenamos nossas mulheres à maternidade, e sequestramos seus corpos em dogmas religiosos transformados em leis absurdas, proibindo-as de escolher, impondo-lhes a maternidade com sentença definitiva...Uma vez mãe, uma vez prenha, não há volta...

O verdadeiro dias das mães será quando ser mãe for uma decorrência de ser mulher, e não ao contrário, como ainda é...

Felizes dias para as mulheres que escolheram ser mães.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ótima reflexão.