sábado, 11 de abril de 2015

Nosso entrave civilizatório: Violência policial reflete a violência da sociedade...e vice-versa!

Hoje pela manhã tive a grata surpresa de encontrar com meu amigo Brand Arenari em um supermercado local...

Para quem não sabe, Brand é um dos novos (?) expoentes da intelectualidade goytacá, junto com a trinca Vitor Peixoto, Roberto Torres e George Gomes Coutinho...Todos "crias" da UENF e seu CCH...

Dividimos as trincheiras virtuais quando eles pilotavam um blog chamado Outros Campos...

Feito o prelúdio, vamos à vaca fria...

Brand comentou comigo, animado, uma notícia que eu já sabia, a de que Jessé de Souza iria assumir o IPEA, com a tarefa (inglória?) de mudar radicalmente a estrutura do pensamento acadêmico que orienta o governo Dilma...

O IPEA é o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, tido e havido como um dos eixos do think tank da administração federal, que está vinculado  a SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos), que recentemente também recebeu de volta Mangabeira Unger, um dos teóricos (praxistas) mais importantes da nossa História Ocidental recente (que não por acidente, é quase solemente ignorado no país)...

Papo animado, divergências sobre as capacidades e interdições de Dilma, o consenso é que o ato de pensar estrategicamente e politicamente o governo, e o Estado, deve merecer maior atenção e zelo, empurrando o debate para as instâncias que parecem sofrer de inanição, como partidos e sociedade civil...

Ao final da conversa, propus ao Brand que se tivesse acesso ao Jessé, lhe enviasse uma sugestão:

Um país com 50 mil mortos por arma de fogo, sendo a esmagadora maioria deles oriundos de uma classe social (pobres), com cor definida (pretos) e com faixa etária como "fator adicional de corte" (15 a 25 anos), não poderá pretender chamar a si mesma de desenvolvida, justa ou civilizada...

Concordamos que desde ffhhcc até Lula, chegando a Dilma, nada foi feito em segurança pública que não repetisse os chavões militarizantes macaqueados dos EUA...

Seguimos a repetir os mesmos erros esperando resultados diferentes...

Isso frustra e confunde quem está com armas na mão, lá na ponta...

É certo em países com maior maturidade institucional e com processos de desenvolvimentos diferentes, como EUA e Europa, a militarização policial também acaba por se impor, seja pelas "guerras" ao terror ou às drogas, mas seus efeitos mais drásticos tendem a ser suavizados pela resistência da sociedade em conviver com um clima (estado) permanente de "sítio urbano"...

O que podemos chamar de barreiras da civilidade...

A política de combate às drogas, como tem sido praticada, só nos legou estatísticas graves: Aumento das compras governamentais na escalada de compras de armas e insumos, e por outro lado, aumento ou permanência do índice de letalidade violenta em níveis dramáticos...

Disse ao Brand que alguém deveria dizer ao núcleo central do pensamento do governo que não é mais possível conviver neste cenário, que só contribui para o aumento da desigualdade, resultado da precarização do convívio coletivo, empurrando as gentes para os espaços privados e para soluções de força, improviso e particularizadas...

Claro que a violência policial não é particularidade do Brasil...mas sim um efeito (indesejável) da ação do Estado para manter cada coisa em seu lugar, haja vista que manter "as coisas em seu lugar", quase sempre significa garantir privilégios de quem lucra com a desigualdade...

Olhando a página do The Independent me deparei com esta matéria de capa, que veio bem a calhar:

Um ladrão de cavalos (suposto), Francis Jared Pusok, 30 anos, é agredido impiedosamente por 11 policiais...O evento foi gravado por um helicóptero, desses que registram imagens para aqueles programas tão ao gosto da audiência brasileira e estadunidense (a espetacularização da ação estatal é outro cacoete que imitamos dos nossos "irmãos do Norte")...

O suspeito desarmado, e já dominado, leva 17 chutes, 37 socos e atingido 4 vezes com um bastão, sendo que três vezes na cabeça...

O material do jornal inglês e o vídeo podem ser vistos aqui...O vídeo contém imagens fortes, é bom avisar...

Bem, então qual é a diferença?

Certamente que policiais alemães, suíços, estadunidenses ou brasileiros podem reagir a situações com extrema e desmedida violência...

O problema é quando essa violência desmedida se transforma em política extra-oficial de Estado, e é aceita e legitimada de cima a baixo em todas as classes sociais, seja pela repetição de conceitos apreendidos dos centros de produção de informação (mídia), seja pela reprodução de soluções privadas para conflitos, desembocando na expressão que de tão repetida já está banalizada: a banalização da violência...

É isso: banalizamos a banalização da violência...


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