domingo, 12 de abril de 2015

Inimigo íntimo...

Wilson Ferreira continua implacável...É bom ler com atenção:

O Homem-Aranha e a auto derrota do PT


Em uma das suas intermináveis lutas na franquia Homem-Aranha, o super-herói, cansado e perplexo depois de mais uma batalha contra vilões bizarros, desabafa: “de onde vem toda essa gente?”. Diante das manifestações Anti-Dilma as esquerdas parecem tentar responder à mesma pergunta perplexa do Homem-Aranha:de onde vêm os manifestantes? Eleitores do Aécio? Classe média branca? Conspiração de magnatas do petróleo dos EUA de olho no pré-sal? Há um “elemento de auto derrota” histórico nas esquerdas, como afirmava o filósofo Herbert Marcuse – o pragmatismo e o economicismo que ignoram a base imaginária e psíquica do funcionamento das ideologias. Enquanto isso, a Direita sabe “de onde vem toda essa gente”: ouve a sociedade profunda por meio de pesquisas etnográficas que perscrutam os novos perfis psicográficos chocados pelo neodesenvolvimentismo do PT.

Depois de enfrentar o Homem-Areia que tentava roubar o dinheiro de um carro-forte, o Homem-Aranha dispara sua teia e salta para um topo de um prédio. Exausto, tira sua máscara e as botas cheias de areia depois de ter sido obrigado a se engalfinhar com o vilão. E então, o herói desabafa: “de onde vem toda essa gente?...”.

Essa é uma sequência do filme Homem-Aranha 3, mas o estado de espírito do herói ao mesmo tempo cansado e perplexo guarda suas analogias com as reações das esquerdas ao ver a escalada neoconservadora que culminou com os protestos anti-Dilma do dia 15 de março.

Homem-Aranha: "De onde vem toda essa gente?"

E o principal deles, na avenida Paulista em São Paulo, onde milhares de manifestantes revelaram uma bizarra combinação de tipos humanos: militantes da TFP (Tradição, Família e Propriedade - organização católica tradicionalista) recolhendo assinaturas em defesa da Família Brasileira; pessoas dando parabéns a policiais militares e pedindo a eles que dessem um golpe na presidenta Dilma; famílias que entre alguns gritos de slogans raivosos davam um tempo para selfies como se estivessem em algum parque temático político;  jovens que em conversas confundiam os conceitos políticos de Direita e Esquerda (dislexia política?); outros protestavam contra a ameaça da “ditadura comunista” e da “ditadura gay” (o que deve ter chamado a atenção dos militantes da TFP, sempre ávidos por mais assinaturas para seu abaixo-assinado), um manifestante carregando uma bandeira do movimento integralista pedia o fim dos partidos e sindicatos...

O elemento de auto derrota


De onde vem toda essa gente? Talvez a primeira pista esteja na fala do filósofo Paulo Arantes, durante o encontro dos seminários da FFLCH-USP. Remetendo a uma tese clássica da esquerda europeia dos anos 30 de que o fascismo é uma expressão da derrota da esquerda, afirmou: “Se você tem uma massa revoltada, proletária e que vai te massacrar é porque você perdeu. A outra coisa que nos dá medo é o que nós perdemos”.

Isso lembra as reflexões de outro filósofo, Hebert Marcuse, que em seu livro Eros e Civilização de 1966 apontava para um “elemento de auto derrota” em todos os movimentos revolucionários que tentaram abolir formas de dominação e exploração: “Em todas as revoluções parece ter havido um momento histórico em que a luta contra a dominação poderia ter saído vitoriosa... mas o momento passou. Um elemento de auto derrota parece estar em jogo nessa dinâmica. Nesse sentido, todas as revoluções foram revoluções traídas” – MARCUSE, Herbert, Eros e Civilização,Zahar Editores, 6a edição, 1975, p.92.

Antes de entender esse “elemento de auto derrota”, as esquerdas buscam rapidamente racionalizações para, talvez no íntimo, encontrarem explicações tranquilizadoras para uma derrota anunciada.

Segredos de polichinelo: magnatas do petróleo de olho no pré-sal - conspirações como
álibi da auto derrota

Por exemplo, nas denúncias de que os magnatas do petróleo e da extrema-direita dos EUA, os irmãos Koch, poderiam estar bancando os “Estudantes Pela Liberdade”(EPL) ou as denúncias das supostas conexões do empresário Rogério Chequer, líder do grupo “Vem Pra Rua”,  com empresários brasileiros e com nomes do setor financeiro dos EUA.

Magnatas do petróleo de olho no pré-sal e empresários financiando movimentos golpistas? Ahh!!! Vááá!!!! Segredos de polichinelo que surgem como denúncias bombásticas para encontrar um álibi racionalizador que esconda esse “elemento de auto derrota” - auto-piedade e auto-indulgência que parecem sempre assombrar as esquerdas nos momentos decisivos de tentar consolidar projetos ou vitórias.

A instituição imaginária da sociedade


Mas o que é esse “elemento de auto derrota”?. Acredito que a resposta esteja conectada com a reposta da pergunta que faz o perplexo Homem-Aranha: de onde vem essa gente? Poderíamos então acrescentar: Qual serpente chocou os ovos de onde veio toda essa gente?

Cornelius Castoriadis
Marcuse, assim como outro filósofo chamado Cornelius Castoriadis (1922-1997), apontavam para displicência das esquerdas em relação à necessidade de compreender do funcionamento imaginário da sociedade: presos que estão ao pragmatismo da ação política e do economicismo, ignoram as bases simbólicas ou psíquicas do funcionamento das ideologias nas quais se fundamentam a instituição imaginária da sociedade.

Por exemplo, Castoriadis  lembrava que a aplicação da chamada administração científica e dos métodos fordistas na Rússia pós-revolução bolchevique para acelerar o desenvolvimento econômico reproduziram as estruturas verticais de poder burguesas, contaminando a experiência socialista soviética, levando-a à ditadura stalinista – veja CASTORIADIS, Cornelius, A Instituição Imaginária da Sociedade, Paz e Terra.

Da mesma forma, a estratégia economicista ou neodesenvolvimentista dos governos petistas com a  inclusão de grande parte dos brasileiros na sociedade de consumo resultou nos ovos chocados pela serpente cujos filhotes agora armam o bote. Acreditava-se que, por si mesmo, a inclusão na sociedade de consumo significaria inclusão social e desenvolvimento da consciência de cidadania.

Novos perfis psicográficos


Bem diferente disso, a última década mostrou o surgimento de uma variedade de novos perfis psicográficos ou tipos-ideais que esse humilde blogueiro vem mapeando em postagens recentes: - simples descolados, coxinhas, coxinhas 2.0, novos tradicionalistas, rinocerontes etc. – sobre esses tipos-ideais clique aqui e aqui.

A Direita compreende os novos perfis psicográficos

O crédito público educativo do FIES colocou milhares de brasileiros em faculdades privadas. Se por um lado proporcionou a oportunidade de inclusão e melhoria de vida, por outro permitiu que fossem, durante quatro anos de curso, diariamente doutrinados nas salas de aulas dentro da ideologia da meritocracia e empreendedorismo - a percepção de que o sucesso é puramente individual, ignorando de que também é o resultado de um investimento da sociedade no indivíduo.

Todos aqueles que nessa última década ascenderam em processos seletivos como vestibulares, concursos públicos ou entrevistas dos RHs de empresas creditaram seu sucesso muito mais ao esforço pessoal do que a uma conjuntura sócio-econômica favorável através de políticas públicas.

É essa a percepção moldada subliminarmente pelas TVs, revistas ou portais de Internet por meio de filmes publicitários, reality shows, telenovelas e matérias de telejornais sobre start ups e jovens empreendedores bem sucedidos.

“Meninos do golpe” ouvem a sociedade profunda


Um reality chamado Food Truck – A Batalha (o raio gourmetizador combinado com dicas para construir um negócio de sucesso) do canal GNT faz muito mais estrago no imaginário social do que todos os milhões de dólares dos magnatas do petróleo gringos que supostamente turbinam as manifestações Anti-Dilma na Avenida Paulista.

Jamais os chamados “meninos do golpe” por trás de lideranças como “Estudantes Pela Liberdade”, “Vem Pra Rua” ou “Movimento Brasil Livre” seriam bem sucedidos se não encontrassem “toda essa gente” que foi diariamente lapidada nos bancos das universidades graças aos créditos educativos governamentais e pelas mídias privadas regidas sob a lei da concessão pública dos meios de comunicação.

Os governos petistas cumpriram a missão histórica de inclusão na sociedade de consumo de amplas parcelas da população que no passado eram excluídas. Mas recorreram no mesmo elemento de auto derrota – o economicismo e o pragmatismo.

Uma batalha de food trucks na TV faz mais estragos do que conspirações de magnatas do petróleo

Enquanto a Esquerda acredita que poderá conquistar corações e mentes através do Marketing e da Propaganda (vocação histórica, já que o Lênin teria inventado o Marketing – sobre isso clique aqui), a Direita investe nas pesquisas etnográficas (entrevistas domiciliares, intercept interview, entrevistas etnográficas efocus groups) que conseguem perscrutar as profundezas do imaginário e do inconsciente social.

A Esquerda ainda espera que o amadurecimento das condições econômicas ideais abra por si só o caminho para a consciência de classe e a revolução. E slogans e palavras de ordem cimentariam a vitória. Enquanto isso, a Direita maquiavelicamente prospecta os perfis psicográficos  em grupos de discussões nas salas espelhadas em cada empresa de pesquisa de mercado. A Direita ouve a sociedade profunda.


Mais do que ninguém, os “meninos do golpe” sabem de onde vem toda essa gente. E as esquerdas repetem o cansaço e a perplexidade do Homem-Aranha. 

4 comentários:

Anônimo disse...

Douglas:

Não li com a atenção que você recomenda, e salvo melhor interpretação que admito rever, achei um texto mais ou menos, destoando dos que você publica aqui, inclusive do mesmo autor, que, intuo, você gosta muito.
Afora reclamar da direita ser a direita, papo de sete em cada dez esquerdistas, o Wilson identifica nas universidades a hegemonia do pensamento liberal. Discordo respeitosamente, embora eu e Wilson não mostremos dados. Ou seja: sem dados, emitimos apenas opiniões.

Na minha opinião (sem dados) as universidades estão impregnadas e dominadas pelo pensamento progressista, ou como queira, de esquerda. Nas públicas é hegemonia pura. Nas privadas, um ou outro destoa, mas o grosso é formado por professores com formação à esquerda. Já ouviste falar, em alguma faculdade destas, de um seminário sobre Michael Oakeshott? Algum congresso sobre Edmund Burke e o liberalismo inglês? Um simples Workshop sobre a filósofa Ayn Rand? Ou talvez um simpósio que estudasse a obra de Alex de Tocqueville?

Nunca ouvi falar...

Na academia, predomina a esquerda. assim tem sido. Já na rua, eu não sei.

douglas da mata disse...

Você deve ler de novo. E com atenção.

Também não é verdade que haja uma hegemonia total da esquerda na Academia.

Citaria a UENF para começar, onde no CCH mesmo há expoentes do pensamento conservador, como o geógrafo Dr Ailton, o antropólogo Dr Arno Wogel e o historiador Dr Hamilton Garcia (esse último uma lástima)...

Na USP, Unicamp há um amplo debate, e não parece que haja tanta predileção pelo "progressismo"...

Bem, o texto não pretende outra coisa senão apontar falhas no pensamento da esquerda, que utiliza os mesmos paradigmas (totens, para ele) para entender o pensamento do senso comum, disputando-o com a lógica mecanicista e determinista do predomínio da economia sobre a política.

É isso que ele diz quando se refere que erramos ao supor que conforto econômico dos contingentes incluídos trariam adesão ideológica automática aos ideais progressistas...

Sobre seminários e pesquisas sobre o pensamento da direita, eu acho que tens razão: falta estudar esses caras.

Mas eu imagino que a academia (de esquerda) não considere o trabalho dos caras dignos de nota, até porque são distorções mal feitas do pensamento de esquerda...é só um palpite.

Anônimo disse...

Desculpe-me pelo relativo desvio de assunto, mas, aproveitando a notícia do falecimento de Eduardo Galeano, peço-lhe que fale sobre "As Veias Abertas da América Latina", obra que deve ter contribuído, em alguma medida, para a formação de muita gente boa. Ainda atual? As veias continuam abertas? Nem precisa publicar, se lhe parecer descabido. Valeu!

douglas da mata disse...

Soube da morte, e me entristeceu, por óbvio.

As Veias Abertas forma fundamentais na formação de minha indignação em relação ao processo de expropriação continuada que vivemos...

E sua releitura é sempre necessária, para entendermos que apesar das contextualizações distintas, a base da injustiça permanece a mesma para nós latino-americanos...

Vou escrever algo...