quinta-feira, 26 de março de 2015

Prefeitura de Campos dos Goytacazes e os patetas da lapa: Das cigarras e das formigas

É um jargão comum no mundo dos negócios e dos planos estratégicos que onde há ameaças há oportunidades...

A chamada crise fiscal dos municípios e estados que recebem royalties e participação da produção de petróleo é um exemplo clássico...

Com a "nova" ideia "genial" do napoleão da lapa, de emitir mais papagaios para antecipar receitas, destinando-as a fins diferentes daqueles já autorizados (dívidas com a União e recomposição de fundos previdenciários do entes municipais e estaduais), ou seja, liberando geral (tudo sob a rubrica da educação e saúde), fica claro que o sistema financeiro é o grande ganhador em qualquer situação de desequilíbrio orçamentário...

Não seria exagero dizer que os bancos apostam e trabalham pelas crises para terem a chance de aumentar seu poder de fogo...

Nessa transação, serão os bancos que sequestrarão parte considerável dos dinheiros públicos estaduais e municipais, a título de compensação pelas antecipações destas receitas...Não é pouca coisa...estão lambendo os beiços...

Por outro lado, assusta que crises sejam capazes de gerar estranhos consensos, quando deveríamos estar aguçando nosso senso crítico para evitar novos dramas...Deve ser o tal efeito manada...

Não é à toa que gestores públicos "aproveitam" tais momentos e carregam nas tintas, dando-nos a impressão de que a situação é bem pior que é na verdade...Sob o signo do pânico tudo é permitido...

Vejam que na "genial ideia" do ex-governador e atual prefeito (de fato), não há nenhuma consideração de recomposição ou poupança caso os recursos dos royalties voltem a jorrar como antes...

Ou seja, caso aconteça o previsível (o barril voltará a níveis altos, isso é óbvio), não há na proposta do marido-prefeito um percentual destinado a resgate dos "papagaios" emitidos, e muito menos um percentual de fundo de reserva para problemas futuros, como deveria ter sido feito...

Qualquer dona de casa sabe que nos tempos de vacas gordas deve se poupar um pouco para o futuro...Como a historinha infantil que nos traz essa moral implícita, a fábula da cigarra e das formigas...

Olhando a cidade, mesmo descontando o enorme crescimento das demandas públicas que consumiram orçamentos, fica a pergunta:

Esta é uma cidade que corresponde em equipamentos e serviços à montanha de recursos recebidos nestes últimos anos?

Para onde foi a porra do dinheiro?

Quem enriqueceu e quem empobreceu nestes anos?

Quais foram os setores que mais se beneficiaram?

A riqueza ficou aqui?

Houve mobilidade social significativa ou redução das disparidades?

É claro que diante do caos instalado prevaleça a teoria do fato consumado, e aceitaremos estas antecipações como "salvação"...

Mas novamente: Até quando fingiremos que esse problema não é nosso? Vamos cantar até quando?

6 comentários:

Anônimo disse...

É evidente que você sabe as respostas para as perguntas que formulou, não me pretendo melhor analista que você, antes o contrário. Análise política local é o seu forte.

Ainda assim vou respondê-las como exercício:


1) Esta é uma cidade que corresponde em equipamentos e serviços à montanha de recursos recebidos nestes últimos anos?

R: Evidente que não. Basta sair às ruas, olhar para cima (cuidado pois um sinal de trânsito pode cair na sua cabeça). Olhe para baixo também. Há buracos por todo lado. Se olhar um pouco mais alem, vai se deprimir...

Para onde foi a porra do dinheiro?

R: Parte ficou por aqui, na fuga clássica da construção civil e imóveis. Alguma coisa está depositada no exterior em nome de alguns poucos locupletados. Mas a maior parte eu não sei.

Quem enriqueceu e quem empobreceu nestes anos?

R: Enriqueceu quem especulou, os rentistas, corruptores, políticos. Sempre quem se ligou à política.
Quem trabalhou para se sustentar, o setor produtivo que não mama nas tetas porque não pode ou não sabe como, empobreceu.

Quais foram os setores que mais se beneficiaram?

R: Construção Civil (empreiteiras) e políticos.

A riqueza ficou aqui?

R: Não há dados oficiais mas a maior parte não ficou. Quem construiu as casinhas? Quem venceu as licitações mais significativas? Empresas de fora em sua maior parte.

Houve mobilidade social significativa ou redução das disparidades?

R: Não.

E finalmente...

Até quando fingiremos que esse problema não é nosso? Vamos cantar até quando?

O problema é nosso mas queremos que ele continue assim. É o tal fisiologismo transclassista: quase todo mundo está ganhando de um jeito ou de outro.
Quanto a cantar, seguiremos o exemplo da cigarra que se elegeu prefeita...

abs

douglas da mata disse...

Apenas um reparo:

Não há, no sistema capitalista, que se estrutura em modelos representativos democrático-formais uma separação entre modelos especulativo (rentista) e produtivo.

Essa construção ideológica é feita pelos (perdedores) que não seguiram as regras.

Todos os grandes "produtores" apostam suas fichas no setor financeiro.

Não é à toa que um dos maiores "produtores" do Brasil, Ermírio de Moraes (Votorantim) que vivia lamentando os juros, foi a lona por causa de suas apostas em títulos podres subprime no mercado estadunidense.

Assim como a Sadia do Furlan.


Os dois "salvos" pelo Tesouro, embora berrassem contra os juros e intervenções estatais na economia...

A corrupção e a aposta na ciranda dos juros não são exceções que premiam os espertos, são condições de sobrevivência e da própria existência do capitalismo...

Anônimo disse...

Douglas, muito boa sua postagem! Parabéns!

douglas da mata disse...

Gratp.

Anônimo disse...

Lembrando Gregório de Matos, o Boca do Inferno, na Bahia do século XVII...

"Que falta nesta cidade? ... Verdade.
Que mais por sua desonra? ... Honra.
Falta mais que se lhe ponha? ... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade, onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste socrócio? ... Negócio.
Quem causa tal perdição? ... Ambição.
E o maior desta loucura? ... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são meus doces objetos? ... Pretos.
Tem outros bens mais maciços? ... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos? ... Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao demo o povo asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos? ... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas? ... Guardas.
Quem as tem nos aposentos? ... Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
E a terra fica esfaimada,
porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda? ... Bastarda.
É grátis distribuída? ... Vendida.
Que tem, que a todos assusta? ... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

Que vai pela clerezia? ... Simonia.
E pelos membros da Igreja? ... Inveja.
Cuidei, que mais se lhe punha? ... Unha.

Sazonada caramunha!
Enfim, que na Santa Sé
O que se pratica, é
Simonia, inveja, unha.

E nos frades há manqueiras? ... Freiras.
Em que ocupam os serões? ... Sermões.
Não se ocupam em disputas? ... Putas.

Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões, e putas.

O açúcar já se acabou? ... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu? ... Subiu.
Logo já convalesceu? ... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, e morreu.

A Câmara não acode? ... Não pode.
Pois não tem todo o poder? ... Não quer.
É que o governo a convence? ... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre
Por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence!"

Anônimo disse...

excelente texto.