Os donos dos jornais: nós que amávamos tanto a “revolução”

As palavras sobram para falar sobre o apoio da imprensa brasileira ao golpe militar em 1964: os fac-símiles dos editoriais da época dizem tudo. Foi acachapante. Todos saudaram a “democrática” atuação dos homens de farda para derrubar João Goulart, ainda que ele fosse querido pelo povo. Os “defensores da Pátria” não estavam –como estão hoje– nem aí para a vontade popular. O Jornal do Brasil (acima) saudou os militares no poder como “a verdadeira legalidade” e os que apoiaram a quartelada de “verdadeiros brasileiros”. Afinal, quem melhor que a imprensa para apontar onde está a “verdade”, não é mesmo?
O Globo (acima), que este ano pediu desculpas pelo apoio à ditadura, chamou o golpe de “volta da democracia” e comparou os militares a anjos: “o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina”. O império Globo cresceu à sombra da ditadura militar e foi durante anos o principal porta-voz e propagandista do governo fardado. Beneficiado com concessões em todo o País, a Globo só se tornou o que é hoje por causa da ditadura. Em vez de pedir desculpas, deveria dizer “muito obrigado”. Acho até ingratid ão.
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O Estado de S.Paulo também apoiou o golpe e conspirou em favor dos militares desde o primeiro momento, mas, depois, se tornaria “vítima” da censura. O que, segundo a historiadora Beatriz Kushnir, autora de Cães de Guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988não impediu o jornal de continuar a colaborar com a ditadura, assim como fizeram todos. “Eu reviso essa ideia de resistência e mostro que houve, no lugar disso, um grande colaboracionismo”, explicou Kushnir a CartaCapital (leia mais aqui). “Se houve resistência, esta está nos veículos alternativos e não na grande imprensa”. A Globo, diz Beatriz no livro, chegou a contratar censores para atuar como funcionários, com o objetivo de aperfeiçoar a autocensura e evitar cortes que poderiam causar prejuízos econômicos.
Folha de S.Paulo saudou os militares que derrubaram Jango como “exemplos de patriotismo e desprendimento”. Em 2011, o jornal reconheceu que apoiou a ditadura de forma deslavada, sem nenhuma crítica. “A partir de 1969, a Folha da Tarde alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares”, afirmou o jornal, confirmando que a redação da FT estava entregue “a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais)”. O grupo admitiu, inclusive, ser possível que automóveis do grupo tenham sido utilizados por agentes do DOPS para espionar a esquerda (leia mais aqui). Nos anos 1980, o jornal ganharia leitores ao encampar o apoio às eleições diretas. Estratégia editorial? É possível, porque nos anos recentes assistimos uma nova guinada da Folha à direita, chegando a alcunhar a ditadura de “ditabranda”.
Dos grandes jornais brasileiros, o único a apoiar Jango foi a Última Hora, de Samuel Wainer. E, obviamente, foi empastelado pelos ditadores, enquanto os outros floresciam. Não é à toa que, aos 50 anos do golpe militar, a imprensa brasileira tenta justificar o injustificável em editoriais onde enxerga “lados positivos” nos anos de chumbo. Claro, não se abandona um líder ferido na beira da estrada…
Assista aqui a um documentário sobre o papel da imprensa paulista no golpe. Veja mais manchetes dos jornais brasileiros apoiando o golpe militar aqui.
Publicado em 30 de março de 2014