domingo, 29 de março de 2015

Por favor, matem deus...pelo amor de deus.

Toda vez que os crédulos são confrontados com os fatos, neste caso, de que em nome de deus, seus seguidores matam, mutilam, perseguem e discriminam, eles têm, em geral, duas respostas cretinas:

01- As religiões não têm nada a ver com deus e seu amor divino, pois religiões são humanas e suscetíveis a estes desvios na briga pelo poder temporal...

02- Os ateus são capazes de coisas piores em nome do ateísmo, e citam as perseguições na antiga ex-URSS ou em Cuba...

Confesso que essas tolices nem me surpreendem mais, no entanto, outras me surpreendem, e muito...

O jornal inglês The Independent traz uma matéria que parece ter sido republicada de algum jornal da Idade Média, ou de algum país fundamentalista teocrático (geralmente associado ao Islão)...

Você pode acessar aqui se quiser...

Que ironia, trata-se do país "campeão da Democracia e dos Direitos Humanos", que adora empurrar a tiros, porrada e bombas esse modelo para os outros, os EUA...

Trata-se do Estado de Indiana, onde seu Governador (republicano) Mike Pence assinou uma lei que permite que pessoas, instituições, associações e comércios se recusem a servir ou atender pessoas cuja orientação sexual "agrida" suas crenças...

Eufemisticamente chamado de Ato de Restauração da Liberdade Religiosa (engraçado, toda lei de castração de direitos, geralmente vem com o nome "liberdade" embutido), a lei se assemelha a outra lei aprovada pelo Senado estadual do Arkansas, um dia depois, no mesmo sentido...

Bem, que os crédulos odeiam em nome de deus é certo, escroto mesmo é legislar sobre isso, considerando que os impostos são pagos por todos, crédulos ou não...

Quanto as tolas respostas dos crédulos, lá do início do texto, eu só posso dizer:

Não há outra expressão divina senão a que é propagada pelos humanos, já que deus em pessoa não anda pela Terra se manifestando ou falando em nome próprio, assumindo suas cagadas ou pedindo desculpas...

Logo, a religião, e (alguns) imbecis que nela creem, são a coisa mais palpável que temos para falar de deus...E é em nome desse deus que matam, estupram, expropriam, segregam, castigam, ferem e discriminam...

Se tudo o que acontece é decorrente da vontade Dele, e débeis mentais como esse de Indiana (EUA) agem em seu nome, é correto observar que deus está se divertindo...

Quanto a ateus fazendo o mal, nada demais, afinal, não temos deus no coração...não é mesmo?

Mas quando gente que diz tê-lo faz coisa pior?

sábado, 28 de março de 2015

Superfícies...

É certo que
Por mais fundo 
Que possamos ir
Voltamos à tona
Para ganhar fôlego
Mas às vezes
Aqui em cima
O ar fica 
Irrespirável
Por este motivo
Eu creio
Há seres estranhos
Que sobrevivem 
Longe da luz

sexta-feira, 27 de março de 2015

Chico Corrêa e Eletronic Band - Lelê.mp4





Para completar a série revival da noite, Lelê do Chico Correa e sua Eletronic Band, um dos clipes mais bonitos que já assisti...e claro, a música também é do caralho...

Pitty - 8 ou 80 (Chiaroscope Oficial)





Repeteco da baiana porreta...



"...me dou bem com os inocentes, mas com os culpados me divirto mais..."

Decálogo.

Não hesite
Goze
Não pense
Pule
Não ande
Corra
Não espere
Ame
Viva
E morra

Barão Vermelho - Pense e Dance



A frase determinante: "...Saudações a quem tem coragem..."

Pense e dance.

penso
como vai minha vida
alimento todos os desejos
exorciso as minhas fantasias
todo mundo tem um pouco
de medo da vida

pra que perder tempo
desperdiçando emoções
grilar com pequenas provocações
ataco se isso for preciso
sou eu quem escolho e faço
os meus inimigos

"saudações a quem tem coragem"
aos que tão aqui pra qualquer viagem
não fique esperando a vida passar tão rápido
a felicidade é um estado imaginário

não penso
em tudo que já fiz
e não esqueço
de quem um dia amei
desprezo
os dias cinzentos
eu aproveito pra sonhar enquanto é tempo

eu rasgo o couro com os dentes
beijo uma flor sem machucar
as minhas verdades 
eu invento sem medo
eu faço de tudo
pelos meus desejos

pense, dance, pense, pense, dance
de olho no lance

Link: http://www.vagalume.com.br/barao-vermelho/pense-e-dance.html#ixzz3VdY9q5Lr

Nada.

Não é triste
Você pensa que há um deus
Que te salvará Dele e de si mesmo
E descobre que Tudo não existe?

Não se engane
Estamos por nossa conta.

Não há mais nada.

Essa é a ideia mais próxima de Eternidade que te resta:

- Nada.

Nirvana Live at Reading 1992(full concert) 1080p



Matando as saudades...

Para falar a verdade, analisando o humor de Kurt (vejam como ele abre o show, na cadeiras de rodas e com avental de doente), e sabendo que fim que escolheu, só é possível dizer: Faz todo sentido...

O suicídio não é uma expressão deprimida de desgosto com a vida, é só um momento de extrema lucidez bem-humorada...

Olhando a Humanidade e seu legado só é possível concluir que somos animais desconcertantemente tristes...previsivelmente tristes...

Deve ser horrível ser oprimido pela rotina de ter que fazer o que você gosta para ganhar dinheiro...

Enquanto isso...

No Yemen, que muita gente nem sabe onde fica, a Arábia Saudita segue bombardeando os alvos das forças rebeldes, enquanto asila o presidente deposto, tentando restabelecer o exilado para garantir os interesses ocidentais na região...

Ao mesmo tempo, a Inquisição da República do Paraná (onde forças policiais federais, ministério público e judiciário revogaram qualquer noção de decoro e apego a Justiça) segue martelando uma das maiores empresas de petróleo do mundo (a maior estatal do mundo do setor), e as maiores empresas (privadas) nacionais (responsáveis por boa parte do nosso PIB), abrindo espaço para as concorrentes internacionais...

Sorte nossa que nosso bombardeiro é midiático, não?

Ou não será sorte de todo?

Se quiser saber mais sobre Yemen, bombardeios e a "coalizão saudita-estadunidense", leia no site da Al Jazeera...

quinta-feira, 26 de março de 2015

Prefeitura de Campos dos Goytacazes e os patetas da lapa: Das cigarras e das formigas

É um jargão comum no mundo dos negócios e dos planos estratégicos que onde há ameaças há oportunidades...

A chamada crise fiscal dos municípios e estados que recebem royalties e participação da produção de petróleo é um exemplo clássico...

Com a "nova" ideia "genial" do napoleão da lapa, de emitir mais papagaios para antecipar receitas, destinando-as a fins diferentes daqueles já autorizados (dívidas com a União e recomposição de fundos previdenciários do entes municipais e estaduais), ou seja, liberando geral (tudo sob a rubrica da educação e saúde), fica claro que o sistema financeiro é o grande ganhador em qualquer situação de desequilíbrio orçamentário...

Não seria exagero dizer que os bancos apostam e trabalham pelas crises para terem a chance de aumentar seu poder de fogo...

Nessa transação, serão os bancos que sequestrarão parte considerável dos dinheiros públicos estaduais e municipais, a título de compensação pelas antecipações destas receitas...Não é pouca coisa...estão lambendo os beiços...

Por outro lado, assusta que crises sejam capazes de gerar estranhos consensos, quando deveríamos estar aguçando nosso senso crítico para evitar novos dramas...Deve ser o tal efeito manada...

Não é à toa que gestores públicos "aproveitam" tais momentos e carregam nas tintas, dando-nos a impressão de que a situação é bem pior que é na verdade...Sob o signo do pânico tudo é permitido...

Vejam que na "genial ideia" do ex-governador e atual prefeito (de fato), não há nenhuma consideração de recomposição ou poupança caso os recursos dos royalties voltem a jorrar como antes...

Ou seja, caso aconteça o previsível (o barril voltará a níveis altos, isso é óbvio), não há na proposta do marido-prefeito um percentual destinado a resgate dos "papagaios" emitidos, e muito menos um percentual de fundo de reserva para problemas futuros, como deveria ter sido feito...

Qualquer dona de casa sabe que nos tempos de vacas gordas deve se poupar um pouco para o futuro...Como a historinha infantil que nos traz essa moral implícita, a fábula da cigarra e das formigas...

Olhando a cidade, mesmo descontando o enorme crescimento das demandas públicas que consumiram orçamentos, fica a pergunta:

Esta é uma cidade que corresponde em equipamentos e serviços à montanha de recursos recebidos nestes últimos anos?

Para onde foi a porra do dinheiro?

Quem enriqueceu e quem empobreceu nestes anos?

Quais foram os setores que mais se beneficiaram?

A riqueza ficou aqui?

Houve mobilidade social significativa ou redução das disparidades?

É claro que diante do caos instalado prevaleça a teoria do fato consumado, e aceitaremos estas antecipações como "salvação"...

Mas novamente: Até quando fingiremos que esse problema não é nosso? Vamos cantar até quando?

domingo, 22 de março de 2015

Ilusões...

De tão distantes
Há estrelas que brilham já mortas
De tão distantes
Há amores que só brilham nas memórias.

sábado, 21 de março de 2015

(des)Caminhos.

Seguia pela Rua do Improvável
Dobrando a direita na Alameda do Impossível
Descendo na Ladeira da Coincidência 
Quando vi você...gritei seu nome
Tarde demais...
Você embarcou no trem da Estação do Desencontro.

Caso Petrobrás x Pasadena: Especialista em petróleo desmonta cartilha da Globo, na própria Globo



Às vezes, nossa arrogância nos leva a crer que o jogo está ganho...Falta (em alguns casos) combinar com os russos...
É o que aconteceu aqui com a charlatojornalista leilane neubarth, musa dos paneleiros-coxinhas...
Foi buscar lã, e 'tadinha, saiu toda tosquiada...

O especialista escalado não seguiu o roteiro dos editores, e...ui...toma, leilane, toma leilane...
"Não se faz conta de Petrobrás como se faz conta de padaria", é o resumo do que disse Jean-Paul Prates...
Resultado: A grobo retirou o vídeo do ar...Leia sobre isto no blog do Nassif.

Salve, salve a liberdade de expressão, não é não, senhores? Afinal, o que é melhor que desmentir os cretinos usando seu próprio conteúdo?

sexta-feira, 20 de março de 2015

O charlatojornalismo de todas as manhãs...

Um dos pontos cruciais da derrocada central do jornalismo, e das empresas tradicionais de mídia, apareceu quando deixaram de relatar o dia (jour), atropelados pela velocidade dos fatos, e passaram a quiromancia editorial, procurando antecipar tendências ou advinhar o que vinha pela frente...

Junto a esse esqueminha de cartomante de quermesse juntaram-se os institutos de pesquisa, que deram contorno pseudo-científico às previsões...

Por isso, os veículos de hoje têm mais "especialistas, analistas" e outras categorias de imbecis que repórteres ou pessoas que descrevam como foram os fatos...

É divertido ler, ouvir, e assistir estes pobres cretinos "analisando" coisas que não aconteceram, versões que eles mesmos construíram ou que ouviram dizer, sem o menor substrato de realidade...

O próximo passo é sempre dramático: 

Tentam construir a realidade que previram, ou torcem para que o "o tempo ande" para encontrá-los nos ponteiros parados do relógio (que marca a hora certa duas vezes no dia)...

Aí gritam: Viram, nós avisamos, sabemos o futuro...!

Então, se tudo é mesmo chute, vamos dar nossa contribuição e lembrar que a possibilidade de afastamento da prefeita já vem sendo ensaiada há tempos na cabeça de seu dono político (quer dizer, seu marido), tudo para atender a uma variável da estratégia para sucessão:

Se assume o vice, ele deverá concorrer a eleição, o que seria considerado reeleição...E aí, bingo!  Não pode tentar se reeleger...

Deste modo, poderá concorrer em 2020 um dos integrantes  da famiglia do napoleão da lapa, sem o risco do sucessor de 2016 se arvorar em vendettas pois ao tentar a reeleição, os manteria fora por mais quatro anos...

Leiam aqui o que dissemos lá atrás, e não se enganem: É tudo chute...com a diferença que não "chutamos" todos os dias para viver...



e

Não se enganem...

Para além dos teatrinhos necessários, eduardo cunha, não se sente ofendido com o título de "achacador", ao contrário, se diverte com ele...

Afinal, quando um achacador se transforma em presidente de um poder estatal só significa que ele é bom no que faz em um ambiente de achaques, não é?

Por outro lado, é nessa vaidade velada que reside o seu calcanhar de Aquiles...

Pois é...

Eis o nosso arauto da moralidade, aquele que inspira nossos "coxinhas" em sua "cruzada civilista"...

Clique nos títulos e leia os textos e ouça o vídeo no blog do Nassif...


quinta-feira, 19 de março de 2015

Ao tempo...o tempo...às palavras, o vento...

Na atualidade fluída das novas tecnologias, o ser humano é remetido ao pior de si, instigante paradoxo sobre nossa existência...

Ora bolas, se estamos cada vez mais conectados,  por que parecemos tão distantes, e organicamente fracionados, envolvidos em um individualismo que nada liberta, mas só nos prende a dogmas?

Se há cada vez mais informação, por que cada vez mais gente parece destinada a se submeter as manobras dos mesmos grupos que buscam monopolizar a opinião?

Não sei, sinceramente não sei...Apenas desenvolvi, pessoalmente, um hábito que me veio a calhar, e que confesso, deveria ter praticado há mais tempo: Deixar as coisas assentarem, olhar o passar dos dias, encampar a realidade com um olhar que vá o mais longe possível...

Se tenho obtido sucesso? Não sei, mas tenho desprendido menos energia, ou melhor, tenho poupado para o que de fato interessa...

Os últimos acontecimentos no país, repercutidos pelos de sempre, com o viés de sempre, nos colocam como se estivéssemos à beira de um abismo...

Claro, ninguém com um pouco mais de dois neurônios desconhece que esse clima favorece a alguns que se ressentem de terem perdido a mais recente batalha pelo controle político da nação, embora ainda estejam, economicamente falando, no topo da hierarquia brasileira...

Não se trata de ignorar o que está acontecendo, mas sim diagnosticar a forma como nos contam...

Manifestações pró e contra, ministros "perdendo a linha", o milionésimo depoimento de uma investigação que DEVE ser levada até o fim, mas que parece não render mais tanto impacto quanto antes, apesar dos berros dos "analistas e especialistas", e toda uma gama de eventos alçados a principal "preocupação" de todos...

Enquanto isso, o que interessa (ou deveria) permanece escondido sob o manto da hipocrisia e do discurso anti-política, anti-partidário e anti-ideológico: 

Estado para quê e para quem?

Sobre as manifestações pouco resta a dizer, exceto rir das simplificações dos gorilas de plantão: 

Adoram demonstrar força, gritam em voz alta seu ódio, mas quando são identificados pelos focinhos, correm a dizer que são perseguidos, que não é nada disso, que apenas se trata de "gente pacífica e ordeira"....

Outros, pilotando esquemas de mídia, dizem a plenos pulmões que são o quarto, quinto, ou o décimo sexto poder da República, mas quando são acusados de manipuladores e de praticar a mais escrota caricatura do que chamam jornalismo, que eu chamo de charlatojornalismo, dizem que são perseguidos e censurados, e que respeitam solenemente a liberdade alheia, o contraditório, o escambal...

Eu vos digo: O problema não é o cara odiar pobre, querer um país para poucos, rosnar contra a política e partidos, ou ser inimigo visceral deste ou aquele personagem político, o problema é quando ele age como tal e se diz o contrário, ou pior, quando vive a repetir, diariamente, os defeitos que critica nos outros, e mais, boa parte deles construiu fortuna e poder estruturados nos defeitos (dos outros), que neles é "vantagem competitiva"...

Enfim, o problema não é ser de direita ou esquerda, mas sim dizer que esta divisão não existe! Aí está a fraude, geralmente elaborada pelo lado direito!

Hoje o tema da vez é o deputado Cid Gomes, e ex-Ministro da Educação que acusou  capo Cunha de ser aquilo que ele é, fielmente...melhor dizendo, o Cid Gomes não disse nem um décimo sobre o que sabe dele...

Descontando o fato de que Cid sabia o que fazia, temos a repercussão, sim, senhores, a maldita repercussão...Sendo as palavras de quem ouve, e não de quem fala (como ensina Bordieu), cada um diz o que quer sobre o que ouviu...

E nossa mídia segue fazendo seu papel cretino...

Não há sequer um rasgo de posicionamento que ofereça um conceito fora da "caixinha", ainda que não fosse favorável ao governo (hipótese impossível)...

A sentença: O governo é refém do PMBD!

Tenham santa paciência, então um Ministro fala o que falou o presidente da Câmara, prócer do PMDB, volta e lhe diz nas fuças o que repetiu, e o PMDB continua no governo, e é esse governo que é refém?

Se fôssemos considerar que o modelo político-representativo atual, cuja agenda é capturada pelo capital, faz com que aliados e opositores troquem caneladas e acusações, que operações lavem a jato ( e outras nem tanto), e mesmo assim, os interesses do capital continuem intactos, caminhando Vossas Excelências (governo e oposição) para estranhos consensos sobre juros, política fiscal, etc, aí eu lhes diria: O debate promete...

Mas não é o caso...

E seguem os tolos da mídia a repetir chavões e refrões...

Se acotovelam para apresentar estes tótens semióticos...Alguns, intoxicados pelo ambiente, acabam por acreditar nas baboseiras que escrevem, mas são minorias, geralmente incrustradas nos nichos subalternos ou nas redações pelo interior...

Boa parte dos "analistas" sabe das mentiras escabrosas que pregam, destinadas a manter as coisas em estado no qual seus donos (os barões da mídia) continuem a por e dispor do país como se fosse o quintal de suas mansões...

Claro que a Presidenta e o Ministro sabem da inconveniência do discurso sobre o Parlamento, ainda mais neste momento, mas o fato é: Em nenhum momento a Presidenta exigiu que sobre o capo Cunha, individualmente, fosse feita alguma retratação, mas apenas sobre o Congresso...

Sendo ele quem é, e presentando o PMDB, o recado foi claro...

Mas as raposas do PMDB sabem que atos de bravura andam lado a lado com a idiotice, e uma renúncia do "cocho" poderia desidratar o maior partido do Congresso ao limite da inanição...

Por isso o PMDB fez "beicinho", ouviu o que não queria, mas continua lá, refém da ideia que faz de si mesmo, o fiador da "governabilidade"...

Mas as investigações da Petrobrás nos revelam de que o PMDB é refém...embora a maior parte da conta seja do PT...

Eu sigo me divertindo, e escrevendo cada vez menos, lendo e ouvindo cada vez mais...



quinta-feira, 5 de março de 2015

Os bárbaros estão chegando...

É da lavra de Antonio Lassance, cientista político, este texto que traz uma sacada interessante...Embora eu discorde dele na identificação da razão social, onde está Impeachment S/A eu escreveria GOLPE S/A...

Republicamos a partir do blog do Nassif.

Impeachment S.A., por Antonio Lassance

Enviado por Mara L. Baraúna
Quem for às ruas no dia 15 vai estar vomitando seu ódio com o patrocínio de empresas e políticos que querem tirar o foco da lista de políticos da Lava Jato
De Antonio Lassance
Da Carta Maior
Impeachment S.A.: uma empresa de capital aberto e mente fechada
Que ninguém se engane ou se faça de desavisado. As organizações Impeachment S.A. - uma sociedade mais ou menos anônima - está aí não só para promover eventos, mas, sobretudo, para se capitalizar.
Quem quiser ir às ruas no dia 15, com nariz de palhaço e cartazes pró-impeachment, vai estar batendo o bumbo e vomitando seu ódio com o patrocínio de empresas e políticos que querem bombar o desgaste de um governo por razões nada republicanas.
Algumas das organizações mais ativas na mobilização das manifestações do dia 15 de março são um negócio patrocinado pela oposição partidária e empresarial, com os préstimos sempre valiosos do cartel midiático, que dá uma boa força para a sua divulgação.
Tal e qual nos bons tempos do golpismo dos anos 1950 e 1960, trabalhar pela derrubada de um governo é, em parte, ideologia, mas tem seu lado 'business'. Dá dinheiro.
Os grupos que organizam os protestos e clamam pelo impeachment começam como rede social, mas crescem com apoio partidário e empresarial.
Nenhum desses grupos deixa de pedir, publicamente, recursos para financiar seu 'trabalho' - seria melhor dizerem 'seu negócio'. Até aí, nada de mais. 
Porém, o grosso das contribuições que algumas dessas pessoas recebem não são públicas e nem de pessoas que dão 5, 10, 100 reais. Hoje, a maior parte da grana que rola em prol do impeachment de Dilma tem outra origem.
Empresários em pelo menos três estados (São Paulo, Pernambuco e Paraná) relatam ter recebido telefonemas pedindo dinheiro para a organização dos atos do dia 15. A fonte da informação são advogados consultados para saber da legalidade da doação e possíveis implicações jurídicas para as empresas.
Em um dos casos, o pedido não foi feito diretamente por alguém ligado aos perfis de redes sociais que convocam o ato, mas por um deputado de oposição, com o seguinte argumento: "precisamos ajudar esse pessoal que está se mobilizando para tirar esses vagabundos do poder".
O curioso é que o deputado oposicionista faz parte do seleto grupo de parlamentares que teve o privilégio de contar, entre seus financiadores de campanha, com empresas citadas na Lava Jato. Portanto, pelo critério da Impeachment S.A., o deputado amigo é, de fato, um honorável vagabundo.
É bom lembrar que quase a metade dos nomes da famigerada lista do ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, estava ligada às campanhas de Aécio ou Marina Silva
As empreiteiras pegas na Operação Lava Jato doaram quase meio bilhão de reais aos políticos e aos partidos com as maiores bancadas no Congresso, o que inclui os de oposição, como PSDB e DEM. Será que alguém vai se lembrar disso no dia 15?
Como o negócio funciona e prospera
A Impeachment S.A. virou franquia. Uma pessoa ou um pequeno grupo monta um perfil, sai à cata de adesões e seguidores e cria memes para serem espalhadas na rede. Com alguma sorte, essa 'produção' se torna viral - pronto, a fórmula de sucesso deu resultado.
Os grupos que organizam o protesto do dia 15 são muitos. Cada estado tem um ativista ou grupo de maior proeminência. Eles hoje disputam o mercado do protesto de forma cada vez mais empresarial. Com naturalidade, eles são absolutamente francos em dizer que o capitalismo é seu sonho de consumo. Qualquer maneira de ganhar dinheiro vale a pena.
Dependendo da força de adesão de cada perfil, o criador usa sua lista de seguidores, com ou sem nariz de palhaço, como portfólio para negociar patrocínio privado.
Quanto mais o impeachment se tornar um oba-oba, do tipo "atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu", tanto melhor para o negócio de derrubar a presidenta.
A busca de um mercado do protesto veio a partir do momento em que esses mascates do impeachment bateram às portas dos partidos, como o PSDB, o DEM e o PPS.
Pelo menos no caso de Pernambuco, houve tentativas também junto ao PSB, cujo ex-candidato à presidência, Eduardo Campos, também consta citado na delação de Paulo Roberto Costa. O PSB hoje abriga, entre outros, 'socialistas' da estirpe do antigo PFL, como os renomados Heráclito Fortes (PI) e Paulo Bornhausen (SC).
Alguns dos ativistas da Impeachment S.A., de espírito empreendedor mais aguçado, pegaram a lista de financiadores de campanhas de políticos da oposição com os quais mantêm contato e foram pedir ajuda para conseguir abrir portas em empresas dispostas a financiar a campanha do impeachment.
Os políticos tucanos, ao que parece, têm sido os mais empenhados em redirecionar os pedidos de patrocínio privado para o universo das empresas.
Publicamente, só para variar, os tucanos definiram, com o perdão ao vocábulo 'definir', que apoiam o ato pró-impeachment, mas são contra o impeachment. Hein? Precisamos de pelo menos uns dois minutos para entender o raciocínio e pegar algum tucano pelo colarinho branco, escondido atrás de mais esse muro.
Os tucanos querem o protesto, torcem pelo protesto, ajudam a patrocinar o protesto, mas fingem que não têm nada a ver com isso. Faz sentido - e ainda tem gente que acredita que eles realmente não trabalham pelo impeachment.
Por que 15 de março?
A própria data do protesto foi calculada politicamente, pela Impeachment S.A., com um propósito evidente. 
O alvo do protesto é a presidenta Dilma Rousseff, convenhamos, justamente no mês em que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, divulgará a lista dos políticos envolvidos no escândalo. Mais exatamente, na semana seguinte àquela em que a lista de políticos será tornada pública.
Os revoltontos do dia 15 pedirão o impeachment de Dilma, que sequer aparece citada na Lava Jato. Será que vão pedir também o impeachment do senador Aécio Neves, cuja campanha recebeu doações das mesmas honoráveis empreiteiras, diretamente para o comitê de campanha desse candidato?
Vão pedir pelo menos o impeachment de Agripino Maia (DEM-RN), acusado de receber R$ 1 milhão em propina? Delator por delator, Agripino tem o seu e merece algum cartaz de algum revoltonto mais bem informado.
Irão pedir a apuração rigorosa e a prisão dos envolvidos com o trensalão tucano? Ou a falta d'água em São Paulo racionou também a memória e o senso de moral e ética dos que se dizem fartos - principalmente depois de seu repasto?
Irão eles pedir o impeachment dos parlamentares do PMDB? Eles fazem parte do segundo maior partido da Câmara, o primeiro no Senado, e seriam decisivos para a chance de impeachment. Só que, por coincidência, estão entre os preferidos das empreiteiras na hora de financiar campanhas.
Os revoltontos do dia 15 ainda não pararam para pensar que querem um impeachment de Dilma a ser feito por um Congresso cujo financiamento de campanha desenfreado deixa a maioria de seus parlamentares abaixo de qualquer suspeita - se for para generalizar o 'argumento' de quem vê Dilma como uma inimiga a ser banida.
Serão esses, de fato, os que podem abrir a boca para falar em afastar a presidenta eleita ? Estranho. Não deveriam ser eles os primeiros alvos de cassação?
Quem promove a campanha pelo impeachment está dando sua contribuição voluntária ou patrocinada para tirar o foco dos corruptos que de fato têm nome no cartório da Lava Jato - o que não é o caso da presidenta.
Seria melhor, antes de falarem em impeachment de uma presidenta eleita pelo voto de 54,5 milhões, que os revoltontos do dia 15 esperassem a lista de Janot e a usassem para escrever seus cartazes.
Por que não o fazem? Talvez por que isso não seja lá um bom negócio.
(*)Antonio Lassance é cientista político

Genial.

Há tempos vivo às turras com o blog do Nassif, e tenho frequentado pouco aquele espaço...Mas de quando em vez ele acerta na mosca...Talvez ele atinja o ápice quando se afaste mais da pretensão de ser um jornalista isento (todos nasceram mortos), e se aproxime mais de suas paixões e crenças...

Eis o texto que compartilho com vocês...é bom ter a noção de nosso papel na História...evita vexames:

Noblat, Lula e a sina dos homens comuns

Recentemente, o colunista e blogueiro Ricardo Noblat escreveu um artigo sobre Lula. Trata-se de um dos mais significativos artigos dos últimos anos. Não para entender o fenômeno Lula, mas como material de estudo sobre como o senso comum da mídia o via.
Deixe-se de lado a bobagem de apresentar Lula como ameaça à democracia por convocar o exército de Stédile. É tão inverossímil quanto os 200 mil soldados das FARCs que invadiriam o Brasil em 2002, em caso de vitória de Lula.
Fixemos nas outras características de Lula, apud Noblat: rude, grosseiro, desleal, por não ter defendido José Dirceu e Luiz Gushiken. Também despeitado já que, segundo Noblat, ele queria ser candidato em 2014 e Dilma não permitiu (não é verdade, mas não importa). Ou a ficção de que luta para enfraquecer Dilma - mesmo Noblat sabendo que o fracasso de Dilma seria o fim do lulismo. No ano passado cometeu o feito de chamar Lula de “moleque de rua”.
O que é fascinante em Noblat é o uso da fita de medir homens comuns aplicada em homens de Estado. Pois por aí ele reedita um fenômeno que marca a politica desde os tempos de César: a dificuldade do homem comum em interpretar o Estadista e os recursos para trazer o personagem ao nível da mediocridade (entendido aí do pensamento médio) do leitor.
Mais um vez  recorro a Ortega y Gasset e seus portentosos ensaios sobre Mirabeau. Foi o homem que, na Constituinte, salvou a revolução francesa, apontando os rumos e definindo o novo desenho institucional.
Algum tempo depois morreu e seus restos mortais inauguraram o Panteon, que a França reservou para celebrar seus grandes homens. Aí descobriram o diabo da vida pregressa de Mirabeau. Aprontou todas na juventude, deflorou virgens, fugiu com mulheres casadas, deu tombos.
Imediatamente, os homens (comuns) de bem moveram uma campanha para retirar seus ossos do Panteon. E permitiram quase século e meio depois que Ortega traçasse perfis primorosos do Estadista, do homem comum (que ele denominava de pusilânime) e do intelectual.

O perfil do Estadista

O Estadista é um exagerado em tudo, um megalômano, dizia Ortega. Pois não é que Napoleão tinha a mania de grandeza de se imaginar Napoleão?. Só um megalomaníaco compulsivo tem a pretensão de mudar o Estado.
Não é tarefa para homens comuns, para intelectuais ou para santos.
O Estadista se propõe a desafios tão grandiosos que assusta os homens comuns - e é para eles que Noblat escreve e é como eles que Noblat pensa, derivando daí sua competência jornalística.
A dimensão que alcançam, influindo no destino de países, mudando a vida de milhões de pessoas, de certo modo reescrevendo a história da humanidade, é tão ampla que intimida o homem comum. A única lealdade do Estadista é para com a mudança do Estado. Para alcançar seu objetivo, mete-se no barro, monta acordos com Deus e o diabo, deixa a educação e o pudor de lado, sempre que atrapalharem a busca do objetivo maior..
O homem comum enxerga um vulto enorme à sua frente e, para poder encará-lo, tem que trazer o monstro para a sua dimensão e julgá-lo de acordo com a sua métrica de homem comum: é educado ou grosseiro, tem ou não tem estudo, cospe no chão, conta piadas grosseiras, é desleal com amigos etc?

O tamanho de Lula

Como imaginar que um retirante, que sobreviveu à mortalidade infantil, à miséria, à fome, à falta de instrução tenha conseguido o feito de tirar 40 milhões de pessoas do nível da miséria, mudar a história do seu país, provocar comoção em cidadãos de todas as partes do mundo, dar aulas de política para centrais sindicais norte-americanas, para o Partido Socialista francês e espanhol, ser tratado como “o cara” por Barack Obama, tornar-se referência global da luta contra a miséria e um dos personagens símbolos mundiais do século 21?
Não é bolinho. Então toca trazê-lo para nossa dimensão, de mortais comuns. Como diz o José Nêumane, nosso colega que até hoje não mereceu uma menção sequer de Obama, Lula nem sabe falar direito, erra nos verbos. Como é que o Nêumane, o Noblat, eu mesmo, tão mais instruídos, não conseguimos mais destaque na vida e no mundo que aquele nordestino analfabeto?
Faz bem Noblat em tratar Lula como “moleque de rua”.
Não é fácil captar e tentar entender fenômenos desse tipo, ainda mais para nós, jornalistas, pobres mortais que, quanto muito, atingimos algumas dezenas de milhares de leitores.
E aí só nos resta encontrar medidas à altura do alcance da nossa visão. Ao contrário da bailarina do Grande Circo Místico, Lula deve arrotar na mesa, coçar o saco, contar piada suja e até mostrar a língua. Noblat condena Lula por ser brusco nas reuniões com companheiros. Tenho a impressão que a sensibilidade de Noblat se arrepiaria toda se assistisse a fineza de Lula em uma assembleia de metalúrgicos.
Mais que isso. Desde os tempos antigos, o Paulo de Tarso Venceslau já falava da falta de escrúpulos de Lula para utilizar as prefeituras do PT para fortalecer o partido. No governo negociou com a Telemar, a Friboi, as empreiteiras, com o Sarney e o Renan, com o diabo.
Se tiver que jogar companheiros ao mar, em nome da missão maior, Lula jogará. Aliás, tenho a impressão que o próprio José Dirceu entendeu perfeitamente a omissão de Lula na defesa dos companheiros  – e ele, Dirceu, faria o mesmo se estivesse na sua condição.
Tem mais. Quando lhe interessa politicamente, Lula é capaz de se desdobrar em mesuras para jornalistas, empresários ou políticos. Quando não interessa, não tem nem agenda. Tem razão o Noblat: é um grosseirão!
No entanto, quem mudou o Brasil e se tornou a referência para o mundo? Fernando Henrique e sua falsa compostura (quem já encontrou FHC em ambientes sociais sabe bem qual o seu comportamento quando via moça bonita pela frente)? Suplicy? A Madre Tereza de Calcutá?
Dos defeitos e da visão
Dizia Ortega y Gasset que um Estadista deve ser analisado e julgado por suas qualidades e defeitos enquanto Estadista. Aliás, quase a mesma coisa que o marechal Cordeiro de Farias disse a Thales Ramalho, quando este, para lhe puxar o saco, desandou a falar mal de Luiz Carlos Prestes: “Apenas um personagem da história pode falar de outro”.
FHC e José Serra – que são mais estudados que Noblat – encantavam-se por terem constatado, neles próprios, algumas características dos grandes estadistas: no caso de Serra, a falta de escrúpulos, que ele justificava recorrendo sempre a esse ensaio de Ortega y Gasset; no caso de FHC, à capacidade de iludir políticos, que ele encontrara também em Roosevelt.
Faltou um detalhe essencial para se equipararem aos grandes estadistas: a visão de Estado. Imitaram apenas a falta de escrúpulos e de sinceridade. Mas sabem usar bem os talheres na refeição. E é isso que conta para os homens comuns.
Noblat já tem experiência e idade suficientes para não acreditar em contos de fada e nos cavaleiros sem mácula e sem medo. Ainda mais frequentando um castelo de homens tão puros e piedosos, quanto os das Organizações Globo, que tem um senso de realpolitik muito maior que o de Lula, mas em proveito próprio.

domingo, 1 de março de 2015

Vida inteligente em terreno árido...

Não é o caso de "endeusamento" de uma opinião de um militante do lado adversário para dar legitimidade às nossas críticas...

Esse expediente escroto é comum no meio do PIG nacional e local...

No entanto, Bresser-Pereira sempre se mostrou um tucano acima da média, ariculado a movimentos que lembram Covas, Montoro e outro quadros que imaginvam ser o psdb um defensor da social-democracia, e não a quadrilha de escroques na qual se transformou...

É claro que as críticas do Bresser são (e serão) sempre pertinentes...justamente porque nelas não há ÓDIO...

Essa é a diferença crucial...Bresser pensa o país, reconhece o processo histórico, analisa as variáveis, aponta problemas e alguns caminhos, e melhor: Não odeia...

Leia a entrevista dele na pocilga paulista. fsp, e que foi republicada no Viomundo:

Bresser-Pereira: Burguesia brasileira é “cordeiro nas mãos do carrasco”

publicado em 01 de março de 2015 às 11:52
Bresser
Ricos nutrem ódio ao PT, diz ex-ministro
O pacto nacional-popular articulado pelos governos do PT desmoronou pela falta de crescimento. Surgiu um fenômeno novo: o ódio político, o espírito golpista dos ricos. Para retomar o desenvolvimento, o país precisa de um novo pacto, reunindo empresários, trabalhadores, setores da baixa classe média.
Uma união contra rentistas, setor financeiro e estrangeiros.
A visão é do economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, 80, que está lançando “A Construção Política do Brasil” (Editora 34, 464 pp), livro que percorre a história do país desde a independência. Ministro nos governos José Sarney e FHC, ele avalia que o ódio da burguesia ao PT decorre do fato de o governo defender os pobres.
A entrevista é de Eleonora de Lucena, publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 01-03-2015.
Eis a entrevista.
Seu livro trata de coalizões de classe. O sr. diz que atualmente a coalização não é “liberal-dependente”, como nos anos 1990, nem “nacional-popular”, como no tempo de Getúlio Vargas. Qual é, então?
Não há. Desde 1930 houve cinco pactos políticos. O nacional-popular de Getúlio, de 1930 a 1960. De 1964 ou 1967 até 1977, há um pacto autoritário, modernizante e concentrador de renda, de Roberto Campos e dos militares.
Depois, há o pacto democrático-popular de 77, que vai promover a transição. Esse chega ao governo, tenta resolver o problema da inflação e fracassa. Com Collor e, especialmente com FHC, há um pacto liberal-dependente, que fracassa novamente.
Aí vem o Lula, que se propõe a formar novamente um pacto nacional-popular, com empresários industriais, trabalhadores, setores da burocracia pública e da classe média baixa. O governo terminou de forma quase triunfal, com crescimento de 7,4%, e prestígio internacional muito grande. Mas esse pacto desmoronou nos dois últimos anos do governo Dilma.
Por quê?
O motivo principal foi que o desenvolvimento não veio. De repente, voltamos a crescer 1%. Houve erros nos preços da Petrobras e na energia elétrica. E o mensalão. Aí os economistas liberais começaram a falar forte e bravos novamente, pregar abertura comercial absoluta, dizer que empresários brasileiros são todos incompetentes e altamente protegidos, quando eles têm uma desvantagem competitiva imensa.
É o que explica o desparecimento de centenas de milhares de empresas. O pacto político nacional-popular… Vupt! Evaporou-se. A burguesia voltou a se unificar.
E achou que podia ganhar a eleição do ano passado?
Sim. Aí surgiu um fenômeno que eu nunca tinha visto no Brasil. De repente, vi um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, contra um partido e uma presidente. Não era preocupação ou medo. Era ódio.
Esse ódio decorreu do fato de se ter um governo, pela primeira vez, que é de centro-esquerda e que se conservou de esquerda. Fez compromissos, mas não se entregou. Continua defendendo os pobres contra os ricos. O ódio decorre do fato de que o governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres. Não deu à classe rica, aos rentistas.
Mas os rentistas tiveram bons ganhos com Lula e Dilma, não?
Não. Com Dilma, a taxa de juros tinha caído para 2%. Isso, mais o mau resultado econômico, a inflação e o mensalão, articularam a direita. Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força. Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia que está infeliz.
Ao ganhar, Dilma adotou o programa dos conservadores?
Isso é uma confusão muito grande. Quando se precisa fazer o ajuste fiscal vira ortodoxo? Não faz sentido. Quando Dilma faz ajuste ela não está sendo ortodoxa. Está fazendo o que tem que fazer. Havia abusos nas vantagens da previdência. Subsídios e isenções foram equívocos. Nada mais desenvolvimentista do que tirar isso e reestabelecer as finanças. Em vez de dar incentivo, tem que dar é câmbio. E de forma sustentada.
Dilma chamou [o ministro da Fazenda] Joaquim Levy por uma questão de sobrevivência. Ela tinha perdido o apoio na sociedade, formada por quem tem poder. A divisão que ocorreu nos dois últimos anos foi violenta.
Quando os liberais e os ricos perderam a eleição, muito antidemocraticamente não aceitaram isso e continuaram de armas em punho. De repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo. Não há chance disso funcionar.
Dilma está na direção certa?
Claro. Mas não vai se resolver nada enquanto os brasileiros não se derem conta de que há um problema estrutural, a doença holandesa. Enquanto houver política de controle da inflação por meio de câmbio e política de crescimento com poupança externa e âncora cambial, não há santo que faça o país crescer. Juros altos só se justificam pelo poder dos rentistas e do sistema financeiro. Falar em taxa alta para controlar inflação não tem sentido.
Qual pacto seria necessário?
Um pacto desenvolvimentista que una trabalhadores, empresários do setor produtivo, burocracia pública e amplos setores da baixa classe média. Contra quem? Os capitalistas rentistas, os financistas que administram seus negócios, os 80% dos economistas pagos pelo setor financeiro e os estrangeiros.
Um pacto assim não fere interesses consolidados?
Em primeiro lugar, fere interesses do capitalismo. Não há nada que o capitalismo internacional queira mais em relação aos países em desenvolvimento do que eles apresentem déficit em conta-corrente. Porque esses déficits vão justificar a ocupação do mercado interno nosso pelas multinacionais deles e pelos empréstimos deles. Que não nos interessam em nada. O Brasil está voltando a ser um país primário-exportador. Esse câmbio alto resultou numa desindustrialização brutal.
No livro o sr. trata das dubiedades da burguesia. Diz que muitos industriais são hoje quase “maquiladores”.Viraram rentistas. Como compor esse pacto com empresários?
A burguesia tem sido ambígua, contraditória. Em alguns momentos se uniu a trabalhadores e ao governo para uma política de desenvolvimento nacional, como com Vargas e Juscelino. Em outros, não foi nacional, como entre 1960 e 1964. Ali, a burguesia se sentiu ameaçada. No contexto da Guerra Fria e da Revolução Cubana, se uniu e viabilizou o regime militar.
Estamos vendo isso novamente. A burguesia voltou a se a unir sob o comando liberal. Há esse clima de ódio, essa insistência de falar de impeachment.
Mas esse espírito não vai florescer. A democracia está consolidada e todos ganham com ela, ricos e pobres. O Brasil só se desenvolve quando tem uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Como define a burguesia hoje?
É muito mais fraca do que nos anos 1950. Tudo foi comprado pelas multinacionais. O processo de desnacionalização é profundo. Todos que venderam suas empresas viraram rentistas, estão do outro lado. Mas continuam existindo empresários nacionais e jovens com ideias. Mas não há oportunidade de investir com esse câmbio e esse juro. É uma violência que se está fazendo contra o país. Em nome de uma subordinação da nação aos estrangeiros e de uma preferência muito forte pelo consumo imediato.
Os brasileiros se revelam incapazes de formular uma visão de seu desenvolvimento, crítica do imperialismo. Incapazes de fazer a crítica dos déficits em conta-corrente, do processo de entrega de boa parte do nosso excedente para estrangeiros. Tudo vai para o consumo. É o paraíso da não-nação.
Por que isso aconteceu?
Começamos a perder a ideia de nação no regime militar. Porque os militares se identificaram com o nacionalismo e o desenvolvimentismo. Os intelectuais brasileiros aderiram à teoria da dependência associada e abandonaram a ideia de burguesia nacional e de nação. Porque não há nação em burguesia nacional.
A nação é uma coalizão entre a burguesia nacional e os trabalhadores com o governo. Depois foi a crise da dívida externa e o fracasso do Cruzado. Nos anos 1980, o mundo foi dominado pelo neoliberalismo. Quando veio Lula, ele começou a pensar na era Vargas. Isso fracassou. Não foi possível fazer essa reconstrução da nação.
O sr. escreve que Lula foi fortemente social e hesitantemente desenvolvimentista.
O desenvolvimentismo não deu certo. Sua política não foi a do novo desenvolvimentista [sobre a qual Bresser-Pereira teorizou].
Desnacionalização preocupa?
Profundamente. É uma tragédia. Vejo uma quantidade infinita de áreas dominadas por empresas multinacionais que não estão trazendo nenhuma tecnologia, nada. Simplesmente compram empresas nacionais e estão mandando belos lucros e dividendos para lá. Isso enfraquece profundamente a classe empresarial brasileira e, assim, a nação.
Então o senhor está pessimista em relação à burguesia?
A burguesia brasileira está sendo um cordeiro nas mãos do carrasco. O carrasco é o juro alto e o câmbio apreciado. Ela é incapaz de se rebelar. Suas organizações de classe se mostram muito fracas.
Como vão defender mudanças no câmbio se têm empresas endividadas em dólar? Líderes ficam manietados. Eles sentem que estão indo para o cadafalso, mas não sabem o que fazer; estão divididos.
Não é fato que muitas empresas ganham mais com o mercado financeiro do que com a produção?
Isso também. Na hora em que se transforma uma indústria numa maquiladora, o câmbio já não importa mais. Porque se importa tudo. É até bom que seja alto porque seu produto fica barato. O câmbio é importante quando há conteúdo nacional e se paga salários para trabalhadores e para engenheiros.
Quando não se paga nada disso, acabou, não é mais empresário industrial. Precisamos de um desenvolvimento baseado na responsabilidade fiscal e cambial, na afirmação de uma taxa de lucro satisfatória para empresários, da não necessidade de uma taxa de juros satisfatória para os rentistas. Para isso é preciso convencer a sociedade e precisamos de políticos com liderança que sejam capazes de fazer isso.
O sr. enxerga essa liderança?
Não. O PT perdeu essa oportunidade, que foi a primeira que tivemos desde o Cruzado. Pode ser que se reconstrua.
A indicação do Levy representa um fracasso para os desenvolvimentistas. Eles não conseguiram fazer o seu trabalho. Mas não deixaram o país numa grave crise. A crise de 98 foi muito pior.
O sr. se arrependeu de ter apoiado a presidente naquele ato no Tuca?
Não me arrependo. Era preciso escolher entre um candidato desenvolvimentista e social e um outro candidato liberal, portanto profundamente contrário aos interesses nacionais, que era o Aécio.
Não houve, então, estelionato eleitoral?
Isso é bobagem. É uma concepção muito grosseira e simplista de entender o que é desenvolvimentismo. As boas ideias desenvolvimentistas são de responsabilidade fiscal, portanto ela tinha que restabelecer isso.
Qual sua avaliação do governo Dilma?
Os governos Fernando Henrique Cardoso e Lula/Dilma fracassaram do ponto de vista econômico. Quem foi altamente bem-sucedido foi Itamar Franco, em cujo governo FHC foi herói por causa do Real. Mas nos quatro anos que ele governou, o câmbio se apreciou brutalmente e resultado foi muito ruim; houve duas crises financeiras.
No governo do PT houve o boom de commodities, o crescimento dobrou. Lula teve o grande mérito de fazer distribuição de renda com êxito e foi muito bom. Mas Lula deixou para Dilma uma taxa de câmbio absolutamente apreciada.
Ela não conseguiu sair dessa armadilha do câmbio altamente valorizado e do juro alto. Ela tentou nos dois primeiros anos e fracassou. Não houve retomada dos investimentos industriais porque o câmbio era insatisfatório e porque precisa tempo para isso.
A economia voltou à sua situação dos últimos 35 anos: semi-estagnação, um crescimento baixíssimo. Ela tentou a política industrial, um velho erro dos desenvolvimentistas clássicos, que supõem que ela resolve tudo. Resolve coisa nenhuma. É uma compensação para uma taxa de câmbio apreciada no longo prazo que torna as empresas não competitivas e com expectativas de lucro muito baixas. Ela gastou quase 2% do PIB em desonerações fiscais que resultaram em nada.
São políticas de enxugar gelo. Sou a favor delas, mas de forma estratégica, em momentos específicos. Todos os países fazem. Nos asiáticos foi elas foram muito importantes e continuam sendo. Mas esses países tinham a macroeconomia absolutamente equilibrada, os preços macroeconômicos certos.
Como certos?
É uma tese central do novo desenvolvimentismo que venho desenvolvendo nos últimos 15 anos. Na macroeconomia do novo desenvolvimentismo, países devem ter cinco preços certos. A taxa de lucro deve ser satisfatória para os empresários investirem; a taxa de juros deve ser baixa; a taxa de câmbio deve ser competitiva; a taxa de salários deve ser compatível com a taxa de lucro dos empresários; a inflação deve ser baixa.
São os pressupostos. No Brasil, desde Plano Real, a inflação é baixa, a taxa de lucros é insatisfatória para os empresários do setor produtivo, a taxa de câmbio é absolutamente apreciada no longo prazo. A taxa de juros permaneceu alta quase o tempo todo. E a taxa de salários cresceu mais do que a produtividade.
Nessas condições, não há economia que cresça. É preciso fazer ajuste fiscal porque os dois últimos anos desorganizaram fiscalmente o país. Mas ajuste fiscal não resolve os problemas do país. Tem que ser feito, estou de acordo com a política do [Joaquim] Levy agora nesse ponto.
Estamos de volta a uma situação de semiestagnação de longo prazo, que vivemos há muitos e muitos anos. O Brasil continua numa armadilha macroeconômica de uma taxa de câmbio altamente apreciada e uma taxa de juros muito alta. Isso inviabiliza qualquer investimento das empresas industriais e significa desindustrialização e baixo crescimento ou quase estagnação.
O crescimento da economia brasileira per capita de 1980 para cá é de menos de 1%, é 0,9%. Quando foi de 4,1% nos trinta anos anteriores. É o país que não faz o ‘catching up’, não estamos diminuindo a distância em relação aos países ricos.
Nós brasileiros, no plano econômico, estamos fracassando lamentavelmente nos últimos 30 e tantos anos. Por que a taxa de jutos é escandalosa. E mais ainda porque a taxa de câmbio é apreciada no logo prazo desde 1990/1991.
O Brasil só cresceu de maneira extraordinária porque neutralizou a doença holandesa entre 1930 e 1980, que foi o período da revolução industrial brasileira, quando tivemos um crescimento sem igual no mundo.
A doença holandesa é uma apreciação permanente e variável da taxa de câmbio. Decorre do fato de que o país tem recursos naturais abundantes e baratos, que podem ser exportados com lucros satisfatórios para as empresas uma taxa de câmbio substancialmente mais apreciada do que a taxa de câmbio que é necessária para as empresas industriais e de serviços tecnológicos comercializáveis internacionalmente sejam competitivas.
Em preços de hoje, as empresas de commodities precisam de uma taxa de câmbio de R$ 2,50 por dólar. As empresas industriais brasileiras para serem competitivas precisam, na média, de R$ 3,10. Essa diferença é a doença holandesa. O jeito de neutralizá-la é através de um imposto. Nós tínhamos esse imposto, que era o confisco cambial. Foi desmontado com a abertura comercial de 1990/91.
Eu me penitencio nesse ponto porque, como ministro da Fazenda em 1987, fui quem deu início formalmente ao processo de abertura comercial.
E agora com o dólar mais elevado, o que muda?
Agora diminuiu a diferença e a doença holandesa fica bem menor. Mas é temporário. Consequência da queda do preço das commodities, da política norte-americana e de uma certa perda de confiança na economia brasileira.
Passada a crise ele volta a se apreciar e em termos reais e vai voltar a girar em torno de R$ 2, 50, não em torno de R$ 3,10. A desvantagem competitiva vai continuar, o Brasil vai continuar semi-estagnado, a desindustrialização vai continuar a acorrer.
O senhor está pessimista? 

É claro. Não vejo nenhum sinal de que esse problema vai ser enfrentado. Nem da parte do governo, nem das oposições, nem da academia.