segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O golpismo não é exceção...é regra!

Se encararmos o significado da palavra golpe, associado a contextos políticos, veremos que o Estado brasileiro e as forças políticas que o compreendem nunca se afastaram muito dessa prática...ou seja, sempre vislumbraram e/ou utilizaram essa ferramenta como corriqueira para conquistar a hegemonia.

O processo de independência pode ser considerado um golpe de uma parcela das elites portuguesas que viram a possibilidade de manter seus interesses intactos junto ao "novo" país, e não por acaso, entregaram-no ao filho da dinastia que comandava a metrópole portuguesa...Um golpe na chance de uma separação traumática, mas que implicasse na "invenção" de um país, e que não fosse apenas a continuação colonial.

Diferente de todos os outros países americanos, o Brasil conduziu seu processo de emancipação sem rupturas, nem dissensos graves, permitindo às classes favorecidas resguardar seus privilégios.

Não que nos outros países essas classes dirigentes não conseguissem a mesma coisa, mas ao menos naqueles países a correlação de forças reunidas para enfrentrar o colonizador acenou com outros acordos na formação daqueles Estados Nacionais...

Já em 1889, na instalação republicana, outro golpe, e pela primeira vez com a participação militar como elemento de coerção. Novamente um acerto entre as elites destinado a rearrumar o precário arranjo de forças de um capitalismo agrário estressado pela mudança na sua forma de acumulação, do trabalho escravo para o assalariado.

Veio 1930, e o eufemismo chamado "revolução" não esconde o viés golpista da ação que levou Vargas ao poder, e em 37, o golpe dentro do golpe...

1945 não escapou a regra, e os militares já impregnados pela doutrina geopolítica estadunidense para a região defenestram Vargas do poder...Aqui poderíamos considerar que houve um contragolpe, destinado a retirar do poder um ditador, mas o fato é que Vargas foi impedido de concorrer às eleições...Então, era uma "democracia pela metade"...

Com as instituições reestabelecidas, tentaram impedir a posse de JK, depois a de Jango, e 64 foi o desfecho de um ciclo, e aí tivemos a exacerbação máxima de um golpe com "tudo que tínhamos direito": Certo consenso popular, mídia conservadora partidarizada, discurso moralista, guerra fria, e tantos outros componentes já conhecidos, aliados ao uso da violência física e simbólica como "medição da política"...

Em 1992, no impeachment de Collor, outra vez os instrumentos golpistas funcionaram, e as mesmas elites que se associaram para alçá-lo ao poder, apearam-no, não sem um amplo apelo nacional, fabricado sob encomenda e alimentado por forças de todos os matizes, incluindo aí o PT e seus ressentimentos (ainda que justificáveis) com a derrota em 1989!

Veio 2006 e Lula provou o seu quinhão golpista com a ameaça da ação 470, onde as teses em conflito naquela época no seio oposicionista eram: Tentar o impeachment, e arriscar que Lula fosse as ruas resistir ou sangrá-lo durante seu mandato...

Vence a segunda hipótese, defendida por ffhhcc, que do alto de seus próprios recalques avaliava que um operário não poderia fazer muito pelo país, e mais valia desmoralizá-lo para sempre...Não deu.

Deu Dilma...

E ela, contra todas as previsões, manteve-se próxima ao ex-presidente, sem deixar de dar uma cara própria ao seu governo, com medidas que incomodaram drasticamente o capital.

Baixou os juros em 2011 e impôs um prejuízo de quase 100 bilhões de dólares a banca naquele ano...Manteve um arrojado plano de investimentos, incluindo aí a Petrobrás, que tornou-se ela mesma dona e sócia da maioria do Pré-Sal...Intolerável...

Claro que a gestão do Estado capitalista por Dilma (e pelo PT), em uma coalisão de governo mais conservadora que progressista traz constrangimentos e contradições, não há dúvidas...

Não podemos desconsiderar os recuos feitos no início desse segundo mandato, muito é verdade, tanto pelo assédio incansável dos golpistas da mídia e da oposição, tanto pelas hesitações dos próprios integrantes do governo, e junto a isso tudo, o retrocesso previsível da sociedade, que elegeu um Congresso mais hostil...

Mas o fato é que o golpe que ronda Dilma não é novidade, ao contrário, é companheiro inseparável da cena política brasileira desde que nos entendemos como uma sociedade autônoma...

Gostamos, paradoxalmente, de soluções que afastem o conflito de ideias, e que façam valer atalhos, isto é, embora detestemos o embate, aceitamos usar de violência para conceder-nos uma ideia de "pacificação", seja ela institucional, jurídica ou violência propriamente dita, com tortura, perseguições, censura, etc...

Dima enfrentou as tentativas de golpe de junho de 2013, e enfrentará tantas outras ao longo de seu mandato...

Cabe ao PT construir junto à sociedade as condições de governabilidade, ganhando a batalha pelo senso comum, pelo imaginário da população, porque não se enganem: Todos os golpes contam com amplo apoio popular.

5 comentários:

Anônimo disse...

Bom. Muito bom.

Tadeu 360○ disse...

Mais um belo texto, é sempre gratificante ler a Planice Lamacenta.

douglas da mata disse...

Grato a todos.

Anônimo disse...

Mas essa batalha o governo e o PT estão perdendo, e de goleada. Dilma prometeu que não ia mexer nos direitos trabalhistas, mas foi lá e modificou o seguro desemprego. Dilma prometeu que não ia mexer com os benefícios previdenciários, mas foi lá diminuiu as pensões para as viúvas e filhos dos trabalhadores falecidos. Dilma disse que não era neoliberal como o Aécio, que sua economia tinha que ter crecimento com desenvolvomento, mas foi lá e chamou Joaquim Levy pra Fazenda. Dilma disse que era a favor da reforma agrária, mas foi lá e chamou Kátia Abreu pra Agricultura... Como contra argumentar com a mídia se o próprio governo é contraditório e não lhe fornece os argumentos que a militância que lhe elegeu precisa para debater?

douglas da mata disse...

Meu filho, vamos separar partido de governo.

Se você observar (não dói, é só olhar um poquinho, respire antes de falar) você perceberá que todos os integrantes do governo (gabinete ministerial) saíram das bases dos partidos aliados.

Não houve (novos) acordos com partidos de oposição (o que em democracias maduras é normal, e até desejável ou imprescindível, exemplo mais recente, a Grécia, quando a esquerda se apoiou em direitistas para ter maioria parlamentar).

O PT desde 2003 manteve nomes ligados a banca financista, sendo Palloci o fiador da era Lula. Levy esteve lá este tempo todo em posto-chave (secretário do tesouro do Min. Faz.)

O problema não é (só) do PT ou do governo, como a gente vem escrevendo (e repercutindo outros textos), mas a encruzilhada do modelo de redistribuição previsto pelo Lula com pacto com as elites, que parece ter acabado (não sei).

Quanto as pensões, vá se informar, meu filho, o que está se procurando fazer é corrigir as distorções para dotar o sistema de uma média que aproxime os de baixo com os de cima, e claro, nesse jogo, alguém tem que perder.

Os sistemas de previdência não tem suportado o aumento da longevidade média da população, e todos os encargos embutidos nas contas previdenciárias, como as aposentadorias humanitárias (pessoas que passam a receber um mínino sem nunca terem contribuído).

Esse é um problema mundial, filho.

O que define o caráter de um governo é o alcance e o objetivo de seus programas e ações, e nisso, não há, no governo Dilma, desde seu início, nenhum recuo nas políticas públicas sociais, nenhum corte em benefício ou investimento em Educação, Saúde ou outro prioritário, embora, para "acalmar" os abutres da mídia e do "mercado", faça-se o discurso do contingenciamento.

Vai se informar, criança.