sábado, 10 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo, liberdade de expressão? Je vous salue, PIG...

Tenho lido muita coisa sobre os atentados aos cartunistas franceses, e as repercussões...Não tenho uma opinião formada, senão rejeitar a violência...

No entanto, dentre as poucas impressões que tenho, fica a certeza de que a mídia nacional (a corporativa) não tem estatura moral alguma para falar em ataque à liberdade, ainda mais quando querem contrabandear noções de que vivemos sob ataque parecido...Tudo para embaçar o debate sobre a necessária e inevitável regulação das empresas de mídia...

É bom lembrar: A mídia corporativa na França é fortemente regulada, assim como na Inglaterra e em outros países da Europa...Há limites, responsabilidades e uma tentativa de impedir que haja monopólios da produção e disseminação de conteúdos...

Não podemos comparar realidades históricas tão díspares...Os conflitos, debates na cultura francesa amadureceram sob outros ambientes, enquanto nós detestamos o debate de ideias...Como disse o cartunista Laert em entrevista a um blog, debate no Brasil, em dois segundos vira briga...

Outra coisa que o Laert disse é que, provavelmente, o humor do Charlie Hebdo nunca vingaria por aqui...

Esta frase me assombrou, ainda mais quando leio, vejo e ouço tanta asneira dita na TV, rádios e revistas em nome da tal liberdade de expressão...

Fui ao Google e procurei as charges mencionadas pelo Laert...Encontrei algumas ótimas, e ali fica claro que a Charlie influenciou muita gente boa por aqui, como Allan (Sieber), Adão (Iturrusgarai), Glauco, e ele mesmo, Laert, e talvez até o Angeli, dentre tantos outros...

Encontrei uma charge muito boa para essa nossa análise, e me pergunto: Caro leitor, será que você veria uma charge destas no globo, na folha de sp, no estadão, ou até mesmo em algum jornaleco podre desta planície de lama?

Trata-se de um menage-a-trois da santíssima trindade, com pai, filho e o espírito santo...


E aí? Será que este pessoal daqui pode, realmente, fazer defesa de alguma liberdade de expressão, fingindo luto como se defendessem os mesmos valores praticados pelos chargistas mortos?

Sugiro uma boa "homenagem" dos barões da mídia local e nacional, publicando charges do Hebdo que atacassem cada religião monoteísta...

Teriam culhões para tanto?

8 comentários:

Anônimo disse...

É evidente que não. Nunca serão! ou Nunca terão (culhões).

Eu também não tenho ainda uma opinião formada deste atentado, mas jamais usaria a frase em francês que diz que eu sou Charlie. Eu também não teria culhões, nem motivos, para fazer o que eles faziam. Só que eu admito isso. Quase todos que vestiram a camiseta preta com a frase tambem não teriam,mas pega bem ser "a favor da liberdade de expressão". Ui!

Não sei se você viu, mas no mesmo dia do atentado francês, o grupo islâmico Boko Harum ("a educação ocidental é um pecado") deixou mais de cem mortos num ataque na Nigéria.

A notícia está em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/203313-novo-ataque-do-boko-haram-deixa-centenas-de-mortos.shtml

Anhnn, na Nigéria. Lá não precisa nem contar, basta dizer 'centenas de mortos'...

Matar os pretos da Nigéria não "ameaça o estilo de vida" de ninguém.

Então tá.

douglas da mata disse...

Pois é, caro amigo, pretos mortos na Nigéria podem até ser uma "oportunidade", considerando as enormes resevas de petróleo daquele país...

O que continua a me assustar é que imbecis e ingênuos de toda sorte ainda queiram medir estes eventos por juízos fáceis macaqueados da mídia...

Al Qaeda e Cia contra Moscou, Al Qaeda contra Washington, financiados a partir do aliados primeiros, os sauditas, e depois junto com Washington, de novo, na Síria, e por aí vão.

Em breve a geopolítica revelará o uso do Estado Islâmico...

E o bando de idiotas a abanar bandeiras e pombas da paz...

Anônimo disse...

Acho que é outra cultura, são outros valores, por isso penso que as charges de lá não repercutiriam bem e não fariam sucesso por aqui... E até por isso acho que a imprensa daqui não publicaria estas charges. Se houvesse uma sociedade preparada, madura culturalmente para um debate nesse nível, acho que a imprensa publicaria, até porque teria mercado, venderia jornal, revista, enfim...

Anônimo disse...

É bom lembrar a questão do respeito também e das piadas de péssimo gosto. É uma questão subjetiva, cada um pode gostar ou não gostar de uma piada. Mais, cada um pode ser, pensar e escrever sobre o que quiser, mas não podemos ofender os outros. Sou contra a censura prévia, mas penso em um limite sobre a imprensa. Se ela me ofender tem que pagar uma indenização.

douglas da mata disse...

Ao comentarista das 19:38,

Não cometa o erro de hierarquizar culturas e sociedades, que têm dinâmicas e processos históricos distintos.

Somos diferentes, mas não inferiores.

O fato é que não precisamos esperar uma "preparação" ou "amadurecimento" para enfrentarmos este debate.

Ao contrário: É justamente o enfrentamento destas questões que nos amadurecerá.

Lembre-se enfim, que é justamente a (horrorosa) qualidade de nossa imprensa que nos "atrasa" na compreensão dos fenômenos e na construção da nossa capacidade argumentativa.

Ao comentarista das 19:44,

Li em um texto hoje que liberdade é a liberdade de impor limites.

A sociedade francesa entendeu, e pactuou que mesmo que sejam de mau gosto, os desenhos não deveriam ser impedidos (previamente) de circular.

A grande quuestão, penso eu, é que por aqui, sequer admitimos levar este debate adiante, senão pela agenda cretina das empresas de mídia...

Anônimo disse...

Comentarista das 23:27 disse:

Douglas:

Sobre o seu comentário das 11:54, vale dizer que o Charlie Hebdo já havia chamado a atenção para as relações entre os EUA e o Estado Islâmico (ISIS).

Não é novidade que Tio Sam financia grupos terroristas para depois justificar a intervenção em países a fim de “combater” estas mesmas organizações.

A Síria enfrenta o terror de uma guerra liderada pelo ISIS há 3 anos. E quem financia isto? Estados Unidos, Turquia, alguns países europeus (menos França até semana passada) e Arábia Saudita.

Não há terrorismo sem dinheiro. Alguém tem que pagar a conta e quem paga é quem ganha com o resultado...

É só observar quem ganha que saberemos quem está pagando...

abs

oliver.reo disse...

Olá Douglas, seu comentário das 19:38 está muito bom. Uma sintese para ser debatida em sala de aula. vc poderia indicar qual o texto que leu sobre liberdade?

douglas da mata disse...

Olhe, meu caro, tenho mitigado textos que oscilam posições mais extremadas, como Slavoj Zizek, misturando com Emir Sader e a produção mais corriqueira do Saul Leblon no sítio Carta Maior.

O blog do Rovai, embora não concorde com tudo ali, é boa referência, e tem também O Cafezinho, do Miguel Rosário.

O resto é uma mistura (uma "plagicombinação", como diria Tom Zé) minha mesmo, como as minhas próprias impressões (e aflições) sobre aquilo que me cerca.

Grato pela participação.