quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Em caso de emergência, quebre o vidro (mas junte os cacos).

Em tempos de aridez e pouca inspiração, resta republicar o entulho:

Republicações. Série: pequenos contos de lama.

Estes contos estavam perdidos por aí, em algum canto mofado deste blog moribundo...

Não se enganem, recordar é morrer...aos poucos...


Contos de lama!

Anatomia do amor antropofágico.
 Silenciosa, ela o esquarteja. Ele não reclama, consciente e voluntário. Devora cada pedaço com devoção, lambe cada pedaço, sorve a carne e a suga até os ossos, enquanto escorre pelos cantos da sua boca o sangue e o gozo. No fígado não há amor, só ódio. Ela joga fora.Depois, metódica, arranca-lhe os olhos, e faz duas contas, que pendura em brincos, exibidos como troféus de uma refeição bem feita. O coração acelera, e ela o arranca de uma só vez. Tão rápido que ainda há batimentos reflexos fora do corpo. Ela aproveita, e coloca aquele coração ainda pulsante dentro de si, como um parto invertido.Depois, extinto o movimento, empalha e o coloca em algum canto de sua memória sombria. O cérebro ela deixa intacto, pois não quer comer suas últimas lembranças.O couro ela esfola, seca, trata, faz uma capa e voa, nas noites sem lua, à caça de outros alimentos:sentimentos.

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