sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O que está verdadeiramente em jogo?

Antes dele embarcar a Barcelona, estive com o meu amigo Roberto Moraes para uma longa e animada conversa aqui em casa...

Tecemos considerações sobre o que vinha pela frente nas eleições que se avizinhavam...Chegamos a vários consensos e alguns poucos pontos de divergência...Das divergências, nenhuma delas irreconciliável, na verdade, nem podemos chamar de divergências, dada a natureza complementar delas.

Sobre as hostilidades pré e pós eleições (acho que não falamos sobre o pós, exatamente) tínhamos e temos pleno acordo: O jogo eleitoral brasileiro não se acirrou por questões apenas de caráter interno, ou pela luta renhida entre PT ou PSDB, partidarização da mídia, etc...

Esses são componentes que estão para a disputa mais como efeito dela, e não como causa, e o eixo central dessa disputa não é nacional, mas global...

Digo e repito: O que está em jogo no momento é o tipo de alinhamento de países com o tamanho e peso relativo do Brasil, aí somamos os chamados BRICs e outros tantos, com Turquia, Irã, Canadá, Austrália, México, e outros com peso menor, como Argentina, Venzuela, Chile, etc, vão ter com o centro hegemônico do capitalismo atual, EUA e Europa...

Períodos de longa e profunda crise são sucedidos de épocas de forte expansão dos fluxos de capital, represados e protegidos em suas pátrias-mãe durante a tormenta, ensinam os manuais de economia...

É mais ou menos assim, explicando da forma simplória como eu entendo: 

Durante anos, o capital se esparrama pelo mundo, em busca de territórios e mercados, que alimentam sua acumulação pela produção e concentração de riqueza, e recentemente, mais pela acumulação composta proporcionada por juros e pela dívida pública e discrepâncias cambiais dos países mais pobres (juros)...

De tanto "comer", o "monstro capitalista pantagruélico" engasga e para, como uma porca obesa, e para sobreviver, essa "porca" vomita a tudo e a todos que julga desnecessários (pobres e economias dos outros países), acumulando apenas "a gordura" que lhe mantém para "hibernar" quando não houver alimento...

Na medida que os países perfiféricos se levantam, uns pelo amargo remédio imposto pela banca (FMI e outros organismo), ou por processos mais autônomos, como Brasil e outros países, nessa última crise de 2008, a "porca" acorda e sai à caça de "alimento" novamente, re-inaugurando o ciclo, que se repete apenas nos propósitos ("alimentar a porca"), mas que a cada vez se torna mais e mais voraz e destrutiva...

Ora bolas, sempre nos empurraram goela adentro que o papel global dos países, e suas posições relativas em relação as riquezas globais, eram quase uma dádiva divina ou uma questão de "caráter" do povo, ou ainda, vinculada a determinismo geográficos...Pura tolice...

A riqueza e opulência de uma sociedade está totalmente estruturada sobre a pobreza e penúria das demais...Assim como a pobreza e penúria de parte de uma nação está subordinada e sustenta a opulência de sua elite...

O capitalismo não é apenas um sistema que produz diferença...No capitalismo, essa diferença é sua própria razão e força de existir...

Normalmente, as elites nacionais tendem a se filiar às suas matrizes ideológicas internacionais, e promovem a defesa dos interesses destas, em detrimento dos interesses da população de seus próprios países, e como relação de causa-e-efeito são mantidas com uma parte da expropriação promovida por essas elites internacionais dentro desses países, como uma comissão, um "agrado" aos seus "capitães-do-mato".

Durante todo o processo histórico de maturação do capitalismo, desde sua fase mercantil, passando pela fase monopolista-oligopolista (imperialismo), até chegar a esse capitalismo transnacional financista de extrema volatilidade, que supera as barreiras físicas da acumulação em um clique, sempre houve quem se dedicasse a manter os países (e as populações) que alimentam a riqueza dos países centrais domesticados e dedicados a aceitar sua miséria como uma questão de "má-sorte" ou de "falta de capacidade"...

É isso que está em jogo...

Por isso países como o nosso sofrem intervenções golpistas, de tempos e tempos, financiadas à larga pelos cofres das corporações mundiais...A África não é o que é à toa, assim como a América Central não permanece o que é por ira ou vingança divina...


Se houver menos petróleo (energia), menos insumos ou insumos mais caros (matéria-prima e mão-de-obra) e barreiras a acumulação capitalista global, o estadunidense médio ou o europeu médio vão ter que diminuir seu padrão de consumo...

Mais e melhores empregos no Brasil significam menos e piores empregos na França ou na Itália...

Mais lucros ou empresas brasileiras maiores, como a Petrobras, significam empresas estrangeiras menores...

Menos riqueza, menos dinheiro, é menos poder, exércitos menores...

Para manter as coisas como estão, há duas maneiras principais: Guerra ou golpe...Por isso países centrais mantêm grandes e modernos contingentes militares associados com uma máquina de propaganda (mídia) que adestra seus sócios-minoritários ao redor do planeta, que defendem o "patrão" com a própria vida, e sem pestanejar se tiver que torturar e golpear seus próprios compatriotas...

Os donos do mundo não hesitarão em usar nenhum dos dois métodos, aliás, como utilizaram em todos os momentos da História mundial...

Não se trata de alarmismo ou catastrofismo, mas de conhecer o inimigo (e seus associados), para dar a resposta mais eficiente e proporcional...

Claro que não se trata de deflagrar nenhuma "caça às bruxas", no entanto, todo cuidado é sempre pouco, e não poderemos hesitar em defender a Democracia com todos os meios que ela nos permite para afastarmos agressões dissimuladas em cruzadas morais e cívicas...

2 comentários:

Roberto Moraes disse...

Meu amigo Douglas,

A conversa é longa, mas segue mais ou menos por aí. É o que eu imagino.

Aqui na Europa estes mesmos querem diluir o welfare-state. Estão encontrando enormes dificuldades e resistências. O Estado segura a peteca com obras públicas discutíveis de reformar e preparação das chamadas CGP para o capital.

O setor imobiliário cada vez propicia mais ganhos que a produção de mercadorias, assim como a área de serviços com trabalho precarizado e oriundo dos imigrantes.

A discussão atual e ainda capitalista é que a produtividade não suporta salários perto dos razoáveis.

Os jovens não compreendendo a realidade não admitem trabalhar para os mesmos nessas condições degradantes.

Enfim, o jogo global já é conhecido. Os limite estão se esgarçando.

Enfim... um nova e longa conversa...

Abs.

douglas da mata disse...

Com certeza, quando voltares, falamos...

Um abraço.