segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O pão e o circo revelam muito de quem come e aplaude...

Há uma passagem sobre a Roma Antiga que nos informa que os césares romanos tinham por costume esfriar as pressões e insatisfações populares com a farta distribuição de pão nos festivais dedicados aos deuses nas arenas, que naquelas ocasiões recebiam uma audiência bem mais representativa (pobres, servos, escravos e estrangeiros) das sociedades romanas, e não só seus estratos cidadãos...

A bem da verdade, a forma de celebração de cada povo ao longo da História da Humanidade sempre simbolizou a maneira como ela enxergava a si mesma e seus conflitos...

Foi assim na Grécia Antiga e seus jogos, nos rituais pré-colombianos, até hoje, nos espetáculos promovidos pela indústria do entretenimento, sejam eles de natureza artística ou esportiva...

Alguns reagiram com surpresa a rápida ascensão do time de futebol de Macaé, cuja torcida parabenizamos pelo título da série C, e a elevação a categoria B do certame nacional de futebol...Não foi o meu caso...

Ao mesmo tempo, lamentamos a paradoxal situação dos times de futebol da nossa cidade, Campos dos Goytacazes...e nesse caso, não houve surpresa para ninguém...

Certamente nosso quase solitário leitor vai perguntar como cidades que foram soterradas por bilhões de reais de royaltites nesses últimos anos, e que colocaram recursos públicos (concorde-se ou não com a ideia, mas foi o que aconteceu) na gestão dos times de futebol, experimentam resultados tão díspares?

Pois é...

Dessa situação podemos trazer algumas reflexões que revelam mais e mais de nós mesmos, como sugere o título desse texto...

Primeira reflexão é que o futebol ainda é o espaço que, por excelência, representa nossa atávica inclinação a promiscuidade do público com os negócios privados, no que chamamos de patrimonialismo...

Tanto o bem sucedido Macaé, quanto Americano e Goytacaz não sobrevivem sem dinheiro público...Bem, se formos ampliar nossa reflexão, nenhum time do Brasil sobrevive, considerando que são os cofres públicos que subsidiam dívidas colossais dos times com o fisco...

Some-se a isso o fato de que, durante anos e anos, foram os orçamentos públicos que sustentaram toda a estrutura logística do futebol, com segurança (polícia), serviços (hospitais, e outros), etc colocados à disposição dos eventos privados e cobrados...

Mas se sempre foi assim, por que Macaé e os times indigentes de Campos dos Goytacazes não estão no mesmo patamar...?

Bem, não conheço a administração do clube macaense a ponto de afirmar que esse é o diferencial, mas prefiro acreditar que tais sucessos, como o do Cruzeiro, por exemplo, e de outros poucos times nacionais, estão mais para o campo das exceções que confirmam a regra...

De tempos em tempos, um o outro time alcança certa hegemonia, mas são os campeonatos e a condição geral de todos os clubes que permanecem em situação precária...

Americano e Goytacaz são uma vergonha, mas refletem fielmente a nossa maneira de lidar com a riqueza, que em nossa terra conflita com os pilares de um arcaísmo herdado das "nobrezas rurais e comerciais", que apesar de totalmente decadentes, ainda insistem em mostrar-se como superiores às demais classes, em uma disputa recente com os "novos ricos", surgidos do parasitismo dos royalties, em negociatas inomináveis com os cofres públicos...

Talvez em Macaé, até bem pouco tempo uma vila de pescadores sem tradição alguma, e sem uma classe dirigente que tivesse peso relativo no jogo de poder do interior do Estado do Rio de Janeiro, os resultados do enorme fluxo de capitais do petróleo tenham sido implantados de forma mais vertical, ou em outras palavras, encontrou terreno "virgem" para moldar os novos contornos de uma comunidade feita por estrangeiros e por laços comunitários mais frágeis...

A classe dirigente macaense tem seu poder diretamente derivado do dinheiro do petróleo...Já em Campos dos Goytacazes há outros estratos que se aporveitam dessas receitas, mas têm origem distinta e ora se chocam, ora adulam as dinastias políticas locais, que também se alimentam desses fluxos de capitais...

Essa distinção repercute nos processos políticos-administrativos, e também, penso eu, na manifestações lúdicas dessas comunidades, nesse caso, o futebol...

Em outras palavras: Em Macaé, o seu time foi "inventado" pelo dinheiro dos royalties, já em nossa cidade, esse dinheiro "viciou" suas estruturas cambaleantes...  

Para o bem e para o mal, Macaé, Rio das Ostras, Quissamã e outras foram "inventadas" ´por essa montanha de recursos, enquanto Campos dos Goytacazes recebeu essa dinheirama com 300, 400 anos de contradições, tradições, cacoetes, virtudes e defeitos...

Essa diferença de maturação institucional permite que nessas cidades mais jovens, certas decisões (outra vez, para o bem e para o mal) sejam adotadas de forma indiscutível, onde o dinheiro dos royalties vão para o caixa dos clubes e pronto...

Aqui, além da disputa dos grupos políticos representados nas administrações dos clubes, há certa relutância em fazê-lo de forma tão descarada, o que nesse caso, acaba por ser um sintoma de civilidade...

Isso não quer dizer que não haja sacanagem na administração pública de Macaé, ou na gestão do time de futebol de lá...ou que a menor quantia de "apoio" da prefeitura de Campos dos Goytacazes seja garantia de boa gestão desses recursos pelos clubes e/ou pela nossa dinastia da lapa...Ao contrário...

Porém os resultados momentâneos (é verdade, precisamos de uma série histórica para comprovar essa tese) autorizam a propor um estudo das diferenças com essas considerações, e tendo como ponto comum o dinheiro dos royalties...

De todo modo, seria interessante sugerir a TOTAL proibição de aplicação de recursos públicos nos clubes para apurarmos o que seria dessas agremiações e do futebol regional...

Por enquanto, o pão e o circo dizem muito de nós...

2 comentários:

Anônimo disse...

QUEM PROMOVEU A SAÍDA DO CORONEL RAMIRO?

douglas da mata disse...

Caro comentarista, se quiser gritar (comentários em caixa alta) publique um blog, ou faça onde esta prática é tolerada, aqui não...

Bem, a julgar pela reação das elites locais, o chefe do 8º PMERJ não caiu por causa deles...

Não conheço a dinâmica da PMERJ, mas de certo, o recrudescimento de alguns números da letalidade violenta medidos pelo sistema de metas, o SIM)) na média, em todo Estado do RJ, na apuração do último trimestre, tanto na comparação com o penúltimo período, quando na comparação anual (3º trimestre de 2013), forçaram um chacoalhada antes do tempo (janeiro)...

Lembre que na gestão curta do coronel, foram dois crimes de latrocínio em bairros "nobres" (em frente ao IFF e em frente ao Boulevard Shopping)...


Mas para fazer justiça, nesse modelo (falido) e seletivo de política de segurança (onde o bairro rico é protegido e os bairros pobres são abandonados), os comandantes são descartáveis e vulneráveis aos "ventos"...Uns duram mais outros menos...

A elite está chiando porque o comandante parecia sensível aos apelos pela "proteção" aos bairros ricos e comerciais...só isso...

Mais do mesmo.