domingo, 2 de novembro de 2014

O 457823º turno das eleições...

Uma das formas de se propagar um conceito, uma ideia, é a simplificação...E isso não é sempre ruim, ainda mais se após a disseminação simplificada do conceito, haja um interesse em aprofundar o tema e propor alguma reflexão...

Exemplo claro é a divulgação científica...Há gente séria que se coloca como diluidor de questões mais complicadas, e que estão fora do alcance da maioria, mas que depois da provocação, proporcionam um aprendizado mais denso, à medida que a curiosidade provoca mais e mais debates...Um dos que admiro é o Marcelo Gleiser...

Não é esse o papel da mídia nesse país, ao contrário: Aqui as simplificações servem a manipulação mais rasteira e cretina, com os objetivos de sempre, ou seja, diluir conflitos, e impossibilitar sondagens mais amplas sobre as causas e efeitos dos nossos principais problemas...

Depois da "tese novíssima" da divisão do país (que como mostramos aí embaixo, sempre esteve dividido), temos a expressão 3º turno, como um truque semiótico para disfarçar a luta política que sempre houve, e haverá, a despeito do fim das eleições, ou do intervalo entre elas...

Os veículos de comunicação estão em campanha desde 2002, quando seus prediletos foram apeados do poder pelo voto popular...

Enganam-se os que imaginam que o risco ou os anseios por golpes anti-democráticos estejam mais fortes agora...Mentira, a mídia e a oposição flertaram com essa possibilidade há tempos...

Por outro lado, quem se assusta com o vomitório racista, bairrista, anti-nordestino, ou demofóbico que ganharam voz ampliada com as eleições e o lixo feicebuquistanês, deve ter em mente que esses estereótipos e preconceitos sempre estiveram aí, desde sempre...

O problema é que agora não basta dar um "passa-fora", como se fazia antes, ou mandar a empregada ir para a senzalinha (quartinho de 2 m² e sem janelas nos fundos do apartamento de 400m²)...

Essas classes ditas "subalternas" começaram seu processo (irreversível) de empoderamento, muito pelo consumo, é verdade, e menos pelo aumento de capital político, mas que ainda assim incomoda, ô se incomoda...

Talvez essa rejeição aos da classe C, ou aos irmãos nordestinos, que experimentaram o maior crescimento econômico médio nos últimos dez anos (3,3%, enquanto o Brasil cresceu na média 2,4%), e que mais aumentaram os níveis de empregos formais, e mais avançaram em todos os quesitos sócio-econômicos, seja muito boa, afinal...

Eles aprenderão que não basta atingir certos indicadores de conforto econômico para "ser um deles", e que muito melhor é construir um capital intelectual, cultural e político próprio, varrendo de vez o entulho autoritário desses canalhas...

E que para manter conquistas é preciso lutar um turno por dia...

Há males que vêm para bem...

7 comentários:

Anônimo disse...

Só que é bom combinar isso com a classe C. Muitos que foram favorecidos com as politicas do governo, parece que transformaram-se em idiotas papagaios e repetem chavões preconceituosos, racistas e de extrema direita, não compreendendo que estão fazendo o jogo dos que estão (e sempre estiveram) contra eles. Por incrível que pareça eles, que tiveram suas vidas mudadas pra melhor, servem hoje de massa de manobra da direita.

Anônimo disse...

Aécio vai contratar o advogado do fluminense

douglas da mata disse...

Caro amigo,

Nossa sociedade sempre foi atavicamante conservadora, incluídos aí os mais pobres.

Somos violentos contra mulheres, somos racistas, bairristas, alimentamos toda sorte de preconceitos ao mesmo tempo que praticamos o mais arcaico patrimonialismo em relação ao Estado (para mim tudo, para os outros nada ou o que é meu é meu, o que é seu é nosso)...

A classe C sempre foi conservadora quando era E ou D ou Z, mas agora seus lamentos repercutem, porque na sociedade de consumo, quem consome é ouvido.

Esse disputa será ideológica e diária.

Nos países onde parcelas da sociedade foram incluídas, o fenômeno é parecido, porque todo mundo gosta de imaginar que "venceu" por conta própria, e não como fruto de um ambiente coletivo e propício.

Essa é nossa raiz cultural anglo-saxã, ainda mais deturpada.

O jogo está aberto...e talvez tivéssemos a ilusão (eu tinha) que esse conforto econômico gerasse uma "gratidão" permanente.

Infelizmente, não é assim...

Anônimo disse...

Douglas, sem querer ser irônico ou mesmo desrespeitoso:

Este conservadorismo que na sua opinião é anterior ao conforto, eu me permito discordar. Acho que o conforto é que deflagra a serpente conservadora. Algo parecido como "agora que eu tenho, ninguém tira de mim e para isso tenho que preservar (ou conservar) o status quo. Nem que para isto tenha que impedir que outros tenham a mesma oportunidade que eu tive".

É mais ou menos como aquela piada do comunista falando ao camponês que o Gustavo Alejandro publicou no blog dele há algum tempo:

- Se o seu vizinho é pobre e você tivesse dois tratores, não daria um a ele?
- Daria.
- E se tivesse duas casas? Não daria uma ao seu vizinho?
- Daria.
- E se você tivesse duas vacas, não daria uma ao seu vizinho?
- Não, não daria.
- Ué... Daria o resto e não uma vaca?
- É que eu TENHO duas vacas!

douglas da mata disse...

Amigo, para começar: não resumo as questões filosóficas ou de política (práxis) a essas reduções pessoais.

Mas vamos lá:

O que eu disse, e você não percebeu, é que o conservadorismo já existia, mesmo sem o conforto.

Esse conservadorismo é que possibilita golpes, como por exemplo, em 64.

Engana-se quem imagina que golpes não sejam referendados por uma opinião pública favorável, embora esse ânimo anti-democrático se expresse sempre de forma heterogênea, e com viés de classe (cada uma delas) bem específico.

Só que o pobre, no mundo capitalista de consumo, não fala (ou não é ouvido), porque ele não consome e tem pouca grana, por isso temos a impressão de que o conservadorismo é só uma questão de egoísmo (também é), e que só se manifesta quando ele TEM algo (quem tem bens, tem o que dizer).

Mas é mais que isso, porque, ideologicamente falando, essa cultura (do egoísmo e do ter para ser alguém) é anterior a posse, e é disseminada desde muito cedo, inclusive para manter os pobres reclusos na sua própria pobreza, com medo de atacarem as causas dela e de sua condição.

E aí, quando dou certo conforto, cesso a reflexão sobre a origem da pobreza e da desigualdade (que é pior que a pobreza, per si).

A piada (como quase tudo que alejandro fala) é horrível.

Uma simplificação grotesca do comunismo, que não tem nada a ver (nem nunca teve) com dar aquilo que você tem a outrem.

Aliás, minha interlocução com o gustavo cessou quando minha reflexão sobre a política e o que me cerca avançou dois dedos à frente...

Grato pela participação.

Anônimo disse...

Sobre a simplificação do comunismo é evidente que você está certo. Nem a simplificação nem o reducionismo explicam coisa alguma, embora às vezes nos possa ser útil como instrumento.
Para Harvey, comunista são todos aqueles que trabalham por um futuro diferente do que anuncia o capitalismo. Taí uma boa simplificação que pode suscitar outros debates...

Entendo seu ponto sobre a maior parte da nossa sociedade ser conservadora, antes mesmo de ascender economicamente. Ainda que eu aceite que ela o é desde sempre e só não se manifesta porque pobre não tem vez, me assalta uma pergunta:

Porque é o conservadorismo atávico no ser humano? Seria uma causa Darwinista?

douglas da mata disse...

Não, não creio que haja um determinismo biológico ou evolucionista.

Mas de fato, se considerarmos que cultura (meio/realidade) influenciam nossas ligações neuroquímicas, que por sua vez conduzem outras alterações genéticas nos nossos sucessores e vice-versa, é bem possível que milênios de submissão do homem pelo homem, quer seja nos modelos e sistemas econômicos da Antiguidade, passando pelo feudalismo, e culminando com a exacerbação das estruturas de exploração no capitalismo de nossos dias, tenham contribuído para a formação de um homem-egoísta, que por sua vez tem no conservadorismo seu melhor ambiente de "sobrevivência".

Durante séculos aprendendo a instrumentalizara a violência física e simbólica para submeter muitos em benefício de poucos, desenvolvendo ódios e preconceitos seculares, visões religiosas e anti-científicas dos fatos, ou pseudo-ciência como instrumento de extermínio (caso do Holocausto e as teses raciais), acabaram por nos legar esse caldo grotesco...

Um abraço...