sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Campos dos Goytacazes: A cidade pródiga...

O blog do Roberto Moraes nos traz o número estarrecedor nessa postagem...Campos dos Goytacazes recebeu cerca de 16 bilhões de reais em royalties do petróleo, e se considerarmos os dez últimos anos, como fez o professor Roberto, teremos cerca de 1,6 bi/ano...Não é pouca coisa...

Se levarmos em conta os números regionais, com Macaé, Rio das Ostras, São João da Barra, Quissamã, dentre outras com valores menores, teremos uma considerável soma de recursos...

E para onde quer que se olhe, com mais ou menos intensidade, o que temos nessas cidades é uma situação sócio-econômica das cidades bem aquém do que poderia se imaginar, em todos os sentidos...

As (infra) estruturas locais, com raras exceções, revelam um desgaste considerável, onde a vida na urbi tem se mostrado cada vez mais complicada em muitos aspectos, destacando o da locomoção/mobilidade, serviços essenciais e na outra ponta, nas desigualdades sociais e territoriais provocadas pela especulação imobiliária desenfreada.

Então, o que houve com o dinheiro?

Antes que os mais afoitos se apresentem para dizer que tudo foi consumido pela corrupção, é preciso alertar que essa é um explicação pobre...

É verdade que uma parte desse dinheiro alimentou enriquecimentos ilícitos e esquemas partidários-eleitorais, mas o fato é que esses processos são efeitos, meros sintomas de um sistema muito mais amplo...

Um estudo apurado sobre as execuções orçamentárias vai revelar, certamente, que a maioria dos recursos públicos, arrecadados como indenização pela exploração mineral em nossa bacia petrolífera, foi concentrado nas mãos dos setores privados locais e nacionais, sem que esse fluxo significasse um proporcional aumento da qualidade de vida das populações (principalmente, as mais carentes), nem na construção de um modelo autônomo das economias locais, seja no reforço das vocações, seja na inovação em setores inéditos...

Não há dúvida que as demandas provocadas, justamente, pelo aumento da pressão demográfica esgotam parte dos recursos, pois é o setor público (e o orçamento público) que sustentam a expansão capitalista, embora os cretinos liberais argumentem o contrário...

Cidades como Macaé e Rio das Ostras podem colocar parte da responsabilidade de sua estagnação (não toda, é claro) na conta do inchaço populacional, que exigiu dos cofres municipais um esforço maior...

Rio das Ostras, por exemplo, é a segunda cidade no país em expansão demográfica, no período 2000-2010(dois últimos censos), onde pulou de menos de 40 mil para mais de 120 mil habitantes em 10 anos...

Não foi o caso de Campos dos Goytacazes, que manteve sua curva demográfica dentro dos padrões ditos normais...

Novamente perguntamos, o que houve?

Arrisco dizer que os grupos dirigentes regionais fizeram uma opção política bem definida: Escolheram privatizar esses recursos, abrindo mão da agenda de governança, entregando uma fração (grande) dos mandatos nas mãos dos setores privados, chegando ao cúmulo de contratar empresas para atuarem nas atividades-fim, que são a própria razão de existir das administrações...

É óbvio, ao menos para esse blogueiro, que essa escolha foi privilegiada pela necessidade de financiamento das, cada vez mais dispendiosas, campanhas eleitorais, mas não foi só isso...

Esse movimento é parte da crença que foi difundida que o setor público é ineficiente para gerir seus processos...

A pedra essencial desse pensamento é aprisionar os sistemas representativos e seus recursos orçamentários, imprimido a noção de que os eleitos não têm (ou têm pouca) capacidade de dar o correto destino ao dinheiro público, restringindo o raciocínio a uma questão "moral/individual"...

No entanto, o que temos é um cículo vicioso, onde o setor privado trabalha junto a mídia para difundir noções que depreciam a ação política, tornando-a cada vez mais desrespeitada, e por isso mesmo, cada vez mais dependente da mediação da mídia e da publicidade para chegar ao eleitor, e assim, necessitam de mais e mais recursos, que vêm dos acordos entre fornecedores dos governos, que são ao mesmo tempo os financiadores das campanhas...

Resumindo: O setor privado "compra" os mandatos, e depois faz parecer que o mal se restringe a quem se "vendeu"...

Em nossa região, principalmente em nossa cidade, o que temos é uma lição clássica do capitalismo "liberal":

- Estado mínimo, totalmente terceirizado em sua gestão, com baixa ou nenhuma regulamentação dos fluxos de capitais e financeiros, ampliação das fronteiras imobiliáraias e acumulação especulativa, e altíssima concentração de renda e riqueza nas mãos de poucos "afortunados"...

Ainda que se tenha uma (falsa) aparência de amparo social por parte dos governos...

Essa "brincadeira" nos custou 16 bi em dez anos...

7 comentários:

Anônimo disse...

São os royalties, estúpido.

douglas da mata disse...

Ah, sei, gênio, então as cidades e os países que não gozam dessas indenizações, mas que têm seus sistemas representativos aprisionados do mesmo jeito, com explicar?

Eu lhe diria: é a (escolha) política, estúpido.

É claro que há um componente agravante e que amplia o processo de sequestro dos mandatos e da agenda de governança pelo capital onde há tamanha concentração de riqueza em tão pouco tempo, mas o fato que a existência dos royalties, per si, não explica nada, ela é só mais um sintoma...

O que determinou nosso fracasso foram NOSSAS escolhas...

Outra vez: é a política, estúpido...

Anônimo disse...

É incrivel a sua incapacidade de ser sintético.

douglas da mata disse...

"Ninguém apedreja árvores que não dão bons frutos".

Roberto Moraes disse...

Caro Douglas,

Mesmo para mim que há pelo menos 14 anos me debruço sobre eles espanta.

Mas, apreciei mais a relação bem feita e sintética que fez sobre o modus-operandi.

O excedente gerado pela receita pública está circulando pelas rodas privadas de quem alimenta o sistema e quer se mostrar como "autócne" em sua própria terra.

Qualquer tentativa de alterar este quadro mantendo o essencial é tolice pueril.

Talvez, haja mais quem queira a penas a chave do cofre.

Grande abraço.

Anônimo disse...

Voce e o Roberto parecem náufragos em uma ilha de conveniência. Um andarilho de luxo na europa analisa questões fundiárias de um solo que talvez pise somente uma vez e voce aqui feito avestruz com a cabeça enterrada na planicie, enquanto no planalto lamacenta chafurdam a corrupção, o aparelhamento e o propinoduto.

Anônimo disse...

Mas também toca pedra em árvore com frutos podres!