segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Do todo e suas partes...

Há algum tempo atrás, um porcalista que hoje engrossa o cordão dos cretinos, escreveu um livro, simulacro de ensaio sóciológico-antropológico, chamado Cidade Partida...

Ali, esboçou um conceito louvável que desmacarou o mito da "cidade maravilhosa", que acolhia com sorriso todas as diferenças e misturava morro e asfalto...

Nada mais falso...embora a geografia permitisse certa vizinhança, os limites sociais e as estatísticas letais não deixam dúvidas de quem são "nós" e "eles"... E o Rio seguia lindo, matando seus pretos e pobres, enquanto a garotada branca se divertia, entupindo o nariz do pó que amamos odiar...

Terminou a mais disputada eleição da História, e embora o país contasse com significativo índice de empregados (apenas 4,9% de desempregados), enorme inclusão social, uma Copa do Mundo elogiadíssima, salários em alta e uma enorme gama de investimentos em infra-estrutura em andamento, ingredientes suficientes para dotar qualquer governo de imenso favoritismo, o que assistimos foi a maior campanha difamatória do planeta.

Como sempre, o trabalho sujo ficou por conta de uma mídia corporativa que não encontra paralelo em monopolização, se comparada até os EUA (sua matriz cultural), com 5 famílias detendo o controle (cruzado) da maioria esmagadora das plataformas públicas e privadas de comunicação, e por consequência, os maiores clientes das verbas públicas do setor.

Agora, parte desses imbecis se dedica a tentar sequestrar a vontade popular, dizendo que a Presidenta eleita deve tomar cuidado com a "partição" do país...

Outros cínicos, meio temerosos e covardes que são (e sempre foram), correm para colocar panos quentes, dizendo que sempre fomos um "país unido"...

Mentira...Não foi o PT que partiu o país...nem sua Presidenta...

Sempre fomos um país que escondeu e escamoteou suas enormes divisões:

Os pretos e pobres sempre estiveram do mesmo lado: nas favelas, nas cadeias ou nos necrotérios...ou nos quartinhos de empregada...

Os nordestinos sempre tiveram o mesmo destino e "classificação" no "sul maravilha": pedreiros, porteiros, graçons e domésticas, pagos com salários de fome, e encurralados com toda sorte de "adjetivos carinhosos", do tipo: "paraíba", "cabeça chata", "baianada", etc...

Boa parte dos brasileiros só tem noção da Amazônia e do Norte por causa da lenga-lenga ambientalista, e imagina, como nossos "colonizadores estadunidenses", que aquilo lá seja terra de ninguém, destinada ou a exploração selvagem e devastadora do capitalismo, ou ao conservacionismo imobilizante...

Por sua vez, nossa elite rica e branca, associada aos seus lacaios da classe mé(r)dia, sempre entenderam esse país como um enorme quintal, ou melhor, uma enorme casa grande, ilhada por uma senzala de gente feia e maltrapilha.

Nesse país "unido", essa elite sempre misturou negócios privados com a coisa pública, sempre "comprou" favores do Estado, seja uma "cervejinha" pelo cancelamento de uma multa, sejam bilhões em contratos fraudados em alguma obra pública, mas sempre vomitaram toda sorte de impropérios contra a corrupção endêmica e da política.

É como o cara que contrata um travesti e como atua no polo ativo, nega a relação homossexual...


Agora, quando a parte de baixou começou a conquistar algum espaço, por menor que seja, a parte de cima berra!!!! E acusam os que querem, de fato, tornar esse país mais igual, ou seja, mais unido de verdade, de querer fracioná-lo...

Se os garotos da periferia juntam-se para um "rolezinho" nos playgrounds da elite (os shoppings) é um deus nos acuda...

E querem me falar de país unido? Vão dar o cú ao capeta...

Se o preço para continuarmos a dotar esse país de algum sopro de civilidade for alguma violência institucionalizada, que seja...

O que não dá é para matarmos 50 mil dos mesmos (pretos e pobres), achando que vivemos em um país de "irmãos"...

Não dá para contarmos milhões de mulheres atacadas por seus companheiros recitando os versos da cordialidade brasileira...

Muito menos pagando 30% a menos de salários aos pretos que exercem as mesmas funções dos brancos e falar de "democracia racial"...

Os EUA mataram-se aos montes, cerca de 600.000, ao final de 1865, racharam Norte e Sul, e  se tornaram a maior potência do planeta...E continuam lá...

A França varreu sua elite pela guilhotina em 1789, e legou ao mundo valores universais que em alguns cantos do planeta (como aqui), ainda penamos para implantar...

Chega de hipocrisia...

Não há união, nem paz, quando uma das partes come côco e a outra caviar...

O Brasil só será um todo quando as partes foram mais iguais...

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