terça-feira, 28 de outubro de 2014

Fazendo as contas...

Bom texto do Janio de Freitas, que vem ao encontro ao que escrevemos aqui: Não há união possível entre quem deseja um país injusto e quem quer construir um país com mais justiça social.
Entre os que desejam rebaixar salários para manter metas e juros à banca, para os quais pessoas não passam de números, e os que, do outro lado, não abrem mão das pessoas!

Não há união entre os que usam a corrupção para um moralismo hipócrita, e os que mandam apurar, mesmo que tenham que cortar na própria carne...

Enfim, essa união nunca existiu, se não á força...

Conta de dividir, por Janio de Freitas

da Folha
Janio de Freitas
A soma dos votos em Dilma e Aécio leva a 105,5 milhões; logo, o que está dividido são os votos, não o país
Entre as incontáveis confusões propaladas a respeito da eleição presidencial, já se tornou lugar-comum a afirmação de que o Brasil dividiu-se ao meio. Afirmação que vem de antes da votação, induzida pelas pesquisas, e dada como definitiva e comprovada pela proximidade dos 51,64% de votos em Dilma e 48,36% em Aécio, ou 54,5 milhões para ela e 51 milhões para ele. Mas o tal país dividido em dois não existe. Ao menos no Brasil.
A soma dos votos em Dilma e Aécio leva a 105,5 milhões de eleitores, equivalentes à metade da população, também em número redondo, de 200 milhões. Logo, o que está dividido ao meio, ou quase, são os votos, não o país. No qual os 51 milhões de Aécio correspondem a 1/4 da população. O mesmo se dando com Dilma. E, portanto, nenhum deles dividindo o país em dois. Cada um é apenas metade da metade dos brasileiros. Além dos totais de eleitores que se aproximam, sobra outro tanto na população do Brasil.
Mas a ideia do país dividido ao meio, rachado, metade contra metade, é necessária. Como diz o velho slogan, "a luta continua" --tão consagrado quanto seu companheiro de derrotas "o povo unido jamais será vencido". "Fora Lula", "Fora PT", "Fora Dilma" foram levados à urna por um símbolo físico, o símbolo que foi possível arranjar, nas circunstâncias ingratas. Não sucumbem, porém, no desastre do seu representante ocasional. São uma ideia de força. E, mal a contagem concluíra, já um dublê de blogueiro e colunista político lançava, altissonante e global, o brado da beligerância: "O país está dividido e a culpa é do PT". Beligerância ferida, sim, mas não de morte. Apenas no cotovelo.
Há que considerar ainda, na divisão do país, a quantidade imensa de eleitores que não se manifestaram por um nem por outro candidato. Os ausentes na votação foram 30,13 milhões. Os que anularam o voto, 5,21 milhões. Somados também os que deixaram o voto em branco, totalizam-se 37,27 milhões de eleitores. Ou 27,44% do eleitorado. Excluídos os possíveis ausentes por morte, não é imaginável que esse povaréu, quase um quinto da população, seja desprovido de toda preferência com sentido político. A propaganda de divisão meio a meio os elimina do cômputo, mas existem e são comprovantes, também, do país multifacetado --como sempre.
As referências de Dilma ao diálogo aproximativo com a oposição e, de outra parte, o espírito da propaganda de país dividido são conflitantes. E não por um instante de sensibilidades contrárias de vitoriosos e derrotados. As divergências são de fundo, na percepção das necessidades e na prospecção de futuros do Brasil. A meta dos derrotados na urna continua a mesma. Os meios de buscá-la, também, se todos os recém-usados continuarem possíveis. E se não vierem a contar com outros, não menos conhecidos.
União, nem em Minas, onde foi feito o julgamento de Aécio, derrotado duas vezes por seus ex-governados. União, só a de Marina, do nome Eduardo Campos, da viúva Campos, de Aécio e do PSB para o vexame presunçoso de perder para Dilma por 70% a 30%, o 7 x 1 em versão eleitoral.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O canto dos idiotas, ou todos os idiotas no canto?

A mídia PIG descobriu a pólvora e segue para inventar a roda: Nosso país está dividido...

Uauuuu, que novidade...

Bem, é fato que ele está bem menos que em 1994 ou em 2002, quando recebemos o país quebrado, com inflação de 12% ano, desemprego de 15% e salário de 90 dólares, e juros de 30% (já tinham chegados a 45% com Armínio Fraga) cevando os porcos da banca...

Naquele tempo, o fosso social só não levava o país a convulsão social à custa de muita "liberdade de imprensa" para adular o "príncipe" ffhhcc, e para manter a negrada nas senzalas...Quando não desse, era só mandar a polícia baixar o pau, ou inventar alguma atração nova na TV...

Ainda era o tempo que o JN podia dizer que capim curava câncer, e no outro dia não sobraria nenhum jardim intacto...

Hoje as coisas mudaram um pouco, mas o fato é que não na velocidade necessária e seguimos partidos:

Um branco AINDA ganha em média 30% a mais que um negro na mesma função, e esse negro, por sua vez, tem 4 chances a a mais de ser morto ou preso que esse branco.

60% dos negros são os presos nas masmorras, e outros 70% deles,  sendo 80% de 15 até 24 anos, lotam os necrotérios. 93% mortos por arma de fogo.

Negros são ínfima minoria entre os que detêm 3º Grau, e entre médicos são estatisticamente desprezíveis, embora muito se tenha avançado.

Mais de 60 mil mulheres ainda seguem apanhando, e é verdade, nesse caso pouco importa a classe social, basta ter uma buceta e pronto...

5 famílias detêm 80% do mercado de comunicação e publicitário brasileiro.

Rico paga, proporcionalmente, 1/3 dos impostos do resto da negrada...

A maior parte da riqueza nacional ainda está nas mãos de menos 10% das famílias...

E qual a estranheza?

É que talvez, pela primeira vez, dois projetos de poder tenham antagonizado a ponto de expor as diferenças a um patamar incômodo e irreconciliável...

Aparentemente, o que é cantado como derrota da presidenta pelos "vitoriosos" tucanos e seus cúmplices da mídia, é de fato uma vitória estarrecedora: Rasgamos o véu da hipocrisia dessa sociedade segregadora, que gosta de se imaginar solidária e cortês...

"Somos todos brasileiros"...Nossa, como deve ser brasileira aquela menina que vivia confinada em um quartinho de empregada, ganhando 1/2 salário para limpar as privadas da classe mé(r)dia e ainda servir de iniciação sexual ao filho playboy da patroa...

Este é um povo tão "cortês", que bastou alguma diminuição nas diferenças, para berrarem contra a "partição" do país...

União sim, dizem-nos eles, mas cada um no seu lugar: elite na casa grande e negrada na senzala...ora bolas!

Dilma vence o ódio...

Belo texto do Rodrigo Vianna, lá de seu blog O Escrevinhador:

Dilma derrota o ódio: 2018 é logo ali!

Por Rodrigo Viannaoutubro 26, 2014 20:10
Para a oposição, um lembrete: 2018 é logo ali!
Para a oposição, um lembrete: 2018 é logo ali!
por Rodrigo Vianna
Existem vitórias maiúsculas pela margem obtida sobre o oponente. E existem vitórias gigantescas, obtidas por estreita margem.
A reeleição de Dilma é uma vitória do segundo tipo. Gigantesca, pela onda conservadora que a candidata teve que enfrentar.
Dilma derrotou o ódio, derrotou a maior onda conservadora no Brasil desde 1964.
Muita gente comparou essa campanha de 2014 à eleição de 1989 – que opôs Collor a Lula. Concordo, apenas em parte. O grau de tensão e terrorismo midiático foi semelhante. Mas há uma diferença importante…
Collor era um líder solitário, com apoio da Globo e um discurso messiânico. Aécio representa outra coisa: a direita orgânica, com apoio dos bancos, de toda a velha mídia, da classe média raivosa, do pensamento econômico conservador, dos pastores mais reacionários, dos pitboys de academia que querem pendurar negros nos postes, do discurso antipetista, anitinordestino.
Ganhar, contra uma onda desse quilate, significa uma vitória gigantesca – que precisa, sim, ser comemorada. Com serenidade. Mas também com alegria.
Dilma derrotou Aécio Neves, o típico garotão arrogante da elite brasileira. Derrotou o sorriso de deboche e a (falsa) superioridade que Aécio exibiu nos debates. Derrotou o discurso de ódio que ele ajudou a disseminar – dizendo que pretendia “libertar o Brasil do PT”.
O Brasil se libertou de Aécio e seus aeroportos privados, de Aécio e sua irmã das sombras, de Aécio e sua corja de apoiadores na imprensa mais porca que o Brasil já teve.
Dilma derrotou a revista da marginal e seus colunistas de longas e conhecidas carreiras. Nos momentos de euforia, esses colunistas enxergam-se gigantes. Mas são anões do jornalismo.
Dilma derrotou os blogueiros apopléticos e seus castelos de areia, derrotou os comentaristas gagos, as mirians, os mervais e outros quetais.
A vitória de Dilma é a derrota de ex-cineastas e ex-roqueiros que se afogam agora na baba elástica do ódio.
Mas Dilma também derrotou os neoliberais, os armínios e fhcs. Esses, talvez, os mais honestos adversários – posto que apresentaram seu programa e o debateram de forma aberta.
O Brasil rejeitou, pelo voto, o discurso de combate aos programas sociais, de redução do Estado: foi a quarta derrota seguida do liberalismo tucano – que quebrou o país nos anos 90.
Também derrotados foram a Globo e Ali Kamel. Quarta derrota seguida – apesar dos pequenos golpes e das edições malandras na véspera do voto. O JN perdeu peso. Kamel é o comandante de um império jornalístico em decadência.
O Brasil rejeitou Kamel e suas teses de negação do racismo. O Brasil apostou no combate à desigualdade, que deve seguir. O Brasil apostou num governo que enfrentou a maior crise da história, desde 1929, sem jogar o peso do ajuste nas costas dos trabalhadores.
O Brasil votou pelo planejamento e contra o  privatismo que entrega até água para o mercado – matando São Paulo de sede.
Foi a vitória da razão de Estado contra o fundamentalismo do Mercado.
Foi a vitória do trabalhismo contra o moralismo rastaquera.
Foi a vitória de Vargas contra Lacerda, de Brizola contra Roberto Marinho.
De quebra, Dilma enfrentou e derrotou o oportunismo marinista. A Rede – criada como aposta na “terceira via” e na “nova política – terminou a eleição abraçada ao conservadorismo tucano.
Depois de destruir dois partidos (PSB e a própria Rede), Marina destruiu a própria imagem e o patrimônio politico acumulado.
Dilma derrotou o ódio nas urnas. Agora é preciso derrotar o ódio e o golpismo midiático.
Na última semana de eleição, já estava claro que o aparato midiático conservador apostaria num terceiro turno.
O PSDB e a velha mídia partirão para o ataque agora, porque sabem que em quatro anos terão que encarar outro osso duro de roer: Lula.
O Brasil deve dizer a eles que tenham paciência. 2018 é logo ali.
Os tucanos que se recolham  às fronteiras de 1932. E façam o debate com Lula em 2018.
Dilma certamente sabe que sua vitória gigantesca só foi possível porque a campanha caminhou alguns graus à esquerda – incorporando jovens e coletivos populares que são até críticos ao governo petista, mas sabem  que significa o tucanato.
Com a onda popular no segundo turno, a presidenta deixou de ser a “gerente”, a administradora escolhida por Lula. Dilma virou a líder de um projeto que só avançará se tiver coragem para colher nas ruas o apoio que talvez lhe falte no Congresso.
Alianças ao centro serão necessárias, mas o apoio popular é que vai garantir apoio verdadeiro, se o aparato conservador partir mesmo para o terceiro turno.
O Brasil ficou mais forte. O ódio perdeu. De novo.

Do todo e suas partes...

Há algum tempo atrás, um porcalista que hoje engrossa o cordão dos cretinos, escreveu um livro, simulacro de ensaio sóciológico-antropológico, chamado Cidade Partida...

Ali, esboçou um conceito louvável que desmacarou o mito da "cidade maravilhosa", que acolhia com sorriso todas as diferenças e misturava morro e asfalto...

Nada mais falso...embora a geografia permitisse certa vizinhança, os limites sociais e as estatísticas letais não deixam dúvidas de quem são "nós" e "eles"... E o Rio seguia lindo, matando seus pretos e pobres, enquanto a garotada branca se divertia, entupindo o nariz do pó que amamos odiar...

Terminou a mais disputada eleição da História, e embora o país contasse com significativo índice de empregados (apenas 4,9% de desempregados), enorme inclusão social, uma Copa do Mundo elogiadíssima, salários em alta e uma enorme gama de investimentos em infra-estrutura em andamento, ingredientes suficientes para dotar qualquer governo de imenso favoritismo, o que assistimos foi a maior campanha difamatória do planeta.

Como sempre, o trabalho sujo ficou por conta de uma mídia corporativa que não encontra paralelo em monopolização, se comparada até os EUA (sua matriz cultural), com 5 famílias detendo o controle (cruzado) da maioria esmagadora das plataformas públicas e privadas de comunicação, e por consequência, os maiores clientes das verbas públicas do setor.

Agora, parte desses imbecis se dedica a tentar sequestrar a vontade popular, dizendo que a Presidenta eleita deve tomar cuidado com a "partição" do país...

Outros cínicos, meio temerosos e covardes que são (e sempre foram), correm para colocar panos quentes, dizendo que sempre fomos um "país unido"...

Mentira...Não foi o PT que partiu o país...nem sua Presidenta...

Sempre fomos um país que escondeu e escamoteou suas enormes divisões:

Os pretos e pobres sempre estiveram do mesmo lado: nas favelas, nas cadeias ou nos necrotérios...ou nos quartinhos de empregada...

Os nordestinos sempre tiveram o mesmo destino e "classificação" no "sul maravilha": pedreiros, porteiros, graçons e domésticas, pagos com salários de fome, e encurralados com toda sorte de "adjetivos carinhosos", do tipo: "paraíba", "cabeça chata", "baianada", etc...

Boa parte dos brasileiros só tem noção da Amazônia e do Norte por causa da lenga-lenga ambientalista, e imagina, como nossos "colonizadores estadunidenses", que aquilo lá seja terra de ninguém, destinada ou a exploração selvagem e devastadora do capitalismo, ou ao conservacionismo imobilizante...

Por sua vez, nossa elite rica e branca, associada aos seus lacaios da classe mé(r)dia, sempre entenderam esse país como um enorme quintal, ou melhor, uma enorme casa grande, ilhada por uma senzala de gente feia e maltrapilha.

Nesse país "unido", essa elite sempre misturou negócios privados com a coisa pública, sempre "comprou" favores do Estado, seja uma "cervejinha" pelo cancelamento de uma multa, sejam bilhões em contratos fraudados em alguma obra pública, mas sempre vomitaram toda sorte de impropérios contra a corrupção endêmica e da política.

É como o cara que contrata um travesti e como atua no polo ativo, nega a relação homossexual...


Agora, quando a parte de baixou começou a conquistar algum espaço, por menor que seja, a parte de cima berra!!!! E acusam os que querem, de fato, tornar esse país mais igual, ou seja, mais unido de verdade, de querer fracioná-lo...

Se os garotos da periferia juntam-se para um "rolezinho" nos playgrounds da elite (os shoppings) é um deus nos acuda...

E querem me falar de país unido? Vão dar o cú ao capeta...

Se o preço para continuarmos a dotar esse país de algum sopro de civilidade for alguma violência institucionalizada, que seja...

O que não dá é para matarmos 50 mil dos mesmos (pretos e pobres), achando que vivemos em um país de "irmãos"...

Não dá para contarmos milhões de mulheres atacadas por seus companheiros recitando os versos da cordialidade brasileira...

Muito menos pagando 30% a menos de salários aos pretos que exercem as mesmas funções dos brancos e falar de "democracia racial"...

Os EUA mataram-se aos montes, cerca de 600.000, ao final de 1865, racharam Norte e Sul, e  se tornaram a maior potência do planeta...E continuam lá...

A França varreu sua elite pela guilhotina em 1789, e legou ao mundo valores universais que em alguns cantos do planeta (como aqui), ainda penamos para implantar...

Chega de hipocrisia...

Não há união, nem paz, quando uma das partes come côco e a outra caviar...

O Brasil só será um todo quando as partes foram mais iguais...

Vão todos tomar no cú...

É papel da presidenta não dizer o que sente...

Mas é nosso direito dizer o que pensamos:

Revista "óia", vãi tomar no cú...

William "Hommer Simpson" Bonner, Ali (car)Kamel, Patrícia Poeta, Alexandre "Gracinha", William "Cia-boy" Waack, Sardenberg, Míriam "Urubu" Leitão, Nelson Motta, Nobláblá, e outros cretinos como loboboca e seus cúmplices do planalto a planície, vão todos tomar no cú...

Organização (mafiosa) Globo, Bandeirantes, Rede TV, Record, RBS, e toda a rede do PIG nacional, vão tomar no cú...

Médicos fascistas, coxinhas da Paulista ou da Pelinca, parasitas sociais e colonistas sociais, vão tomar no cú...

Vão todos esses e outras mais, todos tomar no cú...

Não há reconciliação com esta escumalha...agora é, na medida que for possível, drenar economicamente as forças desses calhordas todos...




sábado, 25 de outubro de 2014

Paciência...

Esse papo de já ganhou é sempre perigoso...Tem muita coisa engasgada, e depois so resultado vamos ter duas opções: Engolir, caso seja vitoriosa a campanha do ódio nazitucana, ou se Dilma confirmar aquilo que se anuncia com boa probabilidade...

Creio que essas eleiçõs foram pedagógicas, como já disse aí na caixa de comentários...

Perdemos a ingenuidade, e sabemos que não basta proporcionar conforto econômico sem disputar a política de forma cotidiana, na vida e mente das pessoas...

Aguardemos o resultado...

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Um pouco de luz sobre o obscurantismo...

Eis um bom texto de uma cientista social sobre as políticas de renda mínima, popularizadas sob o nome de Bolsa Família...

Há coisas estranhas que são alimentadas no imaginário popular, como aquilo que comumente se diz em alguns veículos de comunicação, por uma espécie comum de cretinos, e que é replicada por uma classe mé(r)dia raivosa...

Alguém imagina que uma mulher teria mais dois ou três filhos para ter acesso a quantia de menos de 80 reais por filho?

Quem poderia "viver" da "renda" desses filhos? Ninguém, diz-nos o bom senso...O mesmo bom senso que nos diz que aumentar a renda da mães, e levá-las ao atendimento básico e primário de saúde (uma das condicionalidades do programa) diminui a taxa de natalidade em índices dramáticos...

Mas os idiotas não se cansam...Vamos ao texto, publicado no blog do Nassif:

Oito fatos sobre o Programa Bolsa Família, por Barbara Avelar Gontijo

Artigo do Brasil Debate
Por Barbara Avelar Gontijo*
Em períodos de eleições, políticas públicas passam a ser discutidas com maior ênfase e inverdades são propagadas, especialmente em redes sociais e conversas informais. Aqui apresentamos oito fatos sobre o Programa Bolsa Família (PBF), procurando esclarecer mitos e dúvidas recorrentes.
O PBF foi criado em 2004 por meio da lei 10.836, que unificou o Programa Nacional de Acesso a Alimentação, do governo Lula, aos programas Bolsa Escola, Bolsa Alimentação e Auxílio Gás, implementados em meados de 2001, no governo Fernando Henrique Cardoso. Ao fim do seu mandato, os programas de FHC atingiam cerca de 5 milhões de famílias.
1. O PBF reduziu consideravelmente a pobreza no País
O principal objetivo do PBF é a retirada de famílias da situação de miséria (famílias com renda mensal por pessoa de até R$77) e a redução da pobreza (atendendo famílias com renda mensal per capita entre R$77,01 e R$154). Estima-se que, sem esta transferência de renda feita pelo programa, o índice de pobreza no Brasil seria cerca de um terço maior. Segundo relatório da ONU, desde 2011, o Bolsa Família foi responsável por retirar 22,1 milhões de pessoas da pobreza extrema. Ainda segundo este relatório, o PBF foi fundamental na retirada do Brasil do Mapa da Fome da FAO. Além disto, entre 2001 e 2011, o PBF, junto ao Benefício de Prestação Continuada, foi responsável pela redução da desigualdade de renda no País entre 15 e 20%, de acordo com Paiva e colegas.
2. O PBF consome uma parcela mínima do PIB
O PBF foi desenhado para atingir, principalmente, as famílias em situação de miséria e, posteriormente, aquelas em situação de pobreza, sendo um programa focalizado, o que permite que sejam atingidos aqueles mais necessitados, gastando um pequeno montante e gerando grandes resultados. Segundo o último registro do Ministério do Desenvolvimento Social, participam do PBF 13,9 milhões de famílias, para as quais é repassado cerca de 0,5% do produto interno bruno (PIB) por meio do PBF. SegundoNeri e colegas, o PBF, além de gastar pequena porcentagem do PIB, ainda estimula o crescimento deste, pois cada R$1 investido no programa leva a um consumo familiar que estimula o crescimento do PIB em R$1,78.
3. O PBF aumenta o empreendedorismo
Ao contrário do que se vê nas redes sociais, o PBF não estimula a desocupação. Até o fim de 2012, 10% dos inscritos como microempreendedores individuais eram beneficiários do PBF e buscaram formalizar seu negócio. Além disto, 21% das operações de microcrédito até aquele ano foram realizados por aqueles que recebiam o repasse do PBF e tinham interesse em melhorar suas vidas produtivas, segundo Paiva e colegas.
4. O PBF não aumenta a taxa de fecundidade das mulheres beneficiárias
Embora o benefício seja calculado com base no número de filhos em uma família, há um limite na extensão familiar para o recebimento do PBF. São repassados recursos para um máximo de 5 filhos de 0 a 15 anos e 2 filhos de 16 a 17 anos. Além disto, o recurso repassado por filho adicional é reduzido, sendo improvável que se tenha mais filhos para receber mais R$35 mensais. Segundo Alves e Cavenaghi, o que se observa é que as famílias que têm mais filhos tendem a ter uma renda per capita mais baixa e, por isto, podem se credenciar a receber o PBF, o que dá a falsa impressão de que há estímulos a famílias numerosas pelo programa.
5. O PBF contribui para a redução da mortalidade materna e infantil
Entre as condicionalidades do PBF estão visitas periódicas ao posto de saúde, atualização do cartão de vacinação das crianças e acompanhamento pré-natal das gestantes. As visitas ao centro de saúde e o maior acesso a alimentação de qualidade via repasse de verba reduziram em 17% a mortalidade infantil no País, entre 2004 e 2009, segundo Rasella e colegas. Segundo Jannuzzi e colegas, gestantes beneficiárias do PBF fazem, em média, 1,6 consultas pré-natais a mais que as mulheres que não recebem o benefício, o que, de acordo com Magalhães Júnior e colegas, pode reduzir a mortalidade materna.
6. O PBF aumenta a emancipação feminina
Atualmente, 93% daqueles que detêm o cartão para o recebimento do programa são mulheres, fazendo com que se sintam empoderadas e mais cidadãs. O empoderamento no ambiente domiciliar se dá já que estas mulheres passam a não depender dos repasses de renda dos companheiros. Já o aumento da noção de cidadania ocorre pela exigência de manter a documentação própria e de seus dependentes atualizada e em bom estado para a participação no programa e contribuir para a participação social destas mulheres, que saem de casa para retirada do benefício nos caixas e gastam o recurso recebido, de acordo com Soares e Satyro.
7. O PBF evita a evasão escolar
Uma das condicionalidades para que uma família receba o PBF é a manutenção de ao menos 85% da frequência escolar das crianças. Desta maneira, o PBF atua na redução da evasão escolar, permitindo o aumento do nível de escolaridade, segundo Amaral e colegas. O programa, no entanto, não garante a evolução dos alunos no sistema educacional, uma vez que ao manter todos os alunos nas instituições de ensino, aqueles que viriam a evadir por baixo desempenho são mantidos sem avançar nas séries, de acordo com Janvry e colegas.
8. O PBF é concedido também a famílias sem crianças ou adolescentes
O PBF atende também famílias que não possuem crianças ou adolescentes na sua composição, desde que se encontrem em situação de extrema pobreza. Para compreender melhor como o benefício é constituído tem-se o seguinte quadro:
tabela bolsa família
Tais pontos mostram, portanto, a importância do PBF para maior justiça social, eliminação da extrema pobreza, redução da pobreza e melhoria dos indicadores sociais brasileiros. Os estudos científicos aqui elencados são ferramentas para que a sociedade possa discutir o PBF com mais fundamentação e pense conjuntamente em maneiras de aprimorar o programa.
* Barbara Gontijo é formada em Ciências Sociais pela UFMG e mestre em Demografia pelo Cedeplar/UFMG
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sábado, 18 de outubro de 2014

O Império (dos sentidos) contra-ataca...

Não é novidade que Wilson Ferreira é um dos prediletos deste blog...Seus textos apertam a ferida e fazem pular a secreção mais purulenta...

Leiamos com atenção:

A simplicidade descolada, coxinhas 2.0 e o novo neoconservadorismo


Diga adeus a nomes de pratos requintados e ornamentais da culinária francesa, se despeça de bikes de alta performance, abandone esportes de elite. Agora prefira osso buco e rabada, bicicletas caloi 10 dos anos 1970 reformadas e peladas regadas a cervejas artesanais. O coxinha evoluiu para a sua versão “sustentável”: a simplicidade descolada. Eles são os novos tradicionalistas, uma simplicidade estudada e “descolada”, isto é, de grande valor agregado no mercado cultural. Sua psicografia é hoje explorada pelo marketing tanto político como de consumo – ele aspira a simplicidade, pureza e renovação, muito mais por atitudes do que por ações. Por isso, é campo fértil para crescer o neoconservadorismo: a aversão à Política como algo complicado e, por isso, suspeito e corrupto.

Assim como os Pokemons evoluem para se adaptar melhor às batalhas nos game cards, da mesma forma o chamado “coxinha” parece ter evoluído para fazer frente às críticas e rejeições que sempre marcaram a sua cena social: evoluiu para a “simplicidade descolada”, um novo tipo humano aparentemente mais “consciente”, antenado e sintonizado aos novos tempos mais politicamente corretos e sustentáveis.

Essa sua nova roupagem, esse verdadeiro coxinha 2.0 é o protagonista de uma série de programas da grande mídia e seguido por um séquito de fiéis jovens que se distribuem em inúmeras áreas onde exibem seus requintados gostos pela “simplicidade”: gastronomia, bebidas, futebol, bicicletas, moda etc.


Ele pode parecer à primeira vista inofensivo pela sua simplicidade e despojamento nos seu modo de trajar, gostos e opiniões, mas não se engane: como o termo desse novo espécime da fauna urbana designa, sua simplicidade é descolada, quer dizer, meticulosamente estudada nos seus efeitos. Por isso acumulou um grande capital cultural (ajudado pela grande mídia que o celebriza diariamente) o que acabou, paradoxalmente, convertendo-se num signo de distinção. A simplicidade torna-se cara e valorizada no mercado cultural.

Rodrigo Hilbert: a simplicidade
descolada na cozinha
Como veremos abaixo, essa simplicidade descolada se manifesta cultural e esteticamente pelo gosto ao retro e de hábitos culturais do passado, mas não num sentido criativamente irônico e debochado como fazia o pastiche dos pós-modernos. Agora, é no sentido do apego ao tradicional. Eles são os novos tradicionalistas.

Politicamente, manifesta-se no novo tipo de conservadorismo: o da anti-política, por achar a política muito complicada e, por isso, obscura, suspeita e, por isso, corrupta.

O simples descolado aspira pela simplicidade por ver nela pureza e inocência.

A nova gastronomia descolada


Diga adeus a chefes franceses, nomes de pratos rebuscados e a gastronomia ornamental. Osso buco, rabada, dobradinha, pertences de feijoada outrora rejeitados como língua e orelha entram em cena como requintadas iguarias.

Rodrigo Hilbert é o melhor exemplo dessa simplicidade descolada. Modelo, ator e figurinha carimbada no glamour das festas em publicações sobre celebridades, em sua programa na GNT Tempero de Família Hilbert bravamente maneja panelas de ferro, fogões a lenha e churrascos de fogo de chão antes de uma pelada regada a cerveja com os amigos – amizade é uma dessas coisas simples da vida.

Jeans (variando para bermudas cargo), camiseta, sandálias havaianas e barba estudadamente por fazer compõem essa tipologia do simples descolado.

Como Hilbert diz, era fascinado pela “comidinha” (o diminutivo é sempre importante no léxico desse espécime urbano-midiático, como, por exemplo, “bistrozinho”) da sua avó na infância em Santa Catarina, e, por isso, acabou se apegando à simplicidade da cozinha brasileira.

Expressões como armazém ou empório passam a designar com um ar retro mercados com produtos de alto valor agregado como produtos naturais, vegans, casas de queijos, vinhos ou pequenos mercados hortifrúti “orgânicos” para a classe média alta – coisas naturais e simples, porém, bem caras.

Felicidade está na simplicidade


A simplicidade descolada almeja a felicidade
através da pureza e inocência
Rapidamente o marketing capturou essa tendência do simples descolado. “O que faz você pra ser feliz?”, pergunta a rede Pão de Açúcar, com um jingle cantado por Clarice Falcão - ela própria uma musa dos simples descolados, com um jeitinho tímido e com um look de brechó. Rende o seu tributo musical ao estilo que inspira os simples descolados: a música indie-folk norte-americana.

Como os comerciais do Pão de Açúcar mostram, a felicidade está na simplicidade (correr, tomar chuva, rir de qualquer coisa etc.) e a decoração das lojas da rede dizem simbolicamente isso com cenários das lojas simulando rusticidade e os entregadores  com boina francesa tradicional pedalando bicicletas com baú dianteiro, emulando os entregadores do comércio de início do século XX.

Mas, é com o comercial do Itaú que a simplicidade descolada adquire tons mais épicos: “#issomundaomundo”, vemos em hashtag na comunicação do banco. O mundo mudará a partir de ações simples e básicas como andar de bike, contar estórias para crianças ou ouvir música. Aliás, a verdadeira música que agrada o simples descolado é a ideia de que cada uma faz a sua parte nas coisas simples do dia-a-dia.

E por que isso soa como música? Por que é simples e básico, sem a obrigação  do simples descolado ter de se comprometer em ações coletivas de transformação como militância política. No máximo um like no Facebook ou a confirmação em um evento na rede social do qual se esquecerá no próximo post. Ele passou a ser um “agente de mudança” porque “tomou uma atitude”.

“Eu fiz a minha parte”

Mudar o mundo é
uma coisa simples?

“Eu fiz a minha parte” é o mantra da simplicidade descolada, repetido para qualquer tema que exija posicionamento como meio ambiente, política, trânsito etc. Por um lado foge da pecha de alienado por supostamente ter consciência da pauta dos grandes problemas sociais e, ao mesmo tempo, se esconde nas supostas pequenas ações que mudam o mundo, como se o Todo fosse a simples soma das partes – bom... mais aí discutir isso é muito complicado para um simples descolado.

Podemos especular que a simplicidade descolada é uma reação das classes médias à ascensão da chamada classe C ao consumo de itens  antes restritos como o automóvel, restaurantes, shoppings e aeroportos. Se agora os novos egressos na sociedade de consumo almejam ostentar marcas e grifes, as classes médias reagem ao tornar desejáveis a simplicidade, o básico e o consumo “consciente”.

Essa simplicidade meticulosamente requintada e estudada já conta com guardiões de controle de qualidade  da "tradição" da simplicidade como, por exemplo, em reality shows gastronômicos na TV como MasterChef da Band ou Cozinheiros em Ação do GNT. Cozinheiros amadores são desafiados a fazer pratos populares como galinhada goiana, moqueca de pirarucu ou risoto caipira e julgados por chefs famosos que passam a ditar o padrão de qualidade da “simplicidade”.

Numa grande manobra etimológica, o popular torna-se “tradicional”, como uma nova commoditie de grande valor agregado no mercado cultural.

A psicologia da simplicidade descolada


Simplicidade descolada: campo fértil
para a anti-política
O ponto de partida do perfil psicográfico do simples descolado é o desejo por pureza, bondade e simplicidade infantil, ingênua e dependente. Aspira por renovação, positividade, se reinventar e entrar na terra prometida. Ele possui um sentido místico de unidade (obviamente explorado pela comunicação do Itaú com a filosofia do “faça sua parte” para mudar o mundo) onde a inocência vem de valores de integridade e não da experiência com o mundo externo. Ele quer ter apenas uma “atitude”, apenas “ser” e não fazer.

Por isso torna-se o campo fértil onde germina a semente das soluções aparentemente simples: o discurso da corrupção, a hostilidade à política, a panaceia da sustentabilidade como ideia que renovaria o mundo, o apego às novas tecnologias onde tudo possa ser resolvido à distância com apenas um clique.

O problema é que o simples descolado, embora pareça ser antenado e crítico, desconhece que por trás dessas soluções simples subjaz um mundo público da complexidade, das lutas, correlações de forças e interesses bem concretos de classes e corporações. Assim como por trás das brilhantes interfaces descoladas dos gadgets tecnológicos existe uma batalha cibernética entre códigos fontes e algoritmos entre grupos que lutam pelo controle e poder.

Concluindo, esse novo tipo urbano, hoje tão paparicado pelo marketing político e de consumo, é mais uma mutação do conservadorismo que, afinal, sustenta todos os sistemas. Nos anos 1970 tivemos o tipo alienado: aquele que simplesmente ignorava a política em pleno momento da ditadura militar e das perseguições e torturas. Preferia consumir a disco music ou qualquer novidade da cultura pop importada dos EUA.

 Nos anos 1980, tivemos os Yuppies: jovens profissionais urbanos ambiciosos, materialistas e consumistas. Tinham uma posição politica até clara – o ultra-neo-liberalismo representado por Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Rambo, personagem cinematográfico do Silvester Stallone.

Nos anos 1990 surgem os Mauricinhos com suas camisetas Lacoste. Apoiavam FHC e as políticas de privatizações para garantir o sonho da telefonia móvel e da Internet discada...

Chegando aos 2000, vimos o surgimento dos Roberts, loucos por celebridades e o desejo de ver e ser visto, produto psicográfico da era dos reality shows.


E agora vemos a ascensão dos coxinhas e a sua rápida evolução “sustentável”: a simplicidade descolada.