domingo, 14 de setembro de 2014

Vespertinas tolices dominicais...

As viúvas...

Referências:

- Triângulo.
- Posse compartilhada.
- Coisas incomuns.
- Inventários silenciosos.

Já havia alguns anos, tantos quantos não eram mais capazes de recordar quando começaram aquele velho hábito...
Alguém disse, dias desses, em um roteiro de filme, daqueles que passam na Sessão Coruja, que: "deus nos faz esquecidos, porque não suportaríamos o peso de todas as lembranças"...

Mas o certo é que toda a tarde de domingo, ele as duas se reuniam em um café qualquer, e sentavam-se juntos, e ali permaneciam quietos...inventariando passagens, aniversários, velórios, dívidas, projetos, gestos, fluídos corpóreos, beijos, lágrimas, gozos...

Como sempre foi a relação triangular, cada vez ele chegava na companhia de uma delas, e poucas vezes ele chegava só, elas vinham cada uma de um canto...Pediam sempre o mesmo pedido, e ali contemplavam o martelar dos minutos, impassíveis e silenciosos, inventariando cada memória que compartilharam por anos e anos de triângulo amoroso...

Elas nunca se falaram...Ele nunca ouviu a voz delas ao mesmo tempo...

Um triângulo incomum, que por muito tempo aconteceu sob estranho consenso...Ela, a mais velha, e a primeira a conhecê-lo, fazia as vezes de titular, e fingiu um bom tempo nada saber sobre a existência da outra, que por sua vez, resignava-se (nem sempre) com o papel de ser "a outra"...

Estranha mistura de ciúmes e devassidão alimentavam um "quê" de erotismo, uma autoflagelação dos laços culturais conhecidos de fidelidade...

Ele não sabia se elas mantinham outros casos..,elas nunca disseram, apesar de que pudesse ser uma "vingança" saborosa...Pensando bem, elas imaginavam que a mera especulação já era vingança suficiente, que por sua vez, alimentava nele também uma ameaçadora excitação...

Eram pessoas comuns, vivendo de forma incomum...Não...talvez vivessem às claras o que todos vivem de forma mais hipócrita, aí residia a especialidade daquele encontro...

Os amigos em comum de cada casal, de quando em vez, encontravam os três na tarde de domingo, e se divertiam ao conversar com uma e com outra versão do casal, sem que o assunto fosse compartilhado por todos deles...

Havia amigos, casais e/ou sozinhos que também imaginavam, também eriçados pelo tesão, a possibilidade de penetrar, de algum forma naquele mundinho esquisito...Não conseguiam, mas também obtinham resultados da simples tentativa, e reforçavam seus laços com coisas que tinham esquecido em suas vidinhas medíocres...


Houve quem dissesse que alguns amigos conseguiram mais, e foram convidados a participar com terceiro vértice de relações que ele mantinha com alguma delas, mas ninguém sabia afirmar ao certo...

Ninguém soube quem delas era a mais devassa, além dele, óbvio...


Naquela tarde, porém, tudo mudou...Para seu espanto, elas chegaram mais cedo que o habitual, e estavam a conversar, animadamente...Sua mente conjecturou um certo frisson, como se dali todos fossem seguir a mesma cama, ou pior, como se elas fossem para a mesma cama...sem ele...

Seu café já estava na mesa...

Elas conversavam como se ele não existisse...Não entendeu bem, no entanto, decidiu participar daquele novo jogo...

Elas levantaram e por uma única vez dirigiram a palavra a ele: "Vamos ao banheiro"...e beijaram-se demoradamente...

Ele sorveu o café que ainda estava quente...

Foi a última coisa que bebeu, quente, lentamente...uma morte digna, para uma vida incomum, pensou ele...

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