terça-feira, 5 de agosto de 2014

Republicações. Série: pequenos contos de lama.

Pequeno conto de lama.

O alimento.

Tal e qual os contos de sobreviventes e náufragos, ele se viu sozinho em uma ilha, depois que o helicóptero que o carregava, junto com os demais trabalhadores da plataforma P-312, caiu no mar.
O tempo passava de duas formas. Rápido para acabar com as provisões de água e comida que trouxe consigo no kit-salva vidas, e devagar na angústia da espera pelo resgate. Era, assim, um tempo sempre relativo, em um lugar sem referência alguma.
Nesse ambiente, suas certezas sobre vida e morte, religião e deus começaram a se misturar como um delírio estranho.
Eis que no 18º dia, 6 dias sem comida, avistou naquela faixa de areia limitada por pedras e quase nenhuma vegetação, um tipo de galinha pequena, branca, que depois, de perto, viu se tratar de um pombo.
A pequena ave lhe falava, e lhe dizia que era o espírito santo, pronto a lhe proporcionar o milagre da revelação, com as portas de uma vida eterna, desde que aceitasse a morte como o fim daquele sofrimento.

Não teve dúvidas.

Comeu a ave, aos poucos, e agüentou os dias necessários para ser salvo.

Nunca mais teve dúvidas:
Para vivermos sãos e salvos, é preciso matar e engolir a fé em deus, que na verdade se resume a solidão e medo da morte.

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