terça-feira, 5 de agosto de 2014

Republicações. Série: pequenos contos de lama.

Estes contos estavam perdidos por aí, em algum canto mofado deste blog moribundo...

Não se enganem, recordar é morrer...aos poucos...


Contos de lama!

Anatomia do amor antropofágico.
 Silenciosa, ela o esquarteja. Ele não reclama, consciente e voluntário. Devora cada pedaço com devoção, lambe cada pedaço, sorve a carne e a suga até os ossos, enquanto escorre pelos cantos da sua boca o sangue e o gozo. No fígado não há amor, só ódio. Ela joga fora.Depois, metódica, arranca-lhe os olhos, e faz duas contas, que pendura em brincos, exibidos como troféus de uma refeição bem feita. O coração acelera, e ela o arranca de uma só vez. Tão rápido que ainda há batimentos reflexos fora do corpo. Ela aproveita, e coloca aquele coração ainda pulsante dentro de si, como um parto invertido.Depois, extinto o movimento, empalha e o coloca em algum canto de sua memória sombria. O cérebro ela deixa intacto, pois não quer comer suas últimas lembranças.O couro ela esfola, seca, trata, faz uma capa e voa, nas noites sem lua, à caça de outros alimentos:sentimentos.


Contos de lama!


A casa.

 
As janelas e as portas estavam abertas. Mas, estranhamente, não entrava nenhum vento, nenhum som ou nenhum outro sinal de vida naquela casa. Por isso mesmo, tudo indicava que ele não ficaria muito tempo. Mas, ao contrário do que se podia esperar, ele ficava, e contemplava uma paisagem que nunca mudava. Paciente, esperava. Houve um dia em que ela chegou. Nada disse. Sentou ao seu lado, no chão. Nem sequer se olharam, mas sabiam mais um do outro do que de si mesmos. Nunca tinham se encontrado, mas com certeza, se conheciam. Procuravam a mesma coisa. Ela entrou, ele lá já estava. Não importa. O fato é que ficaram juntos. E um dia, saíram juntos. E voltaram juntos. Mas deixaram as portas e as janelas abertas. Sempre.

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