sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Lindbergh Farias: devorado pelo eleitor antes de ser decifrado...

Afinal de contas, depois de tanto esforço, de tanta luta pessoal, por que a candidatura petista do senador e ex-prefeito de Nova Iguaçu não decola?

Antes de mais nada, é preciso apresentar (para quem não conhece) as credenciais deste palpiteiro: 

Petista há quase 30 anos (desde 1986, precisamente), colaborador de algumas campanhas eleitorais e um devotado militante pró-Lula e Dilma...

Então, quando me faço estas perguntas, é mais ou menos como se estivesse fazendo uma expiação pública...de culpas ou ressentimentos, vá lá, mas não menos válida como análise (imagino)...

Vamos ao estudo do caso...

Nos fatores extra-Lindbergh, eu elencaria o formato das eleições e do arranjo institucional partidário, que subordinam as eleições dos governos estaduais à campanha presidencial, onde aliados no plano geral acabam colidindo na faixa regional...

A estes quesitos temos que somar a questão da formação das bancadas federais, outro fator incidente importante, que acabou por tornar a eleição para as administrações estaduais algo quase-secundário, ainda mais se considerarmos que um ótimo governador pouco ou nada repercute em nível nacional, mas o contrário traz sérias complicações aos projetos nacionais de um partido, principalmente se for uma unidade da Federação com peso demográfico e econômico, como Rio, SP, MG e depois o RS, nesta toada...

Governador só lida com pepino: polícia e professor (da rede secundária, justamente onde está a maior evasão e problemas), guerra fiscal (ICMS) e rolagem das dívidas estaduais, atiçadas pelo evento da desoneração das exportações imposta pela Lei Kandir, que ajudou a jogar uma pá de cal sobre os orçamentos estaduais...

A prova disto é que desde 1989, apenas Collor foi eleito a partir de uma plataforma estadual...Todos os demais jamais sentaram na cadeira de governador...

Deste modo, não é errado supor que há candidaturas (quase) naturais, aquelas que são inquestionáveis pela força local dos partidos (que não é o caso do RJ), e pela força pessoal dos candidatos e partidos (como Tarso no RS), outras que se impõem pela adversidade e acabam por superar a tudo e a todos, e outras que também nascem pela ruptura, mas não conseguem se livrar das suas cicatrizes, fissuras e fraturas...

A candidatura de Lindbergh é o caso típico de pedra no sapato (do Planalto)...Claro que há o interesse do PT nacional em ter um candidato no estado que mais chama a atenção dentro e fora do país, mas a sua candidatura não foi um parto natural, nem muito menos uma planejada cesariana, mas seguindo a metáfora obstetrícia, diríamos que foi um parto à fórceps...

Como disputar uma eleição contra um aliado com o qual andava junto até ontem? E pior, que se mantém aliado no plano nacional?

Nada demais, é do jogo democrático, dirão os militantes pró-Lindbergh...

Estes também diriam que tanto faz, afinal, o PMDB nos paga com a mesma moeda em outros estados, lançando candidato, mas permanece a pergunta: No plano nacional, quem tem mais a perder?

O eleitorado intui isto (estes dilemas), e não desconhece ou não rejeita as qualidades do candidato Lindbergh, como a razoável experiência na administração municipal (Nova Iguaçu), sua atuação como senador na defesa do estado e dos royalties, e sua estampa de galã da novela das oito...bem como do seu direito inalienável de dizer a que veio...

Porém, tudo que faz diferença é a forma de encaminhar os projetos e os discursos que os emolduram...

O fato é que a atuação do senador sempre estará marcada por alguns eventos:

- Quando em 2010 disse que só Lula conseguiria demovê-lo de se candidatar, Lindbergh colocou-se em estranha posição...Se de um lado demonstrou publicamente subordinação, de outro, sinalizou que, na verdade, estava constrangendo o líder maior a fazer aquilo que ele mesmo já deveria ter feito por conta própria, em uma estranha vitimização de si mesmo...

- Esta tática (na verdade, a que era possível, dada sua trajetória na época), acabou por colocar sobre ele este manto nefasto: O eleitor não quer maria-vai-com-as-outras, mas sim pessoas leais ao projeto que aderem, então, o eleitor não quer(ia) que Lindbergh fizesse o que Lula manda (ou mandou), mas o que ele queria e que deveria ser feito sem que ele pedisse...

- Vejam o caso Crivella: O mais governista de todos os senadores, amigo pessoal de Lula, e que todos identificam como tal, mas que nunca precisou dizê-lo ou cobrar dele alguma posição...ao menos publicamente...

- Por este motivo, Lindbergh não consegue ter uma campanha sua, nem na possibilidade de atacar os adversários para dizer ao eleitor que não rejeita o governo cabral, mas que o PT tem o direito de fazer o SEU (dele) governo, como mandam os princípios democráticos...e que este governo vai ser muito melhor...

- Erro parecido cometeram eduardo campos (descrito com maestria por Janio de Freitas em artigo recente) e marina silva, ou seja, quando um aliado se torna adversário, é preciso dizer que o faz por si mesmo e por acreditar que pode ir mais longe, e não por causa do ex-aliado que o acolheu até recentemente...O eleitor enxerga o oportunismo rápido...

Já no campo pessoal, há leviandades e outras classificações que parecem verdadeiras, haja vista certo consenso sobre elas...

Todas as pessoas que ouvi, algumas mais próximas (se é que alguém com a personalidade de Lindbergh tem alguém próximo), dizem que o candidato sofre por não conseguir cumprir acordos, ou apenas os cumpre por estar com "a faca na goela"...

E não por causa de desonestidade, mas sim por imaginar que toda a realidade deva sucumbir aos seus caprichos...Uma espécie de napoleão da lapa (garotinho) mais polido...

Eu sinceramente desejo estar errado, e voto em Lindbergh por obediência partidária, mas pressinto que outra carreira promissora, de um quadro político de peso, vai escoando pelo ralo da História, que não perdoa quem deseja comer o bolo antes das festas...

É sempre tempo de aprender...tomara que lindinho descubra que não é mais um cara pintada, e que "beicinho" não funciona em política...





6 comentários:

Anônimo disse...

Cara, vai me dizer que Lula não tem seus caprichos?
Vai me dizer que Dilminha não tem seus caprichos?
vai me dizer que toda a nossa ala ( minha também, claro) não temos nossos caprichos?
Da Matta, o problema não é ter caprichos, o problema é que, e isso você sabe, o povo já sabe que esquerda não quer perder de jeito nenhum. E é capaz de tudo.
Tudo mesmo.
Se o povo tivesse aceitando o Lind, PT (de LUla e Dilma e companhia ilimitada) estaria fazendo lindas propagandas para ele e pedindo ao Povo para votar e tome lá.
Mas o povo está de olho... nos caprichosos.
Sim, pois capricho não dá cadeia. Mas comprar deputados, dá.

Eu que vejo muitos falarem é que NEM PETISTA tá querendo votar em PT.
Conheço gente que ganha para trabalhar para PT mas não vota em nenhum deles. Diz que eles são capazes de tudo. E tem muita gente com medo de Brasil virar Venezuela.

douglas da mata disse...

Um pateta da lapa me falando de caprichos...

Reduzir análise política a questão de caprichos é bem do povo da lapa...Eles são chegados a uma redução...

E tome reducionismo...

Vamos falar na língua deles:

Filho, é claro que todos temos escolhas e caprichos, mas a questão de se fazer política é não tomá-los como a única referência para mediarmos a realidade...

Esta é a diferença entre quem chega a presidência, por exemplo, ou quem se torna um estadista (Lula), e quem fica reduzido em sua paróquia regional, seja ela municipal ou um pouco além, na estadual.

O que você fala sobre escolhas populares, está com certa razão, mas aí você só confirma o que eu disse: A candidatura do lindinho está fora do lugar, e ficou parecendo apenas um capricho dele...

O resto do seu comentário nem merece atenção: é um vomitório de preconceitos e lugares comuns, destes que a gente tá cansado de ver e ouvir no PIG...

Boa sorte, patetas da lapa...vocês vão precisar, pois:

O napô vai ficar sem mandato, e em 2016, não terá nenhum candidato da família para pegar o bastão da prefeitura...

O medo do "sucessor" se virar contra o criador, sabemos, é grande...

Tudo indica que é o começo do fim do clã...



Anônimo disse...

Douglas, navegando pelas redes sociais nos últimos dias, o que tenho visto é um festival de preconceito e falta de informação. Tenho tentado rebater alguns absurdos, mas em alguns casos reconheço que até pra mim mesmo me falta informação. O governo patinou nessa questão (informação) e agora o que vemos é a classe média quase toda contra vários programas do governo.
Já que você disse na postagem que é um militante do PT, gostaria de te perguntar o que você acha sobre as críticas que a classe médica tem feito contra o Mais Médicos, principalmente quando eles dizem que o país não precisava de mais médicos - e ainda mais cubanos - mas sim de mais leitos e equipamentos nos hospitais. E uma outra coisa, desculpe o abuso... O senador Álvaro Dias tem espalhado pela internet uma crítica ao programa bolsa família. O governo tem dito que tirou 20 milhões de pessoas da miséria, mas porque o números de inscritos para receber o benefício só aumenta? Se o próprio PT diz que o programa é de apoio temporário, por que cada dia mais gente recebe? Abraço e parabéns pelo seu blog, eu leio quase todos os dias.

Anônimo disse...

Da Mata,

Sobre a parte final do seu comentário rebatendo o caprichoso aí de cima:

Sempre leio as suas análises da política local e acho que este vaticínio sobre o fim político do clã napoleônico é até muito bom para ser verdade. Queria muito acreditar nisso.

Se tivermos a sorte ver o seu líder derrotado politicamente, e o declínio do clã, fico a imaginar quem ou que grupo herdará o poder na planície. O Napô é ruim e caro para nossa gente, mas a oposição não sinaliza nada melhor, infelizmente. Intuo que este é mais um motivo para a sustentação do grupo da lapa: na falta de algo melhor, ou com as opções de cópias mal engendradas do Napoleão, ficamos com o original, ruim assim mesmo.

abs

douglas da mata disse...

Caro comentarista de 24/08...

Primeiro é bom separar as instâncias de comunicação, para que não cobremos as coisas erradas das esferas erradas.

Governo tem um poder de comunicação limitada em ambiente republicano, senão vira fascismo.

Quem defende governo é partido e base social de apoio.

A melhor forma do governo "se comunicar" é fazendo, e creia:

As críticas ao BF ou aos Mais Médicos trouxeram mais prejuízos aos que as fazem que ao governo.

É claro que para os setores médios, habitantes do feicebuquistão, estes programas são impopulares, afinal, pela primeira vez um governo está dizendo:

"Opa, é preciso dividir o bolo para crescer, e não crescer para dividir".

Mas vamos as informações em si:

O Brasil tem uma média de médicos por cada 10000 habitantes (não me lembro bem se é 1000 ou 10000) de 1,9 médico/hab, quando a faixa normal (de acordo com o OMS) seria ou 3 a 5 (dependendo da extensão e características de cada país).

Cuba tem 7, por exemplo.

A região Norte do Brasil tem 0.8 para cada 10000 hab, que se compara com alguns países pobres da África.

Enquanto isto temos 3500 postos de saúde sem médicos, sem funcionar.

Claro que há necessidade de leitos e de estrutura, mas o que os fascistas de jaleco não dizem é: Falta dinheiro, porque boa parte dos recursos públicos vai para a setor privado e planos de saúde, todos concentrados no Sudeste e Sul, justamente onde há médicos.

As deduções do IRPF que o governo dedica às classes mais ricas aumentam o estrangulamento da saúde pública (do pobre).

Outro fato é que depois de 88, boa parte das atribuições da gestão da saúde são dos Estados e Municípios, e toda esta celeuma em centralizar as críticas ao governo federal tem motivo definido, a disputa eleitoral.

O que os médicos não dizem (e não vão dizer) que a OMS já constatou que 60% dos tratamentos médicos se consumam em apenas uma consulta e um exame clínico...

É isto MESMO: um simples tocar e ouvir...Nada de ressonâncias, densitometrias, mapeamentos genéticos, etc.

Claro que a pesquisa médica é importante, mas o fato é que colocar a medicina como refém de procedimentos e especializações apenas serve a um tipo de indústria da medicina e seus. mercenários médicos

Ok, mas quem tem que dizer tudo isto?
É papel do PARTIDO e dos MOVIMENTOS SOCIAIS defenderem as políticas públicas do governo, por isto eu falei das instâncias adequadas da luta política e da comunicação.

douglas da mata disse...

Continuação da resposta:


Vamos ao outro tema: o número de pessoas cadastradas no BF não aumenta, e todo ano 5 milhões de pessoas saem da faixa de incidência.

De todo modo, o que precisa ser dito de uma vez todas é que BF não é esmola ou favor eleitoral, mas uma pequeníssima devolução de impostos para quem para (proporcionalmente)muito mais que os ricos e tem serviços piores, deduções, nem outros favores fiscais.

O pobre paga 40 a 50% do que ganha em impostos (indiretos, na comida, na energia, nos serviços, transportes, etc).

O cidadão médio paga 15 a 18%, enquanto a classe A paga cerca de 10%.

E quem tem melhor segurança, bairros melhores, ou escolas melhores?

O BF é apenas uma correção (pequena) desta distorção.

Outro confusão: quando o governo diz que o benefício é temporário, ele se refere a dinâmica da sociedade, ou seja: se as pessoas melhorarem sua condição sócio-econômica, ótimo, mas e se o sistema capitalista não conseguir gerar (e distribuir) a riqueza (que promete), o que deve fazer o governo, lavar as mãos? Como fez FFHHCC?

Você já imaginou se o governo dissesse: "Amanhã, as faixas de dedução do IRPF retido na fonte vão mudar e aumentar e vão diminuir as restituições" ou melhor "Não há mais restituições de impostos".

Ué, quem determinou que classe média pode receber imposto de volta e pobre não?

Então, são escolhas políticas, caro amigo...e temos que compreender que estas opções (as nossas) não serão compreendidas (ou serão e serão combatidas), porque o que está em jogo é:

A quem serve o Estado.

Não espere que vamos conseguir conciliar estes interesses. Aqui é preciso superar o conflito pelo dissenso mesmo.

O problema da nacionalidade dos médicos (cubanos) é só um: preconceito tolo, que nem deve ser debatido.

Basta dizer que a saúde púbica cubana é a melhor das Américas e uma das melhores do mundo.

O resto a gente vai discutindo...

Grato pela participação.