quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Jornalistas perdem a cabeça, mas isto é só o começo...

A comoção causada pela degola do jornalista estadunidense em frente a uma câmera de vídeo, com imagens divulgadas pelo mundo afora merece uma reflexão mais séria que propõe o título...

Concessões feitas ao humor negro, e ao meu desprezo por certo tipo de jornalista (de coleira), é bom prestar atenção ao que diz Robert Fisk, jornalista inglês do The Independent, e considerado um dos maiores entendedores do Oriente Médio, com olhar crítico afiado e texto fluído...

Na edição de hoje, que você pode acessar aqui, Fisk sentencia, mais ou menos assim: Sabemos muito sobre a violência dos extremistas, mas sabemos muito pouco sobre quem são...

Ato contínuo, em raciocínio ágil, Fisk nos propõe uma conclusão quase óbvia: Saberemos ainda menos, porque o ato de selvageria praticado por um militante jihadista, que as investigações dizem se tratar de um cidadão britânico, dado o sotaque, e o testemunho de outro refém francês libertado (leia aqui), foi calculado para avisar e dissuadir: mataremos as más notícias matando os mensageiros...

Em tempos de celulares e imagens on line, de acordo com Fisk, nunca uma porção tão grande do Oriente Médio esteve fora do alcance e do controle das pautas dos editores ocidentais...Por este motivo, como ele menciona, sabemos (ou nos dizem o que saber) muito mais dos atos praticados que de seus praticantes, e logo, nossas chances de entender e combater a violência são quase inexistentes...

Porém, neste ponto há uma inflexão que Fisk deixou pendente: O pânico causado pela exposição às imagens de crueldade, sem o conhecimento de quem as pratica (a natureza precípua e objetivo final dos atos de terrorismo) serve não só a causa extremista islâmica, mas também aos radicais e falcões ocidentais, que legitimam seus atos como justa defesa, elevando exponencialmente a escalada de violência...

De quebra, o texto coloca o impasse vivido pelos governos da "aliança contra o terror", do tipo: aumentamos a carga de bombardeios ou nos ajoelhamos (como fez Jimmy Carter)?

Fisk imagina que em uma relação de causa-e-efeito sombria, jihadistas de um lado, e "aliados" (aí incluído a trupe sanguinária sionista-judia) de outro, continuarão a justificarem a si mesmos tendo o outro como referência, como já citamos aí em cima.

Outra observação cética de Fisk é pelo fato de que a brutalidade dos estadistas-islâmicos, ato protagonizado por uma minoria extremista, não suscitou nenhuma reação das parcelas mais moderadas das sociedades daqueles países sob o jugo e ocupação estadunidense-europeia, ou seja, de um lado, boa parte daquele território está refém, ou do medo, ou da sádica cumplicidade e ódio contra os invasores, o que, qualquer que seja o motivo, banaliza o mal, e desumaniza estas comunidades...

Não é algo parecido com a indiferença/medo ou quase-gozo da classe média e das elites quando morrem os pretos e pobres periféricos (de sempre) no Brasil?

A diferença crucial é que as vítimas da banalização do mal no Brasil são tragadas, na maioria das vezes, de forma "semi-voluntária" pela espiral de violência, mas jornalistas não, infelizmente eles corroboram e disseminam o discurso de ódio que lhes aniquilará em breve...

Para enxergar tal condição, amplio esta análise ao próprio papel que a mídia e os jornalistas reivindicaram para si desde há algum tempo...

Não é difícil enxergar na matriz estadunidense (nosso modelo para jornalismo) um processo de industrialização/pasteurização da produção da informação (atinente às novas demandas tecnológicas, e principalmente políticas em curso), em detrimento da capacidade analítica, o que revestiu o jornalismo e as empresas de mídia de outras características: a partidarização/militarização/escandalização dos fatos, que assumiram cada figurino determinado em cada demanda específica, mas todas subordinadas a lógica do interesse do capital sobre a sociedade...ou o que se convencionou chamar de neoliberalismo...

- Se temos a cobertura de eleições onde há Democratas (ou petistas, no Brasil) e Republicanos (demotucanos), os contornos da partidarização e escandalização estão claros;

- Se temos a necessidade de justificar escolhas político-militares para dotar sistemas econômicos e políticos de viabilidade, seja com a War on Drugs (Guerra às Drogas), seja com a War on Terror (Guerra ao Terror), está ali o jornalista engajado (engaged, na terminologia jornalística), um híbrido de porta-voz-convidado-correspondente...Sejam idiotas como Tim Lopes, seja este pobre diabo chamado James Foley...

Lógico que um ambiente bipolar resulta da produção destes conteúdos, e os antagonistas (ou alvos das "matérias") tendem a desenvolver especial ódio pelos jornalistas, e pior, como tais sentimentos são confusos e oriundos de uma racionalidade precária, grosso modo, estas parcelas atacadas tendem a transferir seu rancor a própria noção de jornalismo e liberdade de expressão...

Ironicamente, e recheada de humor trágico, jornalistas degolados, jornalistas atingidos por rojões ou incinerados em "microondas" acabam por virar mártires de uma causa (liberdade de expressão) que não acreditavam, ou que acreditavam pela ótica de seus patrões, pois estão ali sob risco apenas para produzir um discurso político-partidário que demoniza o outro...

Também ironicamente, este "outro" responde com violência que acaba por justificar a demonização em curso...

E mais e mais jornalistas vão para a degola ou para o fogo...

E o que é pior: este engajamento não só subtraiu dos profissionais de mídia da certa imunidade contra atos violentos que possuíam quando eram vistos como observadores (nunca neutros, mas não engajados, é claro), ao contrário: além dos ataques dos antagonistas, não raro, estes jornalistas são alvo dos ataques daqueles que eles servem: as forças militares e de segurança pública...

No Oriente Médio, jornalistas são mortos tanto pelos jihadistas, quanto por soldados estadunidenses, israelenses ou europeus...Tal desleixo proposital pela vida deles envia uma mensagem perigosamente cifrada aos militantes jihadistas...

Ou seja, usam coleiras e são mortos pelos próprios "donos"...

Resumindo: quem planta abacaxi nunca colherá melancias...ou, de maneira macabra: jornalistas afiam as lâminas que lhes degolarão...

Detalhe para reflexão: Didier Fraçois, ex-refém francês e testemunha das investigações, disse que o miltante jihadista britânico reservou atos extra de crueldade contra o degolado James Foley porque este era irmão de um piloto da Real Air Force (RAF)...

A globalização com internet não são "maravilhosas"? Cruzam destinos e nacionalidades e explodem conflitos e violência para além do cardápio ocidental...




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