segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ouro de tolo...

Ela chegou em casa...Olhou tudo ao redor. Havia, como sempre, um cheiro estranho de rotina no ar, que se misturava ao odor de álcool que exalava do corpo inerte de seu companheiro no sofá.

Pensava em muitas coisas, mas ultimamente, a ideia de que seres humanos são capazes de se acostumar a tudo, mesmo a situação mais adversa, conferia a si mesmo um certo conforto, resultado de um longo aprendizado nas artes da autocomiseração.

Antes imaginava que isto se dava por algum sentimento em relação ao outro, mas depois descobriu que as razões eram mesmo egoísticas, ou seja, às vezes uma pedra no sapato traz feridas, mas o medo de andar descalça é muito maior, então, ajeite o corpo e não perca a pose, pensava ela...

Como resultado das suas reflexões, entendia que aquele incômodo que sentia, era afinal um preço justo a pagar pela "normalidade". Uma pedra em um par de Louboutin não é o fim do mundo...

Este é, afinal, o dogma de sobrevivência da sociedade ocidental: Consuma e consume-se...Não há nada demais em tentar adaptar-se... 

Ignorância traz felicidade, alguém já disse, então para que perder tempo conhecendo a si mesmo e quem te cerca, buscando conflitos e ameaçando os limites da zona de conforto? Pois é...

Naquele dia ela olhava tudo que estava ali como de costume, mas trazia no olhar uma perplexidade que já esquecera de ser capaz de expressar...

Não era aquele porco que bufava no sofá, e nem a lembrança de seu hálito quando trocavam secreções na cama...

Não eram os afazeres domésticos, ou o ambiente tenebroso de trabalho, onde desempenhava uma função decorativa e só recebia como recompensa cantadas e assédio, chefes e colegas que bem poderiam estar ali bêbados no seu sofá...

Era a descoberta de que era incapaz de respirar ar puro outra vez...a certeza de que estava tão acostumada aquela repetição diária de tragédias, que tinha certeza que não resistiria a duas doses de felicidade...

Nenhum ato heroico, como uma fuga destemperada, nenhum ato dramático, como suicídio, nenhum ato de justiça como assassinato...Nenhum ato de coragem, como um novo amor...

Ela comprou uma passagem de avião para um destino qualquer, e para lá despachou várias malas onde estavam todas as suas memórias, lembranças de um tempo onde ainda imaginava que poderia ser capaz de amar a si mesma e outra pessoa...Roupas de quando era capaz de respeitar-se a si mesma, fotografias de verões inesquecíveis, pequenos adornos baratos que enfeitavam gestos e carinhos de valor incalculáveis...

Voltou para casa...fez um café forte e ofereceu ao seu marido...quando ele quis, ofereceu-se a ele...

Foi ao shopping e fez compras...

Deitou a noite em casa, e rezava baixinho, entre lágrimas, que cada dia fosse o último...

Mas até deus se esquecera dela...




Para Amélia, a mulher (infeliz) de verdade...

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