sexta-feira, 25 de julho de 2014

As cidades-adolescentes...

Por motivos que não cabe aqui explicar, tenho passado mais tempo que o desejado na chamada entre Macaé e Rio das Ostras.

Confesso que a cada dia amo mais Campos dos Goytacazes, sem ofensa alguma às populações daquelas pequenas-grandes cidades.

Claro que vocês dirão que cada cidade é lugar de problemas e qualidades, e que a gente tende a puxar a sardinha para a nossa brasa (ou vice-versa).

Dias desse, conversando com um pessoa amiga, enquanto eu reclamava do caos urbano, da explosão demográfica, dos permanentes conflitos fundiários urbanos, das ocupações ilegais, e enfim, dos graves problemas de mobilidade, elaboramos uma metáfora para o crescimento desordenado.

Chegamos a conclusão (óbvia) que cidades são como pessoas, tecidos vivos...imagino ter ouvido isto de algum geógrafo ou cientista social.

Assim, cada cidade ao redor do planeta tem um tempo "certo" de maturação, crescimento e amadurecimento, sujeitas, também como nós, os humanos, a ações externas/internas como doenças, violência, incidentes, crises políticas-sócio-econômicas, etc, que nas cidades se expressam como desordem e violência urbana, problemas de mobilidade, desigualdades, e como nas pessoas temo as questões físicas e psíquicas, sendo a "alma" a pólis, e o corpo, a urbi.

No entanto, diante da dinâmica da realidade, os processos "evolutivos" sofrem retardos (atrofias) e aceleramentos, igualmente ameaçadores às pessoas e às cidades.

O esvaziamento da vida das cidades pode se dar por vários motivos, quase todos de ordem econômica, mas com origens sócio-políticas diversas/distintas, mas comumente interligadas, bem como o processo de aceleração deste crescimento.

Macaé e Rio das Ostras sofrem com a presença maciça da indústria do petróleo, e isto também já é lugar comum.

Eis nossa metáfora:

Poderíamos dizer que estas cidades dormiram com dois anos de idade, e acordaram com 17 anos, trazendo na "pele", além das "espinhas", conseqüências da explosão "hormonal" (dinheiro e gente),  outras várias "cicatrizes" causadas pelas agressões decorrentes da total falta de vivência comunitária exigida para um "crescimento normal", como acontece na maioria das cidades.

Este hiato de vivência comunitária desarranja a cidade, assim como um adolescente que cresceu 15 anos em uma noite apenas, e apesar de ter a aparência de um jovem, com todos os instrumentos fisiológicos a seu dispor, ele pouco sabe como usá-los, e quando o faz, atrapalha-se todo, contorcendo-se em mal-humor e fúria, tal e qual as cidades onde as vizinhanças não são vizinhanças, mas amontoados de gente de todo lugar, que assustados com tamanha inundação de diversidade de hábitos e culturas, e pior, de rotatividade, acabam por se tornar indivíduos isolados, ensimesmados, assustados, arredios e...violentos.

Neste contexto, o tecido social tende fica suscetível a toda espécie de fragilidade e ataque, tal qual um corpo de que cresceu rápido demais mas não maturou seu sistema imunológico, que nas cidades é a convivência, o espaço público.

E as respostas são quase sempre desordenadas e exageradas em amplitude e profundidade.

O resultado é um envelhecimento precoce ou uma morte prematura.

Mas como cidades não morrem como gente, estas "mortes" se expressam nas pequenas fraturas cotidianas que vai minando a possibilidade de construção da esfera social-coletiva (que nas pessoas chamamos de caráter ou personalidade), um alheamento, tão comum na adolescência, e que nas cidades pode ser chamado de Síndrome do Forasteiro. Um tipo de necrose social ou metástase social.

Em Rio das Ostras, principalmente, esta síndrome é agravada nos períodos de eventos e a temporada de verão, onde há uma carga extra de "hormônios" (gente e dinheiro), que altera o formato do "corpo" ainda mais, e pior, "rouba" a percepção de cidade de si mesma, que ao "se olhar no espelho", nunca saberá se é cidade-dormitório ou cidade-turística.

Muito me espanta que alguns idiotas sigam a reivindicar um aceleramento para nossa cidade, Campos dos Goytacazes, que se comparada a outras pelo mundo, é ainda uma adolescente, mas que cresceu no "tempo certo".

Completando a metáfora, estes idiotas são o que chamamos para o corpo humano de parasitas, ou organismos oportunistas.

Quando o corpo (cidade) estiver exaurida, eles "migram" para outro hospedeiro.

A coletividade e o espaço público são as únicas "vacinas".



Texto dedicado a Maria Felícia, (in memoriam)...

3 comentários:

Anônimo disse...

Texto bacana ,você consegue descrever a realidade ,mas as vezes no meio do transito tumultuado é que conseguimos enxergar as coisas belas ,que a correria do dia a dia náo nos permite .

Roberto Moraes disse...

Boa Douglas. Esta reflexão está cada vez mais difícil de ser feita com consequências que possam gerar ações em meio a este conturbado quadro meio esquizofrênico entre o desejo e o medo do crescimento econômico.

As minhas pesquisas identificam que estamos vivendo um processo de ampliação da metrópole fluminense com todos os problemas que isto traz no seu bojo. E pior, tendo quase exclusivamente o petróleo (royalties incluídos)como fator de arrasto.

Planejar o uso do território de uma forma supramunicipal é urgente, embora, não vá dar conta das doenças já endêmicas. Quando muito amortizará seu alastramento.

Abs.

douglas da mata disse...

Roberto, a questão é bem complexa, e para tanto imaginei uma metáfora ao mesmo tempo simples, e igualmente complexa no seu funcionamento, o corpo humano.

É verdade que ao contrário do corpo, onde um sistema nervoso "comanda" as outras partes, na cidade precisamos cada vez mais que cada célula (nós) sejamos cérebro e corpo ao mesmo tempo.

Os royalties são como anabolizantes em um corpo adolescente, provocam uma hipertrofia muscular exagerada, dão uma aparência de crescimento, mas destroçam as vísceras e quando interrompido o seu consumo (como é o caso da mudança da partilha dos royalties, para breve), o corpo murcha e aparecem os sintomas colaterais.

Há no ar um frenesi para queimar etapas, uma precariedade permanente.

O antídoto é político, sempre.