sexta-feira, 27 de junho de 2014

Suárez, o futebol e os canibais...

Assombrosa a postura do uruguaio em campo, ainda mais se considerarmos a reiteração de sua conduta. 

Disto não há dúvidas, assim como não há dúvidas que nos limites das regras que organizam o esporte, pode a FIFA mantê-lo impedido de jogar futebol, até para procurar um tratamento, se for o caso.

Agora o problema é quando as coisas extrapolam esta simples realidade...ufa, a realidade teima em ser simples, mas parece que isto não nos basta.

Diante do linchamento público do jogador, correm seus patriotas e simpatizantes a transformá-lo em mártir. 
Comportamento óbvio. 
Os que detêm algum caráter detestam este tipo de covardia, o popular "chutar cachorro morto". 

Poucos escaparam desta triste dicotomia, nem o jogador Giggia, que antes do episódio lamentável já rosnava, ranzinza, pleiteando uma atenção eterna, mendigando mais alguns segundos de fama, reclamando de ingressos, carros, e outras mordomias.

Ora bolas, já não a teve pelo hercúleo feito de 50? O que deseja mais?

O problema da atenção é quando suplicamos por ela. Desesperador.

Mas no caso do jogador-ancião é compreensível, a fama é um vício adicionado por droga ainda mais devastadora, a vaidade.

Porém, como explicarmos a colossal hipocrisia que se apoderou do caso do jogador uruguaio, justamente oriunda dos que se dedicam a modelar o futebol como uma espécie de pequena guerra (por dinheiro), onde os termos metafóricos para os envolvidos é: artilharia, artilheiro, tiro de meta, cobrança fatal, matar a jogada?

Diante disto tudo, de tanta fumaça, esquecemos de perguntar coisas simples:

Pode a FIFA impedir que um jogador entre em um estádio de futebol em um país democrático qualquer, seja o Brasil, ou o Uruguai, para onde o jogador rumou?

Está a FIFA autorizada a cassar o direito de ir e vir de uma pessoa?

Sim, a "pena" de Suárez inclui o impedimento de entrar em um estádio de futebol durante a Copa(não sei se a "pena" se estende para o depois).

E se o Uruguai for a final?

Aceitaremos que a FIFA revogue a nossa Constituição?

Com qual objetivo? De dar "o exemplo"? Mas quê exemplo? Não é a própria entidade uma enorme lavanderia de dinheiro sujo, palco de falcatruas, acertos e afagos com governos ditatoriais e sanguinários (como o Brasil de 70 ou Argentina de 78)?

Será uma tentativa de incutir valores nos mais jovens? Mas quê valores, senão os financeiros, já que a poderosa entidade se omitiu para o cruel mercado de carne adolescente que transfere garotos de 14, 13 anos para países distantes, longe de pais, ao alcance do assédio de "benfeitores"?

Em nome da paz e da não-violência? Como assim? Quem observar o número de lesões (traumas) na região da cabeça dos jogadores neste último mundial, e o igual número de afastamento dos jogadores por completo esgotamento físico, além de um nível de performance abaixo da média, poderá perceber que não é apenas o gesto de Suárez que deve ser rejeitado como violento.

Esta cantilena da hipocrisia que sepultou carreiras "malditas", ou o reconhecimento, ainda que póstumo, de gente como Maradona e Garrincha, mas celebra o cretino do Pelé, que pedia atenção pelas criancinhas, mas abandonou a renegou a sua até o fim, até depois do DNA.

Segue o jogo dos canibais.



quinta-feira, 19 de junho de 2014

O fim do paradoxo do futebol.

Concordem ou não meus poucos leitores, a Copa do Mundo no Brasil é recheada de significados. Para o bem e para o mal.

Os mais óbvios: TEVE COPA, o Brasil não se afogou em convulsões sociais, tudo funcionando a contento, os empresários, mídia, etc, ganhando tubos de dinheiro (e ainda assim reclamando), classe política tentando adequar o melhor figurino para aproveitar: governo e oposição torcem contra ou a favor por seus motivos.

Todos imaginam que um evento de futebol possa ter alguma influência no resultado das eleições. Pode ser, mas estranhamente nenhum instituto de pesquisas, nem estes de fundo de quintal, sendo o Brasil um país das pesquisas (depois dos EUA), se arrisca a perguntar ao eleitor se o resultado da Copa mudará seu voto, ou melhor, se houver fracasso do scratch canarinho, deverá ser a Dilma a ser punida!

E não fazem pelo simples motivo que temem não as respostas, mas porque têm certeza que a pergunta não faz qualquer sentido nos dias atuais.

Mas a imprensa "especializada esportiva" (pausa para rir), que nos tempos de Copa tem mais parecido com editoria política (nada contra), insiste em nos vender uma imagem que este país gira em torno da bola, torcendo para uma catástrofe que traga de roldão o governo federal!

E há as explicações clássicas para tanto. As de natureza sociológica (até as de botequim, as melhores), que nos informam que o povão, com mais grana, mais escolaridade desenvolve outros interesses, mesmo que mantenha sua predileção pelo esporte bretão. Mas a paixão arrefece, porque deixa de ser paixão exclusiva.

Por este motivo a mídia tem parecido tão histérica em relação a Copa. Aumentam o tom para provocar sentimentos que antes seriam quase que naturais.

Vai que cola...

Há as explicações de natureza, digamos, "econômico-esportiva". O futebol se transformou um espetáculo global, mercantilizado, de altíssimo uso de tecnologia e inovações, que como causa e efeito se espalham sob a forma de traquitanas e acessórios, que igualam pelo modelo ultra-high-tech de chuteiras nos pés (e pelo bolso), o maior jogador do mundo e o perna de pau da pelada de quarta-feira a noite.

Antes este nivelamento era a paixão, o jogo apenas, e os meios eram apenas pés descalços de garrinchas em Pau Grande ou nas peneiras dos clubes, arena dos selecionáveis pelo olhar arguto dos "olheiros", que descolavam uns trocados, ingressos, e certa celebridade junto às diretorias dos clubes.

Hoje há um sistema muito mais sofisticado e vertical!

Não vou entrar em julgamentos saudosistas! No entanto, as coisas são diferentes, e o grande paradoxo do futebol, que era equilibrar a imperativa necessidade do jogo coletivo com a genialidade pessoal parece pender perigosamente para a descaracterização mecanicista que transforma jogadores em máquinas de correr.

Ainda que exaltemos surpresas como a Alemanha (nem tão surpresa assim, pois esteve em sete finais nos últimos anos, e com seu principal clube no topo da Champions League há duas ou três temporadas), que goleou sem dó os touros mochos espanhóis, ou o ressurgimento da escola chilena, não tenho dúvidas em afirmar que esta é um dos torneios mais chatos tecnicamente falando, mesmo que consideremos uma média de gols bem alta (mais de três, até onde vi).

Gols em profusão que revelam mais cansaços e desarrumações dos esquemas defensivos que habilidade e preparo dos atacantes.

Nenhum dos matches da Copa chegou aos pés de um simples jogo como aquele Flamengo e Santos (5 x 4), onde brilharam a genialidade de Ronaldinho Gaúcho e Neymar (com o gol mais lindo do ano).

E nada justifica, porque ali estão o creme do creme em um evento cada vez mais profissional, seguro, grandioso e CARO!!!

Pior: jogos como aquele Fla e Santos são cada vez mais raros! Basta olhar os arquivos das mídias que tratam do tema para constatarmos que temos muito menos material para mostrarmos às novas gerações belos jogos de futebol. No máximo alguns lances, e olhe lá.

Qual é o grande nome da primeira fase? Müller? Piada! 

Há algum candidato a Maradona, Beckenbauer, Cruyff, algum Zico, Leandro, Reinaldo, algum, vá lá, Toninho Cerezo?

Não há sequer esta discussão que povoava nossas conversas quando garotos: Maradona melhor que Pelé, Pelé melhor que Garrincha, e ia por aí...

Triste ver bons jogadores moídos em final de temporada se arrastando em campo. Pobres Messi e CR7...

Nos dias atuais, o futebol e a Copa parecem um filme onde mudam os atores, mas sempre nos contam o final...seja ele qual for.

domingo, 15 de junho de 2014

As hienas e os jornais: comem merda e dão risada!

Há um fenômeno irreversível que assola as plataformas de mídias desde que o capitalismo colocou para andar a máquina da internet.

De certo que a credibilidade dos veículos de mídia, principalmente os jornais, já vinha ladeira abaixo. Mas a aceleração deste processo é diretamente proporcional a virulência que assistimos contra o poder constituído e a ação política, e não só resultado da diluição que a rede mundial proporcionou.

Talvez estejam relacionadas como causa-e-efeito.

Cada vez menos capazes de influenciar o eleitor, mais e mais agressivos se tornam nossos editoriais!

Impensável até na era pré-suicídio de Vargas (talvez nosso momento mais dramático e violento da disputa política), que jornais e TV difundissem ou se omitissem frente ao ataque escatológico contra a presidenta Dilma.

Nem Jango na véspera do golpe mereceu tamanho desrespeito.

O comportamento da mídia é o reflexo de como andam suas vísceras...apodrecidas.

No Brasil, que mantinha um número baixíssimo de leitores assíduos, cerca de 6 a 7% da população, signo de um projeto de país que produzia informação apenas para "um círculo íntimo" de formadores ou replicadores de conteúdo, não é errado dizer que os meios escritos nunca tiveram a densidade que arvoravam ter, e repercutiam muito mais como uma complementação dos canais áudio-visuais, antes o rádio, depois as TVs.

Com este esquema de "pirâmide da informação", faziam e desfaziam, criavam e destruíam carreiras políticas. 
Elaboraram um sofisticado caldo de cultura que reúne um individualismo cretino, violência covarde contra pretos, pobres, mulheres e outras camadas mais frágeis, ódio a ação coletiva e a política, moralismo hipócrita, estéril e histérico, etc.

Ao contrário de sua matriz ideológica e operacional (o jornalismo estadunidense), nossos jornais nunca alcançaram mais que a classe média e a elite brasileira. Porém esta faixa de alcance lhes permitiu funcionar como esteio de estruturas de poder baseadas na desigualdade.

Por este motivo, nos EUA a derrocada da mídia chamada de tradicional tem sido mais lenta, enquanto por aqui, jornais e TVs diminuem seu público na velocidade da luz.

Lá, como na Europa, ainda que a credibilidade da mídia tenha sido leiloada pelos tostões da hegemonia neoliberal, que tragou a tudo e a todos no fim do século passado, o processo foi contido pela enorme popularidade que estes veículos contavam junto a maioria da população, que justamente funcionou como uma espécie de controle, ou autocensura para editores e barões da mídia.

A chegada de canalhas como Murdoch solapou de vez este sistema freios e contrapesos na indústria da mídia mundial.

No Brasil a murdochinização na mídia foi devastadora, assim como o neoliberalismo foi para a economia, e não por acidente os dois são contemporâneos.

A mudança de humores do eleitorado dos países periféricos, cansado de chafurdar em pobreza para sustentar a riqueza dos países centrais, alterou o olhar sobre a mídia, e pasmem: Uma maior alfabetização e escolarização (o tempo médio de escola subiu de 4 para 9, 10 anos desde 2002) não significou mais leitores ou espectadores fieis, ao contrário!

A transmissão da Copa pelos canais abertos experimentou a pior audiência da História.

O todo-poderoso jornal nacional não consegue mais chegar a 30% de audiência!

Jornais são usados cada vez mais para embrulhar peixes podres e outros dejetos menos nobres.

E não se trata apenas de recrutamento de gente ruim, embora seja verdade que o nível atual dos jornalistas (ou serão porcalistas?) seja sofrível, da chefia de edição até o mais foca dos focas.

Quem convive com este pessoal, seja lá o motivo, sabe que há pouquíssimo cérebro naquelas cabeças, e muita vontade de repetir discursos que agradem ao patrão.

Porém, há gente do calibre de jabour, dentre outros, que temos que reconhecer, possuem conteúdo cultural que só agrava suas escolhas pela burrice simplista!

Fazer oposição a um governo popular, que beneficia a maioria da população é coisa complicada, e deve bater um baita desespero que após 3 anos de disparos diários, a presidenta ainda consiga se manter a frente da soma de todos seus concorrentes.

Fosse outra época, ela já estaria devendo votos, ou pior, já teria sofrido um impeachment, talvez porque sua neta quebrou uma louça do palácio, ou sua filha estacionou em local proibido.

Agora as coisas são diferentes...

Como inventar uma realidade?

Como dizer para o povo que o país vai mal, se o povo vai tão bem? 

Emprego? Tem. Escola, vaga na Universidade? Tem também. Comida na mesa, consumo, salário maior? Tem muito mais que antes, talvez como nunca tenha sido.

Uma copa que só aconteceu de novo por aqui 64 anos depois...

Onde estão os aeroportos em chamas, entupidos por turistas furiosos, estádios que não ficariam prontos (ou ficariam em 2024, de acordo com a "previsão matemática" da capa da veja, que já entrou para o anedotário, junto com o "boimate")?

Obras de infraestrutura que há 40 anos não aconteciam, e que em regime democrático só aconteceram com JK estão aí, em andamento...

Redistribuição de renda, autossuficiência energética, território, bônus demográfico à vista (com maioria das pessoas no auge da idade produtiva, 18 a 45 anos).

É contra isto que este pessoal luta. É contra isto que este pessoal tem que vomitar impropérios todos os dias, para devolver o país a um pequeno grupo que lucra com a miséria da maioria, enquanto sustenta a posição de mando de seus patrões internacionais.

Lula tem plena razão. O jogo vai ser bem mais pesado! O Brasil não pode dar certo do jeito que vem dando, porque vai se transformar em péssimo exemplo para os demais.

Olhem o exemplo de Michelle Bachelet do Chile, que já abandonou a tolice de "aliança do pacífico" para cerrar fileiras com seu maior parceiro estratégico, o Brasil.

Os donos do mundo, e seus lacaios espalhados por ele, estão desesperados...

Bem, enquanto estiveram só latindo, ou rindo da merda que comem, tudo bem...


sábado, 14 de junho de 2014

A magia do futebol!

O futebol é mesmo mágico, um mundo à parte. Só nesta dimensão lúdica, um brasileiro pode abrir mão de sua nacionalidade brasileira para ter um emprego melhor na Espanha. 

No mundo real, isto é impossível, pois são os pobres espanhóis que correm da sua pátria-mãe para mendigar uma colocação no país que amam odiar! 

Antes, o que lhes restava era fuçar as lixeiras de Madrid e Barcelona atrás de algum alimento, atitude prontamente prevenida pelos alcaides de lá, que ao invés de proverem comida, acorrentaram as lixeiras, haja vista o efeito estético que afugenta turistas!

Ainda bem que na História das nações, o futebol nunca foi levado a categoria de incidente diplomático, caso contrário ficaria a dúvida: 

Seria o caso de expulsarmos empresas e manollos esfomeados de volta para a península infame?


Sem mais comentários.

Dilma nos ensinou que o pior ruído da Democracia (e os xingamentos a ela dirigidos podem estar nesta categoria) é melhor que o silêncio das ditaduras.

No entanto, até ela que já sofreu na pele o que significa intolerância política deve imaginar que tudo tenha limites. A liturgia do cargo o qual ocupa, com incomum sobriedade, a impede de dizer.

Mas nós podemos, e devemos fazê-lo.

Uma pena que o PT de Campos dos Goytacazes, através da pessoa do seu presidente, não tenha a coragem de vir a público para manifestar seu repúdio a insanidade política que tem se instalado contra o mandato outorgado pela MAIORIA ESMAGADORA da população, contra a Presidência da República, e enfim, contra o projeto político que ele diz representar aqui na planície. Talvez, se estivesse em Itaquera (não estava?), engrossasse o coro. Quem sabe?

Não confundam as vaias de reprovação, legítimo direito de expressão de cada cidadão deste país, com xingamentos criminosos, previstos inclusive no Código Penal em seu artigo 140. Ataques a quem, por óbvio, não podia se defender. Covardia pura e simples que não merece a celebração dada pelos cretinos da mídia como exemplo de liberdade de opinião.

Sirvo-me de Luis Nassif para tratar do tema. Nem mais, nem menos. Só um pequeno adendo deste blogueiro: Vai chegar a hora em que esta maioria que anda acuada por estes fascistas terá que reagir, e colocá-la em seu devido lugar, e se for necessário, que seja pela força. Tem ocasiões que a Democracia se constrói com um pouquinho de violência...

Eis o texto para Vossa reflexão:

As vaias à Dilma e os neoflautistas de Hamelin

Encontro um banqueiro meu conhecido após o jogo da Copa. Ficou em um dos camarotes VIPs, ao lado de personalidades como Gilmar Mendes. 
Foi com a namorada ao Itaquerão. Ambos estavam impressionados com a qualidade do estádio, com a limpeza dos banheiros, com a beleza e relevância do evento. Até Lázaro Brandão, o todo-poderoso presidente do Conselho do Bradesco, esteve presente, me diz ele.
Tudo funcionou a contento, disseram-me, o trânsito (que depende da Prefeitura), o Metrô (que depende do estado), o estádio (cuja construção foi apoiada pelo governo federal). Enfim, motivo geral para espalhar pelo mundo uma imagem mais positiva do país.
Apenas um dado falhou, para vergonha de São Paulo: o nível das vaias à presidente da República.
- Não era povão. Veio das alas VIPs e foi constrangedor.
O momento mais baixo da Copa, o episódio que manchou a imagem do país no mundo partiu daquele segmento que Cláudio Lembo chama de “elite branca”. Mas, como bem observou um de nossos comentaristas, não os trate como elite. Elite pressupõe um estágio intelectual e moral superior. São Paulo tem uma elite intelectual, médica, tecnológica.
Os que se manifestaram representam apenas a selvageria empetecada, os black blocs com grife.
O caráter de um jornal é dado pela soma individual dos seus colunistas e pela linha editorial.
Hoje, o episódio foi lamentado pelos maiores cronistas esportivos, timidamente em suas colunas, mais acerbamente em seus blogs. Mas são  pontos fora da curva. 
A baixaria contra uma presidente da República, uma mulher digna, não mereceu condenação dos jornais, mas a celebração em suas manchetes.  O grito: “Dilma vai tomar no c…” torna-se, a partir de agora, o símbolo máximo do enorme poder de que dispõe a mídia para influenciar o baixo clero da “elite branca”.
São incapazes de separar a crítica ao estilo dos ataques pessoais. Não é por nada que tornaram José Serra seu herói predileto. Qualquer coisa vale na disputa política, principalmente abrir mão de ideias e recorrer aos ataques mais baixos.
Os jornalões tornaram-se a versão moderna e adaptada do Flautista de Hamelin. O flautista levava os ratos para o rio e os afogava. Os jornais levam os ratos para o mundo - e os celebram.
Não foi por outro motivo que a parte do evento que mais impressionou a colunista social do Estadão foram alguns banheiros entupidos. Na verdade, havia pouco banheiro para a m… que jorrou dos camarotes, estimulada pelos neoflautistas de Hamelin.

domingo, 1 de junho de 2014

Transportes públicos, a penúltima fronteira.

Quando a onda neoliberal varreu o mundo, tendo como epicentro as administrações de Tatcher e Reagan, na década de 80 do século XX, um dos principais alvos da expansão capitalista foi o setor de serviços estatais dos países chamados periféricos.

Não é preciso ser um gênio da Economia para entender o processo.

Na busca pelo reinvestimento e recriação de zonas de acumulação rentista, o capital vai às compras.

Em economias já saturadas pelo desenvolvimento, este processo acaba por sofisticar as estruturas privadas (não sem sacrifício de milhares de empregos e redes de proteção social), já que o espaço do Estado é bem definido (maior ou menor, dependendo de cada processo histórico) e as instituições mais amadurecidas, o que não impede que setores capitalistas, ainda assim, capturem orçamentos e mandatos para impor a sua única lógica, o lucro.

Assim, cada país experimentou este novo ciclo de expansão à sua maneira, mas tanto no mundo central quanto no mundo periférico, foram ouvidos os gemidos da população mais vulnerável, que ia sendo esmagada pelo Consenso de Washington e o raid ideológico do estado-mínimo (mas máximo para os rentistas).

De uma vez por todas é preciso afastarmos esta idiotice de estado-mínimo. Ele é mínimo para quem mais precisa dele, enquanto ceva os aplicadores da roletas financeiras, sugando juros e mais juros das dívidas públicas fabricadas.

Nos EUA, milhões de negros empurrados para cadeias, e para a perspectiva de empregos de terceira categoria e salários de décima, como exigência para acordos judiciais nas cortes criminais e livramentos condicionais, na Inglaterra, o desmonte da estrutura sindical dos mineiros e todas as demais células de organização social e comunitária, abrindo espaço para a voracidade do dinheiro sobre cidades e seus espaços antrópicos.

Na América Latina, África, e outros cantos do planeta, igualmente pobres, mais e mais exclusão, mortes violentas, desigualdade e desproteção social.

Sistemas de saúde, escolas, transportes, facilidades de infra-estrutura, tudo sucumbiu ao apetite dos fundos de hedge, reprocessavam dinheiro como máquinas ensandecidas, diluindo risco para espaços distantes do globo, e claro, concentrando riqueza.

No Brasil, por exemplo, desde a implantação do SUS, com a promulgação da CRFB de 1988, os governos totalmente submissos às ordens do FMI, seguiram a cartilha de universalização esquizofrênica, baseada em uma loucura hospitalocêntrica, com as construções de enormes estruturas centralizadas de atendimento, com ênfase na doença e não no paciente, em detrimento das unidades básicas de saúde (bairros), responsáveis por 60% do sucesso dos casos em uma primeira consulta, dado fornecido pela OMS.

O benefício, é claro, tinha alvos certos, a indústria farmacêutica, indústria de equipamentos (diagnóstico por imagens, por exemplo), e por derradeiro, as corporações médicas, que na avalanche de especialização da medicina, transformaram-na em ótimo negócio. Conheço advogado pobre, engenheiro pobre, assistente social pobre, professor miserável, e até juiz com vida bem simples, mas não conheço médico pobre. Deve ser o jaleco branco e "obra de deus".

Na outra ponta, ao invés de investir os poucos recursos para atendimento dos mais pobres, os governos seguiram gastando bilhões e bilhões com a classe média e os mais ricos, através dos favores fiscais chamados candidamente de "deduções".

Ora, se o sistema público não funciona para ninguém, qual é a justificativa de que o pobre receba um gasto per capta de "x" e o classe média e o rico recebam um gasto de 10"x", sendo que este gasto do mais rico vai direto a medicina privada?

Caso parecido aconteceu com o transporte público, o o momento que vivemos em nossa cidade ilustra um pouco isto.

Nosso país tem uma tradição rodoviária já estabelecida, e neste contexto, o transporte público sempre esteve entregue a grupos de caráter duvidoso, desde os primeiros imigrantes portugueses que se fortaleceram no Rio de Janeiro, e em outras cidades, com disputas que lembram em muito as quadrilhas de transporte alternativo clandestino de hoje em dia (como lembrança incômoda que o sistema capitalista sempre traz caos quando há disputas acirradas nos intestinos de suas atividades e setores).

Existem teses que estudam a relação de ódio que as populações urbanas desenvolveram com este setor, que não raro, dentro dos seus ônibus impunham suas próprias "leis". Para estes estudiosos, as depredações voltadas a este setor têm causa definida (o blog não tem opinião sobre este tema).

De certa forma, o transporte de ônibus sempre esteve sob regime privado ou misto, com empresas públicas e privadas, e no mesmo esquema canibal, ou seja, as melhores linhas ficavam com os empresários e o setor público ficava com as linhas rejeitadas.

Os outros modais raramente atraíam a atenção dos empresários neste país, por um motivo óbvio: A implantação destes modais requer investimentos de larga escala e taxa de retorno e amortização de investimentos de longo prazo, um investimento tecnológico mais apurado, etc.

Coube ao Estado construir estradas de ferro, estações de barcas, metrôs, assim como as estradas, e outras estruturas logísticas.

Quando a hegemonia neoliberal varreu o planeta, os fundos rentistas focaram sua atenção a estes patrimônios estatais, como forma de alocar seus excedentes de capital que tinham ficado à salvo durante a década perdida de 70 e 80, após os choques do petróleo e outras crises sistêmicas.

O desmonte deste patrimônio obedeceu a mesma tática de recrutar setores da mídia e da classe média para replicarem as teses do fracasso do Estado na gestão, escárnio sobre servidores e suas competências, chantagem com o usuário, que farto de sua situação de abandono, aceitou o argumento da ineficiência estatal para dar legitimidade as privatizações.

Todos esqueceram que no sistema capitalista, nenhum Estado é ineficiente, mas sim seletivo.

Bem, o legado está aí.

Depois de duas ou três décadas de domínio neoliberal, de privatização de transportes de massa no Brasil, não houve avanço significativo que justificasse a entrega destes modais à iniciativa privada. Seja nos trens horrendos da SuperVia, no Metrô de SP (um câncer de corrupção PRIVADA INTERNACIONAL e TUCANO-LIBERAL), as Barcas SA, ou os pedaços da Rede Ferroviária Federal, sub-utilizada e destroçada por consórcios predadores.

Com a chegada dos governos do PT, a direção foi mudada, mas o estrago exigiu quase três mandatos para que a retomada de investimentos começasse a dar resultados.

Ainda assim, os projetos ligados às grandes demandas de grandes grupos econômicos, como a Ferrovia Norte Sul, os portos, etc, vitais para qualquer intenção de projetar um crescimento de PIB para acima de 4%, acabaram por sacrificar a atenção das malhas urbanas de mobilidade, mas que também começam a sair do papel.

A questão de fundo para este texto é:

O setor privado NUNCA dará conta das demandas sociais de transporte público, e NUNCA se sujeitará ao poder concedente, porque este poder sempre está cativo do apoio destes empresários (e de outros) para a construção de maiorias eleitorais.

O caso da Viação 1001 é emblemático.

É um poder acima de todos os poderes. De todos os partidos. Da Justiça e de qualquer órgão ministerial.

Se Campos dos Goytacazes quer transporte público digno deste nome, deve implementar conselhos de usuários nos bairro, e uma empresa municipal de transportes, que poderia estar mitigada a cooperativas de motoristas, cobradores, mecânicos e outros funcionários desta cadeia econômica, utilizando recursos de gestão integrada e compartilhada, eliminando de uma vez os intermediários.

Não dá mais para dormirmos no ponto, pois este debate é urgente.