domingo, 18 de maio de 2014

Cada coisa tem a sua hora e tem a hora de todas as coisas.

O ótimo texto do Slavoj Zizek que trago para nossa reflexão, reproduzido do blog do Nassif, mas publicado originalmente no blo Outras Palavras:

De Outras Palavras
Estados Unidos já não são capazes de impor sua ordem. Mas como evitar que seu declínio resulte num mundo caótico?
Por Slavoj Zizek
Tradução: Marília Arantes
Conhecer uma sociedade não significa apenas conhecer as suas regras explícitas. É preciso saber como aplicá-las: quando utilizá-las, quando violá-las, quando negar uma chance que nos é oferecida, e quando somos obrigados necessariamente a fazer algo enquanto pretendemos fazê-lo por livre e espontânea opção. Considere o paradoxo, no caso, das propostas feitas para que sejam recusadas. Quando sou convidado para jantar em um restaurante por um tio rico, ambos sabemos que é ele quem vai pagar a conta, embora eu deva insistir de leve que podemos dividir – imagine a minha surpresa caso meu tio de repente diga: “está bem, então, pague a conta você!”
Aconteceu um problema similar durante os caóticos anos pós-soviéticos sob governo Yeltsin na Rússia. Embora as regras legais fossem conhecidas e, em boa parte, idênticas às da União Soviética, uma complexa rede de regras implícitas, não-escritas – as que sustentavam todo o edifício social –, se desintegraram. Na União Soviética, se você precisasse de um tratamento hospitalar melhor, assim como um apartamento melhor, se tivesse alguma reclamação contra as autoridades, estivesse sendo processado ou quisesse seus filhos admitidos em uma escola de ponta, era preciso saber das regras implícitas.
Você precisava compreender a quem deveria se dirigir ou persuadir, e o quê deveria ou não fazer. Após o colapso do poder soviético, um dos maiores aspectos a mudar no cotidiano das pessoas comuns foi que estas regras não-ditas tornaram-se seriamente obscuras. As pessoas simplesmente não sabiam como reagir, como se referir às regulamentações oficiais explícitas, o que deveria ser ignorado e até onde a persuasão funcionaria. (Uma das funções do crime organizado era prover um tipo de Ersatz – um substituto -, da legalidade. Se você fosse o dono de um pequeno negócio e um cliente lhe devesse dinheiro, você deveria procurar respaldo de um mafioso, que cuidaria do problema, já que o sistema legal do Estado era ineficiente.) A estabilização da sociedade sob o reinado de Putin só se deu, em grande parte, por causa da transparência no estabelecimento recente de regras não-escritas. Agora, novamente, a maioria das pessoas pode compreender a complexa teia de interações sociais.
Na política internacional, ainda não atingimos este estágio. Voltando aos anos 90, um pacto silencioso regulamentava as relações entre a Rússia e as grandes potências Ocidentais. Os Estados do Ocidente tratavam a Rússia como um grande poder, sob a condição de que ela não agisse enquanto tal. Mas o que acontece quando a pessoa a quem se fez uma proposta-feita-para-se-recusar, resolve aceitá-la? E se a Rússia começa a agir enquanto grande potência? Uma situação como esta é de fato catastrófica, por ameaçar toda a teia de relações existentes – assim como aconteceu há cinco anos, na Geórgia. Cansada de ser apenas tratada como superpotência, a Rússia passou a atuar enquanto uma.
Como isso aconteceu? O “Século Americano” acabou e nós entramos em um período em que passaram a se formar múltiplos centros no capitalismo global. Nos Estados Unidos, Europa, China e talvez América Latina, também, os sistemas capitalistas se desenvolveram com características específicas; os EUA defendem o capitalismo neoliberal, a Europa, o que restou do Estado de bem-estar social, a China, um capitalismo autoritário e a América Latina, o capitalismo populista. Desde que a tentativa dos Estados Unidos de se imporem enquanto superpotência hegemônica – polícia do mundo – faliu, existe a necessidade de se estabelecer novas regras para interação entre estes centros locais, conforme o que diz respeito a seus interesses divergentes.
É por isto que os nossos tempos são potencialmente mais perigosos do que parecem. Durante a Guerra Fria, as regras para o comportamento internacional eram claras, e garantidas pela loucura – da destruição mútua assegurada– pelas superpotências. Quando a União Soviética violou as tais regras não-escritas ao invadir o Afeganistão, ela pagou seriamente pela infração. A Guerra no Afeganistão foi o começo de seu próprio fim. Atualmente, velhas e novas superpotências estão se testando umas às outras, tentando impor suas próprias versões das regras globais, experimentando abordagens aos mais próximos – que, é claro, são outras, nações e estados menores.
Karl Popper certa vez defendeu o exame científico de hipóteses, afirmando que assim permitimos que nossas hipóteses morram, em vez de morrermos nós mesmos. Mas, nos testes realizados hoje em dia, as pequenas nações ganham mais mortos e feridos do que as grandes – primeiro foi a Geórgia, agora a Ucrânia. Embora os argumentos oficiais sejam altamente moralistas, defendam os direitos humanos e a liberdade, a natureza do jogo é clara. Os acontecimentos na Ucrânia parecem algo como a “Crise da Geórgia – Parte II” – o próximo estágio da luta por controle em um mundo não-regulamentado, multipolarizado.
Sem dúvida, é hora de ensinarmos a estas superpotências, velhas e os novas, algumas boas-maneiras [regras de conduta], mas quem fará isto? Obviamente, apenas uma entidade transnacional poderia mediar isto – há mais de 200 anos, Immanuel Kant enxergou a necessidade de uma ordem legal internacional que fosse capaz de permear o apogeu das sociedades globalizadas. Em seu projeto pela paz perpétua, escreveu: “Desde que uma comunidade mais estreita e mais ampla entre povos do mundo tenha se desenvolvido a ponto que a violação dos direitos em uma localidade do mundo seja sentido nas demais, a ideia de que exista uma lei mundial de cidadania não seria mero devaneio ou noção exagerada.”
Isto, no entanto, nos leva ao que é discutivelmente a “principal contradição” da nova ordem mundial (se ainda pudermos utilizar o velho termo maoísta): a impossibilidade de criarmos uma ordem política mundial que seja capaz de corresponder com a economia capitalista globalizada.
Mas e se, por razões estruturais, e não somente devido a limitações empíricas, não seja possível existir uma democracia amplamente difundida ou um governo representativo mundial? E se a economia do mercado global não puder ser organizada diretamente como uma democracia liberal, global com eleições em nível mundial?
Na era de globalização, estamos pagando o preço desta “principal contradição”. Na política, antigas fixações, em particular, questões substancialmente étnicas, religiosas e de identidade cultural voltaram como vingança. Nosso dilema é definido por sua tensão: à livre circulação global de commodities seguem crescentes separações na esfera social. Desde a queda do muro de Berlim e o apogeu do mercado global, novos muros começaram a emergir por todas as partes, segregando pessoas e suas culturas. Talvez a sobrevivência crucial da humanidade dependa da resolução desta tensão.

8 comentários:

Anônimo disse...

Desde que uma comunidade mais estreita e mais ampla entre povos do mundo tenha se desenvolvido a ponto que a violação dos direitos em uma localidade do mundo
seja sentido nas demais, a ideia de que exista uma lei mundial de cidadania não seria mero devaneio ou noção 

caro da mata,
pode parecer um devaneio meu.Mas diante deste fato concreto bem abordado pela escritora, fica subentendido que o valor do cristianismo autêntico supriria essas faltas. Veja bem, camarada, valores cristãos não foram bem vistos pelo Obama em seu discurso de posse. Isso mostra que não interessa aos que nao querem "algo comum" uma visão comum a todos. Os muros precisariam ser derrubados mas o mundo não quer construir pontes. Parece que quer uma ponte única que leve ao autoritarismo global. Mas penso que o Chefe do Cristianismo, de todos os chefes de ismos é o mais generoso.
Você tem um pinima gratuita com esse chefe, mas observando seu comportamento social (não me declaro porque te conheço e sei que vais me evitar...rsrs.Afinal, Rio das Ostras não é tão grande apesar de vc estar meio sumido)Como ia dizendo,
Penso que ao descartar possibilidade de Cristianismo autêntico por causa das atrocidades antigas de um falso cristianismo deixa muita lacuna em todo o mundo.
Mundo é Cristianismo / Islamismo/Judaismo

Fora isso são os ismos mis que tem em seu bojo um pouco de cada um.

Na globalização este trio vai se manifestar. De que lado virá a paz de verdade? Só se for do Cristianismo. E não vai ser em bloco. Mas cada um seguindo "o tal das bem aventuranças" que o próprio Obama descartou duzendo impossivel viver "aquilo".

douglas da mata disse...

Meu caro amigo,

Seria uma tolice histórica desconhecer o legado civilizatório das religiões monoteístas, para o bem e para o mal.

Mas enclave para tua proposta está intrínseco na sua fala, quando opões um "falso" e um "verdadeiro" cristianismo.

O primeiro é o real (o falso e corrompido), é o que historicamente existe, enquanto o outro, o supostamente verdadeiro, não se mostra, justamente porque nunca haverá um consenso razoável sobre sua veracidade ou falsidade, ainda que estruturado em bases míticas (dogmáticas), daí o problema temporal de poder que assola as religiões e as ideologias políticas.

Este "devir" da verdade cristã é só crença (sua e de outros), a qual eu respeito, mas me dou o direito de execrar quando colocada em debate.

Veja que eu não entro na casa de ninguém ou abordo alguém na rua para dizer-lhe no quê acreditar. Não há concessões de rádio ou TV ou templos ou símbolos da minha não-fé.

Mesmo assim a racionalidade contida nela incomoda, eu sei...

Fico a imaginar o que lhe dá o direito de questionar a minha "não-fé" e esperar que eu não pretenda desconstruir seus argumentos?

Este é o principal problema dos cristianismos: Reivindicar-se portador de uma "verdade".

Sinto te dizer meu filho, a verdade está sempre em construção!

Duvidar de tudo, até da própria dúvida...se deus existisse, este seria seu maior legado à sua criação...

Anônimo disse...

Meu camarada, sou petista e de tempos idos mas vejo hoje um petismo cheio de dogmas. E muitos deles voltados para uma desconstrução que, creio, você não queira para sua família, suas filhas, pelo menos. Fico a imaginar um mundo petista e antevejo um caos. O próprio PT está dividido entre os do mal e os do bem. Sei lá o que quer dizer isto. Não estou aqui a dizer que o Cristianismo seja a tábua da salvação, mas me parece que qualquer ciisa que aparente "valores"cristãos querem ser execrados por você, devido a sua pertinente ogerisa. Não podemos, camarada, nos esquecer que a presidenta fez uma cartinha aos cristãos num momento de sufoco, lembra? E nos 40 minutos do segundo tempo.
Por que fez isso? porque sabia que o brasileiro na hora h torce mesmo é para o lado menos, digamos, cruel. Digo cruel por perceber que quando a esquerda entra para defender seus posicionamentos vem com tudo e você sabe disso.
camarada, o mundo tá caminhando para um caos total. E os que lêem e escrevem dão o "seu tom".

Você é um bom analista do seu entorno, mas vc também vai forte na tinta em questões que, sabemos, estão hoje diante da análises de muitos devido ao meio de comunicação global rsrs .

Quando a duvidar, vejo que nós, esquerdas não duvidamos muito não. Temos tanta certeza que até corremos o risco de "aprovar "males feitos" desaprovados pela própria presidenta.

Verdade em construção até chegar aonde?

abçs

admirador

Anônimo disse...

Desde que uma comunidade mais estreita e mais ampla entre povos do mundo tenha se desenvolvido a ponto que a violação dos direitos em uma localidade do mundo seja sentido nas demais, a ideia de que exista uma lei mundial de cidadania não seria mero devaneio ou noção 



E por que não duvidar da não existência de Deus?


Cara, não me leve a mal, e me suporte mais um pouco. Quem sabe adentrarmos o caminho da dúvida rsrs

Fica um pouco difícil adentrarmos esse caminho com você porque você já tem prontas as suas certezas.rsrs

mas, cara, peço licença para te dizer que apesar de não ter religião nenhuma, creio sim em Deus. Creio não porque não tenha outra coisa para crer, ou precise de uma muleta.Creio porque diante de muitas dúvidas fiz algumas leituras no âmbito da ciência e vi muita coerência e humildade nos que, sem preconceito, mostra muita hipótese verificável ao nosso cérebro pensante e não aos eternos bilhões de anos inverificáveis.

Fui também às Escrituras e vi muita coisa de nos deixar meio boquiaberto. Gostaria de poder trocar essas coisas com vc. Quem sabe numa mesa por aí sem essa de não duvidar, sem esse de certezas, sem essa de vir logo denegrindo isso ou aquilo.

Cara, sem essa de pensar que estou querendo desconstruir suas verdades. Não é isso. É que estou começando a construir as minhas.

vamos nessa?

admirador

Anônimo disse...

Claro, caro amigo, que entramos sim em todas as casas para dizer no que acreditar.Se somos de um mesmo partido que - queiramos ou não - tem sim os seus dogmas,ideologias e crenças e muito mais, quase que uma imposição até com cartinhas cristãs para cristãos como fez nossa presidenta nos 45 minutos do segundo tempo. Lembra? Tudo bem que nem cumpre. Mas isso não deveria fazer parte ok?

Anônimo disse...

da mata,

você não acha que se todos se enveredarem para um esquerdismo tosco e cruel, valendo tudo, sem um referencial de família tradicional, nossos netos amanhã estarão vivendo um caos?
Ou o que vale mesmo é termos uma "teoria" para discutir conquanto não coadunamos com a direita. Que direita tem nosso Brasil se essa mesma direita está totalmente de mãos dadas com o governo?
Com a Internet as víceras de todos estão a mostra. E convenhamos fazer do Brasil uma venezuela é pra lá de bagdá, amigo!
Essa AP 247 foi o retrato de um Brasil com o PT divido. Dilma mesmo deixa claro que não quer mal feito. Vocě viu algum bem feito nessa AP?

SINCERAMENTE eu pensei que eles não fossem provar nada. Eles, o judiciário escolhido a dedo pelos presidentes petistas.

Fica difícil, né?

E essa coisa agora de desaprovarem empresários participarem de doações? Diante dos "debaixo dos panos" do PT, será que não continuarão fazendo a coisa acontecer em nome de tirar de tirar do rico para fingir que dá pro pobre?

Convenhamos o BRASIL poderia estar bem melhor.
D
sou da ala dos "bem feito" do PT da nossa presidenta.

Ou entendi tudo errado e nem sou petista?

Fala aí, Douglas.

Conheço muito petista confuso querendo se enveredar para Campos por causa da Marina ali no meio.

Cara, no fundo no fundo, todos querem preservar sua família. Fala a verdade? O que posso dizer para os petistas do mal e do bem? Ajuda aí.

douglas da mata disse...

Meu filho, o principal na vida não são as respostas, mas sim as perguntas certas.

Isto não é um chavão para afastar a responsabilidade de ter que te responder (pois seria mais fácil ignorá-lo).

Mas valorizar mais a pergunta que a resposta é um princípio no qual acredito, e neste sentido, suas perguntas não me afetam, pois partem de uma construção (ideológica) que é sua, vejamos:

01- Você crê em deus! Eu não creio.

02- Você crê que a fé pode orientar e mediar questões políticas. Eu não.

03- Você crê em bem e mal. Eu não.

Enfim, você traz uma contradição gravíssima, que eu só entendo porque imagino que você esteja querendo propor um debate sem que eu o repila completamente, dizendo-se "petista", mas escreveu:

"(...)Fico a imaginar um mundo petista e antevejo um caos. (...)".


Eu nunca, mesmo sendo petista, imaginaria um mundo petista!

Esta é nossa diferença crucial. Você acredita em fenômenos que sejam absolutos: mundo petista, mundo cristão, deus, bem, mal.

Não percebe as nuanças e heterogeneidade das coisas.

Eu não sou petista só pelo que ele apresenta de bom, ou do "bem feito" da Dilma. Sou petista como um todo, com erros e acertos, porque assim somos todos nós.

Descontextualizar a fala dela (da presidenta) para dar um dimensão maniqueísta aos fatos é um empobrecimento que interdita nossa discussão.

Muito menos utilizar as táticas eleitorais da presidenta (a cartinha cristã) como premissa para dar mais relevância ao fato do que ele tem.

A candidata-presidenta se comunica com todos, e também especificamente com os grupos de reivindicam uma linguagem específica (cristãos, gays, movimento negro, partidos, etc), ou seja, não tem sentido pedir teu voto escrevendo-lhe uma carta que ataque o que você acredita, mas isto não quer dizer que você vai transformar o governo em um apostolado cristão ou no governo de um partido só!

Até porque nosso Estado é (ou deveria ser) laico.

Outro ponto crucial para impedir que "te ajude" é a sua arrogância de imaginar que seu modo de enxergar as coisas (e a vida) sejam mais úteis na proteção de seus interesses, e pior, dos meus, como a família!

Ora, quem sabe como proteger os meus sou eu, não você e sua fé.

Em outros tempos teria te mandado a merda.

Mas hoje estou com paciência.

Ficamos por aqui.

"Duvidar de tudo, até da própria dúvida".

Anônimo disse...

e ahí, camarada? Pr Eber Silva no PR de Campos.
Agora pegou. PT aqui de nanico virou nadica.
falemos sério.