segunda-feira, 26 de maio de 2014

Transporte público e concessão: Uma equação de soma - 1.

Dias destes recebi o amigo e professor Roberto Moraes para um café aqui em casa. Foram algumas horas de aprendizado.

Dentre tantos temas na pauta, abordamos a questão do transporte público, as demandas crescentes da população, cada vez mais empurrada para as periferias pela especulação imobiliária, e pela incapacidade dos governos municipais em desatarem o nó da mobilidade.

É um tema vasto, de múltiplas causas e efeitos, que este blog nunca poderia esgotar aqui.

Mas o fato é que temos um evento concreto: A tentativa do governo local em disciplinar este setor que se move de forma precária, jurídica e operacionalmente, pois temos um serviço quase clandestino e de péssima qualidade.

Vamos tentar resumir as ideias do blog sobre o tema, replicando a postagem do Roberto Moraes em seu blog sobre o tema, que você pode ler aqui.

Primeiro é bom entender que o sistema de transporte público não é uma demanda só do usuário, e por consequência uma obrigação do poder público. Esta noção nos foi empulhada por anos e anos a fio.

O ônus de transportar trabalhadores, consumidores e outros atores das diversas atividades econômicas que se espalham pela cidade, também é (principalmente) de quem lucra com o trabalho,  com o comércio e outros serviços, ou seja, o capital.

Este importante vetor da equação quase nunca é considerado a título de subvenção do transporte, a não ser em esporádicas intervenções como vale-transporte, e outras do tipo, mas que se diluem em manobras tributárias e nos subsídios estatais para as passagens, como acontece em Campos dos Goytacazes e outras cidades da região, que adotam este sistema de financiamento público das tarifas.

Logo, para resumir a questão, os orçamentos públicos não podem continuar a bancar, junto com o usuário, o preço das tarifas cobradas para trazer a mão-de-obra das periferias e bairros mais afastados, como resultado da processo de especulação imobiliária que expulsa os mais pobres das regiões mais próximas.

Os empresários e empregadores devem arcar com parcela significativa destes custos.

É uma conta meio maluca: A municipalidade fica imóvel frente o aumento dos aluguéis e preços dos imóveis, que passam a ser ocupados pelos mais ricos, e depois tem que arcar com os custos para locomover as pessoas, seja nos modais públicos, seja com as ruas entupidas de carros.

Em nome do lucro astronômico de alguns (imobiliárias, empresários), a inércia tributária  da municipalidade gera as disparidades na locomoção das pessoas, onde os mais pobres precisam se mover mais, e têm menos recursos para isto, e depois, esta mesma municipalidade é chamada para bancar este custo social.

Como resposta a esta questão crucial, a municipalidade promove a transferência da operação do serviço a terceiros (concessionários privados). 

Lógico que nunca haverá como equilibrar a necessidade (legítima) de lucro dos donos de empresas e a prestação do serviço de transporte, salvo quando os orçamentos públicos suprem esta contradição.

O sistema campista, por exemplo, nos mostra que o apetite das empresas e os cofres públicos parecem andar em direções opostas.

Londres privatizou seu sistema de trens, como resultado da Era Tatcher, e recentemente, começou a re-estatizar algumas linhas, diante dos problemas gerados pela incapacidade dos operadores. Londres, a cidade-mãe do neoliberalismo.

Assim, não parece despropositada a ideia de que o setor público opere diretamente os sistemas de transporte, até porque, a efeito, uma olhada nas contas das empresas concessionárias poderemos ver uma série de recursos públicos utilizados, a fundo perdido, como estimuladores, como é o caso do BNDES e outros agentes estatais.

Por que precisamos de intermediários? A quem interessa dedicar este serviço ao lucro privado, já que ele nos mostra ser incapaz de construir um sistema eficiente?

Agora vamos à licitação em si.

Não li os editais, mas há muito tempo venho propondo mudanças na medição do serviço, onde os dispositivos telemáticos que estão disponíveis na atualidade podem funcionar muito bem para a cobrança correta da tarifa, auferindo com quase exatidão os custos e o preço final.

Um sistema de cobrança por quilometragem percorrida é o mais inteligente, sendo que o GPS, mitigado com outras ferramentas, possibilita a contagem exata de deslocamento, fiscalização de horários e rotas.

Um problema grave também é a viabilidade econômica dos contratos, uma vez que esta condição não pode ser levada em conta quando se trata do direito de ir e vir.

Uma pessoa que necessita de se deslocar a uma localidade afastada não pode estar submetida a horários inflexíveis das linhas, estipuladas dentro de uma lógica econômica específica.

São muitas variáveis, como dissemos, mas que sempre terminam com a soma (-1).

Nem vou mencionar as "oportunidades" de relacionamentos entre concessionários e o poder político dentro da lógica de captura das campanhas pelo financiamento privado, que tendem a desequilibrar a consideração dos interesses dos contribuintes/eleitores e dos financiadores.

Enfim, nos parece que a licitação vai fazer o mesmo caminho de sempre: Dar aparência legal a uma situação desfavorável ao cidadão. 

domingo, 18 de maio de 2014

Cada coisa tem a sua hora e tem a hora de todas as coisas.

O ótimo texto do Slavoj Zizek que trago para nossa reflexão, reproduzido do blog do Nassif, mas publicado originalmente no blo Outras Palavras:

De Outras Palavras
Estados Unidos já não são capazes de impor sua ordem. Mas como evitar que seu declínio resulte num mundo caótico?
Por Slavoj Zizek
Tradução: Marília Arantes
Conhecer uma sociedade não significa apenas conhecer as suas regras explícitas. É preciso saber como aplicá-las: quando utilizá-las, quando violá-las, quando negar uma chance que nos é oferecida, e quando somos obrigados necessariamente a fazer algo enquanto pretendemos fazê-lo por livre e espontânea opção. Considere o paradoxo, no caso, das propostas feitas para que sejam recusadas. Quando sou convidado para jantar em um restaurante por um tio rico, ambos sabemos que é ele quem vai pagar a conta, embora eu deva insistir de leve que podemos dividir – imagine a minha surpresa caso meu tio de repente diga: “está bem, então, pague a conta você!”
Aconteceu um problema similar durante os caóticos anos pós-soviéticos sob governo Yeltsin na Rússia. Embora as regras legais fossem conhecidas e, em boa parte, idênticas às da União Soviética, uma complexa rede de regras implícitas, não-escritas – as que sustentavam todo o edifício social –, se desintegraram. Na União Soviética, se você precisasse de um tratamento hospitalar melhor, assim como um apartamento melhor, se tivesse alguma reclamação contra as autoridades, estivesse sendo processado ou quisesse seus filhos admitidos em uma escola de ponta, era preciso saber das regras implícitas.
Você precisava compreender a quem deveria se dirigir ou persuadir, e o quê deveria ou não fazer. Após o colapso do poder soviético, um dos maiores aspectos a mudar no cotidiano das pessoas comuns foi que estas regras não-ditas tornaram-se seriamente obscuras. As pessoas simplesmente não sabiam como reagir, como se referir às regulamentações oficiais explícitas, o que deveria ser ignorado e até onde a persuasão funcionaria. (Uma das funções do crime organizado era prover um tipo de Ersatz – um substituto -, da legalidade. Se você fosse o dono de um pequeno negócio e um cliente lhe devesse dinheiro, você deveria procurar respaldo de um mafioso, que cuidaria do problema, já que o sistema legal do Estado era ineficiente.) A estabilização da sociedade sob o reinado de Putin só se deu, em grande parte, por causa da transparência no estabelecimento recente de regras não-escritas. Agora, novamente, a maioria das pessoas pode compreender a complexa teia de interações sociais.
Na política internacional, ainda não atingimos este estágio. Voltando aos anos 90, um pacto silencioso regulamentava as relações entre a Rússia e as grandes potências Ocidentais. Os Estados do Ocidente tratavam a Rússia como um grande poder, sob a condição de que ela não agisse enquanto tal. Mas o que acontece quando a pessoa a quem se fez uma proposta-feita-para-se-recusar, resolve aceitá-la? E se a Rússia começa a agir enquanto grande potência? Uma situação como esta é de fato catastrófica, por ameaçar toda a teia de relações existentes – assim como aconteceu há cinco anos, na Geórgia. Cansada de ser apenas tratada como superpotência, a Rússia passou a atuar enquanto uma.
Como isso aconteceu? O “Século Americano” acabou e nós entramos em um período em que passaram a se formar múltiplos centros no capitalismo global. Nos Estados Unidos, Europa, China e talvez América Latina, também, os sistemas capitalistas se desenvolveram com características específicas; os EUA defendem o capitalismo neoliberal, a Europa, o que restou do Estado de bem-estar social, a China, um capitalismo autoritário e a América Latina, o capitalismo populista. Desde que a tentativa dos Estados Unidos de se imporem enquanto superpotência hegemônica – polícia do mundo – faliu, existe a necessidade de se estabelecer novas regras para interação entre estes centros locais, conforme o que diz respeito a seus interesses divergentes.
É por isto que os nossos tempos são potencialmente mais perigosos do que parecem. Durante a Guerra Fria, as regras para o comportamento internacional eram claras, e garantidas pela loucura – da destruição mútua assegurada– pelas superpotências. Quando a União Soviética violou as tais regras não-escritas ao invadir o Afeganistão, ela pagou seriamente pela infração. A Guerra no Afeganistão foi o começo de seu próprio fim. Atualmente, velhas e novas superpotências estão se testando umas às outras, tentando impor suas próprias versões das regras globais, experimentando abordagens aos mais próximos – que, é claro, são outras, nações e estados menores.
Karl Popper certa vez defendeu o exame científico de hipóteses, afirmando que assim permitimos que nossas hipóteses morram, em vez de morrermos nós mesmos. Mas, nos testes realizados hoje em dia, as pequenas nações ganham mais mortos e feridos do que as grandes – primeiro foi a Geórgia, agora a Ucrânia. Embora os argumentos oficiais sejam altamente moralistas, defendam os direitos humanos e a liberdade, a natureza do jogo é clara. Os acontecimentos na Ucrânia parecem algo como a “Crise da Geórgia – Parte II” – o próximo estágio da luta por controle em um mundo não-regulamentado, multipolarizado.
Sem dúvida, é hora de ensinarmos a estas superpotências, velhas e os novas, algumas boas-maneiras [regras de conduta], mas quem fará isto? Obviamente, apenas uma entidade transnacional poderia mediar isto – há mais de 200 anos, Immanuel Kant enxergou a necessidade de uma ordem legal internacional que fosse capaz de permear o apogeu das sociedades globalizadas. Em seu projeto pela paz perpétua, escreveu: “Desde que uma comunidade mais estreita e mais ampla entre povos do mundo tenha se desenvolvido a ponto que a violação dos direitos em uma localidade do mundo seja sentido nas demais, a ideia de que exista uma lei mundial de cidadania não seria mero devaneio ou noção exagerada.”
Isto, no entanto, nos leva ao que é discutivelmente a “principal contradição” da nova ordem mundial (se ainda pudermos utilizar o velho termo maoísta): a impossibilidade de criarmos uma ordem política mundial que seja capaz de corresponder com a economia capitalista globalizada.
Mas e se, por razões estruturais, e não somente devido a limitações empíricas, não seja possível existir uma democracia amplamente difundida ou um governo representativo mundial? E se a economia do mercado global não puder ser organizada diretamente como uma democracia liberal, global com eleições em nível mundial?
Na era de globalização, estamos pagando o preço desta “principal contradição”. Na política, antigas fixações, em particular, questões substancialmente étnicas, religiosas e de identidade cultural voltaram como vingança. Nosso dilema é definido por sua tensão: à livre circulação global de commodities seguem crescentes separações na esfera social. Desde a queda do muro de Berlim e o apogeu do mercado global, novos muros começaram a emergir por todas as partes, segregando pessoas e suas culturas. Talvez a sobrevivência crucial da humanidade dependa da resolução desta tensão.

sábado, 17 de maio de 2014

Saúde, Educação e Mobilidade = 55 Copas





Um pouco de informação não faz mal. Ao contrário, neste universo de manipulações, cretinices e toda sorte de truques semióticos é bom se informar antes de repetir as asneiras propagadas pela mídia empresarial e partidária.



O blog muda mais fez este interessante vídeo sobre gastos da Copa e investimentos públicos no Brasil.



Assista e tire você mesmo suas conclusões, antes que alguém lhe diga como fazê-lo.

sábado, 10 de maio de 2014

A globo e seus truques.

Mais uma certeira do Wilson Ferreira:

O logo da novela e a bomba semiótica da pararrealidade


O logo da telenovela “Geração Brasil” da TV Globo traria no seu design uma subliminar sugestão dos números dos candidatos de oposição ao Governo? Delirante teoria conspiratória? Prepotência dos jornalistas? Designers e profissionais criativos veem exagero em tal acusação, já que toda marca produziria espontaneamente associações visuais, já que para a Semiótica todo signo produziria uma imagem mental. Posições ideológicas à esquerda, calejadas pela desconfiança em relação à grande mídia, falam em manipulação subliminar. Mas parece que todas as posições acabam se tornando vítimas da espiral das interpretações, a doença infantil da Semiótica. A cura? Desconstruir o logo da telenovela através de técnicas as mais objetivas possíveis como a de recorrência sincrônicas e diacrônicas, comutação e Gestalt. E no final descobrirmos que, na verdade, o suposto poder subliminar do logo não provém dele mesmo. Sua força é alimentada por uma pararrealidade criada pela TV ao fundir diariamente ficção com não-ficção.

Surge a polêmica entre jornalistas, simpatizantes da esquerda e profissionais de design e criação de que logomarca da novela das 19h Geração Brasil (ou “G3R4Ç4O BR4S1L”) conteria “coincidentemente” em sua linguagem “internetês” (ouLeet, para ser mais preciso) os números dos candidatos de oposição: o “40” (PSB de Eduardo Campos – PE) e “45” (PSDB de Aécio Neves – MG).

O problema de toda análise semiótica ou gestalt é que, se tomarmos o objeto de forma isolada, todas as análises podem se cancelarem como meras interpretações subjetivas: se todo signo cria uma imagem mental no interpretante, logo o que estamos vendo poderia ser apenas o signo de outro signo da realidade – e o que é “realidade” para a Semiótica é uma questão metafísica, já que seu interesse é puramente pragmático: entender as significações obtidas de acordo com a posição relativa do interpretante.


O velho e bom Roland Barthes
pode nos ajudar
Para superar esse problema do relativismo das interpretações, nada como sair um pouco da escola norte-americana de Charles Pierce e entrarmos na velha e boa escola linguística da semiologia francesa de Roland Barthes. Para ele, os significados e as intencionalidades de quem está significando (os “emissores”) devem ser confrontados com duas técnicas: a da “recorrência” e o chamado “teste de comutação”.
Recorrência busca repetições, padrões, que por serem recorrentes vão além da mera coincidência, tornando-se um fato linguístico de significação, um sentido.
Procuremos o fenômeno da recorrência envolvendo esse logo em dois eixos: diacrônico e sincrônico.

a) sincrônico


          Há pelo menos um mês, desde que saiu o logo definitivo da telenovela, em muitos sites especializados (que não podem ser propriamente chamados de “blogs sujos” ou “de esquerda”), leitores postavam comentários sobre a “coincidência” e a polêmica que isso iria produzir no futuro, como essa do Portal O Planeta TV de 03/04/2014:
Karla comentou:


Os petistas de plantão vão dizer que tem mensagem subliminar em prol do Aécio Neves e do PSDB no logo, hehehe.

Di Almeida respondeu:
 
Pior que dá pra ver um "45" no meio da palavra Brasil. Hahaha
 

Ou ainda em um blog hospedado pelo UOL:
Zigzang: Até agora gostei muito. Achei apenas que a Globo forçou a barra com aquele 45 no nome da novela na abertura. Não precisava escancarar assim a sua preferência política nesse ano eleitoral. 
Temos, portanto, um aspecto sincrônico a favor das suspeitas sobre esse logo: em diversos sites especializados em TV com viés politicamente neutro (cujos leitores não podem exatamente ser considerados como um público politizado ou disposto a expor seus posicionamentos em polêmicas políticas) vemos muitos comentários espontâneos que atestam a presença dos misteriosos números, politicamente significativos no cenário eleitoral atual.

b) diacrônico


"Que Rei Sou Eu": Celulari premeditou Collor de Mello?
Desde o fim dos governos militares e a volta das eleições presidenciais, não há como deixar despercebido as várias intervenções das atrações ficcionais e em produtos estéticos (vinhetas, animações etc.) no cenário político do momento.

No cenário da primeira eleição presidencial após o regime militar em 1989 as novelas O Salvador da Pátria e Que Rei Sou Eu foram nítidos produtos ficcionais cujos temas no mínimo pretendiam pegar uma carona na atmosfera política do momento. No primeiro caso, embora a novela de Lauro César Muniz quase tenha saído do controle da emissora (a própria direção da TV Globo passou a executar cortes devido ao enfoque politicamente de esquerda para onde a narrativa caminhava), seu título acabou virando um bordão político que alimentou um imaginário sebastianista ou messiânico em torno da figura de Collor de Mello (do caçador de marajá à “única bala que tenho na agulha” para justificar o sequestro da liquidez do Plano Color).

Já a novela Que Rei Sou Eu foi mais “ao gosto” da emissora: o jovem revolucionário lutando contra uma monarquia corrupta (Edson Celulari) foi a preparação imaginária da chegada de um jovem político desconhecido (aos poucos turbinado em aparições rápidas como em programas como o do Chacrinha) chamado Collor de Melo. O bordão “povo de Avilã” passou a ser usado por ele em palanques.

Ainda poderíamos citar a inacreditável mensagem subliminar em um “selo” (composição de elemento gráfico que identifica editorias em telejornais) do Jornal da Globo onde, em pleno “Caos Aéreo” após o acidente da TAM em Congonhas em 2007, aparecia a sigla PT em uma animação que simulava um letreiro de informações de voos em aeroportos (veja figura ao lado).

Ou ainda o sincronismo da vinheta de comemoração dos 45 anos da TV Globo não só com o número do PSDB como também a letra da música com os bordões usados pelo candidato Serra nos palanques.

O espaço aqui não permitiria uma extensa lista de intervenções explícitas e sincronismos mas o plano diacrônico deixa bem claro que a recorrência desses fenômenos é significativa, principalmente porque parece ser seletiva: durante os anos 1990, quando as políticas neoliberais de privatizações no atacado era hegemônicas, a TV Globo no máximo utilizava estratégias diversionistas como, por exemplo, o longo tempo dado para o nascimento da filha da Xuxa no Jornal Nacional em detrimento ao polêmico leilão de privatização da Telebrás em 1998, colocada em segundo plano naquele dia.

c) Teste de Comutação


Um teste simples sugerido por Roland Barthes para o analista encontrar as menores unidades de significação em um texto ou imagem: descobrir a existência de outros signos correlatos dentro do paradigma (no reservatório de signos disponíveis em uma determinada letra, palavra, frase etc.) e substituí-los, até encontrar a mudança de significado.

No caso do logo da telenovela global não é necessário muito esforço: na tabela do alfabeto Leet podemos encontrar os seguintes signos para designar a letra “A”: 4, /\, @, /-\, ^, ä, a . Por que não grafar o logo pelo alfabeto Leet dessa maneira: G3R@Ç@O BR@S1L? Ou em termos de um design mais elegante sem tantos movimentos em espiral: G3R/\Ç/\O BR/\S1L?

O teste de comutação demonstra que houve uma escolha arbitrária dentro de um repertório de signos possíveis. Essa escolha arbitrária poderia ter sido casual ou motivada por alguma intencionalidade? Uma simples opção estética do designer ou alguma intencionalidade que perpassou por toda a cadeia criativa? Essa intencionalidade poderia ser percebida na evolução do logo: no início ele propunha um conceito totalmente diferente, com a letra “A” em destaque numa analogia ao símbolo do Anarquismo, já que o plot da novela lida com jovens e novas tecnologias.

Gestalt e o centro visual do logo


Mas com uma análise através da Gestalt (chamada psicologia da forma ou o estudo das maneiras como a mente configura formas através da percepção e visão pelo jogo figura/fundo) podemos nos certificar que o /4S1/ ocupa praticamente uma posição central na composição do logo.

Esse centro ótico aplicaria a lei gestalt de continuidade ou unificação: é a impressão visual de como as partes se sucedem através da organização perceptiva da forma de modo coerente, sem interrupções na sua trajetória. Pode-se considerar uma tendência dos elementos visuais acompanharem uns aos outros de maneira coerente.

Em uma sequência numérica (/4/ e /1/) entra a letra /S/. Nessa regra básica de Gestalt nossa mente “corrigirá” a lacuna ou a interrupção motivada pelo surgimento de uma letra e a transformará em um número análogo, no caso o /5/. Dessa maneira, é evidente o número /45/ em destaque, no centro visual do logo.

Pararrealidade



Mas toda a suposta força de sugestão político-eleitoral dessa estratégia semiótico-subliminar deve ser contextualizada no momento em que a linguagem televisiva opera um mix radical entre ficção e realidade (a pararrealidade), que acabam se tornando intercambiáveis (a ficção pode influenciar a realidade e a realidade oferece temas para a ficção) de duas maneiras:

a) No horário nobre praticamente os gêneros ficção e não-ficção se atropelam: novela sucede telejornal e vice-e-versa praticamente sem intervalos, muitas vezes confundindo o registro do telespectador ao ver temas do telejornalismo sendo repercutidos em telenovelas e os telejornais pautando temas que foram repercutidos por personagens ficcionais novelescos;

b) E ainda podemos acrescentar a esta questão o aspecto da mudança da qualidade da imagem da TV e adoção de um padrão homogêneo de imagem. Em tempos da TV em preto e branco era evidente a passagem da ficção para a não-ficção: nos telejornais as imagens dos fatos eram granuladas em virtude da limitação técnica em que imagens externas somente podiam ser captadas em película para, mais tarde, serem telecinadas no estúdio. Com o advento da TV em cores e das possibilidades técnicas de efetuar links ao vivo a qualidade das imagens se padroniza. Do set de gravação das telenovelas ao estúdio de onde são transmitidos os telejornais e as imagens ao vivo, a iluminação, tonalidade das cores, enfim, o padrão de telegenia passa a ser idêntico. Há exceções, é claro, como no caso das imagens cruas e sem tratamento capturadas por vídeos amadores que são aproveitadas em telejornais. Mas, no geral a TV esforça-se em homogeneizar o padrão de qualidade da telegenia de tal forma que, muitas vezes, em um primeiro olhar, confunde-se fácil o registro de um enquadramento: isso é real ou ficção?

Temos aqui, portanto, os princípios de uma pararrealidade televisiva onde o telespectador vive uma transitividade cada vez mais acelerada entre ficção e realidade. Essa transitividade permite cada vez mais essas contaminações semióticas que dariam força de propagação a estratégias como essa do logo de um produto ficcional.

Porém, a Globo não é mais a mesma. Suas audiências despencam e, mesmo assim, pretende manter-se abraçada a seu modus operandi, um cacoete que não perde mesmo quando os cenários estão mudando rapidamente. Talvez isso seja o sintoma do seu tautismo, doença terminal de todos os sistemas que de tão complexos e pesados começam a implodir.

sábado, 3 de maio de 2014

A globo como um cachorro correndo atrás do próprio rabo...

Rompendo o recesso para sugerir esta leitura. Mais um texto do Wilson Ferreira, piloto do blog cinegnose.blogspot.com, que destrincha com habilidade incomum os cacoetes da mídia empresarial.

Difícil não remeter seu texto a planície, onde nossa seção do PIG segue a cartilha da autorreferência permanente como forma de esconder seu desespero e iniquidade. 

Eis o texto:

Globo reage à crise de audiência e credibilidade com desespero metalinguístico


Sai a estética futurista de Hans Donner, entra os passos do funk e um visual menos high tech onde até a icônica zebrinha dos anos 1970 que dava os resultados do futebol parece renascer com nova roupagem. E tudo isso com muita auto-referência e metalinguagem. Essa é a repaginada do programa dominical “Fantástico” e dos telejornais da emissora que parecem sentir o golpe da perda de audiência e credibilidade. Uma simulação de reunião de pauta com telespectadores dando palpites sobre temas pré-estabelecidos no “Fantástico” é o desespero metalinguístico de criar uma percepção de transparência e credibilidade de um jornalismo que tenta se equilibrar entre o papel de oposição política assumido pela emissora e a necessidade de aparentar objetividade noticiosa. A transformação da estética Hans Donner na identidade visual da emissora parece apontar para o sintoma da sua perda de relevância e o fim de uma utopia modernista que a TV Globo representou durante da ditadura militar e não consegue mais sustentar diante do novo cenário. E a resposta da emissora é autofágica.

Os tempos estão mudando e a TV Globo já não é mais a mesma. As audiências vêm despencando há muito tempo numa irresistível curva descendente para uma emissora que já chegou a 100% de audiência com a novela Selva de Pedra em 1972 e o Jornal Nacional dando 80% nos anos 1980. Bem diferentes são os tempos atuais: o Jornal Nacional desce aos 17%, a estreia do Novo Fantástico no último domingo registrou média de 16,5%, Silvio Santos supera os números de audiência do reality show musical SuperStar e assim por diante.

Paradoxalmente, o faturamento da emissora é mantido em patamares elevados. Para os analistas, graças ao impacto no mercado publicitário do famoso “incentivo”chamado BV (Bonificação por Volume) – comissões repassadas da TV Globo para as agências de publicidade que variam de acordo com o volume de propaganda negociado entre elas. Seria o principal mecanismo que perpetuaria o monopólio midiático da emissora.


Mas deter poder financeiro, monopólio midiático e influência política principalmente quando se transformou no principal partido de oposição ao atual governo pode não ser o suficiente a médio prazo: sabe que os telespectadores estão cada vez mais não só virando as costas para ela como também cresce na opinião pública a percepção de que a Globo é uma emissora cujos conteúdos estão perdendo a credibilidade, devendo ser colocados em constante suspeita.

Fim da estética Hans Donner?


A estreia do chamado “Novo Fantástico”, assim como a repaginada visual e tecnológica que todos os telejornais da emissora estão sofrendo, apontam para esse temor de uma emissora que vê mudar rapidamente o cenário tecnológico (Internet e redes sociais), cultural (a chamada nova classe média e os novos hábitos do consumo representados, por exemplo, pelo “funk ostentação”) e político (a incapacidade da oposição criar um projeto político, deixando para a TV Globo o papel de oposição ao Governo Federal na base da linha editorial “esse País é uma merda!”).

É sintomático nessa repaginada o visível abandono da estética space opera do artista digital austríaco Hans Donner que por décadas conferiu a identidade visual da Globo valendo-lhe o apelido de “Vênus platinada”.

Uma forçada "reunião de pauta" para simular
transparência e credibilidade jornalística
O que vimos nesse último domingo é o Fantástico tentando ser menos high tech e adotando um visual, por assim dizer, mais “orgânico” e menos metálico e artificial: assoalho do cenário que simula ser em tábuas de madeira, cenário instalado no meio de uma redação jornalística com pequenas plateias onde se mesclam celebridades globais com anônimos ao lado de telões, computadores e equipamentos discretamente posicionados para simular uma integração dos temas e matérias à comunidade por meio de redes sociais. Isso sem falar na conversa do apresentador Tadeu Schmidt sobre a rodada de futebol com dois bonecos de pano, revivendo uma estética pré-Hans Donner da icônica zebrinha que dava os resultados da rodada dos campeonatos.

Mas o principal sintoma de como a TV Globo acusa o mal estar diante da sua crise de credibilidade: o Fantástico simula uma reunião de pauta como fio condutor do programa. Novamente anônimos mesclados com celebridades globais dando palpites sobre temas pré-estabelecidos. Para quem não conhece o jargão jornalístico, as chamadas reuniões de pauta são reuniões onde editores e sub-editores se encontram para estabelecer a pauta de temas da edição do dia que orientará os repórteres ao descrever o viés da matéria, quem será entrevistado, onde e como.

No Fantástico tudo muito forçado e simulado já que vemos na verdade os apresentadores executando a função de uma espécie de ouvidor de opiniões e palpites de uma “amostragem” de uma plateia que representaria o público do programa. Uma simulação desesperada de transparência como resposta às críticas recorrentes de manipulação no seu telejornalismo? Malabarismo da emissora para se manter entre a credibilidade jornalística e o papel de oposição ferrenha ao governo federal?

Hans Donner: sai o futurismo
entra o funk
O abandono progressivo da estética futurista de Hans Donner (saem as mulheres metálicas e os sólidos geométricos voando em círculos no vazio, entra uma cara mais “nova classe média C” com os passos do funk) e a metalinguagem generalizada de um programa que quer simular a si mesmo produzindo matérias para criar a estética da transparência talvez sejam os sinais do início do seu fim. Não a falência e o desaparecimento da emissora, mas o fim de uma época onde a estética Hans Donner imponha ao País um ideal de modernidade desejável.  Hoje a TV Globo sente o golpe dessa crise da relevância de uma utopia que ela mesma criou e tenta reverter a situação mergulhando em progressivas metalinguagens e auto-referências.

Mas isso pode resultar em algo patológico: o “tautismo” (tautologia + autismo): a doença de todos os sistemas que em crise de dissipação de energia começam a devorar a si mesmos na esperança de estender um pouco mais a própria existência.

A utopia modernista da TV Globo


Hans Donner entrou na TV Globo em 1975, pelas mãos do fotógrafo David Drew-Zingg que o apresentou a Walter Clark, então o diretor-geral da emissora. O design futurista de Donner caiu como uma luva não só para a emissora, mas também para as necessidades ideológicas do regime militar. Graças à rígida formação intelectual dentro do Positivismo de Augusto Comte, os militares viam o desenvolvimento do País somente possível por meio de uma elite de técnicos aos quais seriam submetidos tanto os políticos como o povo. Esse novo visual idealizado por Hans Donner transmitido diariamente em rede nacional criaria a roupagem estético-ideológica necessária para esse projeto paradoxal que unia modernidade e ditadura.

Design e utopia: a modernização do
mito da mulher e natureza brasileiras
Para a TV Globo era a chance da modernização da imagem do País que facilitasse a inserção dos produtos da emissora no mercado internacional. Se o principal produto oferecido para o mercado externo ainda eram mulheres e natureza, deveriam superar os velhos clichês como Carmen Miranda, baianas e carnaval. Tudo isso deveria ser “modernizado” em atmosferas futuristas e new wave em vinhetas e aberturas com pirâmides, esferas e cones movimentados digitalmente.
Além disso, criava a ideia de um “Brasil Grande” dentro do período do chamado “milagre econômico” da ditadura militar para uma nova classe média identificada com a modernidade transmitida pelos “enlatados” da TV Globo - pacotes com minisséries, filmes e desenhos animados principalmente norte-americanos.

E a última e o não menos importante função que a estética futurista de Hans Donner cumpriu: as bancadas dos telejornais como fossem naves espaciais translúcidas e as aberturas e vinhetas em computação gráfica conferiram ao jornalismo da emissora uma aparência de objetividade emprestada das tecnociências. Enquanto a mídia impressa era vista como partidária e ideológica, a estética space opera de laptops nas bancadas e os logotipos desenhados a partir de sólidos geométricos platônicos conferia uma imparcialidade científica aos noticiários e o trabalho da edição das notícias como fosse realizado em laboratórios assépticos ehigh tech.

A utopia acabou: o tautismo

Tiago Leifert e o ônibus-estúdio: o desespero
metalinguístico da TV Globo

É interessante perceber que paralelo à lenta e constante curva descendente de audiência e credibilidade da TV Globo junto ao grande público, os programas telejornalísticos e de entretenimento tornaram-se progressivamente auto-referenciais (as notícias sempre remetem a personagens, novelas ou programas da própria emissora criando uma constante transitividade entre ficção e realidade) e metalinguísticos (a emissora insiste em mostrar a si mesma transmitindo os acontecimentos – “se eu transmito, então é verdade”).

Do ônibus-estúdio do Globo Esporte (onde o apresentador Tiago Leifert se dividia entre falar dos novos gadgets tecnológicos da emissora e entrevistar jogadores de futebol), passando pelo reality show jornalístico Profissão Repórter à simulação de reunião de pauta do Novo Fantástico testemunhamos um mergulho da TV Globo na metalinguagem e auto-referência como reação à perda de audiência e credibilidade. Disso resulta um movimento tautológico (a emissora fala cada vez mais de si mesma) e um “fechamento operacional” da TV Globo em relação ao mundo exterior, o autismo.

O enfraquecimento da estética Hans Donner e a crise da utopia modernista que a TV Globo queria trazer para o “Brasil Grande” da ditadura militar representa o fim do último laço que a emissora ainda tinha com a realidade e a História. No seu lugar, uma linguagem baseada em simulações de transparência, tautismo e uma estética “orgânica” onde tenta se aproximar de uma certa ideia de “comunidade” onde pequenas amostragens de telespectadores mesclados com celebridades globais dão palpites em supostas discussões de pauta e entrevistas.

A situação atual da TV Globo, portanto, se assemelharia ao caso de uma pessoa que, sob condições extremas de fome ou de alteração do metabolismo basal, começa a entrar em processo catabólico - processo de degradação onde o corpo começa a consumir seu próprio tecido muscular (grifo nosso).